
DE FRENTE
COM A
VERDADE

Mnica de Castro





Quando Luciana se foi, Marcela pensou que seria o fim de sua vida. O desequilbrio a fez adotar medidas extremas. Depois de um suicdio frustrado, encontrou no mdico
que a salvou uma nova razo para viver.
Temendo o preconceito, Marcela esconde do jovem namorado a avassaladora paixo do passado. A partir da, intrinca-se numa rede de omisses e subterfgios para tentar
conter a verdade, vendo em Luciana a arma com que o inimigo tramar sua derrota.
O passado, contudo, no pode ser apagado, e as experincias nele vividas remanescem no repositrio indelvel da alma. Mais cedo ou mais tarde, o universo desvenda
segredos e iluses, porque a verdade  o estado natural de todas as coisas.
Presa ainda aos desenganos do mundo, Marcela no compreende a obra da natureza, que incessantemente trabalha para restabelecer o seu curso. Por mais que tente fugir
ou se esconder, os rumos que a vida percorre chegam sempre ao mesmo ponto, onde ela estar, inevitavelmente, de frente com a verdade.

Meu amor pela literatura existe desde os meus tempos de menina. Sempre gostei de ler e escrever, em verso e prosa, e foi nos poemas de Manuel Bandeira que lapidei
ainda mais a sensibilidade da minha alma. Gostava de escrever poemas, contos, textos diversos, e cheguei a ganhar um concurso de poesia aos treze anos, aqui na cidade
do Rio de Janeiro, onde nasci, em 1962. Ao mesmo tempo, minha mediunidade despertou, e adotei o espiritismo como blsamo do meu corao.
Meu desejo sempre foi o de ser escritora. Mas a vida nos leva por caminhos                                                 diferentes, sempre em nosso benefcio,
e acabei me formando em Direito e passando num
concurso para o Ministrio Pblico do Trabalho. Anos depois, aps o nascimento do meu filho, senti a primeira inspirao. Foi uma coisa estranha. Uma voz ficava
na minha cabea, repetindo esse nome: Rosali, e a idia de fazer um romance brotou na mesma hora. Rejeitei a idia e pensei: "Quem sou eu para escrever um romance?".
Por outro lado, a mesma voz tambm me dizia: "No custa nada tentar. O mximo que pode acontecer  no dar em nada". Aceitei a sugesto do invisvel, acreditando
ser o meu pensamento, e fui sentar-me ao computador. Na mesma hora, a inspirao para Uma Histria de Ontem surgiu espontnea, e fui escrevendo, cada dia um pouquinho.
At ento, eu no sabia que estava psicografando.
Foi s quando terminei o romance que recebi a psicografia do Leonel, que abre o meu primeiro livro, e nele se apresenta, dando o seu nome. Mas foi preciso uma boa
dose de desprendimento para escrever, sem questionar e aceitar a interferncia do esprito. Hoje, posso dizer, Leonel  parte fundamental da minha vida.
No escrevo para viver. Escrevo porque gosto e porque acredito estar levando algum bem para as pessoas. E  esse sentimento que me faz querer escrever cada vez mais.
 pelas pessoas que vale a pena escrever. Pelos leitores, que esto em busca de algo, alm do aqui e agora, e que acreditam no poder da f, do autoconhecimento e
do amor, como caminhos seguros para a transformao do Ser.
Acredito que ns todos podemos trabalhar pelo aperfeioamento moral da humanidade para construir um mundo melhor.

Sucessos de MNICA DE CASTRO
Mnica de CastroDe todo o meu ser
A sensibilidade exacerbada de Marianne  um problema. Os pais, desconhecedores dos processos medinicos, no sabem o que fazer. Resolvem ento adotar medidas
perigosas e extremas. Sero suficientes para conter os inimigos espirituais e trazer Marianne de volta  lucidez?
A atriz
Tudo que Amelinha queria era ser amada pela me. Mas sua me, apegada s dificuldades de vidas passadas, via na filha a rival
de outros tempos. Amelinha cresce e se transforma em Tlia Uchoa, deixando para trs um passado de abusos e dor. Ser, contudo, possvel fugir de si mesma?
Gmeas
Esta  a fantstica histria de Beatriz e Suzane, gmeas idnticas, separadas ao nascer. Anos depois, uma sucesso de coincidncias traz a desconfiana,
aproximando-as da surpreendente revelao. Podero as meninas superar a dor e encontrar a felicidade na nova realidade que a vida lhes apresenta?
S por amor
Janurio nunca deu valor  vida. At o dia em que, inexplicavelmente, uma criana desconhecida despertou o amor que nem ele sabia existir. A partir da, Janurio
tudo far para ocultar seus crimes, sem saber que o passado tem seus prprios mtodos para se revelar.
Lembranas que o vento traz
Segredos inconfessveis se ocultam por detrs das paredes da manso onde Clarissa, inesperadamente,  obrigada a viver. O amor e a verdade se transformam em plidas
lembranas que o vento sussurra pelos cantos, fazendo da morte um mistrio que Clarissa ser chamada a desvendar. Este extraordinrio romance encerra a trilogia
iniciada com Sentindo na prpria pele e Com o amor no se brinca.
Giselle
A amante do inquisidor
Na Espanha do sculo quinze, Giselle torna-se amante do inquisidor Esteban, seduzindo pessoas para entreg-las ao Tribunal do Santo Ofcio e, com isso, enriquecer.
De repente encontra um homem que a desperta para um grande amor, inspirando-a mudar de vida. Haver tempo para Giselle mudar ou ser tarde demais? Voc encontrar
a resposta nesse emocionante romance.
Segredos da alma
Vivian quer ser escritora na Londres do sculo dezenove, mas tem que enfrentar o preconceito da sociedade machista, ao mesmo tempo em que luta pelo seu verdadeiro
amor. Diante disso ela aprender que o segredo do amor  a inteligncia, e o segredo do destino feliz  ficar no seu melhor.
Greta
Um momento de distrao da bab, um acidente, uma criana morre. Em conseqncia do acidente, a bab, esmagada pela culpa, no consegue mais emprego e se v obrigada
a entregar-se  prostituio para sobreviver. Por que uma criana saudvel, alegre, morre de repente? Como vencer a dor da perda e continuar vivendo? Descubra as
respostas neste romance fascinante: Greta.
O Preo de ser diferente
Romero descobre a homossexualidade e tem que lutar contra o preconceito e a intolerncia. Este romance tocante mostra que os escravos do preconceito esto se candidatando,
no futuro, a experimentar as mesmas experincias que criticaram, a fim de aprender a conviver com as diferenas.
At que a vida os separe
O que fazer quando voc ama um filho e rejeita outro, mergulhando na culpa sem encontrar explicaes para seus sentimentos? A causa vai alm da simples troca de
energias do cotidiano e est oculta em problemas mal-resolvidos de outras vidas que voltam em busca de soluo.
Com o amor no se brinca
Quando ser feliz passa a ser um objetivo srio, logo perccebemos que com o amor no se brinca. Os gmeos Rodolfo e Fausto so o oposto um do outro: enquanto Rodolfo
vibi em dio, Fausto se consome em cimes, nessa envolvente histria que d continuidade a Sentindo na prpria pele
Sentindo na prpria pele
No incio do sculo dezenove, Tonha  trazida da frica como escrava para servir Aline, filha de um rico fazendeiro que a toma sob sua proteo. Este romance mostra
que ao nos apressar em julgar as atitudes alheias segundo nossos prprios padres, acreditamos estar de posse da verdade. Ser?
Uma histria de ontem
Abandonada pelo homem que ama, Rosali luta para criar seu filho sozinha e vencer o preconceito da sociedade carioca do incio do sculo vinte. Esta  uma histria 
envolvente,
em que as paixes se chocam em meio a falsos padres de comportamento, e as aparncias
ditam as normas.
Leonel
Leonel  um esprito muito querido do meu corao. J em nosso primeiro romance, ele me deu uma idia do que teria sido em sua vida passada: escritor.
Sei que nasceu e viveu na Inglaterra, em sua ltima encar-nao, assim como nas anteriores. Em Segredos da Alma, ele narra um pouquinho da sua histria, juntamente
com a da mulher que foi o grande amor da sua vida. No foi um escritor dos mais famosos. Era um bomio, mas algum com tanta dignidade que logo despertou para os
verdadeiros valores do esprito, e hoje est em condies de transmitir mensagens de otimismo e amorosidade. Eu mesma percebi isso no contato quase dirio com ele
e nas comunicaes que transmite, sempre de forma mental.
H algum tempo, ele me permitiu conhecer sua aparncia. Leonel mostrou-se para mim na casa esprita, em um momento de profundo recolhimento e reflexo. Fisicamente,
 um rapaz bonito. Cabelos negros, cheios, com feies delicadas e olhos azuis. Estatura mediana, magro, veio vestido com cala e bata
brancas, descalo e com ar tranqilo. Tinha um rosto to sereno, que me contagiou. Ali, ele me disse coisas que modificaram para sempre o meu modo de encarar certos
aspectos da vida.
Sua proposta  a do crescimento e da disseminao do amor.  para isso que trabalha,  nisso que acredita e me faz tambm acreditar. Sem a esperana e a certeza
na consolidao do amor, a vida no tem razo de ser. E o instrumento que ele encontrou para a realizao desse propsito, no momento, foi a psicografia. Assim como
eu, Leonel escreve por amor a si mesmo e ao prximo.
Considero Leonel mais um batalhador do invisvel. Um esprito com enorme sabedoria e inigualvel capacidade de amar. Um ser em evoluo que conhece o caminho para
o crescimento e sabe onde est a fonte do discernimento e da moral. Uma alma que cresce por meio do esforo prprio, do reconhecimento de suas imperfeies e da
busca incessante do domnio sobre si mesmo. E  nisso, acima de tudo, que reside o seu valor.
2010 por Mnica de Castro
Capa e Projeto Grfico: Priscila Noberto Diagramao: Andreza Bernardes
Reviso: Maria Glria Nolla Pires e Mnica Gomes d Almeida
1a edio
2a impresso - fevereiro 2011 10.000 exemplares
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Leonel (Esprito).
De frente com a verdade / ditado pelo esprito Leonel; [psicografado por] Mnica de Castro.
So Paulo : Centro de Estudos Vida & Conscincia Editora.
1. Espiritismo 2. Psicografia 3. Romance I. Castro, Mnica de. II. Ttulo
ndices para catlogo sistemtico: 1. Romance esprita: Espiritismo 133.9
DE FRENTE
COM A
VERDADE
Publicao, distribuio, impresso e acabamento CENTRO DE ESTUDOS VIDA & CONSCINCIA EDITORA LTDA
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Site: www.vidaeconsciencia.com.br
Mnica de Castro
pelo esprito Leonel
Proibida a reproduo total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrnico, mecnico, inclusive atravs de processos xerogrficos, sem
permisso expressa do editor (Lei n 5.988, de 14/12/73).
***
O livro que Marcela acabara de ler jazia inerte a um canto, a pgina final aberta e manchada pela umidade de suas
lgrimas. Era um livro de poesias, de Joo Cabral de
Mello Neto, em que a personagem central questionava se no seria melhor saltar a ponte e desistir da vida. Aquela idia lhe pareceu romntica,
 e ela  pegou invejando a criatura
que, de forma to corajosa, decide abandonar as decepes da vida. Por que no podia ela
fazer a mesma coisa?
A passos vagarosos, aproximou-se do armrio do banheiro e abriu a porta de espelho oxidado, fitando o seu interior com angstia. Remexeu
nas prateleiras at que encontrou o que procurava: um vidro de comprimidos para dormir. Revirou-o na mo e fechou a porta, apertando o frasquinho contra o
peito. Duas grossas lgrimas escorreram de seu rosto, e ela suspirou amargurada. De que adiantaria viver? Sua vida havia perdido
o sentido naquela noite, no exato momento em que Luciana dissera que tudo estava terminado. E ela simplesmente acha que no podia viver sem Luciana.
Ainda se lembrava do dia em que abandonara a famlia e a cidade de Campos para segui-la. Luciana sempre fora uma menina esperta, travessa e extrovertida, muito segura
de si e de suas escolhas. Quando, finalmente, descobriu sua verdadeira
orientao sexual, entregou-se a ela sem muitos questionamentos, nem dando importncia aos comentrios
maldosos a seu respeito. Em
1966, numa cidade pequena feito Campos de Goytacazes, foi um escndalo sem precedentes. Quando o fato caiu no domnio pblico, a famlia se revoltou, os amigos se
afastaram, os professores a recriminaram, e ela acabou sendo convidada a se retirar da escola normal que freqentava.
Foi por essa poca que elas se conheceram. Os pais de Luciana a puseram de castigo, aos quase dezessete anos, proibindo-a de sair de casa e matriculando-a em outro
colgio, do outro lado da cidade, onde os rumores ainda no haviam chegado. Apesar da revolta, Luciana concordou com as imposies dos pais. Era menor de idade e
no tinha muitas escolhas. Queria sair de Campos, mas no pretendia fugir de casa para se tornar prostituta em uma cidade grande. Tinha ambies maiores. Pretendia
terminar o curso normal para poder ingressar numa faculdade no Rio de Janeiro, onde poderia se misturar s multides e fazer passar despercebida a sua vida sexual.
Quando Luciana entrou na sala de aula no meio do ano, chamou a ateno de muita gente. Era o tipo de garota cujo comportamento fugia aos padres. Entrou calada,
porm, sorridente, e foi sentar-se no nico lugar vago na sala, ao lado de Marcela. Como era nova na escola e no conhecia ningum, logo travou conversa com Marcela
que, por sua timidez, no tinha muitos amigos. Da conversa, passaram aos encontros e da a um relacionamento mais ntimo no demorou muito. Em breve, as duas estavam
namorando, sem que a famlia de Marcela sequer desconfiasse, e a de Luciana preferisse no saber.
Terminado o ano letivo, j agora com dezoito anos completos e formada professora, Luciana decidiu partir. Chamou os pais e comunicou-lhes sua deciso. Os pais demonstraram
alvio e no se opuseram. Era mesmo melhor para eles verem-se livres daquela filha ingrata, a ovelha negra da famlia, que s lhes trazia problemas e manchara a
sua reputao de gente honesta e direita. O pai ainda lhe deu dinheiro para as primeiras despesas, com a condio de que ela se arranjasse no Rio de Janeiro e no
retornasse mais a Campos, a no ser que se emendasse e voltasse a ser uma moa decente. Luciana no questionou. Apanhou o dinheiro, arrumou a mala e partiu sem maiores
complicaes.
Para Marcela, as coisas no foram assim to fceis. Os pais
nada sabiam sobre seu romance com Luciana e no queriam permitir que ela partisse com a amiga para uma cidade grande e cheia de tentaes como o Rio. No lhe deram
nenhum apoio e chegaram mesmo a proibi-la de ir. Frgil demais para enfrent -los, Marcela no insistiu, mesmo porque Luciana prometera escrever-lhe sempre.
As cartas de Luciana chegavam regularmente, at que, um dia a moa lhe escreveu dizendo que havia passado num
concurso pblico e agora dava aulas numa escola do
municpio. Alugara un pequeno apartamento de quarto e sala no subrbio e convidava Marcela para ir viver com ela.
A felicidade foi tanta que Marcela pensou que o peito fosse explodir. Mas o que poderia fazer? Contar aos pais seria loucura porque eles jamais a deixariam partir.
Aos dezenove anos, decidiu que o melhor seria fugir. Como no podia contar com a ajuda financeira do pai, escreveu a Luciana, que lhe enviou dinheiro suficiente
para a viagem. s escondidas, Marcela comprou a passagem e, no dia e na hora marcados, subiu no nibus e foi embora, ao encontro de Luciana, talvez para nunca mais
retornar  terra natal.
Foi assim que seu relacionamento comeou. Luciana estava indo bem na profisso e passou no vestibular para odontologia Com sua ajuda, Marcela ingressou na faculdade
de letras e conseguiu um emprego de auxiliar numa escola particular. Mais tarde mudaram-se para um apartamento melhor, num bairro de
classe mdia, e levavam a vida
em paz e tranqilidade, sem ningun para se intrometer em suas vidas. Os vizinhos nada sabiam sobre seu relacionamento e, para todos os efeitos, elas eram apenas
estudantes vindas de outra cidade que dividiam um apartamento.
Essas lembranas fizeram estremecer o corao de Marcela. Haviam sido felizes por quase oito anos, e agora Luciana lhe dizia que tudo estava terminado. O que faria
da vida dali para a frente? Na verdade, no tinha mais vida. A vida de Marcela havia acabado na hora em que Luciana cruzara a porta do apartamento dizendo que no
pretendia mais voltar. Ela ainda no entendia o que havia feito de errado. "Nada", dissera Luciana, mas Marcela no acreditava. Alguma coisa havia acontecido. Chegou
a pensar que Luciana havia conhecido outra pessoa, mas ela lhe assegurou que no. Simplesmente o amor que as unira no passado havia terminado, e Luciana achava que 
j era
hora de cada uma seguir o seu prprio caminho.
Mas os caminhos de Marcela estavam entrelaados aos de Luciana, ou assim ela pensava. No podia e no queria viver sem ela. Quando ela se foi, Marcela ficou desesperada
e se atirou num choro profundo, at que apanhou um livro de poesias, que era a nica coisa que a acalmava. Comeou a ler Morte e Vida Severina, at que aquela passagem
lhe chamou a ateno. Assim como a personagem, ela tambm duvidava se ainda valia a pena viver. A misria tambm havia invadido a sua vida, pela carncia de amor.
Saltar da ponte lhe parecia a nica soluo, e aquelas plulas seriam sua ponte para a outra vida, para o nada, para uma existncia em que o vazio no lhe faria
sentir a falta da presena de Luciana.
Marcela sentou-se na cama e ficou olhando o vidro de remdios, ainda hesitando entre tom-los ou no. De vez em quando, olhava para o livro no cho e para o retrato
de Luciana na mesinha de cabeceira, e seus olhos voltavam a derramar lgrimas sentidas.
- Ah! Luciana, no posso viver sem voc! Por que fez isso comigo, por qu?
Ao pensar na amada, Marcela sentia que no havia outra sada para a sua dor. Ou era a morte, ou a vida vazia. Preferia morrer. Decidida, levantou-se e foi apanhar
gua na cozinha. Voltou para o quarto e derramou o contedo do vidro de remdio nas mos, enfiando todos os comprimidos na boca e sorvendo a gua em goles largos.
Repetiu esse movimento at no restar mais nenhum comprimido no frasco. Chorando cada vez mais, deitou-se na cama, acomodando-se sobre os travesseiros. Apanhou o
retrato de Luciana, agarrou-se a ele e fechou os olhos. Agora era s esperar a chegada da morte.
Ao sair do apartamento que dividia com Marcela, Luciana sentia a garganta estrangular. Afinal, foram muitos anos de convivncia e, por mais que no quisesse continuar
a viver com Marcela, a situao no lhe era indiferente.
Haviam sido amigas, amantes e confidentes por muito tempo. Dividiram alegrias, tristezas e dificuldades. Venceram na vida sozinhas,
lutando contra tudo e contra todos, firmando-se no mundo como mulheres e pessoas de bem. Aquilo no era um nada. Ao contrrio, era algo de que se lembrar e se orgulhar
por toda a vida.
Naquele ltimo ano, as coisas entre as duas no iam nada bem. Luciana sentia vontade de conhecer outras pessoas, viajar, freqentar seminrios e congressos relacionados
 sua profisso. Mas Marcela, embora no se opusesse, ficava insegura com a sua ausncia, telefonando a toda hora para os hotis em que ela se hospedava, cobrando
as ligaes no retornadas, temendo que ela se interessasse por mais algum. Mas o que Luciana queria era viver com liberdade. Embora gostasse de conhecer pessoas
interessantes, no era sexualmente que procurava se envolver com elas. Apreciava as conversas intelectuais, principalmente aquelas relacionadas a sua profisso.
Pena que Marcela fosse to insegura e assustada. A muito custo conseguira passar num concurso tambm, para dar aulas de por tugus numa escola cientfica. Ela, Luciana,
deixara o magistric para se dedicar  odontologia, para se entregar exclusivamente ao pequeno consultrio que, com muito sacrifcio, conseguia montar no Mier,
juntamente com Masa, uma amiga de faculdade. Afinal, fora para isso que juntara dinheiro por tantos anos para poder realizar o sonho de ter um consultrio que
fosse seu.
A insegurana e os medos de Marcela foram, talvez, os maiores responsveis pelo fim de seu relacionamento. Luciana era muito decidida e segura, independente e confiante,
tudo o que Marcela no era. Isso a decepcionava, porque Marcela era o seu oposto e no lhe causava admirao. Nunca fazia o que Luciana esperava, encolhia-se diante
de tudo e de todos, sempre com medo de que descobrissem o seu relacionamento. Tal atitude foi cansando Luciana cada vez mais, at que, saturada e sem ver perspectivas
de mudana em Marcela, decidiu que o melhor mesmo, dali em diante, seria se separarem.
Durante muito tempo, Luciana sentiu-se responsvel por Marcela, por t-la convencido a deixar Campos e a segurana
dos pais. Fora Masa quem lhe mostrara que Marcela era dona de sua vida e capaz de decidir o seu prprio caminho.
-Sei como se sente - dissera Masa. - Marcela veio de Campos atrs de voc. Mas veja o que fez por ela. No fosse por voc, ela no estaria formada nem teria
o emprego que tem. Se  professora de letras,  graas a voc.
-No  bem assim, Masa - contestou Luciana. - Marcela sempre foi muito inteligente.
-Mas no  nada decidida.  medrosa e insegura. Foi voc quem lhe deu foras, quem a encorajou a ser algum. Agora est na hora de ela caminhar com as prprias
pernas. No  justo que voc se mantenha presa a quem no ama s por sentimento de culpa ou gratido.
Masa tanto falou, que Luciana resolveu tomar aquela deciso. Gostava muito de Marcela, mas no podia mais viver com ela. Queria liberdade para desfrutar da independncia
recm-con-quistada. E depois, no era justo abrir mo de seus planos para satisfazer as carncias de Marcela. Ela agora era uma mulher mais madura e capaz de gerir
a prpria vida.
Por isso, tomou aquela atitude. Foi difcil terminar uma relao de mais de sete anos, mas estava decidida. Procurou ser o mais amvel possvel, sem deixar de ser
sincera. Exps a Marcela os seus sentimentos, seus anseios e afirmou que a deciso era irrevogvel. No a amava mais, embora lhe tivesse muito afeto. Queria o melhor
para ela, mas queria o melhor para si tambm. Podiam continuar sendo amigas, mas sem envolvimento emocional ou sexual.
Quando Marcela desatou a chorar e atirou-se em seus braos, implorando-lhe que no partisse, Luciana quase desistiu, mas algo dentro dela lhe dizia que seria pior.
Estaria alimentando uma mentira e passaria a viver insatisfeita para que Marcela no sofresse. No era justo nem com ela, nem com Marcela. O melhor, para ambas,
era a separao, por mais que Marcela no conseguisse enxergar dessa forma. Com firmeza, Luciana desvencilhou-se da companheira, apanhou a mala e partiu apressada,
esquecendo-se at de deixar suas chaves. Sabia que Marcela no a seguiria,
com medo de que os vizinhos percebessem que ela estava desesperada por ter sido abandonada por outra mulher.
Luciana partiu, e Marcela ficou chorando atrs da porta, at que resolveu tomar aquela atitude extrema e desesperada.
Embora Luciana no soubesse de suas intenes,
uma inquietao comeou a se alastrar por seu peito, e um medo indizvel se apossou de seu corao. E se Marcela fizesse alguma besteira? Luciana foi caminhando 
com
aquela sensao horrvel, tomou um txi e se dirigiu para o apartamento de Masa, com quem iria morar dali em diante. Masa no era homossexual, mas era pessoa de 
cabea
aberta e sem preconceitos, cujos pais a enviaram cedo para estudar no Rio de Janeiro.
Ao chegar  casa de Masa, a amiga estava terminando de lavar a loua do jantar, Luciana pousou a mala na saleta e foi a seu encontro na cozinha.
-Sinto se no a esperei para jantar - disse Masa -, mas voc demorou muito e eu estava morrendo de fome. Ainda tem arroz e feijo na panela.  s fritar 
um
bife. Ah! E tem salada na geladeira.
-No quero nada, Masa, obrigada.
Masa enxugou as mos no pano de prato e aproximou-se de Luciana, que se sentou  mesa.
-E a? Como  que foi? Correu tudo bem?
-Pior do que eu imaginava. Marcela no quis aceitar e ficou desesperada. Tive que larg-la chorando e sair meio na marra.
-Que coisa chata.
-Sim, foi muito chato. E triste tambm.
-Mas o importante  que voc conseguiu.
-Consegui... , consegui. Mas estou preocupada. Sinto que Marcela  capaz de alguma besteira.
-Ser?
-No sei. Meu corao est pequenininho.
-Voc quer que eu d um pulo l e veja se est tudo bem?
-Voc faria isso?
- claro. No me custa nada. E depois, tambm no quero que Marcela faa nenhuma besteira.
De posse das chaves que Luciana se esquecera de entregar Masa chegou ao apartamento de Marcela. Tocou a campainha
uma, duas, trs vezes e nada de Marcela abrir. Encostou o ouvido na porta, mas no escutou nada. Ou ela havia sado, ou no queria atender; ou, o que era pior, alguma
coisa havia acontecido. Masa no podia esperar mais. Apanhou a chave na bolsa e meteu-a na fechadura, abrindo-a com mos trmulas.
- Marcela! - chamou. - Oi! Voc est a?
O apartamento estava escuro e em total silncio, Masa foi acendendo as luzes por onde passava. Acendeu a sala, o corredor e deu uma espiada na cozinha, do outro
lado. Parecia deserta, e Masa seguiu para o quarto. A porta estava fechada, e ela bateu de leve. Ningum respondeu, e ela bateu novamente. Silncio. Experimentou
a maaneta, que cedeu de imediato. Masa empurrou a porta, que foi abrindo lentamente, e acendeu a luz. Rapidamente, passou os olhos pelo quarto e viu...
Num timo, compreendeu tudo. Marcela deitada na cama, o retrato de Luciana em seus braos, o frasco de remdio no cho. Masa soltou um grito de pavor e correu para
a outra, tentando escutar seu corao. As batidas pareciam fracas, a respirao, quase inexistente. Mais que depressa, correu para o telefone e ligou para o pronto-socorro.
Deu o endereo ao atendente, explicou mais ou menos a situao, largou o fone no gancho e arrancou o retrato de Luciana das mos de Marcela, saindo s pressas logo
em seguida.
Corao aos pulos, Masa desceu as escadas correndo e foi ocultar-se do outro lado da rua, sob a sombra de um poste cuja lmpada estava queimada. Pouco depois, uma
ambulncia apareceu, e homens vestidos de branco entraram apressados no edifcio. Mais atrs, uma patrulhinha estacionou, e dois guardas desceram. Alguns vizinhos
apareceram nas janelas, mas ningum sabia de nada, ningum a havia visto. Masa tinha medo de qualquer coisa que se relacionasse  polcia, por causa de seu envolvimento
com o movimento estudantil na faculdade. Fizera parte da UNE e chegara a ser fichada na polcia, mas o pai do namorado, que era desembargador no Tribunal de Justia,
conseguira solt-la. De l para c, jurara a si mesma que no se envolveria mais com poltica ou a ditadura e evitava qualquer contato com a polcia.
Instantes depois, os enfermeiros apareceram carregando uma maca, com o corpo de Marcela estendido, e Masa apertou
os dentes na mo cerrada. Estaria ela morta? No saberia
dizer. Esperou at que os guardas sassem tambm e voltou para casa.
-E ento? - indagou Luciana, logo que ela abriu a porta. - Como  que ela est?
Masa estava lvida feito uma folha de papel. Apanhou um copo de gua e bebeu com avidez, jogando-se pesadamente no sof.
-Voc nem queira imaginar - comeou ela a dizer. - Quando cheguei l, encontrei Marcela deitada na cama, agarrada ao seu retrato, com um vidro de plulas para dormir
cado no cho.
-Meu Deus! Ela est morta?
-No sei. Quando sa, ela estava respirando.
-Voc a deixou l?
- claro que no. Liguei para a emergncia e me mandei. Ah! E tirei a foto das mos dela.
Masa apanhou na bolsa o retrato de Luciana, estendendo-o a ela.
-Por que fez isso? - quis saber Luciana.
-Voc sabe que no posso ter complicaes com a polcia. Pensei que voc tambm no quisesse. Imagine o que a polcia no vai dizer quando descobrir que 
ela
tentou se matar por sua causa.
-Mas o que aconteceu a ela? Para onde a levaram?
-Para o hospital,  claro.
-Que hospital? Como  que vamos saber para onde ela foi?
-Quer um conselho, Luciana? Sei que  difcil, mas  melhor esquecer o que houve. No h nada que voc possa fazer.
Marcela est sendo cuidada, no  mais problema seu.
-Como pode ser to fria, Masa? E se ela morrer?
-No quero que ela morra, mas no podemos fazer mais nada. Agora,  com os mdicos.
-Voc est  com medo de que a polcia venha bater aqi no ?
-J disse que no posso me envolver...
-Eu sei, eu sei! Mas eu tambm no posso ficar aqui sentada sem saber o que aconteceu a Marcela. Tenho que fazer alguma coisa.
-Acho melhor voc no fazer nada. A polcia vai querer saber quem foi que telefonou.
-Posso dizer que fui eu.
-Ah! ? E por que se mandou? S foge quem  culpado. Pelo amor de Deus, Luciana, no me crie problemas. Mais tarde, posso pedir ao Breno para ver se o pai
dele descobre alguma coisa.
Embora contrariada, Luciana acabou aquiescendo. Tinha medo de comprometer Masa, que tudo fizera para ajudar. Em considerao a ela, esperaria at o dia seguinte,
quando Breno, seu namorado, poderia obter algum tipo de informao atravs do pai. Se ele no conseguisse nada, ela mesma procuraria Marcela,
nem que tivesse que telefonar para todos os hospitais da cidade.
***
Quando Marcela abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi um moo louro, olhos azuis, todo vestido de branco, sorrindo para ela.
-Eu morri? - divagou ela, ainda meio zonza.
-Isto aqui no  o cu, nem eu sou o seu anjo da guarda - respondeu o rapaz, endereando-lhe um sorriso compreensivo. - Voc est no hospital do Andara,
e eu sou o mdico de planto.
-Mdico? Hospital? Mas o qu...?
S ento Marcela se lembrou do que havia acontecido: de Luciana, do desespero, dos remdios. Sentiu-se profundamente constrangida com a situao. Tinha medo de que
descobrissem que ela havia tentado se matar por causa de outra mulher.
-Est tudo bem - confortou o mdico. - Conseguimos chegar a tempo.
-Obrigada - falou ela timidamente.
Em seguida, fechou os olhos e adormeceu. Certificando-se de que ela voltara a dormir, o mdico auscultou-a ainda uma vez e foi cuidar de outros doentes. No conseguiu,
contudo, desviar os pensamentos daquela moa. Havia algo nela que lhe chamara a ateno. O que levaria uma jovem to linda quele ato extremo? Na certa, fora abandonada
pelo namorado e no conseguira suportar a separao. E onde estariam seus pais? Por que ningum aparecera para cuidar dela?
Mais tarde, quando ele retornou  enfermaria, Marcela j
estava acordada, tomando a sopa que a enfermeira deixara en sua cabeceira.
-Ol - cumprimentou ele gentilmente. - Que bom que j est melhor!
Obrigada... - murmurou ela, enfiando a colher de sopa na boca para no precisar dizer mais nada.
-Voc se chama Marcela, no ?
-Como  que soube?
-A polcia me informou.
-Polcia? Mas eu no fiz nada de errado!
-Bem, voc tentou se matar, e isso  caso de polcia. Sabe como , eles tm que saber se foi tentativa de suicdio mesmo
-Isso foi... uma loucura. Eu estava fora de mim.
-No precisa falar nada. Sei o quanto deve ser doloroso para voc. Procure no se lembrar de coisas tristes agora.
-Obrigada, doutor...
-Flvio. Mas no precisa me chamar de doutor, no.
Marcela achou encantador o sorriso de Flvio e abaixou os
olhos, envergonhada. Nunca, em toda a sua vida, tivera tal pensamento com relao a um homem.
-Quando vou ter alta?
-Amanh. Voc est muito bem, e no vejo motivos para mant-la aqui - notando o seu ar de tristeza, Flvio considerou - O que h? No est contente por poder
sair?
-Estou... Mas  que...
A frase morreu em seus lbios. Em lugar de palavras, o que saiu de sua boca foram soluos angustiados e sentidos, e ela afundou o rosto no travesseiro, chorando
copiosamente.
Penalizado, Flvio alisou os seus cabelos, sentindo estranha comoo a domin-lo e retrucou com ternura:
-Chorar faz bem  alma e ao corao. Deixe que as lgrimas lavem o seu peito de toda a dor.
Ouvindo to ternas palavras, Marcela redobrou o pranto, aga rando a mo que a acariciava. S depois de muitos minutos foi que ela parou e, durante todo aquele tempo,
Flvio permitiu que ela segurasse a sua mo, apertando a dela como a lhe transmitir fora. Quando ela finalmente se acalmou, enxugou os olhos e evitando encar-lo,
disse em tom de desculpas:
-Sinto muito, doutor Flvio...  que  tudo to difcil...!
Eu sei, compreendo. Voc passou por momentos realmente difceis. Esteve entre a vida e a morte e, embora eu no saiba nem queira saber que motivos a levaram a to
desesperado ato, sei que deve ter sido algo tambm muito difcil. Mas voc est viva, e  isso o que importa.
-Estou sozinha no mundo. Nada mais me resta...
-No diga isso. Voc  jovem, tem a vida toda pela frente.
-Sinto que minha vida acabou...
Flvio estava certo de que Marcela havia passado por grave decepo amorosa, mas no queria constrang-la nem reavivar lembranas dolorosas.
-Sua vida mal comeou - tornou ele, animador. - Pessoas e coisas vm e vo de nossas vidas, deixam marcas em nossos coraes, mas no tm o poder de levar
nossa alegria com elas. Voc s precisa se recuperar e descobrir quantas coisas boas pode fazer por voc.
-No posso fazer nada por mim.
-No  verdade. Pode dar o melhor de si. E a sua contribuio para o mundo?
-No tenho nada para dar ao mundo.
-No acredito. O que voc faz?
-Sou professora de literatura.
- mesmo? Viu s como voc  til e importante? Quantos alunos dependem de voc, neste momento, para se educar e crescer?
-H muitos professores de literatura no mundo.
-Mas, se voc sumir, o mundo vai ter um a menos. No ser uma pena?
Marcela no pde deixar de sorrir. O doutor Flvio estava se esmerando para anim-la, e ela ficava contradizendo tudo o que ele dizia, com um pessimismo que j comeava
a ser desagradvel.
-O senhor tem razo, doutor. O que fiz foi uma tolice, mas eu estava desesperada.
-Desespero tambm vem e vai. Se tivermos pacincia e confiana, ele desaparece como veio.
-O senhor  sempre assim to otimista?
-Muito mais quando deixam de me chamar de senhor - ela riu com mais desenvoltura, e ele sentiu que estava preso quele
sorriso ingnuo e at mesmo infantil. - Sabia que tem um lindo sorriso? - prosseguiu ele, fazendo-a corar.
-Est sendo gentil - retrucou ela, ao mesmo tempo feliz e embaraada com aquele elogio.
-Quantos anos voc tem?
-Vinte e seis, quase vinte e sete.
-Tudo isso? Parece mais jovem.
-Obrigada. E voc, quantos anos tem?
-Vinte e nove - e, baixando a voz, acrescentou em tom jovial: - E ainda estou solteiro.
Ela tornou a rir e, quando deu por si, estava em animada conversa com aquele mdico desconhecido. Ficaram conversando amenidades por quase uma hora, at que a enfermeira
veio cham-lo para atender outro paciente.
-Vir me ver antes de eu ir embora? - indagou ela, s ento se dando conta do quanto a companhia dele lhe fazia bem.
- claro! Ou pensa que vou deix-la me abandonar assim?
Ele sorriu e lhe atirou um beijo com as mos, que ela fingiu
apanhar no ar. Por uns momentos, desligara-se da realidade, presa ao encantamento daquele mdico. O que seria aquilo? Por que sentira tanta simpatia por um estranho?
Marcela nunca tivera um namorado. A nica pessoa com quem se relacionara fora Luciana. O que estaria acontecendo agora que a fazia interessar-se por um homem? Ser
que estaria mesmo interessada? Ou se deixara levar pela gentileza com que ele a tratava em um momento to difcil? De qualquer forma, era muito bom sentir-se admirada
e desejada, ainda mais por um rapaz bem-apessoado como o doutor Flvio.
Enquanto isso, Luciana se retorcia de preocupao, colada a Breno, namorado de Masa, que tentava descobrir o paradeiro de Marcela. Alguns telefonemas depois, finalmente
descobriu-a no hospital do Andara, onde dera entrada dois dias antes e fora imediatamente socorrida, submetendo-se a uma lavagem estomacal para retirada dos muitos
remdios para dormir que havia ingerido. Naquele momento, encontrava-se bem e fora de perigo.
-Graas a Deus! - exclamou Luciana, bastante aliviada. - Por instantes, temi pelo pior.
-Viu? - tornou Masa. - Ela est bem. Est satisfeita?
-Gostaria de visit-la.
-No sei se seria boa idia - rebateu Breno. - A polcia pode fazer perguntas.
-Mas que medo da polcia, vocs dois, hein?
-Sabe que Masa no pode envolver-se.
-Sei, sei. Mas e eu? No tenho nada com isso.
-Por favor, Luciana - pediu Masa -, no v. Ela est bem. Voc pode visit-la depois.
-Mas ela vai achar que eu no estou me importando!
-Ou pode pensar que voc se arrependeu e quer voltar.
-Ora, Masa, francamente, isso no  hora de pensar nisso.
-Mande-lhe algumas flores - sugeriu Breno.
-Isso tambm pode no ser uma boa idia - contraps Masa. - A polcia pode querer saber quem foi que mandou as flores.
-Querem saber de uma coisa, vocs dois? - redarguiu Luciana, irritada. - Vou mandar-lhe flores, sim. E, se a polcia fizer perguntas, azar. Direi que fui
eu que chamei a emergncia e fugi apavorada.
Sem dar ateno aos protestos de Masa, Luciana comprou um lindo buqu de rosas amarelas e o enviou a Marcela, no hospital. Queria ir pessoalmente, mas ainda no
estava certa se seria mesmo uma boa idia. Masa dissera tantas coisas sobre polcia, que ela, no fundo, tinha medo de comprometer a amiga. Mas flores, ela pensava,
no fariam nenhum mal.
Para a polcia, o caso estava encerrado antes mesmo de comear. Assim que viram a moa estirada na cama, com o vidro de remdios ao lado, os policiais concluram
que se tratava mesmo de uma tentativa de suicdio. No havia dvidas. Os vizinhos disseram que ela morava com uma amiga, e eles deduziram que a tal amiga havia-lhe
roubado o namorado, o que a levara ao gesto extremo. No havia mais o que questionar.
Ao despertar na manh seguinte, Marcela sentiu o perfume suave das flores invadindo suas narinas e surpreendeu-se vendo que elas haviam sido enviadas por Luciana.
-Enfermeira! - chamou ela, com o cartozinho nas mos - Quem trouxe estas flores?
-O rapazinho da floricultura. No so lindas?
-E a pessoa que as enviou? No veio tambm?
-Ningum veio visit-la, sinto muito.
-No tem importncia.
-No fique triste. Voc vai sair hoje. O doutor Flvio, em pessoa, disse que vir para assinar a alta. Ele no  bonito? - Marcela assentiu, sem graa.
- E parece que gostou de voc.
-Acho que no  bem assim. Ele estava apenas sendo educado.
-Muito educado! Ora, vamos, menina, no ligue para esse antigo namorado. Foi por causa de um rapaz, no foi? Que voc tentou se matar? Esquea-o. Ele no
a merece.
Marcela sorriu meio sem jeito e ocultou o carto entre as mos. No queria que ningum soubesse que ela tentara se matar por causa de uma mulher.
-Vou esquecer - afirmou, achando que seria melhor que todos pensassem que a tentativa de suicdio fora devido a um namorado.
-Ah! Veja, o doutor Flvio j chegou. Adeus, menina, e boa sorte.
-Bom dia - cumprimentou ele, tomando-lhe o pulso nas mos. - Sente-se bem?
-Sim.
-timo - em seguida, auscultou-a novamente, examinou seus olhos e apertou sua barriga. - Sente alguma dor?
-No.
-Muito bem. Voc j pode ir. Tem algum para busc-la?
Instintivamente, Marcela olhou para as flores ao lado da cama
e respondeu com tristeza:
-No.
Foi ento que Flvio notou as rosas amarelas e retrucou com um certo desapontamento:
-Vejo que voc tem um admirador.
-No. So... de uma amiga.
-Uma amiga? Tem certeza?
-Tenho.
Ela exibiu o envelope onde Luciana depositara o cartozinho e, ao ler o nome da moa, Flvio suspirou mais animado.
-Menos mal. Pensei que mais algum estivesse interessado em roubar o seu corao.
-Mais algum?
-No diga nada, mas eu sou o outro algum. - Ela corou violentamente e no respondeu. - Desde ontem, no consigo parar de pensar em voc. Ser que no podemos
nos encontrar fora daqui?
-Nos encontrarmos fora daqui?
-Sei que o momento no  o mais apropriado, mas gostaria de, ao menos, ser seu amigo.
-Meu amigo?
-Ser que voc vai ficar repetindo tudo o que eu digo? Por que no me d uma resposta direta? Se voc no quiser se encontrar comigo, tudo bem, eu vou embora
e ns nunca mais nos veremos. Mas, se voc me der uma chance, prometo que no vai se arrepender.
Pelo jeito como falava, Flvio parecia muito interessado nela. E, pelo visto, nada sabia sobre seu envolvimento com Luciana. Marcela ficou se perguntando o que todos
teriam pensado ao encontr-la inconsciente, agarrada ao retrato da outra, mas no teve coragem de perguntar. Talvez Flvio no soubesse desse detalhe, e no seria
ela quem iria lhe dizer. Ainda mais porque se sentia imensamente atrada por ele. No compreendia de onde vinha tanta atrao, mas, naquele momento, no tencionava
questionar. Podia ser que Flvio representasse apenas um amigo, algum em quem pudesse se apoiar naquele momento to difcil, e depois ela se desinteressasse dele
com a mesma velocidade com que se interessara. Fosse como fosse, precisava ocultar-lhe a verdade a qualquer custo.
-Gostaria muito de encontr-lo fora daqui - sussurrou ela, finalmente.
-Srio?
-Srio. Voc me parece uma boa pessoa, e estou precisando de um amigo.
-Excelente! Onde  que voc mora?
-D-me um pedao de papel, que escreverei meu telefone e o endereo.
Ele catou no bolso um pedacinho de papel, uma caneta e estendeu-os a ela, que os apanhou e anotou tudo. Devolveu-os, e ele a fitou com interesse.
-Quando poderei v-la?
-Quando quiser.
-Saio do planto s sete. Posso passar na sua casa s oito? Apanh-la para jantar?
-s oito horas est bom. Estarei esperando - Marcela abaixou novamente os olhos, engoliu em seco e prosseguiu constrangida: - Flvio... No sei como lhe
dizer isso, mas... estou sem dinheiro. Quando me trouxeram para c, vim sem a carteira. Ser que voc podia me emprestar dinheiro para o txi? Pago-lhe quando voc
chegar l em casa.
Ele retirou algumas notas do bolso e depositou-as na mo de Marcela, acrescentando com carinho:
-V com calma, menina. No deixe que nada mais lhe acontea. De hoje em diante, voc tem um amigo que se interessa por voc.
Marcela podia sentir a sinceridade na sua voz, e uma calma inigualvel foi tomando conta dela. Ele teve que sair para atender outros doentes, e ela se levantou,
indo aprontar-se para sair. Meteu o cartozinho de Luciana no bolso, apanhou as flores do vaso e se foi.
***
O apartamento parecia vazio sem os vestgios de Luciana. O armrio sem roupas, um buraco na estante onde ficavam seus livros. Marcela estava sozinha, e uma profunda
tristeza a foi dominando por inteiro. De repente, a lembrana de Luciana lhe trouxe lgrimas aos olhos, e ela se atirou na cama, chorando sem parar. Ficou deitada
por quase uma hora, acariciando o lugar que ainda guardava o cheiro da outra.
Tudo parecia um sonho; ou melhor, um pesadelo. As flores que Marcela colocara no vaso, em cima da escrivaninha, davam-lhe a certeza de que Luciana se fora de vez.
Ela era sempre muito segura e no costumava voltar atrs em suas decises. Nunca se arrependia de nada, porque pesava muito os prs e os contras antes de agir.
Luciana no tinha medo de viver. Fazia o que bem entendia e enfrentava as dificuldades com coragem e persistncia, sem depender de ningum. No era feito ela, medrosa
e insegura, dependente do amor e da presena de mais algum. Desde que sara de Campos, nunca ficara sozinha. As duas, at ento, estavam sempre juntas, saam juntas,
viajavam juntas. Luciana no se importava com o que as pessoas pensassem dela e, embora no assumisse publicamente que vivia com outra mulher, no se escondia do
mundo nem inventava mentiras para manter as aparncias.
Na faculdade, Marcela sempre se esquivara das outras moas, com medo de que lhe fizessem perguntas e acabassem descobrindo sua relao com Luciana. Para todos os
efeitos, elas eram apenas duas amigas que vieram de Campos e dividiam agora um apartamento. Se algum desconfiou, no disse nada, e Marcela tambm no pediu a opinio
de ningum. Os rapazes, no comeo, ainda tentaram umas investidas, mas ela era to fria, to distante e fechada, que eles logo desistiram.
S vivia para Luciana. Por que ter outros amigos se Luciana lhe bastava? Embora a companheira lhe dissesse que era bom ter novas amizades, Marcela no conseguia.
O medo e a insegurana a afastavam de todos, e ela pensava que, enquanto tivesse Luciana, no precisaria de mais ningum. Achava que a outra tambm agiria assim
e ficou um tanto decepcionada quando ela voltou para casa, um dia, em companhia de Masa. Marcela ficou ofendida e magoada, com cimes e insegura. Mas Masa mostrou-se
desligada de tudo aquilo e apareceu depois com o namorado, deixando claro que no estava interessada em Luciana. O cime foi passando, at que ela teve certeza de
que as duas eram apenas amigas, e Luciana havia se aproximado de Masa porque ela era uma moa livre, que tambm sara de casa, no interior, para vir estudar no
Rio, e no se importava se elas eram lsbicas ou no. Bem diferente das outras garotas, que viviam com os pais e estavam acostumadas a fazer tudo certinho.
Foram tempos maravilhosos ao lado de Luciana, mas aquilo agora havia acabado. Por causa dela, Marcela quase cometera uma loucura. Nem sabia por que no tinha morrido.
Algum a socorrera, mas ela no sabia quem fora. E o retrato de Luciana, ao qual se agarrara antes de perder a conscincia? Onde teria ido parar? Procurou-o rapidamente,
mas no o encontrou por ali. Talvez Luciana tivesse voltado e a encontrado desmaiada, chamando ento os mdicos e levando consigo o retrato. S podia ser isso.
A campainha do telefone soou estridente, e Marcela levou um susto, correndo para ele com ansiedade. Talvez fosse Luciana. S podia ser Luciana!
-Al? - atendeu com excitao.
-Marcela,  voc?
A voz de homem a assustou, e ela respondeu decepcionada:
-Eu mesma. Quem ?
-Flvio. J se esqueceu de mim?
Ela se lembrou do mdico novamente, e seu corao se desanuviou. De repente, a imagem de Luciana desapareceu de seus pensamentos, e uma alegria incontida tomou conta
de sua alma.
-Doutor Flvio!  claro que no me esqueci do senhor.
-Pensei que j tivssemos superado a fase das formalidades.
Ela riu gostosamente e retrucou de bom humor:
-Desculpe-me, Flvio.  que minha me me ensinou a ser uma moa educada.
-Voc . Educada e maravilhosa. - Ela no respondeu, intimamente sorrindo ante aquelas palavras. - Ei! Voc ainda est a?
-Estou aqui.
-Que bom. Pensei que j tivesse me abandonado antes mesmo de comear a sair comigo.
- claro que no.
-timo. E agora deixemos as brincadeiras de lado. Liguei para saber como voc est passando.
-Estou bem.
-Nenhuma depresso? Sabe como , a volta para casa costuma trazer lembranas que reavivam o desejo de morrer.
Ele foi to direto que ela se chocou e respondeu com hesitao:
-No quero morrer... No mais.
-Fico feliz. Ento, descanse por hoje, ou melhor, at a noite, e arrume-se bem bonita. Vou lev-la a um lugar especial.
-Que lugar?
-Voc vai ver. Um beijo e at mais.
-Outro...
Flvio desligou o telefone, e ela pousou o fone no gancho. O que seria aquilo que estava sentindo? Nunca se interessara por nenhuma outra pessoa alm de Luciana,
mas agora se pegava pensando naquele mdico. Era bonito, charmoso e muito espirituoso. E estava interessado nela. Ser que ela estaria se interessando por ele tambm?
Ou estaria apenas sensibilizada com tanta ateno? Pensando nisso, Marcela desejou que aquele sentimento que comeava a brotar pelo mdico no se extinguisse com
o passar do tempo. Estava sendo muito bom sentir-se desejada por ele, e mais, desej-lo tambm. De repente, ficou imaginando como seria fazer amor com um homem,
e seu corpo encheu-se de desejo. Que novas sensaes seriam aquelas que estava experimentando?
Subitamente, percebeu que queria estar bonita para quando ele chegasse. Deixando de lado a saudade de Luciana, abriu a porta do armrio e comeou a revirar suas
roupas. No tinha nada deslumbrante. No costumava ser feminina, vestia-se com
simplicidade, geralmente de cala jeans e camiseta de malha. Mesmo quando ia trabalhar, colocava uma saia reta e sem graa, sapatos rasteiros e quase no usava maquiagem.
S um pouco de blush e batom bem clarinho.
Naquela noite, contudo, usaria algo especial. Queria impressionar Flvio. Antes, queria impressionar a si mesma. Uma vontade de se fazer bonita para ele a foi dominando,
e ela amaldioou o armrio. Precisava sair e comprar roupas novas. Comearia uma nova vida dali em diante, e a mudana no guarda-roupa seria a primeira que empreenderia.
Tomou um banho rpido, vestiu-se apressada e foi s compras.
Ainda bem que era perodo de frias escolares, e ela podia fazer de seu tempo o que bem entendesse. Passou a manh toda fazendo compras, o que a ajudou a no pensar
em Luciana. Comprou coisas bonitas, que nunca havia usado antes, e voltou para casa satisfeita, carregada de embrulhos. Fez uma arrumao no armrio, separando as
peas que j no queria mais, e usou o lado de Luciana para guardar as roupas e os sapatos novos.
A tarde passou, e ela nem percebeu. Ao terminar a arrumao, estava cansada e com fome, mas valera a pena. Juntara duas sacolas de roupas usadas, que entregaria
num asilo, e o armrio estava limpo e arrumado, cheio de roupas bonitas penduradas e sapatos brilhantes enfeitando a sapateira. Terminara tudo bem a tempo. O relgio
da sala batera seis horas. Era hora de comear a se aprontar.
Marcela tomou um banho demorado, lavou os cabelos e escolheu o vestido branco que comprara especialmente para aquela noite. Calou sandlias de salto alto, que no
estava acostumada a usar, e passou a maquiagem desajeitadamente. Atrapalhou-se um pouco com a sombra e o lpis de olho, mas insistiu at conseguir um bom resultado.
O cabelo precisava de um corte, mas no estava ruim, e ela o penteou vigorosamente, deixando-o solto por cima dos ombros. As unhas estavam pintadas com um esmalte
quase branco, e ela decidiu que, da prxima vez, usaria um tom mais vivo, como um rosa ou um vermelho. Ao final, olhou-se no espelho, deu uma, duas voltas, apreciando
o efeito que a roda do vestido fazia, e sorriu satisfeita, muito satisfeita. Nunca se achara to bonita como naquele dia.
s oito horas em ponto, Flvio tocou a campainha, e seu corao deu um salto. Ser que ele a acharia bonita? Queria, desesperadamente, que ele a achasse bonita.
E Luciana? Se a visse daquele jeito, ser que aprovaria? No, no queria pensar em Luciana. Balanou a cabea de um lado a outro, apanhou a bolsa nova e saiu cambaleante,
tentando se equilibrar no imenso salto a que no estava acostumada.
-Voc est linda - elogiou Flvio assim que ela apareceu, beijando-a de leve no rosto. - Realmente deslumbrante.
-Obrigada - falou ela, abaixando os olhos e corando levemente.
Foram a um restaurante elegante, onde Flvio j era conhecido e havia reservado uma mesa. Escolheram os pratos, e ele pediu champanha. Esperou at que o garom os
servisse e levantou a taa, dizendo com animao:
-Ao futuro e  vida - e, olhando fixamente em seus olhos, concluiu: - E a ns dois.
Ela apenas sorriu e brindou com ele. Estava feliz e satisfeita, nem pensava em Luciana.
-Como foi o seu dia? - indagou ele, para puxar assunto.
-Foi bom. Fiz umas compras e arrumei o armrio.
-Muito bem! Nada como jogar fora o velho para comear vida nova.
- verdade.
Flvio evitava tocar no assunto do quase suicdio, e ela tambm no queria falar sobre aquilo. No havia pensado em nada para lhe dizer. S o que sabia era que no
poderia lhe contar a verdade. O que ele pensaria se descobrisse que ela fora amante de outra mulher e tentara se matar por causa dela? E, mais ainda, que estava
apaixonada por ela e queria muito que ela voltasse? Ah! Se Luciana voltasse, largaria tudo e correria para ela. Nem pensaria mais em Flvio.
-Voc mora sozinha? - perguntou ele, de forma casual.
-Moro.
-E os seus pais, onde esto?
-Em Campos, onde nasci.
-Tem contato com eles?
-No. Faz tempo que no os vejo.
-No sente falta deles?
Fazia muito tempo que Marcela no pensava nos pais. Depois que fugira de Campos, telefonara para os tranqilizar, mas o pai a recebera mal, dizendo que no tinha
mais filha. Ficara sabendo do seu envolvimento com Luciana e se chocara. No queria v-la nunca mais. Dois anos depois, ligou para eles novamente, no Natal, e descobriu
que agora tinha um irmozinho, e o pai fora bem claro ao afirmar que no precisava mais dela. Tinha um filho que lhe traria orgulho e alegrias, e jamais o decepcionaria
como Marcela o fizera.
Ela ficou contente com o nascimento do beb e demonstrou o desejo de conhec-lo, mas o pai foi categrico: no queria que ela se envolvesse com o pequeno e no pretendia
deixar que ele soubesse que, um dia, tivera uma irm. Marcela ainda tentou apelar para a me, mas ela, encantada com o caula temporo, endossou as palavras do pai
e pediu para que ela nunca mais os procurasse.
Flvio, contudo, jamais poderia conhecer essa parte da sua vida, e ela respondeu com receio:
-Sa de Campos h oito anos, e acabamos perdendo contato. Hoje somos quase estranhos.
-Mas por qu? Vocs brigaram?
-No  que tenhamos brigado. Fugi de casa aos dezoito anos. Queria estudar, viver numa cidade grande, e meus pais no concordavam. Sabe como : gente de
cidade pequena, eles tinham medo de que eu me perdesse aqui no Rio.
-Entendo. Mas por que voc no os procurou depois de formada? J maior de idade, dona do seu nariz, com emprego.
-No comeo, foi difcil. Mas eu consegui me formar e passar num concurso.
-Seus pais no sentem orgulho de voc?
-Devem sentir... No sei bem. Eles no aprovam mulheres que trabalham fora.
-Voc  uma moa muito corajosa e determinada. Poucas, no seu lugar, teriam ido to longe. A maioria vem para c e, ante as dificuldades, acaba se perdendo
e caindo na vida, ou ento
consegue um emprego de domstica ou balconista. No que eu tenha algum tipo de preconceito contra essas profisses, em absoluto. Acho que todas so necessrias e
valorizo muito quem trabalha assim. Mas esse no  o sonho de quem se muda para a cidade grande, no  mesmo?
-Acho que no.
Marcela respondeu com temor, embora ele nada percebesse. Ento ele a achava corajosa e determinada? Mas como, se ela era insegura e amedrontada? Era o que parecia,
porque ele no a conhecia, no conhecia Luciana, no sabia que fora ela a responsvel por todo o sucesso na sua vida. E agora, sem ela, sentia-se perdida e abandonada,
sem ningum para cuidar dela. Talvez Flvio cuidasse dela. Era um homem bom e, ele sim, determinado e muito seguro de si mesmo.
-Voc est me ouvindo? - tornou ele, percebendo que ela no lhe prestava mais ateno. - A comida chegou.
-O qu? - ela se assustou, vendo o prato que o garom colocara diante dela. - Oh! Desculpe-me, Flvio, de repente, me desliguei.
-Percebi. So lembranas ou fantasmas?
-Acho que um pouco dos dois. Estava pensando na minha famlia.
-S nisso?
-Sim. Por qu?
-Por nada.
 claro que Flvio achava que ela pensava no suposto ex-namorado, causa de todo o seu infortnio, mas ela nada fez para diluir essa impresso. Evitaria ao mximo
tocar naquele assunto com Flvio ou com qualquer outra pessoa. Ele, por sua vez, julgando que ela ainda no estava pronta para falar, e no querendo invadir a sua
privacidade, silenciou e no fez mais perguntas a respeito.
-O que fazem seus pais? - retrucou ele, como se de nada desconfiasse.
-Minha me  dona de casa, e meu pai tem uma padaria.
-Voc tem irmos?
-Tenho. Deve estar com uns seis anos agora.
-Deve ser bom ter um irmo pequeno.
-Voc  filho nico?
-Sou.
-Na verdade,  como se eu tambm fosse. Quando ele nasceu, eu j tinha ido embora de Campos. Fui criada sozinha.
-Voc no o conhece?
-No.
Era a primeira vez que Marcela falava sobre a famlia com algum, alm de Luciana, o que a deixou confusa. Mas Flvio, notando o seu desconforto e no conseguindo
mais conter a admirao, perguntou sem rodeios:
-Voc quer me namorar?
-O que foi que disse? - tornou ela, perplexa.
-Sei que a hora no  a mais oportuna. Voc passou por momentos difceis e talvez ainda no se sinta pronta para iniciar uma nova relao. Mas, desde que
a vi hoje pela manh, no consigo parar de pensar em voc. Estou sendo sincero, foi amor  primeira vista.
Ela riu em dvida e objetou:
-Amor  primeira vista... No sei se acredito nisso.
-Eu tambm no acreditava, at conhecer voc. Quando a vi, meu corao deu uma cambalhota e quase foi parar no estmago. Parecia at que j a conhecia antes.
-Voc est sendo romntico.
-Pode at ser. Mas uma coisa  certa: voc me impressionou como nenhuma outra jamais o fez. Em um dia, cativou mais o meu corao do que tantas outras j
tentaram fazer em anos.
-Convencido. S para me dizer que j teve muitas mulheres apaixonadas por voc.
-No  nada disso. Tive muitas namoradas, no nego, e algumas se apaixonaram mesmo por mim. Mas eu jamais me interessei por nenhuma delas. No como estou
interessado em voc.
-E quem me garante que esse interesse no vai passar um dia? Talvez voc descubra que eu sou como todas as outras e se desinteresse de mim tambm.
-Voc no  como as outras.
Aquela conversa estava deixando-a confusa e transtornada.
Como ser que ele reagiria se soubesse de Luciana? Ele tinha razo: ela no era como as outras. Seria certo engan-lo, deixando-o pensar que ela s se relacionara
com homens? Esse pensamento a assustou, e ela contraps acabrunhada:
-Voc no se incomoda com o fato de eu... ter feito o que fiz?
-O que voc fez? Nada. Foi um ato de desespero. Sei que no faria isso de novo.
-Como pode ter tanta certeza?
-Eu estarei aqui para ajud-la. No sei o que se passou entre voc e seu namorado, nem me interessa saber.
-No interessa?
-No. Se voc quiser me contar, muito bem. Antes de tudo, quero ser seu amigo, e voc pode confiar em mim. Mas, se no quiser falar, no faz mal. O que voc
fez da sua vida antes de me conhecer no  problema meu.
-Tem certeza?
-Tenho.
-Qualquer coisa?
-Se est tentando me dizer que se entregou ao seu namorado, no precisa se preocupar. No sou do tipo conservador e no me importo com isso. No me importaria
nem se voc j tivesse dormido com a torcida do Flamengo inteira.
Como ele era inocente! Achava que ela dormira com outro homem e no era mais virgem.  claro que ela no era mais virgem, mas perdera a virgindade em suas loucuras
com Luciana. O que ele diria se soubesse que ela foi deflorada por outra mulher? Teria a mesma compreenso que demonstrava agora? Pensou em lhe contar a verdade
para ver como ele reagiria. Se no a aceitasse, no tinha problema. Era praticamente um desconhecido, e ela no sentia nada por ele.
Ia se preparar para lhe contar tudo sobre Luciana quando algo surpreendente aconteceu. Eles estavam sentados, de frente um para o outro, e Flvio, inesperadamente,
puxou a sua cabea, aproximando-a de si, e pousou-lhe delicado beijo nos lbios, que ela correspondeu com medo e prazer.
-Isso  para voc ver como no faz diferena o que voc fez com seu namorado - falou ele, os lbios ainda se roando.
- Posso am-la e respeit-la ainda assim, tenha voc dormido ou no com outros homens.
Aquele beijo encheu-a de desejo, e ela se pegou pensando novamente em como seria fazer sexo com ele. Quanto mais pensava, mais o desejo aumentava, e seu corao
comeou a bater mais forte, a respirao foi-se acelerando, e um suor frio desceu de sua testa. Ele a beijou novamente e sussurrou em seu ouvido:
- Vamos sair daqui.
A deciso de lhe contar sobre Luciana se esvaiu naquele beijo, e ela nada disse. Ele pagou a conta, e saram para a noite. Entraram no carro, e ele dirigiu at um
motel. Marcela estava assustada, nunca antes havia entrado em um motel, nunca antes se vira numa situao daquelas com algum alm de Luciana. Era a primeira vez
que se relacionaria com um homem. Um pnico a invadiu, e ela pensou em desistir, mas a mo direita de Flvio, deslizando entre suas coxas, fez com que ela reconsiderasse
e s pensasse nele.
Ao lev-la para o quarto, Flvio agiu gentilmente, despertando-lhe sensaes que ela nunca antes havia experimentado com Luciana. Ela no entendia. Como podia ser
que ela, que sempre fora apaixonada por Luciana, se pegava agora ardendo de desejo por um homem, suspirando e gemendo sob seu corpo e em seus braos? Em dado momento,
no conseguiu pensar em mais nada, entregando-se  paixo daquele homem com um ardor incontrolvel. Amaram-se por quase toda a noite e, ao final, ela estava feliz
e extasiada, certa de que nunca sentira tanto prazer em sua vida.
Olhando para ele, Marcela teve certeza de que agora mesmo  que no conseguiria lhe contar nada. Os momentos que vivera com ele naquela noite haviam sido maravilhosos
e inigualveis, e ela comeava a sentir que no suportaria perder algum novamente. Se Flvio desistisse dela, a frustrao seria muito grande. Por outro lado, se
ele tivesse que partir, seria prefervel que o fizesse logo no comeo, enquanto ela ainda no o amava. Marcela, no entanto, sabia que j no poderia mais lhe contar
a verdade. Envolvera-se com ele, em apenas uma noite, de tal forma, que no poderia mais prescindir da sua presena.
No lhe contaria nada sobre Luciana. Ele nada sabia a respeito e no precisava saber. No fora ele mesmo que lhe dissera que seu passado no lhe interessava? Que
ela no tinha que lhe contar nada, se no quisesse? Ento, ela podia se sentir desobrigada de lhe contar a verdade. A dvida ainda era muito grande, porm, e ela
no conseguia se decidir realmente, at que ele a beijou de novo e recomeou a acarici-la, sussurrando com paixo:
- Voc  a mulher mais maravilhosa que j conheci. Estou apaixonado...
Beijou-a com ardor, e ela se entregou a ele outra vez, finalmente sepultando, no mais profundo de seu ser, a vontade de lhe contar sobre Luciana.
Fazia muito calor, Luciana caminhava esbaforida, pulando de sombra em sombra para escapar do sol escaldante. Como gostaria de estar de frias! Mas trabalhava em
seu prprio consultrio particular, e profissionais liberais no podiam se dar ao luxo de ter frias enquanto ainda no se firmassem e fizessem nome. E era para
isso que se esforava.
Mais alguns minutos e alcanou o edifcio comercial em que ficava o consultrio. Subiu de elevador e entrou encalorada em seu consultrio, indo direto beber gua.
Na outra sala, o barulho do motor se fazia ouvir, e ela se sentou para refrescar-se. Ainda bem que a sala tinha ar-condicionado. Fora o nico luxo que ela e Masa
puderam pagar. Mais alguns minutos, a porta da sala foi aberta, e o paciente de Masa saiu.
-Precisamos contratar uma secretria - disse ela, fechando a porta depois que o rapaz se foi. - Est ficando difcil atender os clientes e ainda ter que
atender telefones, marcar consultas e cuidar da parte bancria.
-Voc tem razo. Providenciaremos isso mais tarde.
-Mais tarde, no. Tem que ser para j.
-Podemos pr um anncio no jornal.
-No seria melhor pedirmos numa agncia? E se aparecer aqui alguma louca, espi do governo...?
-Deixe de bobagens, Masa. Voc agora no se envolve mais
com essas coisas. Vou colocar um anncio no jornal e marcar entrevistas para depois do expediente. O que voc acha?
-Se voc garante que no tem perigo, para mim, est bom.
-No tem perigo. Pode crer.
-Ento est bem. Voc cuida disso?
-Cuido, pode deixar.
-Ah! J ia me esquecendo. Sabe quem eu vi hoje de manh, quando vinha para c?
-Quem?
-A Marcela. E adivinhe s!
-O qu?
-Estava de mos dadas com um rapaz.
-Com um rapaz? Est brincando!
-No estou, no. E parecia bem feliz.
-Ser que ela virou hetero1 agora?
-Vai ver que depois que voc a deixou, ela ficou to decepcionada que resolveu experimentar outras coisas. E pela cara dela, acho que gostou. Se bem que
no posso culp-la. Os homens so realmente muito bons...
Luciana riu bem-humorada. J estava acostumada quelas brincadeiras de Masa e no se importava.
-Ela viu voc? - retrucou interessada.
-Acho que no. Se viu, fingiu que no viu. No posso culp-la.
-Por que? Ela no tem motivos para fingir que no a viu. Ou ser que tem?
-Voc sabe como as pessoas so preconceituosas. E se o namorado no aceitar que ela j tenha tido um caso com outra mulher?
-Ento no deve gostar dela de verdade, no  mesmo? Quem ama no se importa com essas coisas.
-Voc no conhece os homens. So muito legais e bonzi-nhos, mas machistas que s vendo.
-Isso no  motivo para viver na mentira.
-Ei! Calma a. Voc nem sabe se ela mentiu para ele.
-Isso tambm no me interessa. Marcela  pgina virada na minha vida.
1 Hetero: prefixo de heterossexual, utilizado na linguagem coloquial (N.A.).
-Ser que voc no est com cime?
-No  isso. Ns convivemos por oito anos, e a gente se apega, de uma maneira ou de outra. Gosto de Marcela e quero-lhe muito bem, mas o que ela faz da sua
vida no  problema meu.
-Tem certeza de que no  cime?
-Se fosse para sentir cime, no a teria deixado.
-Bom, isso  verdade, mas voc sabe como so essas coisas do corao: a gente no quer mais o outro, mas, quando o v com mais algum, bate um sentimento
de posse, o orgulho cutuca a vaidade, e l vamos ns, enveredando pelo caminho do cime.
-Eu no. No sou ciumenta nem possessiva, e no quero mais nada com Marcela. Se ela encontrou algum que a faa feliz, ainda que seja um homem,  muito bom
para ela. Fico feliz com isso tambm.
-Voc  muito engraada, Luciana. Se fosse comigo, estaria me roendo de despeito.
-Ainda bem que eu no sou como voc.
O som da campainha interrompeu a conversa, e o primeiro cliente de Luciana chegou. Masa se foi, e ela se concentrou no trabalho, afastando Marcela de seus pensamentos
e s voltando a pensar nela no final da tarde. Fazia tempo que no a via. Desde que a deixara. Soube que ela melhorou e teve alta do hospital, mas no a procurou
depois disso.
Como ser que estaria? Pelo que Masa lhe contara, parecia feliz. Encontrara um homem e devia estar namorando. Luciana no entendia bem como aquilo fora acontecer.
Tinha certeza de que Marcela no gostava de homens, mas podia estar enganada. S se ela realmente estivesse tentando modificar sua conduta para se adaptar aos padres
sociais e deixar de sofrer. Ou, ento, talvez estivesse tentando algo novo para ver se a esquecia. Nenhuma das duas hipteses seria boa, porque Marcela estaria levando
uma mentira para sua vida. Mas ela podia ainda estar apaixonada pelo rapaz. Seria isso possvel?
Receber notcias de Marcela fez com que Luciana sentisse vontade de v-la novamente, de saber como estava, de conversar com ela. No estava com cime nem queria
voltar, mas ainda se sentia um pouco responsvel por ela. Tinha-lhe afeio, gostaria
mesmo de ser sua amiga. Preocupava-se com o seu futuro e no queria que ela sofresse. Se ela estivesse mesmo apaixonada pelo rapaz, no teria com o que se preocupar.
Mas se o estivesse namorando s para fugir do sofrimento e da desiluso, estaria cometendo um erro muito grande, pois acabaria sofrendo ainda mais e fazendo outra
pessoa sofrer tambm.
No dia seguinte, foi colocar o anncio no jornal, que sairia no domingo, e elas tencionavam marcar as entrevistas para o dia seguinte, se possvel. Ocupada com seus
afazeres, Luciana deixou de se preocupar com Marcela e concentrou a ateno no trabalho. O nmero de clientes aumentava a cada dia, porque ela e Masa eram realmente
muito boas no que faziam, e eles, satisfeitos, as recomendavam a amigos e parentes. Precisavam mesmo de uma secretria, e com urgncia.
Na segunda-feira, logo pela manh, o telefone do consultrio comeou a tocar. Como Masa atendia de manh, e ela,  tarde, resolveram se revezar ao telefone, marcando
as entrevistas para depois das seis horas. Muitas moas apareceram. O desemprego era grande na poca, e as oportunidades de trabalho eram poucas, principalmente
para quem no tinha experincia. Sensveis a esse problema, Luciana e Masa no fizeram tal exigncia, aceitando moas inexperientes, que nunca haviam trabalhado,
desde que demonstrassem garra e vontade de aprender.
Entrevistaram muitas candidatas, deixando algumas para o dia seguinte. No primeiro dia, nenhuma delas lhes pareceu adequada. A maioria queria ganhar muito alm do
que elas podiam pagar e preferiam ficar sem o emprego a aceitar trabalhar por menos do que desejavam. Na tera-feira, as entrevistas continuaram, e uma moa, em
especial, chamou a ateno de Luciana. Era bonita, de boa aparncia, muito viva e inteligente. No tinha experincia, mas demonstrou ser paciente e no se queixou
das condies. Precisava trabalhar para ajudar no sustento da famlia e queria crescer na vida. Chamava-se Ceclia e acabara de concluir o curso cientfico, aos
dezenove anos.
-E ento, o que voc achou? - perguntou Masa, depois que as entrevistas se encerraram.
-Gostei dessa aqui - respondeu Luciana, exibindo a ficha
de Ceclia. - No tem experincia, mas no  muito exigente e tem boa vontade.
-Hum... No sei, no. Achei-a um pouco ambiciosa.
-E da? Um pouco de ambio no faz mal a ningum. Ajuda a crescer e progredir.
-No sei. Algo nela no me agradou.
-Voc est de implicncia s porque ela  bonitinha.
-Ah!  por isso que quer contrat-la? Porque ela  bonitinha?
-No seja boba. Quero contrat-la porque acho que ela serve para o cargo. Como no tem experincia, podemos trein-la do nosso modo. Aposto como ela vai
aprender tudo com facilidade e rapidez, e no demonstrou repulsa a sangue e injees. Voc sabe que teremos que ensinar a auxiliar a preparar massas, anestesias
e radiografias, no sabe? - Masa assentiu. - Ento? Ceclia me parece perfeita para isso.
Masa suspirou profundamente e deu de ombros:
-Est bem. No sei o que voc viu nessa Ceclia, mas se gostou dela... seja feita a sua vontade.
-timo! Vou telefonar para ela amanh, dizendo que a vaga  dela, e ela pode comear na quinta-feira mesmo, se no tiver problemas.
Na quinta-feira, logo pela manh, Ceclia se apresentou no consultrio, pronta para trabalhar. Como Luciana previra, aprendeu tudo rapidamente, demonstrando eficincia
e cordialidade com elas e com os clientes. At Masa ficou satisfeita.
-  - falou ela -, tenho que reconhecer que estava errada. Ceclia est se saindo muito bem.
-Eu no disse?
Depois que tudo retomou a normalidade, Luciana voltou a pensar em Marcela. Como estaria se saindo? Estava em casa lendo uma revista odontolgica, quando lhe ocorreu
telefonar. O telefone tocou vrias vezes at que algum atendesse, e Luciana desligou assustada, ao ouvir a voz de um homem do outro lado.
-Est tudo bem? - quis saber Masa, vendo que ela bateu o telefone apressada.
-Liguei para Marcela... Um homem atendeu...
-Voc no devia estar surpresa. No sabe que ela est namorando um rapaz?
-Luciana est com cime - afirmou Breno, namorado de Masa.
-No estou, no. E parem de me amolar, vocs dois.
Masa e Breno trocaram olhares maliciosos, e a moa continuou:
-Estou pensando em convidar Marcela para o nosso casamento. O que voc acha?
-O casamento  seu. Faa como quiser.
-No precisa ser mal-educada - rebateu Masa.
-Tem razo, desculpe-me. Mas  que voc agora deu para cismar que estou com cime de Marcela, quando no estou.
-Tudo bem, Luciana, eu  que devo pedir desculpas. No soube a hora de parar com a brincadeira.
-Eu tambm, Lu - acrescentou Breno. - No queremos que fique aborrecida conosco.
-Ah! Deixem para l - arrematou Luciana.
-Mas voc ainda no respondeu a minha pergunta - prosseguiu Masa. - Acha que eu devo convidar a Marcela?
-Quer mesmo saber a minha opinio?
-Se no quisesse, no perguntava.
-Voc gosta dela?
-Gosto. Conheo-a h tanto tempo quanto conheo voc.
-Ento convide. Acho mesmo que ela se sentiria magoada se soubesse que voc se casou e no a convidou. Afinal de contas, ns terminamos, mas no  por isso
que nos tornamos inimigas nem que os amigos tm que se afastar dela.
-Luciana tem razo - concordou Breno. - Marcela sempre foi nossa amiga e seria uma falta de considerao no a convidarmos.
-Est combinado, ento - assentiu Masa, colocando o nome de Marcela na lista que estavam fazendo. - Marcela ser convidada. Com o namorado?
-Naturalmente.
-Mande dois convites individuais para a festa - sugeriu Breno. - Assim, ela pode levar quem quiser.
-Boa idia. Dois convites para Marcela. E Ceclia? Devo convid-la tambm?
-Quem  Ceclia? - quis saber Breno.
-Nossa nova secretria.
-Seria uma descortesia no a convidar - ponderou Luciana. - Ela trabalha para ns.
-Tem razo. Mas vou mandar apenas um convite individual para ela.
-O certo seria mandar dois. Voc no sabe se ela tem namorado.
-Ai, ai, ai. V l: dois convites para Ceclia tambm. Assim desse jeito, essa lista vai ficar imensa.
-No foi voc quem quis fazer festa? - perguntou Luciana.
-Meu pai no abre mo - esclareceu Breno. - Sabe como , casamento do filho advogado, muitos parentes, amigos desembargadores...
-Sei, sei.
Enquanto os dois continuavam discutindo sobre a lista de convidados, Luciana se afastou e foi para o quarto, pensando se Marcela levaria o namorado. E Ceclia? Ser
que levaria tambm o seu? Ser que tinha um namorado? De repente, Luciana se deu conta de que pensava em Ceclia com uma insistncia maior do que desejava. Achava
a moa bonita e inteligente, admirava-a mesmo. Era esperta e ambiciosa, e no tardaria muito para deixar aquele emprego e partir para uma colocao melhor em uma
grande empresa. Tinha tudo para isso.
Desde que rompera com Marcela, Luciana decidira no se envolver com mais ningum durante um bom tempo. Precisava pensar na carreira, alugar um apartamento s para
ela. Depois que Masa se casasse, teria que entregar aquele. O proprietrio j dissera que no queria mais alugar, e ela precisaria sair. Queria alugar um outro,
maior e prximo da praia. Quem sabe at no poderia comprar um? Talvez fizesse um financiamento na Caixa Econmica, realizando o sonho de ter uma casa prpria.
Com tudo isso, no estava em seus planos se envolver com ningum. Gostava de ser independente e no queria outra pessoa dependendo dela. Contudo, havia certas coisas
de que no conseguia abrir mo. Gostava de sexo e pensava se no poderia encontrar algum com quem passar horas agradveis, sem
envolvimento nem cobranas. Mas onde encontraria uma pessoa assim? Se quisesse um homem, seria mais fcil. Mas uma mulher que procurava outra mulher era complicadssimo.
Ser homossexual era algo seriamente reprovado pela sociedade, e quem era lsbica esforava-se para no parecer que era. Mesmo ela, que no tinha vergonha de ser 
como era, no saa por a falando que gostava de mulheres nem adotava nenhum comportamento escandaloso que pudesse chocar algum.
Agora, porm, seu corpo reclamava o contato de outro corpo, e ela se pegou pensando em Ceclia. Nem sabia se a moa era homossexual. De vez em quando a surpreendia 
olhando-a com uma certa admirao, mas aquilo no queria dizer nada. Admirao era um sentimento que estava alm do sexo e podia ter vrios motivos.
E Marcela? No, decididamente, no queria mais contato com Marcela. Pensar nela causava-lhe preocupao, despertava-lhe ternura, mas no desejo. Pensava em Marcela
como uma irm, no como amante. O mesmo no acontecia com Ceclia. Pensar na moa enchia-a de desejo, e ela se esforou ao mximo para tir-la da cabea. Ceclia
devia ter namorado e comportar-se como qualquer moa normal de sua idade.
Resolveu no pensar em mais ningum e foi para o chuveiro. Talvez uma ducha fria acalmasse seus sentimentos. Depois do banho, foi para a cama e apagou a luz, adormecendo
logo em seguida, sem sonhos ou fantasias a lhe povoar a mente.
Os troves ao longe prenunciavam a tempestade de vero que estava prestes a cair, enquanto uma lufada de vento quente entrava pelas janelas da casa de Flvio, agitando
as cortinas e fazendo com que algumas portas batessem em seu interior. Na correria, os criados, tentando conter a ventania, no ouviam a campainha da porta da frente,
que tocava sem parar.
-Vocs esto surdos? - zangou-se Dolores, surgindo no alto da escada. - A campainha quase estourando de tanto tocar, e ningum abre?
-Desculpe, dona Dolores-falou uma das criadas. - Estvamos to ocupados com a ventania que nem ouvimos a campainha.
Mais que depressa, correu a abrir a porta da frente, e Ariane entrou no exato momento em que uma chuva grossa comeou a cair.
-O que foi que houve com todo mundo? - reclamou ela. - Estou h quase uma hora tocando!
-Perdo, dona Ariane,  que estvamos tentando fechar as janelas e...
-Deixe para l. Dona Dolores est?
-Estou aqui mesmo - falou Dolores, dando beijinhos no ar, perto das bochechas de Ariane. - Como voc est?
-Mais ou menos... Flvio sumiu.
-Sumiu? Pensei que ele estivesse saindo com voc.
-Comigo? No.
-Mas ele sai todas as noites...
-Ele tem sado com algum?
Dolores a encarou em dvida. Nos ltimos dias, Flvio s voltava tarde da noite, e ela podia jurar que era em companhia de Ariane que ele estava.
-Estranho - divagou ela. - Com quem ser que ele anda? Se no  com voc, ento, com quem ?
-Era isso que eu gostaria de saber. Pensei que voc tivesse dito que ele seria meu.
-E vai ser. S no entendo o que est acontecendo, mas, assim que descobrir, dou um jeito nisso.
-Est demorando muito! J estou ficando impaciente.
-V com calma, Ariane. Voc sabe que fao muito gosto no seu casamento com Flvio, no sabe? - Ela assentiu. - Por isso, no ponha tudo a perder. Sua ansiedade
pode acabar afastando-o de voc. Flvio no gosta de ser pressionado.
Ariane sentou-se no sof da sala e ficou olhando a chuva pela porta envidraada que dava para a piscina.
-Precisamos descobrir se ele est saindo com algum.
-Cuidarei disso. E foi muito bom voc vir me procurar antes de tomar qualquer atitude. Tem que deixar essas coisas por minha conta.
-Quero me casar com ele, Dolores. Voc sabe o quanto gosto dele.
-Sei, sim. E  por isso que voc  a moa ideal para ele. Bonita, culta.  a mulher perfeita para me dar netos.
-Ele no pode me usar assim desse jeito. Fez o que fez comigo para depois cair fora.
-Ele no vai cair fora. Vai casar-se com voc, e ambos sero muito felizes aqui. Como eu no fui - acrescentou em voz baixa, para que Ariane no pudesse
ouvir.
O casamento de Dolores terminara no dia em que o marido descobrira que ela o traa com Nlson, seu scio e pai de Ariane. Justino no fez nenhum escndalo. Simplesmente
apanhou as suas coisas e saiu de casa, entrando com o pedido de desquite na semana seguinte. Tudo correu de forma amigvel, para evitar escndalos, e Justino rompeu
a sociedade com Nlson, montando sua prpria clnica depois disso.
Apesar do desquite, continuava amigo do filho, a quem sempre via, e lhe ofereceu um emprego em sua clnica, logo que ele se formou. Flvio aceitou prontamente. Era
uma clnica ortopdica, e ambos gostavam muito do que faziam. Apesar de no precisar trabalhar em hospital, Flvio quis auxiliar numa emergncia e fazia planto, 
uma vez por semana, no hospital do Andara, onde conhecera Marcela.
Justino jamais contou ao filho que a me o trara. Para todos os efeitos, seu casamento terminara porque os dois j no se amavam mais. Flvio aceitou tudo com naturalidade. 
J havia completado 21 anos e era maduro o bastante para compreender.
Dolores, por sua vez, no terminou o relacionamento com Nlson. A esposa dele, Anita, nunca desconfiou de que houvesse algo entre os dois. Era uma mulher feia e 
apagada, e engordara excessivamente depois do nascimento do ltimo de seus quatro filhos, no conseguindo mais retornar ao peso antigo. Essa mudana na aparncia 
da mulher acabou direcionando os olhares de Nlson para Dolores. Apesar de madura, era uma mulher muito bonita, jovem ainda, esbelta e quase sem rugas. Casara-se 
aos dezesseis anos, grvida de Flvio, pelo que se sabia, e mantinha ainda a aparncia da juventude.
Um casamento entre Flvio e Ariane interessava muito a Dolores. Ela era uma mulher possessiva e autoritria, e no queria correr o risco de ter que se deparar com 
uma nora que a enfrentasse. Por isso, era preciso escolher bem a mulher com quem Flvio se casaria, e Ariane era perfeita. Apesar de dotada de rara beleza, no dava 
valor  inteligncia, alm de no se interessar por assuntos financeiros ou domsticos. Era ftil e facilmente manipulvel. Desde que houvesse muitas lojas para
fazer compras e festas onde pudesse se exibir, estava satisfeita. E depois de casados, ela e Flvio viveriam em casa de Dolores, sob suas ordens, onde ela poderia
control-los e aos netos que chegariam.
No princpio, Flvio at se interessou por Ariane, atrado por sua beleza e elegncia. Mas depois, com o tempo, acabou se cansando dela, achando-a ftil e vazia,
sem objetivos ou ideais. Ariane s se interessava por festas, jias e roupas, alm de ser arrogante e maltratar os criados e as pessoas humildes. Esse
comportamento desagradava Flvio ao extremo. Acostumado  gentileza e cordialidade do pai, que demonstrava respeito por qualquer ser humano, a atitude soberba de
Ariane foi desgastando-o. Aprendera com o pai a dar valor s pessoas e aos sentimentos, e no a coisas ou dinheiro, e o jeito de Ariane acabou convencendo-o de
que ela no era a mulher ideal para ele.
S que Ariane no queria aceitar que Flvio no estava mais interessado nela. Estimulada por Dolores, continuou a freqentar a sua casa, convidando-o muitas vezes
para sair. De vez em quando, ele aceitava e a levava ao cinema ou para jantar, sem qualquer tipo de envolvimento, sem nem mesmo a beijar. Apenas como amigos. Mas, 
depois que Flvio conheceu Marcela, deixou de aceitar os convites de Ariane e passou a evit-la, dando sempre uma desculpa para no ir mais a sua casa.
-H tempos que Flvio est distante - queixou-se Ariane. - Nem me telefona mais.
-Quando ele chegar, vamos resolver tudo. Direi que a convidei para jantar, e ele vai ter que ficar em casa. Voc vai ver.
Ariane suspirou desalentada e concordou. Mais tarde, quando Flvio chegou, no conseguiu esconder o desagrado por v-la sentada na sala, em animada conversa com 
a me.
-Boa noite - cumprimentou ele da porta, j se virando em direo s escadas.
-Flvio! - chamou a me. - No vem cumprimentar Ariane?
Ele voltou para a sala e estendeu a mo para ela.
-Como vai, Ariane? Tudo bem?
-Mais ou menos - foi a resposta direta. - Por que no tem me procurado?
-Muito trabalho.
-No podia ao menos telefonar?
-Tenho andado ocupado.
Notando que ele comeava a se irritar, Dolores resolveu intervir:
-Por que no sobe, toma um banho e nos acompanha ao jantar?
-Lamento, mas no posso. Tenho um compromisso.
-Com quem? - sondou Ariane.
-Com uma amiga.
-Voc est saindo com algum?
-Por favor, Ariane, no quero conversar sobre isso, est bem?
-Mas ns estvamos saindo juntos!
-Como amigos, nada mais.
-Voc est namorando outra moa? - intercedeu Dolores novamente.
-Isso no  problema seu - irritou-se Flvio. - No gosto de interrogatrios. E agora, com licena. J estou atrasado.
Depois que ele saiu, Dolores encarou Ariane, que mantinha a boca entreaberta, perplexa com a atitude de Flvio.
-Voc viu? - rugiu ela, colrica. - Eu no lhe disse? Ele est saindo com alguma vagabunda e no quer nos contar.
-Acalme-se, Ariane, ns no temos certeza. Ele no disse que estava.
-E precisava dizer? Voc viu pelo jeito como ele falou. H algum na sua vida, e eu preciso descobrir quem .
-Voc no vai fazer nada disso. Quer pr tudo a perder?
-Vou perd-lo se no agir logo. No posso ficar aqui sentada enquanto outra mulher me toma o namorado.
-Tenha calma, j disse! Precisamos agir, sim, mas com cautela. No quer que ele tome raiva de voc, quer?
- claro que no!
-Pois ento, deixe de ser impulsiva e espere. Eu mesma vou me inteirar dessa histria. Sou me, sei como agir e como fazer para ele confiar em mim.
-E enquanto isso, o que eu fao?
-V para casa e aguarde. Logo darei notcias.
-Agora?
-Acho melhor. Se ficar, vai espant-lo ainda mais.
Mesmo contrariada, Ariane obedeceu e saiu furiosa. Dolores
esperou alguns minutos e subiu ao quarto do filho. Bateu na porta de leve, at que ele abriu, com a toalha enrolada na cintura.
-O que quer, me? Estava indo tomar banho.
Ela entrou e se sentou na cama, cruzando as pernas e fixando nele um olhar perscrutador.
-Seu pai vai bem?
-No foi para falar de papai que voc veio aqui.  por causa de Ariane, eu sei.
-Calma, meu filho, no se zangue comigo. No tenho culpa se a moa gosta de voc.
-Mas eu no gosto dela.
-Mas fez parecer que gostava. Saiu com ela vrias vezes. O que esperava que ela pensasse?
-Nunca disse que gostava dela nem lhe fiz nenhuma promessa. Ao contrrio, sempre deixei claro que saamos como amigos.
-Amigos muito ntimos, no  mesmo?
-No sei o que ela lhe disse, mas, seja o que for, no  verdade. Jamais tive intimidade alguma com Ariane.
-Tem certeza?
-Absoluta. Mesmo no comeo, quando realmente estvamos namorando, nunca fomos alm de uns beijos e abraos. Mas, depois que terminamos e passamos a sair 
como amigos, nunca mais nem a beijei.
-No entanto, ela se encheu de esperanas. Acha que voc  namorado dela.
-No posso fazer nada. Ela se iludiu porque quis.
-Eu tambm me enganei. Jurava que vocs dois estavam apaixonados.
-Olhe, me, no  porque voc gosta de Ariane que eu tenho que gostar tambm.
-Est certo, meu filho, j entendi. Voc no gosta dela, mas saa com ela. De repente, deixou de sair. Posso saber por qu?
-No quero ser grosseiro, mas isso no lhe interessa.
-No ser porque voc conheceu outra pessoa?
-E se for? Qual o problema?
-Problema nenhum. Queria apenas que voc confiasse em mim e me contasse. Sou sua me, no estou contra voc.
-Sei que voc gostaria que eu me casasse com Ariane...
-Gostaria, mas no posso obrig-lo a isso. Se voc escolheu outra moa, no vou me opor. Trata-se da sua felicidade, e  voc quem tem que escolher a mulher 
com quem vai se casar.
Flvio fitou-a perplexo. Nunca poderia imaginar que a me fosse se mostrar to compreensiva. Sempre achou que ela fazia questo de que ele se casasse com Ariane 
e no admitiria que qualquer outra tomasse o seu lugar, mas agora estava surpreso.
-Aceitaria se eu lhe dissesse que estou apaixonado por outra moa?
A palavra apaixonado soou muito forte para Dolores, que engoliu em seco e mentiu de forma convincente:
-Voc tem o direito de se apaixonar por quem quiser. E eu nada posso fazer alm de aceitar.
-No vai se opor?
-De jeito nenhum - continuou a mentir, sentindo a raiva esquentar-lhe o sangue. - Gostaria at de conhecer a moa.
-No vai destrat-la?
- claro que no! Antes de tudo, sou uma mulher de boa educao.
-Hum... No sei. Talvez voc no goste dela.
-Por que? Ela no  de boa famlia?
-,  de boa famlia.
-O que ela faz?
- professora de portugus numa escola normal.
-Professora?
Dolores mal conseguiu conter a indignao. Achava timo que as moas freqentassem a escola normal para ter boa instruo, adquirir cultura e status, mas da a dar 
aulas era outra histria. A tal moa no devia ser de famlia rica, caso contrrio, no teria que trabalhar para sobreviver.
-Ela d aulas porque gosta ou para se manter?
-As duas coisas.
-O que o pai dela faz?
- dono de uma padaria, l em Campos, de onde ela veio para estudar. Cursou a faculdade de letras aqui no Rio e est pensando em fazer ps-graduao.
Flvio disse isso to cheio de orgulho que nem percebeu o olhar horrorizado que Dolores lhe endereava. Ento o filho se atrevia a trocar uma moa fina feito Ariane 
pela filha de um padeiro, uma mulherzinha sem bero, sem linha e pobre!? Era muita coragem.
-Seu pai a conhece?
-Ainda no. Mas vai conhec-la em breve.
-O que ele acha disso?
-Voc sabe como papai : gosta de todo mundo. J gosta
de Marcela antes mesmo de conhec-la, o que no  nada difcil, por sinal. Marcela  uma moa adorvel.
-Marcela...  esse o nome dela?
Ele assentiu e tornou com orgulho:
-No  bonito?
-Voc disse que ela veio de Campos. No mora com a famlia, ento.
-No, mora sozinha. Mas por pouco tempo. Se tudo correr bem, pretendo me casar em breve.
Aquilo j era demais, e Dolores deu um salto da cama, virando-se para a janela para que Flvio no notasse o seu ar de repulsa. Jamais permitiria que o filho se
casasse com uma mulher qualquer, uma fulaninha sem eira nem beira, interessada apenas na fortuna da famlia.
-Se  assim to srio - falou ela entre os dentes -, preciso conhecer essa moa. Afinal, ela vai ser minha nora.
-Calma, me. No momento certo, vou traz-la aqui.
-Por que no a convida para jantar?
-Marcela  muito tmida. Preciso ir devagar.
-Mas eu quero muito conhec-la! Por favor, Flvio, faa isso por sua me. Convide-a para jantar aqui em casa no sbado.
-No sbado? No vai ser possvel. Temos um casamento para ir.
-Casamento de quem?
-De uma amiga dela.
-No domingo, ento.
-Vou ver. Conversarei com ela e depois lhe direi. E agora, me, se me der licena, gostaria de tomar um banho. No quero deixar Marcela esperando.
-Sim, claro.
Mordendo os lbios para no gritar, Dolores saiu do quarto do filho. Aquilo era um insulto! Casar-se com algum fora de seu crculo social era inadmissvel. No 
entendia como Flvio podia interessar-se por algum assim e ficou imaginando um jeito de destruir aquele romance. Mas como? Se agisse de forma direta, Flvio se 
zangaria e sairia de casa. Ela o conhecia bem demais para saber que ele era decidido e no admitiria intromisses em
sua vida. No. Ela precisava agir, porm, de forma velada, sem que ele soubesse o que estava fazendo. Ainda no sabia bem o que faria, mas o primeiro passo seria
conhecer a moa. Em seguida, alertar Ariane e orient-la para que ela no fizesse nenhuma besteira. Depois, pensaria numa estratgia para acabar com aquele namoro 
e fazer com que Flvio se interessasse por Ariane novamente. E o que tivesse que fazer, tinha que ser bem feito.
***
A clnica ortopdica estava cheia aquela manh. Flvio terminava de atender o ltimo paciente quando o telefone na sua mesa comeou a tocar, e a recepcionista anunciou 
que Marcela acabara de chegar.
-Pea que ela me aguarde um instante. J estou terminando.
Deu as ltimas orientaes ao paciente, prescreveu a medicao
e levou-o at a porta, saindo atrs dele. Sentada na recepo, Marcela observava o movimento dos clientes, e ele se aproximou, estendendo-lhe a mo.
-Minha querida - falou, beijando a ponta de seus dedos. - Que bom que foi pontual.
-Eu sempre sou pontual! - afirmou ela de bom humor. - Principalmente quando estou apaixonada.
Os olhos de Flvio brilharam, e ele a puxou com delicadeza. Apresentou-a s moas da recepo e foi conduzindo-a ao consultrio do pai.
-Est nervosa? - indagou ele, sentindo-a um tanto quanto trmula.
-Um pouco.
-Pois no precisa. Meu pai  uma pessoa muito bacana. Voc vai ver - Flvio bateu de leve na porta do pai, que se abriu no mesmo instante. - Est sozinho?
-Estou - disse Justino. - Entre.
Flvio entrou puxando Marcela pela mo, e Justino a cumprimentou com um sorriso.
-Esta  a Marcela, pai - apresentou Flvio.
-Muito prazer - respondeu ele. - Flvio fala muito em voc.
-No senhor tambm - acrescentou Marcela, com um certo acanhamento.
-No precisa me chamar de senhor - objetou ele, com jovialidade. - No quero parecer to velho.
A simpatia de Justino e a sua naturalidade logo colocaram Marcela  vontade, e ela se descontraiu, entregando-se a animada conversa. Flvio marcara aquele encontro 
para que ela e o pai se conhecessem e estava feliz porque eles estavam se dando bem. Ao final de uma hora de conversa, o telefone tocou, e a recepcionista anunciou 
a chegada do prximo cliente.
-Bem - falou Justino -, o dever me chama.
-Vou levar Marcela para almoar - avisou Flvio. - Meu prximo paciente s vir s trs horas.
-Muito bem. Foi um prazer conhec-la, Marcela. Flvio e voc formam um lindo casal.
Marcela corou levemente e respondeu com timidez:
-Obrigada, doutor Justino. O senhor  muito gentil.
Com um sorriso, despediram-se, e Flvio foi com Marcela almoar. Ficaram juntos at quase s trs horas, quando ele a deixou em casa e retornou para atender o prximo 
cliente.
-Vamos nos ver mais tarde? - quis saber ele, parando o carro em frente ao seu edifcio.
-Se voc quiser...
-Eu sempre quero.
-Ento, estarei esperando.
Ela saltou e ficou olhando at que o carro sumisse na primeira esquina. Como se sentia feliz! Pensava no quanto amava Flvio e como fora bom encontr-lo em um momento 
to difcil da sua vida, quando ela achava que no suportaria viver sem Luciana. Flvio era to amoroso, to atencioso, to amigo, que ela comeou a se desligar 
de Luciana. Ainda sentia o peito doer todas as vezes em que pensava nela, mas a dor no era mais insuportvel. Era como sentir saudade de algum que j tivesse morrido. 
Sentia falta de Luciana, mas sabia que ela nunca mais voltaria. Por isso, teve que utilizar todos os meios para se acostumar a viver sem ela. E estava conseguindo. 
Ou melhor, fora Flvio quem conseguira.
Ainda se perguntava se o amor que sentia por Flvio no era
apenas uma fuga. Temia que sim, que no o amasse de verdade e, assim que pusesse os olhos em Luciana novamente, toda a loucura de seu amor por ela retornasse em
um segundo. Precisava certificar-se de seus sentimentos, e o casamento de Masa viera bem a calhar. Ela queria ir, fazia questo. S estando diante de Luciana para
ver a sua reao e ter certeza de que o que sentia por Flvio j era maior do que o amor que um dia sentira por ela.
Enquanto isso, Flvio entrava no consultrio quando faltavam exatos cinco minutos para as trs horas, e o paciente j o estava esperando. Durante o resto da tarde,
concentrou-se no trabalho, e s ao final do expediente foi que tornou a ver o pai, quando ele saa de seu consultrio.
-Ser que podemos conversar? - perguntou Justino.
- sobre Marcela? - ele assentiu. - O que foi? No gostou dela?
-Gostei muito, e esse  o problema.
-No estou entendendo.
-Marcela  uma moa encantadora, mas nota-se que no pertence a nosso crculo social.
-No pensei que voc fosse preconceituoso.
-E no sou. Mas sua me . Preocupa-me a reao que ela vai ter quando conhecer a moa.
-Est se preocupando  toa. J contei a mame, e ela aceitou.
-Aceitou? Assim, sem mais nem menos?
-Pediu-me at para convid-la para jantar.
-No acha isso estranho?
-No comeo, at que achei. Mas depois, acabei me convencendo. Mame no me parecia fingir quando disse que aceitaria a moa por quem eu me apaixonasse.
-Sei... Muito estranho. Dolores no  disso.
-No est sendo severo demais com ela? Mame tem l as suas manias, mas quer o meu bem.
-A  que est: ela quer o seu bem de acordo com o julgamento dela. E algo me diz que ela est interessada  no seu casamento com Ariane.
-Pode at ser. Os pais de Ariane so amigos da famlia, Nlson j foi seu scio. Alis, no entendo at hoje por que vocs brigaram.
-Ns no brigamos. Apenas nos incompatibilizamos para a sociedade.
-Tudo bem. O problema  de vocs, e eu no tenho nada com isso. Quanto  mame, acho que voc est se preocupando demais. Ela pode no ter ficado muito satisfeita,
porque realmente queria que eu me casasse com Ariane, mas, quando lhe disse que amava Marcela, ela aceitou prontamente. Acredito at que intimamente ela tenha tido
uma certa relutncia. Mas mame no se ops ao nosso namoro e est se esforando para aceitar Marcela. Temos que louvar esse seu esforo.
-No quero lev-lo a desconfiar de Dolores, mas eu a conheo muito bem. Temo que ela esteja aprontando alguma.
-No se preocupe, pai. Mame no  perfeita, e eu sei que Marcela no  a mulher com quem ela sonhou para nora. Mas ela me conhece e sabe que eu no aceito 
interferncias em minha vida. Se quiser que continuemos nos entendendo, sabe que tem que respeitar a minha escolha. E  isso que ela est tentando fazer.
Justino suspirou profundamente e apertou o ombro do filho.
-Espero que voc esteja certo, Flvio. Eu lamentaria muito se voc e Marcela acabassem brigando por causa de alguma armao da sua me.
-Ela no vai armar nada, pai, no se preocupe. E depois, no sou nenhum idiota. Se ela aprontar, eu logo vou perceber.
-Espero.
Por mais que se esforasse para acreditar no que Flvio dizia, Justino tinha certeza de que Dolores no se conformaria assim to facilmente. No era de seu feitio 
aceitar com passividade aquilo que no lhe agradava. Ela era maquiavlica e, com certeza, estava maquinando algum plano diablico para terminar com o namoro de Flvio
e atir-lo nos braos de Ariane. O filho estava cego de amor e feliz com a reao de Dolores, e no conseguia perceber a falsidade por detrs de suas palavras.
Mais tarde, depois que Flvio saiu, Justino foi  casa de Dolores. A mulher estranhou a sua visita e no conseguiu esconder o desagrado que a sua presena lhe causava.
-O que est fazendo aqui? - perguntou ela, de mau humor. - Veio pedir para suspender a penso?
-Embora voc no precise do meu dinheiro - respondeu ele calmamente -, no sou homem de fugir s minhas obrigaes. Se a Justia diz que eu tenho que lhe 
pagar penso, ainda que voc no a merea, no vou discutir nem me recusar.  o meu dever.
Ela o olhou com desprezo e retrucou com frieza:
-Por que veio ento? Para falar com Flvio  que no pode ser.
-Tem razo, no  para falar com Flvio.  para falar com voc.
-O que ? O que fao da minha vida no lhe diz respeito.
-Fique sossegada - tornou ele em tom irnico. - No me daria ao trabalho de vir at aqui para falar da sua vida. Tenho coisas mais importantes a fazer.
-Ento diga logo o que  e v embora.
-Vim para falar de Flvio. Ele me disse que voc aceitou de imediato a moa que ele est namorando.
- verdade. E da?
-E da que no sou tolo. Voc est aprontando alguma.
-E se estiver, o que voc tem com isso?
-Tudo. Flvio  meu filho, e no vou admitir que voc interfira na sua felicidade.
-Ele  meu filho tambm, e ningum melhor do que a me para saber o que  felicidade para seu filho.
-Voc no sabe o que  isso. S pensa em dinheiro e em colecionar bens materiais.
-Voc no tem nada com isso, j disse. E depois, no lhe dou o direito de entrar na minha casa para vir questionar a minha relao com meu filho.
-Tenho o direito de me preocupar com ele e de tentar livr-lo da sua ambio.
-Como se atreve? Quem  voc para me falar em ambio? Tem uma clnica que rende rios de dinheiro. Vai querer me convencer agora de que tambm no  ambicioso?
-H uma grande diferena nisso a, Dolores. A minha ambio no prejudica ningum. Tive vontade de crescer, esforcei-me e cresci. Mas fiz isso honestamente, 
sem ter que passar por cima de ningum, sem manipular nem destruir a vida de outras pessoas.
-Acha mesmo que eu quero destruir a vida de Flvio? Do meu prprio filho? Quero o melhor para ele.
-Voc quer que ele faa o que voc acha que  melhor para voc.
-Ele est namorando uma moa pobre e sem bero. Acha que isso  o melhor para ele?
-A moa  maravilhosa. E depois, quem tem que decidir isso no  voc.  ele.
-Aposto como  uma aventureira, querendo se casar com ele pelo dinheiro.
-Por que a julga antes mesmo de a conhecer?
-No preciso conhec-la para saber o que ela quer. Conheo bem esse tipo de gente.
-Deixe-os em paz, Dolores. D a seu filho a chance de ser feliz.
-Ora, mas que despropsito! Ento no fao tudo para ele ser feliz? S no quero que ele se envolva com nenhuma aventureira, que faa a escolha errada e 
venha a sofrer depois.
-No acredito que Marcela seja nenhuma aventureira, mas, ainda que fosse, Flvio tem o direito de fazer as escolhas erradas tambm.
-No se eu puder evitar.
-Voc est tentando evitar que ele viva a prpria vida, o que no  certo. E depois, a moa  muito direita e correta.
-Voc  quem diz, que  to tolo quanto ele.
-Sou tolo porque sou decente?
-Isso no tem nada a ver com decncia. Flvio vai trazer a moa para jantar, se ela for o que voc e ele esto dizendo, ningum tem com o que se preocupar. 
Darei o meu consentimento para que eles namorem e se casem.
-Primeiro: ainda que ela no seja o que pensamos, voc no tem o direito de fazer nada para interferir. Se ela for uma aventureira, como voc diz, cabe a 
Flvio descobrir e decidir se quer ou no ficar com ela. Segundo: voc no tem que dar o seu consentimento para nada. Flvio  um homem de quase trinta anos e no 
precisa da sua autorizao para se casar.
-Voc est me cansando, Justino. Por que no arranja uma mulher e me deixa em paz?
-Estou-lhe avisando, Dolores. Se fizer algo contra Marcela, vai se ver comigo.
-Vai me ameaar agora, ?
-No. Mas lembre-se de que sou capaz de destruir a imagem de me perfeita que voc empurra para o seu filho. A propsito, Nlson vai bem, no vai?
-Voc no se atreveria!
-Experimente.
Sem esperar resposta, Justino rodou nos calcanhares e foi embora, deixando Dolores entregue a uma fria quase incontrol-vel. Ela ficou andando de um lado para outro 
na sala, maldizendo o dia em que o ex-marido descobriu o caso que ela mantinha com Nlson. Talvez fosse melhor terminar tudo com ele. Se Flvio viesse a descobrir, 
ela podia inventar uma desculpa qualquer, uma aventura passageira. Sim, faria isso. Flvio ficaria indignado, mas acabaria entendendo. De toda sorte, ela j estava 
mesmo se cansando de Nlson, e j era hora de ele deix-la em paz.
Havia chegado a hora do casamento de Masa, e ela estava atrasada para entrar na igreja. Luciana chegou cedo. Era madrinha e foi colocar-se no altar, ao lado de
um primo de Masa, que faria par com ela como padrinho. Havia outros casais de ambos os lados, mas ela no lhes prestou ateno. Passou os olhos pela igreja, procurando 
por Ceclia, sem a encontrar. Avistou Marcela ao fundo, em companhia de um rapaz atraente, e sentiu uma pontada de alegria no corao. Gostava de Marcela e torcia 
para que ela fosse feliz. Se escolhera construir a sua vida ao lado de um homem agora, Luciana entendia e respeitava. O que importava era a sua felicidade.
O rgo comeou a tocar a Marcha Nupcial, e todos os olhares se voltaram para a entrada da nave, onde Masa despontou, linda, em seu vestido de noiva cintilante. 
A cerimnia transcorreu sem maiores problemas, e a posterior recepo ocorreria em um clube prximo, onde os noivos receberiam os cumprimentos.
J no clube, Luciana foi sentar-se a uma mesa com antigos colegas de faculdade e ficou observando o movimento dos convidados. As pessoas chegavam e iam-se espalhando 
pelas mesas, mas ela no via quem procurava. At que Marcela chegou em companhia de Flvio, e Luciana olhou-a com admirao. Ela estava muito atraente. Nunca a vira 
to bonita, num vestido altamente feminino, usando uma maquiagem luminosa que lhe
assentava to bem. Seu rosto irradiava felicidade, e Luciana no conseguiu conter o impulso. Levantou-se de sua mesa e foi direto para o lugar onde Marcela e o namorado 
haviam-se sentado.
-Oi, Marcela - cumprimentou Luciana, beijando-a amigavelmente nas faces. - Como tem passado?
Marcela levou um susto. Por mais que tivesse esperado encontr-la ali, v-la parada diante dela, sentir os seus lbios em seu rosto deixou-a confusa e transtornada. 
Luciana estava muito bem, e Marcela tambm no se lembrava de t-la visto to linda como naquele dia. Luciana sempre usava roupas femininas, maquiava-se e pintava 
as unhas. Mas aquele vestido azul-celeste que usava a deixava simplesmente deslumbrante, e Marcela pensou que no poderia existir, no mundo, mulher mais bonita do 
que Luciana.
-No me apresenta ao seu namorado? - continuou ela, agora em dvida sobre se tomara a deciso mais acertada ao ir procurar a outra.
-Este  Flvio - apresentou Marcela, maquinalmente. - Flvio, esta  Luciana, uma amiga.
-Velha amiga - acrescentou ela, estendendo a mo para ele.
-Muito prazer - cumprimentou Flvio, apertando sua mo. - No quer se sentar conosco?
Para surpresa e temor de Marcela, Luciana aceitou o convite e se sentou ao lado deles. Naquele momento, olhando para ela, Marcela notou o quanto era importante que 
Flvio jamais descobrisse a verdade sobre as duas. Achara Luciana linda, maravilhosa, estonteante. Mas, estranhamente, no sentia mais por aquela beleza nada alm 
de uma profunda admirao. Fixando bem o seu rosto e o seu corpo, Marcela descobriu que no tinha mais nenhum desejo por ela, e seu corao, ao palpitar dentro do 
peito, alertou-a da possvel tragdia que seria se Flvio viesse a saber que ela e Luciana, um dia, haviam sido amantes.
Marcela no conseguia dizer nada. Estava atnita e amedrontada. Desde que conhecera Flvio e se envolvera com ele, temia que ele descobrisse que ela fora lsbica 
e a desprezasse por isso. No entanto, seu temor nunca fora to intenso como o que agora sentia. Pensava que, ao ver Luciana, fosse sentir um baque no corao, e 
toda aquela louca paixo retornaria e desabaria sobre
ela como uma avalanche. No entanto, Luciana agora lhe causava admirao, mas no lhe despertava mais nenhum sentimento de amor ou de paixo.
-Voc no diz nada? - era a voz de Flvio, que parecia soar ao longe, como num sonho.
-Eu... - balbuciou ela, tentando encontrar o que dizer - quero ir ao toalete. Voc me acompanha, Luciana?
-Claro.
As duas se levantaram, e Marcela conduziu Luciana para um canto no jardim, fora do salo de festas, onde ningum as podia ver. Por uns instantes, Luciana pensou 
que ela fosse tentar beij-la ou comear a chorar, mas Marcela no fez nada disso. Agarrou a outra pelos braos e comeou a suplicar de forma atropelada:
-Pelo amor de Deus, Luciana, no diga nada ao Flvio. Ele no pode saber! Nunca poder descobrir!
-Ei! Calma. Saber o qu? Descobrir o qu?
-Estou apaixonada por ele... realmente apaixonada...
-Puxa, Marcela, isso  muito bom. Fico feliz por voc.
-Mas ele no pode saber! No vai compreender e vai me abandonar.
Pela carga de temor em suas palavras, Luciana comeava a entender aquilo a que ela estava se referindo. Marcela era uma moa fraca e medrosa, sempre tentando esconder 
de todos sua condio de lsbica. Antes, quando saam juntas, nunca deixava que a tocasse, ainda que de forma inocente, porque Luciana tambm no era dada a cenas 
em pblico. E agora, seu medo dobrava de intensidade, porque no queria que o namorado descobrisse o que ela era ou fora.
-Voc no contou a ele sobre ns? - perguntou Luciana.
-Eu!? De jeito nenhum! Flvio no vai entender, ningum entende.
-Como  que voc sabe? Ele me pareceu bem simptico.
-Voc no o conhece. A famlia dele  superconservadora. Ele  mdico, o pai  dono de uma clnica ortopdica. Acha que eles vo aceitar uma coisa dessas?
-No acha que est exagerando? Afinal, voc no fez nada demais.
-Nada demais? Ns duas fazamos amor, Luciana! Isso no  nada demais?
-Na poca, voc me pareceu bem  vontade.
-Mas isso foi antes. Agora, no posso.
-Voc o ama realmente, Marcela?
-Amo. Sei que pode parecer estranho, mas amo Flvio desde o primeiro dia em que o vi... naquele hospital.
-Vocs se conheceram no hospital?
Marcela balanou a cabea e esclareceu:
-Foi ele que me atendeu naquele dia... em que fiz aquela loucura.
-Entendo. E voc no lhe contou por que tentou se matar?
-Como poderia? Ele demonstrou interesse por mim desde o comeo. Pensa que eu fiz aquilo por causa de um ex-namorado, e eu fui deixando que acreditasse nisso, 
at o estimulei a crer nessa verso. No sei como ele no descobriu... No soube do seu retrato, Lu. Lembro-me de ter agarrado o seu retrato quando comecei a me 
sentir sonolenta. Ele deve ter cado no cho.
-No caiu. Foi Masa quem o encontrou e o retirou das suas mos.
-Masa? Quer dizer ento que foi ela que me socorreu?
-Foi, sim. Naquele dia, quando sa de casa, fiquei preocupada com voc e pedi a Masa para dar um pulo l. Foi sorte, porque ela chegou bem a tempo de chamar 
os mdicos, e voc foi salva.
-Por que ela no me disse nada?
-Sabe como  a Masa: morre de medo de complicaes com a polcia. Quando ela viu voc e o vidro de remdios ao lado, ligou para a emergncia, tirou o retrato 
das suas mos e foi embora.
-Masa... S agora descobri quem me salvou. Ningum sabia de nada. Preciso agradecer a ela. Foi graas a ela que pude conhecer o Flvio.
-Voc pode fazer isso depois. No momento, o que me preocupa  esse seu medo de que seu namorado descubra sobre ns.
-Olhe, Luciana, no quero que voc fique chateada por causa do Flvio. Eu realmente amei muito voc e quase morri por sua causa.
-Eu no estou chateada. Quando sa, expliquei-lhe direitinho
o que estava sentindo. Gosto de voc como uma irm e quero a sua felicidade. Se Flvio  a pessoa que voc escolheu para faz-la feliz, se voc o ama de verdade, 
ento, fico feliz tambm.
-Obrigada - tornou ela, olhos midos de emoo. - Tambm gosto muito de voc, embora de uma forma diferente agora.
-Creio que ns duas desenvolvemos um amor mais sublime, no foi? - Marcela assentiu. - Isso  muito bonito, e eu estou realmente contente. No queria que 
voc ficasse magoada ou com raiva de mim.
-Por que no me procurou?
-Tive medo de que voc no compreendesse o meu interesse e voltasse a sofrer. Mas tive notcias suas o tempo todo. Breno conseguiu descobrir o hospital em 
que voc estava, e eu sempre ligava. At mandei flores.
- verdade. Guardo o cartozinho at hoje.
-Podemos ser amigas daqui para a frente, Marcela. E  como amiga que vou lhe dar um conselho: no inicie um relacionamento na mentira...
-Eu no minto para o Flvio.
-Mas est escondendo dele algo que pode ser importante para o futuro de vocs dois.
-Sim, pode ser importante. To importante que ele vai terminar comigo se souber.
-No vai.
-Como  que voc pode saber? Voc nem o conhece.
-A melhor coisa  sermos francos. Se disser a verdade e ele a amar, ainda que no a compreenda de imediato, vai refletir e acabar aceitando. Afinal, o que 
importa  o amor de vocs dois no presente.
-No posso correr esse risco. Tem idia do que eu sofri quando voc me deixou? - No esperou resposta e foi logo dizendo: - Sofri tanto que queria morrer... 
Por am-la demais. Depois, conheci Flvio e tudo se transformou. Penso que o amo como jamais amei voc. No digo isso por despeito nem para que voc fique chateada. 
Digo porque  a verdade. Vim aqui hoje, no s porque gosto de Masa, mas para fazer um teste comigo mesma. Queria encontrar voc para ver o que sentia.
-E...?
-Achei-a linda, maravilhosa, a mulher mais deslumbrante do mundo. Mas no  para mim. S o que senti foi admirao e uma certa emoo por rev-la aps quase 
quatro meses. Afinal, fizemos uma histria juntas.
- isso mesmo, temos uma histria. Uma histria que voc quer negar e apagar. Ningum apaga o passado. Precisamos aceit-lo como ele foi, porque no podemos 
mais modific-lo.  com as experincias do passado que precisamos viver no presente e construir o futuro.
-No estou negando o passado. Apenas no quero que ele venha  tona.
-Quanto tempo acha que vai conseguir esconder isso de Flvio? E se ele descobrir por outra pessoa?
-As nicas pessoas que sabem de ns so voc, Masa e Breno.
-Nenhum de ns vai contar, com certeza. Ainda assim, ele pode descobrir.
-Como? De que jeito?
-No sei... Uma carta, uma foto, sei l.
-Vou me desfazer de tudo. Se voc quiser, envio para voc.
-No  esse o problema, Marcela,  a mentira. No seria mais honesto lhe contar a verdade?
-Honesto, seria. Mas eu no posso, no tenho coragem. No vou me arriscar a perder tudo novamente.
-Pense bem. Ningum constri uma vida feliz sobre a mentira. Voc vai perder a paz e o sossego, sempre com medo de que ele venha a descobrir. E a desconfiana? 
Qualquer coisa, vai achar que ele descobriu.
-No  bem assim. Pretendo esquecer esse assunto. Nosso relacionamento morre hoje aqui conosco. De agora em diante, agiremos como se sempre tivssemos sido 
amigas.
Luciana ia retrucar, mas uma voz de homem interrompeu a conversa, fazendo com que ambas se sobressaltassem:
-H, h! A esto vocs! Posso saber por que tanto segredinho?
Marcela afastou-se de Luciana e apertou Flvio de encontro
ao peito, para que ele no visse as pequenas lgrimas que tinha presas nos olhos.
-No estamos de segredinho - justificou Marcela. -  que Luciana tinha algo a me contar. Algo particular.
-Sei... Bem, isso no  problema meu. Vocs so amigas, e eu no posso me interpor entre a sua amizade. Mas agora podemos voltar?
-Podemos.
-No vem conosco, Luciana?
-Vo indo. Vou depois.
Eles se afastaram, e Luciana ficou olhando-os pensativa. O que Marcela estava fazendo era uma loucura inconseqente, mas ela no tinha o direito de interferir. Se 
fosse ela, teria contado a Flvio na primeira oportunidade, mas Marcela no pensava assim. Era medrosa, to medrosa que preferia arriscar-se numa mentira a revelar 
a verdade. Flvio no a deixaria. Ele parecia apaixonado e acabaria entendendo. No fora compreensivo ao pensar que ela tentara o suicdio por causa de um ex-namorado? 
Por que no demonstraria a mesma compreenso ao saber que o ex-namorado no era namorado, mas namorada? Que diferena havia se a pessoa se apaixonava por um homem 
ou uma mulher? Ela mesma, por mais que s gostasse de mulheres, no teria nenhum problema em manter um relacionamento com um homem se, porventura, se apaixonasse 
por ele. Mas a primeira coisa que faria seria lhe
contar a verdade, quer ele a aceitasse, quer no.
* * *
De volta  festa, Luciana viu Marcela conversando a ss com Masa e deduziu que ela deveria estar agradecendo por ter-lhe salvado a vida. A conversa terminou rapidamente, 
e ela voltou para junto de Flvio, que havia ido buscar algumas bebidas. Luciana estava chateada e sem vontade de conversar, por isso evitou a mesa dos amigos. Apanhou 
uma taa de champanha e saiu de novo para o jardim. Havia uma piscina ao fundo, e ela se debruou sobre a grade que a separava da rea da festa, bebendo sua champanha 
em silncio. Passado algum tempo, ouviu passos na
grama, e a sombra de uma mulher se aproximou. Luciana pensou que Marcela havia voltado e se virou, sentindo o corao disparar involuntariamente, ao ver a moa que 
se aproximava.
-Est se escondendo aqui? - perguntou Ceclia, caminhando para perto dela.
-No... Vim aqui para pensar. E voc? Chegou agora?
-Nesse instante.
-No a vi na igreja.
-Ah! No tenho pacincia para sermo de padre. Acho casamento religioso uma chatice.
Luciana no aprovou o comentrio, mas no disse nada. Ceclia ainda era jovem e no devia compreender aquelas coisas.
-Veio sozinha? - tornou Luciana, fixando nela o olhar.
-Vim.
-E o namorado?
-No tenho namorado.
-No acredito! Uma garota linda feito voc!
-Voc tambm  linda e no parece ter ningum.
Pela primeira vez, Luciana corou. Havia, nas palavras de Ceclia, uma segunda inteno que ela podia claramente perceber, embora temesse acreditar que era o que 
ela pensava que deveria ser.
-No tenho tempo para namoros.
-Por qu? Voc j tem consultrio montado, s trabalha  tarde e no tem uma agenda cheia de compromissos.
-No estou interessada em ningum.
-No? Que pena!
O olhar de Ceclia, seus lbios carnudos e midos pareciam convidar Luciana para um beijo, mas ela se conteve. Embora a conversa da moa soasse comprometedora, Luciana 
tinha medo de estar enganada e assust-la. Alm disso, no descartava a possibilidade de que Ceclia j houvesse percebido a sua preferncia e estivesse simplesmente 
brincando com ela, para depois rejeit-la como se nada houvesse notado.
Contudo, no podia deixar passar aquela oportunidade. Esperara por Ceclia a noite toda e, agora que ela estava ali, tinha que arranjar um meio de no permitir que 
se fosse.
-Bom... - divagou com cautela - talvez esteja interessada em algum, afinal.
- mesmo? Em quem? Por acaso ele est na festa? - Ela no respondeu. - Ou ser que no  ele?
-Por que diz isso? - redarguiu Luciana calmamente.
-Por nada. Brincadeira.
-E voc? Est interessada em algum daqui?
-No sei. Pode ser.
-Pode ser? E em quem seria?
-Estamos fazendo um jogo de adivinhao?
-No estou fazendo jogo nenhum. Posso ser clara e objetiva, mas o respeito me aconselha cautela.
-Por que? A quem estaria desrespeitando?
-A voc, talvez.
-A mim? Por qu?
-Ser que voc no sabe? - ela meneou a cabea, olhando para Luciana com um olhar divertido. - Se no sabe nem desconfia, ento  melhor eu me calar.
-Pode dizer.
Luciana j estava ficando cheia daquela brincadeira e revidou friamente:
-No tenho nada a dizer.
-No acredito. Voc tem algo a me falar, mas lhe falta coragem.
-Engana-se, Ceclia. O que me falta  colocar de lado o fato de que voc trabalha para mim e no posso correr o risco de perder uma boa assistente. Nem quero 
que voc saia por a dizendo que eu no a respeitei e me aproveitei da minha condio de patroa para... - calou-se abruptamente, fitando a outra nos olhos.
-Para qu?
Em vez de responder, Luciana puxou Ceclia para si e beijou-a nos lbios, com insegurana e medo de que ela a repelisse. Ceclia, no entanto, no fez nada disso,
correspondeu ao beijo com ardor e comeou a acariciar Luciana.
-Vamos para o meu apartamento - sugeriu Luciana, soprando em seu ouvido.
As duas saram rapidamente. Luciana s se despediu de Masa e Breno, que olharam para Ceclia de soslaio e sorriram, j sabendo do que se tratava.
-Olhe l, hein? - brincou Masa. - No v me fazer perder a secretria.
Luciana piscou para ela e saiu com Ceclia. Da porta do salo, ainda teve tempo de dar uma ltima espiada em Marcela, que danava com Flvio e nada percebera. Foram 
para o apartamento de Masa, que agora estava vazio, e amaram-se por toda a noite. Ao final, Luciana estava saciada e feliz, e Ceclia parecia assustada e insegura.
-Tudo bem? - perguntou Luciana, alisando os cabelos dela.
-Tudo...
-Ento, por que essa carinha?
- que nunca fiz isso antes. Voc foi minha primeira experincia.
-E...?
-Foi maravilhoso! Imagine s! Eu, que sempre acreditei em prncipe encantado, namorando outra mulher!
-Espere um momento. Quem foi que disse que ns estamos namorando?
-E no estamos?
-Olhe, Ceclia, no quero magoar voc, mas no posso mentir. No estou querendo me envolver com ningum por enquanto.
-Mas... e ns? E o que aconteceu?
-Tambm achei maravilhoso e podemos repetir. Mas sem compromissos.
-Como assim?
-Voc ainda  a minha secretria, e eu sou sua chefe. No gostaria que voc misturasse as coisas.
-Fica difcil. Depois do que houve esta noite, no posso mais ver voc somente como chefe.
-Lamento, mas tem que ser assim. Do contrrio, nossa relao no trabalho vai acabar se tornando insustentvel.
-E voc vai me despedir, no ?
-No foi isso que eu disse. S no quero que esse nosso relacionamento atrapalhe suas obrigaes no trabalho. Voc no  minha namorada;  minha secretria.
-Mas como espera que eu me porte com voc depois desta noite? No posso fingir que no houve nada.
-Na frente de Masa e dos clientes, aja com naturalidade, como se nunca tivesse havido nada mesmo. Quando estivermos a ss, podemos nos comportar de maneira 
mais ntima.
-No entendo. Voc diz que no quer me namorar, mas podemos ter intimidades?
-Podemos ter um relacionamento, se voc quiser. Eu quero. Gosto de voc, acho-a linda e inteligente, mas no quero nenhum compromisso srio. Passei oito 
anos da minha vida ao lado de uma pessoa e agora no quero me prender a ningum.
-Que pessoa? Uma mulher?
-No interessa.
-Diga-me apenas se foi com uma mulher.
-Sim, foi com uma mulher, e no pretendo me envolver com outra to cedo.
-Mas, e se eu me apaixonar por voc? E se voc se apaixonar por mim?
-Se isso acontecer, aconteceu. Ningum pode mandar no corao. Mas quero que fique bem claro que entre ns no h nenhum compromisso. Se voc no quiser 
aceitar assim, eu compreendo. Essa noite foi tima, mas, a partir de amanh, tudo pode voltar a ser como antes e podemos agir como se nada tivesse acontecido.
Naquele momento, uma raiva imensurvel se apossou de Ceclia, que teria mandado Luciana para o inferno, no fosse o interesse que a movia. Desde que comeara a trabalhar, 
tinha certeza de que Luciana era lsbica, pelo seu comportamento e pelos olhares discretos que lhe lanava. Estava na cara que Luciana a admirava, e ela comeou 
a arquitetar o seu plano.
O consultrio estava indo muito bem, e o dinheiro entrava em quantidade. Fazia um ms que ela estava trabalhando l, e logo na primeira semana teve aquela idia 
brilhante. Luciana parecia uma mulher dura e meio rebelde, o que Ceclia atribuiu ao fato de ela ser lsbica num mundo masculino cheio de preconceitos. E era solitria 
tambm. Ela no sabia da existncia de outra na vida de Luciana e pensava que ela vivia sozinha por medo de se expor. Agora, contudo, via que a solido de Luciana 
era deliberada, e ela no tinha ningum porque no queria se envolver.
Aquilo atrapalharia seus planos. Ceclia estava disposta a conquistar o corao, a confiana e a carteira de Luciana. Se ela se apaixonasse, tinha certeza de que 
tudo lhe daria para torn-la
feliz. E Ceclia queria uma vida fcil. Estava trabalhando e era ambiciosa, mas no pretendia seguir carreira como secretria. Aquilo no tinha futuro. S arranjara 
aquele emprego porque o pai exigira, ameaando coloc-la para fora de casa, se ela no colaborasse com as despesas. Mas no queria trabalhar. Queria algum que a 
sustentasse e precisava se empenhar para alcanar o seu intento.
Quando aceitou aquele emprego, no imaginava que estaria ali a chance que procurava. A princpio, concordou com o trabalho porque precisava do dinheiro e o salrio 
era bom. Mentiu para as donas do consultrio, fazendo-as crer que o mais importante era estar empregada, e esforou-se o mximo que pde para aprender aquele ofcio 
chato e maante. Aprendeu a tirar radiografias e preparar massas e injees, embora tivesse horror a tudo aquilo e visasse apenas o dinheiro.
Logo nos primeiros dias, percebeu o interesse de Luciana. Por mais que ela tentasse disfarar, Ceclia conhecia muito bem aqueles olhares. Estava acostumada a ser 
assediada pelos rapazes e, embora nunca antes houvesse se envolvido com uma mulher, as reaes no eram muito diferentes. O desejo falava igual nas pessoas de qualquer 
sexo e qualquer preferncia. No comeo, estranhou a idia de se entregar a outra mulher e precisou de um tempo at se acostumar, mas o casamento de Masa pareceu 
uma boa oportunidade para experimentar sua nova forma de seduo.
Deu certo. Contando com o interesse de Luciana, que fatalmente estaria esperando que ela comparecesse  festa, Ceclia se atrasou de propsito. No gostava mesmo
de cerimnia religiosa e dispensou-a, s aparecendo na recepo bem mais tarde, quando achou que Luciana j devia ter perdido as esperanas de que ela fosse. Dito
e feito. Luciana estava sozinha e triste, e demonstrou uma alegria contagiante logo que a viu. Dali para o sexo, foi um pulo. Ceclia usou com Luciana as mesmas
manhas que utilizava quando queria envolver algum homem, e ela caiu feito um patinho. Na hora do beijo, pensou que fosse desistir, mas at que gostou e correspondeu 
sem maiores problemas.
Tudo estava saindo muito mais fcil do que ela imaginava. O nico problema era que Luciana no queria se envolver, e ela
precisava fazer com que Luciana se apaixonasse por ela. Mas como? Precisava ser esperta e agir com calma, ou a outra se afastaria dela e ainda a dispensaria do emprego. 
Ao contrrio do que ela imaginara, Luciana era uma mulher segura e decidida, e no uma lsbica solitria e amarga, pronta para cair nos braos de qualquer uma que 
lhe desse ateno e lhe saciasse o desejo.
Pensando nisso, Ceclia engoliu a raiva e retrucou com aparente docilidade:
-Acho que voc tem razo, Luciana. Um envolvimento no seria bom para nenhuma de ns. Ns temos uma relao de trabalho que poderia ficar abalada se nos 
envolvssemos emo-cionalmente. E eu preciso do emprego.
-Fico feliz que pense assim. Tambm preciso da secretria, e voc  muito boa no que faz.
Luciana encerrou a conversa com um beijo e foi tomar banho, deixando Ceclia remoendo a raiva.
Na segunda-feira, quando Luciana chegou ao consultrio, cumprimentou Ceclia formalmente, porque havia um cliente na sala de espera. Masa viajara em lua de mel 
e s retornaria dali a quinze dias, de forma que ela estava sozinha, atendendo inclusive alguns pacientes de Masa com casos mais urgentes.
No fim do dia, depois que todos os clientes haviam sado, Ceclia comeou a arrumar a mesa, guardando fichas e somando os cheques, e Luciana se aproximou. Ceclia 
no queria parecer ansiosa e limitou-se a olh-la, contendo a ansiedade. Se demonstrasse excessivo interesse, Luciana logo se cansaria dela, e era por isso que precisava 
se fazer de difcil.
-Deseja alguma coisa, Luciana? - perguntou ela, de forma estudadamente profissional.
Luciana no respondeu. Puxou-a para si e amou-a ali mesmo, no sof da sala de espera, para regozijo de Ceclia. Efetivamente, aquele era o caminho certo. Luciana 
no gostava de mulheres carentes nem que se apegassem a ela, e Ceclia estava disposta a fazer o papel de desligada e desinteressada.
Ao final, Luciana se levantou e comeou a se vestir, falando com satisfao:
-Voc  maravilhosa, Ceclia. Sabia que no me enganaria com voc.
-Gosto muito de voc, Luciana, mas cheguei  concluso de que tambm no quero me envolver. Ainda sou muito nova, quero experimentar outras coisas na vida.
Com uma expresso indefinvel no olhar, Luciana considerou:
-Fez uma opo segura e sensata, mas tenha cuidado com o que vai experimentar.
No esperou resposta. Atirou um beijo no ar, apanhou a bolsa e saiu em direo ao ponto de nibus. Precisava comprar um carro, mas primeiro tinha que pensar no apartamento. 
Masa se mudara, e o proprietrio no queria alugar para ela. Dera-lhe um prazo de noventa dias para que ela se mudasse, tempo mais do que suficiente para encontrar 
outro lugar.
No consultrio, Ceclia exultava. Tinha certeza de que Luciana sara com os pensamentos voltados para ela, embora com medo de assumir. No sabia, sequer imaginava, 
que Luciana deixara de pensar nela assim que cruzara a porta da rua, os pensamentos tomados por coisas prticas que requeriam a sua ateno.
***
De tanto Dolores insistir, Flvio acabou por concordar em levar Marcela a um almoo em sua casa, no sbado seguinte ao casamento de Masa. Marcela estava insegura,
sem saber como se portar diante de uma mulher to distinta e requintada.
-Voc no tem que se preocupar com nada - tranqilizou Flvio. - Mame pode parecer meio austera a princpio, mas no  nenhuma megera.
-No  isso... - argumentou Marcela. -  que nunca me vi numa situao como essa antes.
-Que situao? De conhecer a me do namorado?
Ela ficou confusa e terminou por gaguejar:
-... isto , assim, to de repente.
-No  de repente. J estamos juntos h quatro meses, e pretendo assumir um compromisso formal com voc - notando o seu embarao, ele emendou: - Voc no
quer?
-Quero...
-Voc no me parece muito segura. Ser que no me ama?
-Amo...
-Se me ama, do que tem medo?
-De nada... Na verdade, tenho medo do meu passado...
Aquele era um terreno espinhoso, e Marcela temia acabar
revelando mais do que deveria. O que diria a me de Flvio se soubesse que ela tentara se matar por causa de outra mulher? Era preciso ocultar a verdade a qualquer
preo.
-Se voc est com medo de que mame saiba que voc tentou suicdio por causa de um ex-namorado, no precisa se preocupar. Ela no sabe de nada e, se depender
de mim, nunca vai saber.
-Voc no lhe contou?
-No. Por que contaria? Minha me no tem nada com a minha vida ou a sua, e no sou homem de ficar dando explicaes. Nem ela, nem meu pai sabem dessa particularidade
da sua vida.
-Obrigada, Flvio - murmurou ela aliviada. - Eu no saberia o que dizer se ela descobrisse a verdade.
-Voc no precisa dizer nada. No por vergonha ou medo, mas porque a sua vida s a voc diz respeito. Voc no  obrigada a revelar a sua vida a ningum.
O seu passado s a voc pertence.
-Voc acha mesmo isso? - admirou-se Marcela.
- claro que acho.
-No gostaria de conhecer o meu passado?
-J sei de tudo o que interessa. O que voc fez antes de me conhecer no  da minha conta. Se dormiu com um, dois ou dez homens, no  problema meu.
Marcela no disse nada. Ele parecia muito honesto no que dizia, ainda mais porque pensava, realmente, que ela tivera outro homem antes dele. Mas o que diria se sua
paixo anterior no fosse por um homem, mas por outra mulher? De qualquer forma, no iria lhe dizer. No at ter certeza de que ele entenderia e no a julgaria nem
condenaria.
***
Quando sbado chegou, fazia um dia de muito sol e cu azul, e Flvio foi buscar Marcela por volta das onze horas. Ela estava muito bonita num vestido branco florido,
e ele a elogiou vrias vezes. A prpria Marcela se envaidecia de sua recm-descoberta feminilidade e tudo fazia para agrad-lo e deix-lo impressionado com a sua
beleza.
Chegaram  casa de Flvio s onze e meia, e Dolores estava sentada na varanda dos fundos, bebendo um refresco,  sua espera. Quando eles entraram, ela se levantou
e estendeu a mo para Marcela, dizendo com uma cordialidade estudada e falsa:
-Mas ento,  voc a Marcela. Agora entendo por que Flvio ficou to impressionado com voc.
O rosto de Marcela ardia profundamente, mas ela conseguiu se controlar e apertou a mo de Dolores.
-Muito prazer em conhec-la, dona Dolores. Flvio fala muito bem da senhora.
-Isso no me surpreende. Tenho um filho maravilhoso e espero que ele esteja me arranjando uma nora  altura.
-Deixe disso, mame - cortou Flvio, notando o constrangimento de Marcela.
-No seja implicante - repreendeu ela. - Marcela e eu vamos ser muito amigas, no  Marcela?
-Vamos... - respondeu Marcela hesitante.
-Viu s? Por isso, no me amole. Tenho certeza de que ela corresponde bem s minhas expectativas de me e no vai me decepcionar.
Para desfazer o mal-estar, Flvio tomou Marcela pela mo e desceu com ela os trs degraus que dariam no jardim.
-Vou mostrar a casa a Marcela - avisou  me. - Voltaremos na hora do almoo.
Dolores pensou em protestar, mas tinha que se controlar. Sua vontade era de desmascarar aquela caa-dotes ali mesmo, mas precisava agir com cautela. Flvio parecia
muito interessado na moa, e ela no podia trat-la mal. No entendia o que o filho vira naquela lambisgoia. Era bonita, de fato, mas beleza no era tudo, e Ariane
era ainda mais bonita e tinha mais classe. No sabia se era inteligente, mas devia ser, porque Flvio lhe dissera que ela era professora de portugus, formada em
literatura.
Pelo seu comportamento, parecia uma moa apagada e insegura, e acabaria dependendo de Flvio para tudo. Aquilo poderia ser uma vantagem, porque pessoas fracas eram
facilmente manipulveis, mas ela no tinha estilo. Era uma pobretona sem eira nem beira, no tinha bero nem educao. Tinha jeito de empregadinha e ar subalterno.
Bem se via que era de origem humilde, para no dizer inferior. E ela, Dolores Cndida Raposo, jamais permitiria que seu filho se casasse com uma gentinha feito ela.
No jardim, Marcela e Flvio passeavam de mos dadas, e a moa ia dizendo:
-Sua me no gostou de mim.
-Bobagem! Minha me  assim mesmo.
-Ela pensa que eu no sirvo para voc.
-Ela disse isso? Eu no ouvi.
-Dava para perceber pelo jeito dela.
-Impresso sua. Ela quer apenas conhec-la melhor, e  natural que se interesse pela mulher com quem vou me casar.
-Casar!?
-Eu no disse que queria assumir um compromisso srio?
-Mas voc no falou em casamento.
-Estou falando agora. Quer se casar comigo?
-Tenho medo...
-Voc no me ama?
-Amo.
-Tem certeza? - ela assentiu. - Certeza absoluta?
-Tenho...
-Ento, no h o que temer.
-Mas... e se sua me no me aceitar?
-Esquea minha me. Quem tem que aceit-la sou eu, no ela.
-E se ela descobrir o meu passado?
-De novo com essa histria de passado? Voc fala como se fosse uma criminosa ou algo parecido. J esteve presa?
-Deus me livre!
-Andou metida em algum seqestro, roubo ou prostituio?
- claro que no!
-Ento, isso de passado  tolice, e voc no devia voltar a essa histria. O seu passado no me interessa, j disse.
-Tem certeza? E se eu tiver feito algo que voc no aprove?
-O qu?
-Sei l... Ter vivido com outra mulher, por exemplo.
-Como  que ? - ele soltou uma gargalhada. - Mas que besteira! Desde quando voc  mulher de se envolver nessas esquisitices?
-Acha esquisitice?
-Ser lsbica? - ela aquiesceu. - Acho, sim. Mulher direita no se mete com esse tipo de gente.
-Voc  preconceituoso!
-No sei se sou preconceituoso. Olhe, Marcela, no sei por que estamos conversando sobre isso. No tem nada a ver com voc.
-Sei que no... Mas gostaria de saber o que voc pensa a respeito.
-Por qu?
-Por nada. Curiosidade, apenas. Voc  mdico, e no dizem que os mdicos no podem ter preconceito?
-No  bem assim. Se aparecer no meu consultrio uma lsbica ou um homossexual, vou atend-los normalmente. A vida  deles, e eu no tenho nada com isso. 
Minha funo  cuidar da vida e da sade das pessoas, e  o que pretendo fazer, independentemente da pessoa que precise de meus cuidados. Mas no entendo muito bem 
a escolha que essa gente faz e no gostaria de ningum na minha famlia envolvido com isso. Muito menos a mulher com quem vou-me casar. - Marcela engoliu em seco, 
decepcionada, e Flvio considerou: - Voc no tem nada a ver com isso, tem?
- claro que no! - mentiu ela, agora decidida a no deixar que ele descobrisse a verdade. - Deus me livre de ter relaes com uma mulher! Acho nojento.
Assim que terminou de dizer essas palavras, Marcela sentiu-se mal. Estava traindo um sentimento que a alimentara por oito anos, traindo a pessoa com quem dividira 
a sua vida por todo aquele tempo e lhe dera muito mais do que amor e amizade; traindo a si mesma, negando que fora feliz e se realizara ao lado de Luciana. Como 
podia agora se desfazer de tudo aquilo, falando coisas que no pensava ou sentia, apenas por medo de perder o homem por quem se julgava apaixonada?
Sua conscincia lhe dizia que aquele era o momento de revelar a Flvio toda a verdade. Talvez ele no fosse to preconceituoso, afinal. Se realmente a amasse, saberia 
entender aquele seu momento e no a julgaria ou criticaria pelo que fizera. Afinal, no fora ele mesmo quem dissera que o seu passado no lhe importava? Por outro 
lado, era o mesmo Flvio quem dizia que mulher direita no se metia com aquelas coisas, e no gostaria de se envolver com mulheres daquele tipo. Do mesmo tipo que 
ela era.
O medo a fez calar-se novamente. No negaria para si mesma
tudo o que vivera e sentira por Luciana, mas tambm no podia correr o risco de perder a pessoa que amava naquele momento. Luciana fora o grande amor de sua vida, 
mas o que ela agora sentia por Flvio ia crescendo a cada dia, e Marcela comeava a pensar que no poderia viver sem ele, assim como um dia achou que no conseguiria 
viver sem Luciana. S que Luciana fora passado. Flvio representava o presente e o futuro.
-Vamos voltar? - ela ouviu Flvio dizer, enquanto a puxava pela mo. - Estou vendo mame acenando da varanda.
Efetivamente, Dolores acenava para eles da porta, chamando-os para o almoo. Flvio foi conduzindo Marcela pela alameda do imenso jardim, e a conversa se perdeu
no ar. Apesar de achar estranho aquele assunto, Flvio no pensou mais nele. No tinha nada a ver com Marcela, e ele preferia nem imaginar que ela pudesse ter-se
envolvido com lsbicas.
-O almoo est servido - anunciou Dolores, logo que eles subiram os degraus da varanda. - No vamos deixar a comida esfriar, no  mesmo?
Os trs entraram na sala de jantar, e Dolores indicou o lugar em que Marcela deveria se sentar, do lado oposto de Flvio.
-O que temos para comer? - indagou Flvio, cheirando as travessas.
-Mandei fazer lagosta com salada de camaro - avisou Dolores. - Marcela me parece uma moa simples, e eu no queria fazer nada formal.
Lagosta? Marcela jamais comera lagosta em toda a sua vida. Nem sabia como retir-la da travessa e coloc-la no prato, mas Flvio no se deixou intimidar. Mandou 
que a servissem e cortou tudo para ela, sob o olhar malicioso da me.
-Marcela , realmente, uma moa de gostos simples, mame - esclareceu ele. - E ningum que  simples come lagosta. Por que no escolheu um prato menos complicado?
-Oh! Desculpe-me, querida. Pensei que voc estivesse acostumada e soubesse se servir.
Flvio fuzilou-a com o olhar, mas no respondeu. Parecia claro agora que a me estava se esforando para deixar Marcela
sem graa desde o comeo. No quis acreditar
achando que a insegurana de Marcela a fazia imaginar coisas, mas agora reconhecia que servir um prato de lagosta a uma pessoa como Marcela era, no mnimo, maldoso.
-Coma, meu bem - disse ele para Marcela, vendo que ela no se mexia. - Voc vai gostar.
Bem lentamente, Marcela levou o garfo  boca e experimentou a lagosta. Estava gostosa, mas ela temia fazer algo inapropriado e olhou para Flvio, pedindo socorro.
O olhar que ele lhe devolveu transmitiu-lhe tranqilidade, e ela acabou comendo tudo, lutando contra a vergonha e o embarao.
-Flvio me disse que o seu pai  padeiro - comentou Dolores, com aquele ar de mal disfarada malcia.
-Meu pai  dono de uma padaria, sim - confirmou Marcela.
-A vida de um padeiro deve ser emocionante! - ironizou ela, mordiscando a lagosta e evitando o olhar de censura do filho. - Levantar todo dia s quatro da
manh para fabricar todo tipo de po!
-No sei se  emocionante - respondeu Marcela, sentindo o rubor cobrindo-lhe as faces. - Mas  um trabalho digno, e meu pai se esforou muito para conseguir
o seu prprio negcio.
-Imagino que sim... - deu um risinho mordaz e prosseguiu: - H quanto tempo voc saiu de casa?
-Desde que vim estudar no Rio, h cerca de oito anos.
-E no tem visto os seus pais desde ento?
-No...
-Campos  muito longe, mame - intercedeu Flvio. - No d para ficar indo e vindo a toda hora.
-Ah! E a passagem de nibus deve ser muito cara tambm.
-Isso no nos interessa, no  mesmo? - era Flvio novamente.
-Nem um pouco! - disse Dolores. - Bem, voc veio para o Rio estudar letras, no  mesmo?
-Sim, senhora.
-E hoje d aulas.
-Dou. Numa escola normal.
- muito bom ter um emprego nos dias de hoje, no ? Quer dizer, ser professora  melhor do que estar desempregada.
-Marcela  professora concursada - defendeu Flvio. - E muito capaz.
-Imagino que sim. E deve ganhar bem.
-O suficiente para viver com uma certa tranqilidade - respondeu Marcela, cheia de orgulho.
-O que isso nos importa, me? - censurou Flvio. - Quanto Marcela ganha  problema dela.
Dolores ignorou o comentrio de Flvio e prosseguiu em tom inquisidor:
-Suponho que voc pretende deixar de trabalhar depois que se casar com meu filho.
-Quem foi que disse que vamos nos casar? - explodiu Flvio.
-No  para isso que esto namorando? Com certeza, os dois no tm mais idade para namoricos de passatempo. Flvio j vai fazer trinta anos, e voc no  
mais nenhuma garotinha.
-A idade de Marcela no  problema seu, mame - rebateu Flvio, bastante aborrecido. E, virando-se para a moa: - J terminou de comer?
Marcela aquiesceu e limpou os lbios no guardanapo, preparando-se para se levantar da mesa quando Dolores a impediu:
-Deixem de bobagens, vocs dois, e terminem de almoar.
-Voc est sendo grosseira, mame - afirmou Flvio. - Est me envergonhando na frente de Marcela.
-Estou? Perdoem-me, no era essa a minha inteno. Voc sabe como eu sou, Flvio, vou falando as coisas sem nem me dar conta. No sabia que estava ofendendo 
Marcela.
-No faz mal - contemporizou Marcela. - No foi nada.
-Viu s? Ela nem se aborreceu.
-Marcela s est sendo gentil, coisa que voc no .
-J pedi desculpas. No queria ofender ningum.
-Deixe para l, Flvio - disse Marcela. - Tenho certeza de que sua me no fez por mal. No vamos nos aborrecer por causa disso.
-Muito bem, Marcela. Voc  uma moa sensvel e sensata.
-Ento, vamos mudar de assunto - retrucou Flvio carrancudo.
A conversa mudou de rumo, e Dolores riu intimamente. No
podia perder a chance de humilhar a moa, ainda que no houvesse ningum para assistir. Contudo, precisava refrear a sua nsia de mostrar a Flvio que tipo de mulher 
era aquela, porque ele
acabaria se zangando, e sua atrao por ela aumentaria. Afinal, nada melhor do que uma mocinha desprotegida e carente para atrair a ateno de um homem firme e protetor 
feito Flvio. Mas sabia que precisava destruir aquele namoro. Jamais permitiria que seu filho estragasse a vida com uma professorinha de escola normal sem classe 
nem distino.
Como faria para separar aqueles dois? A moa viera de Campos e no via a famlia h anos. Por que sara de sua cidade e nunca mais retornara? Por que nem sequer 
mantinha contato com os pais? Uma moa que sai de casa cedo para viver numa cidade grande, na certa, no tem o apoio da famlia. Que pai permitiria que a filha solteira 
fosse morar sozinha no Rio de Janeiro? A no ser que a famlia no ligasse para ela. Ou ento, que ela tivesse fugido de casa.
Descobrir tudo sobre seu passado talvez fosse um caminho, mas Flvio no se deixaria impressionar por nada que se referisse  famlia de Marcela. Flvio no era 
de se importar com regras de etiqueta e linhagem, e 'se os pais de Marcela no fossem pessoas dignas ou honestas, ele no ligaria. Decididamente, encontrar segredos 
escabrosos dos pais da moa no serviria para nada. O que ela precisava era de algo na vida da prpria Marcela, algo que lhe dissesse respeito diretamente e chocasse 
ou desgostasse
o filho a tal ponto que ele nunca mais quisesse olhar para ela.
***
Enquanto isso, em casa de Ariane, a situao comeava a ficar insustentvel. Os pais viviam brigando, porque a me desconfiava que Nlson estivesse tendo um caso 
com algum. Os dois discutiam no quarto, mas a janela aberta facilitava que Ariane escutasse toda a conversa.
-No suporto mais isso! - afirmava Anita. - Voc no me d mais ateno, no me procura mais.
-Tenho andado ocupado - desculpou-se Nlson, sem a encarar.
-As coisas entre ns j no so mais as mesmas. Voc anda frio, distante... Tenho certeza de que arranjou outra mulher.
-Voc est imaginando coisas. No tenho tempo para mais ningum.
-No  verdade, eu sinto isso.
-Pare de me amolar, Anita. Tenho mais o que fazer.
Com ar irritado, Nlson virou-lhe as costas e saiu do quarto, deixando-a entregue a profunda tristeza. Havia algo de errado com o seu casamento, e Anita sabia o 
que era: ela. Desde o nascimento de seu ltimo filho, onze anos antes, ganhara peso e jamais conseguira se recuperar. De l para c, o interesse de Nlson foi minguando, 
at que, um dia, ele deixou de procur-la para o sexo, dando-lhe a certeza de que arranjara outra mulher.
Agora, ento, as coisas pareciam bem piores. Alm de frio, ele andava irritadio e mal-humorado, e no se preocupava mais em manter as aparncias. No a levava para 
jantar fora e s comparecia acompanhado s recepes e festas quando absolutamente necessrio. Sem contar que a situao financeira de ambos estava beirando a runa. 
Nlson no falava, mas ela tinha certeza de que a clnica no ia bem. Desde que Justino desfizera a sociedade, os negcios pareciam ir de mal a pior. Nlson era 
pssimo administrador, e ela ainda duvidava de suas habilidades mdicas.
De onde estava, Ariane percebeu a sada do pai e, chegando mais perto da janela, ouviu soluos abafados, deduzindo que a me estava chorando. Ainda pensou algumas 
vezes se deveria ou no ir ao seu quarto, at que decidiu ir. Aquela situao a incomodava, e ela no suportava mais ver a me naquele estado. Bateu de leve na porta, 
mas Anita no respondeu, e ela entrou lentamente.
-Me - chamou ela, tocando no ombro de Anita, que tinha o rosto afundado nos travesseiros. - Voc est bem?
Anita levantou a cabea, enxugou os olhos vermelhos e se levantou.
-Estou bem - respondeu fungando. - Acho que peguei um resfriado.
-Pare de se enganar, voc no tem resfriado algum. Brigou com papai de novo, no foi?
-Seu pai est diferente...
-Por que diz isso?
-No  possvel que voc no note como ele me trata - ela no respondeu. - Ele no me quer mais, sinto isso.
-Por qu?
-E eu  que sei?
A ltima coisa que Ariane queria era magoar a me, mas aquilo j estava indo longe demais. Algum precisava despert-la para a realidade, e era isso que ela acabaria
fazendo:
-Ser que posso lhe falar uma coisa, me? Com toda a sinceridade?
-O que ?
-Voc no vai me levar a mal nem ficar chateada?
-No. O que ? Pode dizer.
-No quero que voc se magoe... mas voc sabe como as mulheres vivem se cuidando hoje em dia...
-J sei! - interrompeu ela, entre aborrecida e magoada. - Vai me dizer que eu estou gorda, no ?
-No foi isso o que eu quis dizer.
-Foi isso, sim. Voc acha que seu pai perdeu o interesse em mim porque eu engordei. Mas o que eu posso fazer? Tive quatro filhos... Isso no  para qualquer 
uma.
- claro que no, e eu entendo. No estou dizendo que voc teve culpa de engordar. Mas voc pode tentar emagrecer...
-Eu no consigo! J tentei de tudo, tomei remdios, fiz ginstica, experimentei dietas milagrosas. Nada deu certo. E depois, pensei que seu pai me amasse 
de qualquer jeito.
-Me, no  bem assim...
-Tem razo, no  mesmo. Se seu pai realmente me amasse, no se importaria com isso. Mas o fato  que ele no me ama. Casou-se comigo porque eu era jovem, 
rica e linda. Mas depois que os filhos vieram, e meu corpo se modificou, ele logo, logo, tratou de me trocar por alguma garota.
-Voc no sabe se isso  verdade.
-S pode ser. Voc mesma acha que eu estou horrvel!
-Eu no disse isso.
-Mas foi o que quis dizer.
-Eu s acho que, se voc no fizer alguma coisa, vai acabar perdendo o papai.
-Era s o que me faltava! Minha prpria filha contra mim.
-No estou contra voc. Ao contrrio, quero ajud-la a conservar o seu casamento.
-E s conseguirei isso se emagrecer?
-No sei. Mas talvez ajude.
-Est tudo errado - lamentou Anita, recomeando a chorar. - Eu sempre achei que o amor estivesse acima dessas coisas. Amor  algo que vem do corao, no 
do corpo. Se a aparncia fsica  tudo o que importa, ento, no h amor.
-No  que papai no a ame. Ele deve apenas estar chateado porque a mulher dele ficou gorda e relaxada. Voc j viu como as mulheres dos outros so bonitas 
e bem cuidadas? Voc nem as unhas faz mais.
Anita olhou para a filha de boca aberta. Para ela, o amor independia da beleza fsica, mas a filha parecia pensar de outro jeito. O marido tambm pensava como Ariane. 
Todo mundo pensava. Por outro lado, a filha tinha razo. Sua aparncia estava horrvel. Os cabelos apresentavam vrios fios brancos que a tinta da farmcia no conseguia 
esconder. As unhas estavam lascadas e sem brilho. A pele oleosa e descuidada. As roupas, ento, pareciam coisa de velha. Olhando-se no espelho, Anita achou que aparentava 
bem mais do que os seus 44 anos.
- isso que tem importncia para voc? - retrucou ela, desanimada e triste.
-Aparncia pode no ser tudo, mas ajuda um bocado. Entre mulheres bonitas e inteligentes, os homens ficam com as bonitas.
-Mas est errado. E o carter, onde  que fica?
-Que carter, me? Desde quando mulher precisa disso?
-Ariane! - tornou ela, surpresa e embasbacada.
-Isso tudo  tolice - prosseguiu ela, ignorando o espanto da me. - Veja Dolores, por exemplo.  mais velha do que voc, mas parece infinitamente mais jovem. 
Est sempre indo a sales de beleza, faz massagem, tratamentos para a pele, tinge os cabelos.  uma mulher linda. No h quem no a admire.
Os valores de Ariane pareceram distorcidos para Anita, mas ela resolveu se calar. No tinha argumentos para rebater as argumentaes da filha. Podia dizer-lhe que 
nada daquilo era importante, que o que importava eram os valores morais e espirituais, mas ela no entenderia. Completamente aturdida, s o que conseguiu foi balbuciar:
-No reconheo voc...
Ariane no ouviu o seu comentrio e continuou falando, agora presa a outro assunto:
-E  por isso que vou-me casar com o filho dela. Ela me adora e faz muito gosto no meu casamento com Flvio. Agora, imagine s se eu fosse relaxada e descuidasse
da aparncia. Flvio nem olharia para mim, e Dolores no ia me querer para nora.
-Voc e Flvio ainda esto namorando? - indagou Anita agora envolvida pelo novo assunto, sentindo-se at mesmo grata por no ter mais que ouvir as barbaridades
de Ariane.
-Estamos... Isto , mais ou menos.
-Como  que algum namora mais ou menos?
-Bom, Flvio anda meio arredio, sabe como .
-No, no sei. E quer que lhe diga? Acho que Flvio no gosta de voc.
-Gosta, sim.
-Se voc quer se iludir, o problema  seu. Mas a verdade  que ele no me parece nem um pouquinho interessado em voc.
-Voc no sabe de nada, me. Nem sai de casa! Como pode saber por quem Flvio se interessa?
-Posso no andar saindo muito ultimamente, mas sou mulher e entendo dessas coisas. Se Flvio gostasse de voc, viria v-la com freqncia. Mas ele nem sequer
a procura... nem telefona.
-Porque anda ocupado. E j que voc falou, vou aproveitar o sbado e ligar para ele.
Um tanto quanto aborrecida, Ariane saiu do quarto e foi telefonar para Flvio, deixando Anita sozinha. Depois que a filha saiu, ela se entregou novamente  reflexo.
Ariane podia estar com os valores distorcidos, mas no deixava de ter l a sua razo. Ela andava mesmo muito descuidada da aparncia, o que no era bom. J tentara
de tudo para emagrecer e no conseguira nenhum resultado significativo. Por causa disso, desistira e se entregara ao desnimo. Mas agora pensava melhor. Ser que
s porque estava gorda precisava se vestir feito uma bruxa? No seria melhor colocar uma roupa mais bonita, pentear os cabelos, pintar as unhas?
Talvez fosse uma boa idia para levantar o nimo. Do jeito que
ela estava, no podia mais ficar. O marido a ignorava, e os filhos tinham suas prprias vidas para cuidar. Huguinho, o mais novo, estava crescendo, e os outros dois
estudavam na Europa. Ariane logo se casaria e deixaria a casa materna. E ela? O que seria dela depois que eles se fossem, cada vez mais velha e mais gorda?
Precisava tomar uma atitude. No pelo marido nem pelos filhos, mas por ela mesma. O nico problema  que ainda no se resolvera. Faltavam-lhe nimo e coragem. Na
mente, a idia era excelente, mas coloc-la em prtica exigiria um pouco mais de esforo. Precisava
de um estmulo, um incentivo, mas no tinha nada.
***
Em seu quarto, Ariane desligava o telefone com fria. A criada lhe dissera que Flvio havia sado logo depois do almoo e ainda no voltara. Aonde teria ido? No
queria admitir, mas a me tinha razo. Flvio estava muito indiferente, no demonstrava o menor interesse por ela. Dolores lhe garantira que ele se casaria com ela,
mas o que estaria fazendo para conseguir isso? Pelo visto, nada. Ariane j no agentava mais esperar. Devia ter pedido para falar com Dolores, mas a raiva a fizera
desligar o telefone. Ia ligar de novo, contudo, mudou de idia. Iria pessoalmente falar com ela.
Dolores estava em casa e no se surpreendeu quando Ariane entrou com ar ansioso.
-Muito bem, Dolores - foi logo dizendo. - O que  que est acontecendo com Flvio?
-Em primeiro lugar, boa tarde - retrucou Dolores calmamente. - Em segundo, no sei do que voc est falando. No aconteceu nada com Flvio.
-Voc est querendo me enrolar? No me prometeu que Flvio se interessaria por mim? No  isso que est acontecendo.
Dolores soltou um suspiro desanimado e encarou Ariane. No adiantava mais lhe esconder nada. Depois de conhecer Marcela, tinha certeza de que o filho estava mesmo
disposto a se casar com ela. Era melhor contar a verdade a Ariane e tentar fazer com que ela a ajudasse.
-Voc tem razo - comeou a dizer, com um certo tom dramtico na voz. - Flvio no est mais interessado em voc. E, pelo visto, vai continuar assim, a no
ser que voc me ajude.
-Como?
-Flvio arranjou uma namorada. Uma professora pobre e sem classe, mas  por ela que ele se diz apaixonado.
-O qu!? Apaixonado por uma professorinha sem eira nem beira? No pode ser!
-E ela nem  assim to bonita, mas ele se tomou de amores pela moa. Quem  que vai entender?
-Ningum! Ningum pode entender. Voc me prometeu que Flvio seria meu. No pode simplesmente se desfazer de mim agora!
-Quem disse que quero me desfazer de voc? Se bem me lembro, acabei de lhe dizer que vou precisar da sua ajuda.
-Mas o que posso fazer? Seduzi-lo?
-Isso no vai adiantar. Marcela veio do interior e mora sozinha. J deve ser mulher, se  que voc me entende.
Ariane corou at as orelhas. Por mais que tivesse tentado, Flvio nunca quis fazer amor com ela.
-O nome dela  Marcela? - tornou, tentando disfarar a vergonha. - E voc diz que ela  mulher. Mas eu tambm sou mulher!
-Voc  uma menina mimada que nada sabe da vida. E creio que foi justamente isso que o atraiu nessa moa. Ela  independente, mas insegura, e deve ter um
passado, uma histria comovente que o sensibilizou e o aproximou dela. Os homens so uns tolos e se sentem atrados por mulheres que tm passado. Precisamos descobrir
o que .
Apesar de aborrecida com o comentrio sobre ela, Ariane ouvia atentamente o que Dolores dizia e indagou:
-Posso saber como faremos para descobrir isso?
-Pensei em procurar os pais dela, mas eles moram em Campos, e no estou disposta a me aventurar numa cidadezinha desconhecida. Podia contratar um detetive,
mas tambm no  garantido. Flvio pode descobrir, e a, podemos esquecer de vez. Ocorreu-me uma outra idia... - ela fitou Ariane em tom enigmtico.
-Que idia?
-Talvez seja melhor voc mudar de atitude e se aproximar dessa moa, travar amizade com ela.
-Eu!? Nem pensar! Vai parecer muito estranho, voc no acha? Num dia, estou apaixonada por Flvio. No outro, viro amiga da namorada dele.
-D um jeito de parecer natural. Eu  que no posso fazer amizade com ela. No vai convencer ningum.
-Mas como farei isso? No sei nada sobre ela.
-Vou descobrir onde ela trabalha, e voc tratar logo de agir.
-No sei, Dolores, isso no me agrada.
-Se no a agrada, pode esquecer. No tenho mais ningum com quem contar.
-Flvio vai desconfiar. Ele no  tolo.
-No precisa se preocupar com isso. Tenho tudo planejado. Voc vai conhecer a moa, mas sem ser por intermdio de Flvio. Vai fazer amizade com ela e vai
evitar encontrar-se com ele. Assim ter oportunidade de descobrir tudo a respeito dela.
-E se eu no conseguir?
-Se no conseguir, esquea. Flvio vai se casar com a professorinha e voc vai ficar a ver navios.
-No sei... Tenho medo de me delatar.
-Aja com naturalidade, e tudo vai dar certo. Ento? Vai ou no colaborar?
Durante alguns instantes, Ariane ficou pensativa, imaginando se conseguiria levar adiante aquele plano ousado. Contudo, estava desesperada. No queria perder Flvio
por nada no mundo.
-Supondo que eu concorde, quando daramos incio a esse plano?
-Assim que eu descobrir onde ela trabalha. Ento, aceita ou no?
-No sei.
-Voc tem que se decidir. Se ficar hesitante, vai perder a oportunidade, e Flvio se casar com a outra. Vamos, menina, no seja indecisa. Gosto de voc
porque  uma moa forte, segura e corajosa. No me decepcione agora!
Dolores sabia que aqueles elogios a incentivariam, e no estava errada. Para Ariane, seria a oportunidade de mostrar que ela no era nenhuma garotinha mimada e ingnua.
Tentando causar-lhe
admirao, Ariane estufou o peito, empinou o nariz e respondeu em tom altivo:
- Tem razo, Dolores. Sou uma mulher de fibra, no uma garota mimada e insegura. Aceito.
Estava resolvido. No dia seguinte se iniciaria o plano que colocaria em risco a felicidade e a vida de Flvio e Marcela.
***
A caminho do consultrio, Ceclia ia imaginando como fazer para arrancar algum dinheiro de Luciana e impressionar o namorado. Conhecera Gilberto no baile do clube
e queria muito lhe causar admirao. Precisava de um vestido novo e de uma sandlia que combinasse, mas no tinha dinheiro. A roupa que vira numa vitrina da cidade
era muito cara, e comprar a crdito no era uma boa idia. Os juros eram altos, e ela acabaria sem nada.
Trabalhou normalmente durante o dia, at que o ltimo paciente se foi. Depois de fechar o consultrio, seguiu para a casa de Luciana, como costumava fazer. Ela alugara
um novo apartamento e o estava decorando, e Ceclia se oferecera para ajudar. Depois que terminaram de pendurar uns quadros na sala, as duas se deitaram no sof,
exaustas, e logo estavam se amando. Ao final, foram para o banho, e Ceclia ia ensaboando as costas de Luciana, pensando que aquele seria o melhor momento para iniciar
a conversa:
-Vi um vestido lindo na vitrina hoje!
- mesmo? - retrucou Luciana, desinteressada. - De que cor?
-Vermelho. No acha que vermelho me cai bem?
-, cai.
-Pena que o meu dinheiro no deu para comprar.
- muito caro?
-Um pouco.
Era agora! Ceclia achou que Luciana lhe ofereceria o dinheiro para comprar o vestido, mas ela no disse nada. Terminou de se enxaguar e saiu do chuveiro.
-Vai demorar? - indagou, enrolando-se na toalha.
Ceclia estava furiosa, mas no podia deixar que Luciana percebesse e respondeu com fingida docilidade:
-J estou saindo - desligou o chuveiro e saiu, retomando o assunto. - Voc tinha que ver o vestido, Luciana. Uma beleza!
-No seu pagamento, voc compra.
-Ah! Mas o meu dinheiro no d.  muito, mas muito caro mesmo!
-Se no fosse to caro, eu poderia at lhe dar de presente. Estou ganhando bem agora e no me custaria nada. Mas um vestido muito, muito caro est alm das
minhas possibilidades. Por que no escolhe algo mais barato?
Algo mais barato no servia. Tinha que ser aquele. O rapaz a convidara para sair no sbado, e ela precisava estar bem-vestida para ele. No entanto, no podia deixar
que Luciana percebesse a sua ansiedade e lhe recusasse tudo. Um vestido barato era melhor do que nada.
-Eu no quero que voc me d nada de presente! - objetou com veemncia, fingindo-se ofendida. - No  para isso que estou com voc.
Luciana no se incomodou. Simplesmente deu de ombros e, alisando os cabelos com a escova, respondeu com naturalidade:
-Tudo bem. Voc  quem sabe.
Ceclia quase a esganou. Se ela no tivesse virado as costas naquele momento, teria percebido o seu olhar de raiva.
-Mas um emprstimo, eu aceitaria - emendou rapidamente, torcendo para que Luciana no percebesse o tremor na sua voz.
Sem dizer nada, Luciana apanhou o talo de cheques na bolsa e preencheu um deles, estendendo-o para Ceclia.
-Considere como adiantamento de salrio.
Ceclia mordeu os lbios com tanta fora que quase os feriu. Apanhou o cheque com uma certa rispidez, que Luciana no percebeu, e enfiou-o na carteira, fuzilando
de dio. Aquela ttica no daria certo. Luciana era muito segura de si para cair naquela
armadilha. Era at segura demais, confiante demais em sua capacidade e em si mesma. No. Ceclia estava tomando o rumo errado. O comportamento incisivo e objetivo
de Luciana parecia o de um homem. Ento... por que no? Por que no dispensar a ela o mesmo tratamento que se dava s mulheres em geral? Luciana no estava acostumada 
a gentilezas, e Ceclia precisava conquist-la com gestos simples e carinhosos, que lhe despertassem sentimentos mais doces e meigos. Se conseguisse isso, traria 
 tona uma fragilidade desconhecida e poderia se aproveitar dela depois.
No dia seguinte, Ceclia pediu licena a Masa e saiu mais cedo para o almoo. Queria estar de volta antes que Luciana chegasse. Comeu um sanduche rapidamente e
parou numa floricultura. Comprou algumas margaridas, que eram mais baratas, e uma caixa de chocolates.
-O que  tudo isso? - indagou Masa, vendo-a entrar com as flores e os bombons.
- uma surpresa que quero fazer para Luciana.
Masa no respondeu. Logo que retornara da lua de mel ficara sabendo do novo romance entre Luciana e Ceclia. Ela logo desaprovou aquele relacionamento, mas Luciana
foi categrica e lhe assegurou que o envolvimento de ambas era apenas sexual.
-Isso ainda vai acabar mal - comentara Masa. - Ambiente de trabalho no  bom para essas coisas.
-Voc est se preocupando  toa - argumentou Luciana. - Ceclia no est interessada em compromisso srio, assim como eu.
-No sei. Isso no me parece profissional.
-Eu tambm pensava assim, mas Ceclia me garantiu que no vai deixar que o nosso relacionamento influencie no trabalho.
-E voc acreditou?
-Tenho motivos para no acreditar?
-No entendo voc, Luciana.  uma mulher segura, prtica, experiente. Como  que se deixa iludir assim por essa garota?
-Quem disse que estou me iludindo?
-S voc no enxerga. Essa moa est tentando fazer voc de boba.
-No est. E, se estivesse, no conseguiria.
-Ser?
-No se preocupe, Masa, sei o que estou fazendo. Gosto de Ceclia, mas no sou a tola que voc imagina.
-Por mim, eu a mandava embora.
-De jeito nenhum! No podemos perder uma boa secretria.
Masa se lembrou daquela conversa que tivera com Luciana e
sentiu um estremecimento. Por mais que a amiga dissesse que confiava em Ceclia, havia algo na moa que soava falso. Contudo, Luciana no se convencia, e ela tambm 
no tinha motivos para despedi-la. Com um olhar de desgosto e dvida, Masa tirou o jaleco e, antes de sair, falou para Ceclia:
-Deixe tudo arrumado.
Pouco depois, Luciana vinha entrando. Ela e Masa se cruzaram no elevador, mas mal tiveram tempo de conversar. A fila do elevador era grande, e Luciana no pde 
interromper a entrada das pessoas.
A primeira coisa que Luciana percebeu quando entrou foram as flores na mesa de Ceclia.
-Recebeu flores? - perguntou ela.
-No - respondeu Ceclia, aproximando-se dela. - So para voc.
-Para mim?
-Sim. Achei que voc ia gostar.
-Eu adorei! - exclamou desconcertada. - Jamais recebi flores em toda a minha vida!
- mesmo? No acredito.
-Bem, quero dizer, recebi algumas no meu aniversrio, mas isso foi h muito tempo. Nunca recebi flores assim, do nada.
-Achei que voc ia gostar. Mas no  s. Trouxe-lhe isso tambm.
Ceclia estendeu a caixa de bombons, beijando-a gentilmente, e Luciana retrucou desconfiada:
-Por que fez isso? No estamos comemorando nada de especial, estamos?
-No. Eu s quis lhe fazer um agrado. Por qu? No posso?
-Pode... claro que pode...
A campainha tocou, e Ceclia abriu a porta para o primeiro cliente
da tarde. Luciana sumiu na outra sala, e Ceclia ficou rindo intimamente de sua esperteza. A idia parecia ter dado certo. Luciana ficara confusa e balanada, tocada 
em sua sensibilidade feminina.
Dentro do consultrio, Luciana se desligou daquele episdio, concentrada no trabalho que estava fazendo. S no final da tarde foi que tornou a pensar nele, ao ver 
Ceclia pronta para sair, com as flores em uma mo e a caixa de bombons na outra. Dali, foram para o apartamento de Luciana, que seguia calada, pensando no que significava 
tudo aquilo. Temia que Ceclia estivesse comeando a se apaixonar por ela e acabou se retraindo. Em casa, no fizeram nada naquela noite a no ser jantar, e Luciana 
comentou sobre suas suspeitas.
-Est se preocupando  toa - garantiu Ceclia. - Eu apenas acho que voc precisa de um pouco mais de alegria na sua vida. S pensa em trabalho, trabalho... 
H coisas bonitas ao seu redor que voc nem percebe.
-Que coisas?
-As flores, por exemplo. V como ficaram bonitas na sua sala?
- verdade.
-Voc est precisando de um toque feminino - elas riram -, e sou eu que vou dar.
As flores passaram a ser um hbito. De vez em quando, Ceclia enfeitava o consultrio e o apartamento de Luciana, sem demonstrar qualquer mudana no seu comportamento 
que pudesse deixar a outra cismada. Para retribuir, Luciana comeou a comprar presentinhos para Ceclia, como roupas ntimas e algumas peas de bijuteria, o que 
no a contentava. Queria jias caras e roupas de grife. Passado algum tempo, Ceclia voltou a insistir:
-Vi uma blusa na vitrina hoje...! Voc no tem idia!
-Voc gosta de roupa, hein? Vive apaixonada por vestidos e blusas.
-Mas voc tem que ver, Luciana. Maravilhosa! Pena que no tenho dinheiro para comprar!
-Onde foi que voc viu?
-Numa loja chamada Elegncia. Conhece?
-Elegncia? Voc no faz por menos, hein?  uma butique carssima!
-Nem tanto assim. E essa blusa era cara, mas nada absurdo.
-Como  essa blusa?
-Linda! Azul, com lacinhos miudinhos bordados. Nunca vi nada igual.
-Voc  muito tolinha - finalizou Luciana, beijando-a nos lbios e encerrando a discusso.
No dia seguinte, quando as duas foram para o apartamento de Luciana, Ceclia encontrou uma caixa embrulhada para presente em cima da mesa da sala e, antes mesmo 
de perguntar, j sabia do que se tratava.
-O que  isso? - sondou, como se de nada desconfiasse.
-Uma coisa que comprei para voc.
-Para mim!? O que ?
-Abra.
L estava a blusa, e Ceclia sorriu eufrica.
-Oh! - exclamou, com fingida surpresa. - No devia ter feito isso, Luciana. Sei que essa blusa custou caro.
-Experimente.
A blusa serviu perfeitamente, e Ceclia beijou Luciana vrias vezes.
-Ficou linda, Luciana! Adorei!
-Sabia que voc ia gostar.
Ao sair do apartamento de Luciana naquela noite, Ceclia carregava nos lbios um sorriso malicioso e cnico, fruto da alegria que experimentava no apenas por ter 
conseguido o que queria, mas por ter enganado Luciana, que se achava to esperta e confiante. E aquilo era apenas o comeo. Com sua astcia, Ceclia pretendia lucrar 
muito mais.
Ainda era cedo, e ela no precisava ir para casa dormir. Resolveu que estrearia a blusa naquela mesma noite. Gilberto a estava esperando para sarem, e ela no queria
perder a oportunidade de lhe mostrar a roupa nova. Ao sair do apartamento de Luciana, foi ao encontro de Gilberto, e os dois passaram a noite fora, num motel barato.
No dia seguinte, Ceclia acordou em cima da hora e nem teve tempo de passar em casa. Tomou um banho, vestiu a blusa nova e partiu para o trabalho.
-Mas que blusa linda! - elogiou Masa, espantada com o fato de Ceclia estar usando uma roupa aparentemente to cara.
-Obrigada, Masa. Foi Luciana quem me deu.
Masa ficou chocada. Sabia que Luciana dava presentinhos a Ceclia, mas aquilo parecia demais. Elas estavam ganhando bem, mas no dava para ficar esbanjando. Naquele 
dia, resolveu esperar Luciana e, assim que a moa chegou, Masa mandou Ceclia almoar e pagar umas contas no banco.
-O que foi que houve? - perguntou Luciana, notando o ar de preocupao de Masa.
-Sou eu que pergunto. O que foi que houve para voc dar presentes caros a Ceclia?
-Refere-se quela blusa? Ora, nem foi to cara assim.
-No me venha com essa, Luciana. Vi a etiqueta da loja. Voc comprou na Elegncia.
-Ah! Mas estava em liquidao.
-No tenho nada com a sua vida, mas voc no acha que est exagerando? Ser que no percebe que Ceclia est se aproveitando de voc?
-Gosto de Ceclia e compro presentinhos para ela em compensao s flores que ela sempre me d. Essa blusa foi uma exceo, realmente. Ela estava louca pela
blusa, e eu quis fazer-lhe um agrado maior. Mas no pense que sou idiota. Sei muito bem at onde posso ir, e se Ceclia pensa que vai se aproveitar de mim, vai
ter uma baita decepo.
-Por que faz isso? Se sabe que ela est tentando se aproveitar de voc, por que permite?
-Eu no disse isso. Acho que ela est um pouco deslumbrada e gosta de receber presentes, mas no vai tirar nenhum proveito de mim. No tenho dinheiro para 
isso.
-Para ela, tem sim. Ceclia sabe o quanto lucramos no consultrio, o que  muito mais do que ela ganha, com certeza.
-Pare de se preocupar, Masa, j est ficando chata. E confie no que eu digo: sei muito bem o que estou fazendo e at onde posso ir. Ningum est me enganando 
nem me fazendo de idiota.
-Espero mesmo que voc saiba o que est fazendo. No quero que voc se decepcione depois.
-De jeito nenhum! Para isso, era preciso que eu fosse uma menina ingnua, o que no  o caso. Sei bem onde estou pisando e at que ponto posso ir. No se 
preocupe. E pare de implicar com Ceclia.
-Como voc pode ter tanta certeza?
Luciana abaixou o tom de voz e sussurrou perto do ouvido de Masa:
-Sou eu quem durmo com ela, lembra-se?
Estava encerrada a discusso. Luciana parecia muito segura do que dizia, mas Masa no estava bem certa. De toda sorte, no podia interferir na vida da amiga e, 
se ela no queria seguir os seus conselhos, s o que podia fazer era torcer para estar
errada e Ceclia realmente no ser nada daquilo que ela pensava.
***
Como o sbado amanheceu nublado, no havia muito o que fazer, e Luciana sentiu um certo aborrecimento ao ver as nuvens negras que se aglomeravam no horizonte. Contemplou 
a decorao do apartamento e se sentiu cansada de ficar em casa sem fazer nada. Ningum a convidava para uma festa e no havia nenhum programa que pudesse fazer. 
Ainda era muito cedo, e algumas gotculas de chuva comearam a cair. Luciana olhou pela janela e bocejou, sentindo as plpebras pesarem, embaladas pela cadncia 
mida e ritmada dos pingos que batiam na janela. Em breve, adormeceu.
No mesmo momento, seu perisprito se desprendeu do corpo fsico, e ela se levantou assustada. Parada a seu lado, uma mulher alta, morena, de feies finas e porte 
esguio, trajando um sari amarelo-ouro, com uma pedra igualmente amarela na testa, encarava-a com uma expresso indefinvel no olhar.
-Quem  voc? - indagou Luciana temerosa.
-No me reconhece?
-No. Deveria?
A mulher fez um ar sonhador e no respondeu  sua pergunta, mas comeou a falar como se a conhecesse de longa data:
-No adiantou nada trocar de corpo. Eu o reconheci mesmo assim. Formas femininas no so o bastante para me enganar. Confesso que demorei um pouco a localiz-lo, 
mas finalmente, consegui.
Luciana abriu a boca, perplexa. No compreendia nada do que aquela mulher dizia.
-Quem  voc? O que quer de mim?
-Voc no se lembra mesmo, no ?
-Do que  que deveria me lembrar?
-Bem que me avisaram que, com a reencarnao, voc esqueceria tudo - fitou Luciana com olhar triste e prosseguiu:
-Como voc se chama agora?
-Luciana.
- um bonito nome, mas no combina com a sua alma negra.
-Alma negra? Pelo amor de Deus, do que  que voc est falando?
-Ser possvel que voc no guarde nenhuma lembrana de mim?
-tornou a outra, a voz embargada pelo pranto que se avizinhava.
-Olhe, moa, acho que nunca a vi. Mas se voc afirma, com tanta certeza, que eu a conheo, e eu no me lembro, ser que no  melhor me contar logo onde 
foi que nos conhecemos?
O esprito suspirou tristemente e aproximou-se de Luciana com a mo estendida, tentando tocar o seu rosto. Luciana, porm, assustou-se e deu dois passos para trs, 
ameaando voltar ao corpo fsico.
-No faa isso - pediu o esprito, olhando com tristeza para o corpo de Luciana estendido na cama. -Ainda no.
Com uma certa hesitao, Luciana considerou:
-Se no quer que eu v embora, acho melhor ir-se explicando.
-Voc tem razo. Fui uma tola em pensar que chegaria at voc, e voc logo me reconheceria. Voc agora  outra pessoa, tem um corpo de carne que no me agrada 
muito. Mas a sua alma continua a mesma. Sua essncia ainda  aquela pela qual me apaixonei.
-Apaixonou-se? Por mim? Mas como? E por que voc fica o tempo todo se referindo a mim como se eu fosse homem? No v que sou uma mulher?
-Agora...
-O que quer dizer?
-Nada... E eu que enfrentei tantas dificuldades para encontr-lo aqui...! S agora me permitiram... no tenho mais raiva de voc... quero ajudar...
-Ajudar-me em qu, se eu nem sequer a conheo?
-Lamento... No sei se posso...
Antes que Luciana pudesse contestar, o esprito desvaneceu no ar, e ela ficou parada no meio do quarto, fitando o vazio com uma expresso de surpresa. Quando acordou,
j passava das onze horas, e ela se levantou sonolenta. Assim que ps os ps no cho, uma lembrana assaltou a sua mente. Quem era aquela moa com quem sonhara,
com aparncia de indiana, e que lhe dizia coisas das quais no conseguia se recordar? Era fruto de um sonho, pensou. Um sonho bobo que no queria dizer nada. Luciana
jamais estivera na ndia nem nunca conhecera uma indiana, logo, aquilo s podia ser algum sonho idiota. Embora a sensao de reconhecimento fosse muito forte, Luciana
no pensou mais naquilo. No costumava perder tempo com sonhos e no perderia com aquele.
Depois de tomar banho, pensou em fazer algo para comer, mas uma imensa sensao de solido a acometeu, e ela correu a apanhar o telefone. Ligou para Ceclia, convidando-a
para almoarem juntas. A outra prontamente aceitou, e ficaram de se encontrar num restaurante prximo, conhecido de ambas. Luciana foi a primeira a chegar e sentou-se
a uma mesa perto da janela, e logo Ceclia apareceu.
-Oi - cumprimentou ela, puxando a cadeira e sentando-se a seu lado.
-Tudo bem? - respondeu Luciana, com um sorriso frio. Estava triste e nem sabia por qu.
-O que voc tem?
-Eu? Nada, por qu?
-No sei. Voc est estranha, sem brilho. Aconteceu alguma coisa?
-Nada que eu saiba.
-Ento, deixe para l - atalhou Ceclia, afagando a mo da outra com discrio. - Gostaria de lhe pedir uma coisa.
-O que ?
-Ser que voc no tem como me emprestar um dinheiro para eu me matricular num cursinho pr-vestibular?
-Vestibular? Est querendo fazer faculdade?
-. Pensei em fazer odontologia, como voc. Desde que fui trabalhar no seu consultrio, me interessei pelo assunto e creio que levo jeito para a coisa. Voc
acha que eu posso?
- claro! Qualquer um pode.
-Pois . Preciso estudar, porque o vestibular  difcil, mas no tenho condies de pagar um cursinho.
-Voc j viu o preo?
-Andei me informando. Pedi aos meus pais, mas eles, infelizmente, no podem me ajudar. No queria pedir isso a voc, mas no vi outra sada. Tive que deixar 
de lado o orgulho e arriscar.
S posso contar com voc.
-Acho timo que voc queira estudar, Ceclia, mas no posso lhe dar um aumento agora. No sem antes falar com Masa.
-Mas eu no estou pedindo aumento! Nem quero que voc me d nada. Gostaria apenas de um emprstimo.
-E como voc pretende me pagar esse emprstimo? Com o seu salrio no d, seno voc no o estaria pedindo.
Ceclia abaixou a cabea para engolir a raiva, sem que Luciana
percebesse. Gilberto lhe dera aquela idia. Mas a outra ficava questionando tudo.  claro
que no poderia lhe pagar o emprstimo. E era bvio tambm que ela no pretendia freqentar nenhum cursinho para o vestibular. Estava apenas interessada no dinheiro.
Luciana no era mo-aberta e custava a lhe dar presentes. Dera-lhe aquela blusa com muito custo, mas, depois daquilo, nunca mais lhe dera nada. Nem uma calcinha.
Mas um curso era diferente. Luciana valorizava muito os estudos e no lhe negaria aquela oportunidade. Ainda mais se ela dissesse que pretendia estudar odontologia. 
Que odontologia, que nada! Ceclia tinha pavor de agulhas e sangue. S tolerava as suas funes no consultrio porque no tinha outro jeito. Precisava do emprego. 
E mais: precisava de Luciana. S que Luciana no parecia muito disposta a facilitar as coisas. Pensava em pagamento de emprstimo, quando o que ela pretendia era 
nunca lhe pagar.
Ceclia estreitou bem os olhos, forando as lgrimas, e retrucou com uma vozinha de splica, escolhendo bem as palavras: - Sei que o que ganho no  suficiente e 
s poderei lhe pagar a longo prazo, mas esperava poder contar com a sua ajuda. Voc  minha nica esperana. Contudo, se no puder me emprestar, no faz mal. Posso 
entender.
-No  isso, Ceclia - contraps Luciana, agora penalizada. - Quero muito ajud-la, mas no sei se dar dinheiro  uma boa ajuda. Isso pode estimular o cio 
e a preguia.
-Agora voc est me ofendendo, Luciana! Ento eu no trabalho? No cumpro meu horrio, no desempenho minhas funes satisfatoriamente? E estou pedindo dinheiro 
para estudar. Como voc pode achar que eu vou me manter no cio?
-Tem razo, voc no  assim. Voc sempre se mostrou esforada e dedicada. Muito bem. Se a sua vontade  ingressar na faculdade, vou ajud-la nisso. Darei, 
eu mesma, o dinheiro para o cursinho. Mas trate de estudar para passar em uma universidade do governo.
-Sem dvida! Obrigada, Luciana, voc no vai se arrepender. Vou estudar, vou ser a melhor aluna da turma! E vou ser sua colega de trabalho, voc vai ver!
A conversa continuou animada, com Ceclia mentindo para Luciana a respeito de seus planos para o futuro. Na verdade, Gilberto ficaria exultante. Ele tambm estava 
precisando de roupas novas, e ela pretendia lhe proporcionar aquele prazer. Depois que descontasse o cheque que Luciana lhe dera, passaria numa loja de artigos masculinos 
e compraria um bonito conjunto de cala e camisa que ele havia visto no outro dia.
Depois do almoo, enquanto assinava outro cheque para pagar a conta, Luciana perguntou a Ceclia:
-No gostaria de ir ao cinema mais tarde? Est passando um novo filme do 007.
Aquilo no estava em seus planos. Combinara de se encontrar com Gilberto  noite, para irem juntos ao baile do clube, e ele ficaria chateado se ela desmarcasse. 
Fazendo voz de decepo, ela fingiu lamentar:
-Oh! Sinto muito, Luciana, mas hoje no vai dar. Prometi a minha me que a acompanharia at a casa de minha av. Ela est doente e me adora.
-Quantos anos tem a sua av? - perguntou Luciana, para esconder a frustrao.
-Oitenta e quatro - mentiu Ceclia, dizendo a primeira coisa que lhe vinha  cabea. Na verdade, ela nem tinha mais av e nunca acompanhava a me em nada.
-Que pena... - tornou Luciana, bastante desapontada. - Fica para outro dia. Amanh, quem sabe?
-Amanh? - temendo despertar as suspeitas de Luciana se recusasse seu convite duas vezes seguidas, Ceclia achou melhor concordar: - Amanh est bem.
-timo. Ligo para voc amanh, para marcarmos o horrio.
-Combinado.
Saram do restaurante, e Ceclia seguiu exultante para casa. No via a hora de dar a notcia a Gilberto. Depois que Luciana telefonara, convidando-a para almoar, 
avisara Gilberto que se atrasaria para seu encontro, mas valeria a pena. Conseguira o dinheiro, e isso era tudo o que importava.
Depois que Ceclia se foi, Luciana ficou pensativa. No sabia o que estava acontecendo, mas a solido tornou a invadir o seu peito. No queria ficar sozinha naquele 
dia e foi procurar Masa. A amiga estava em casa com o marido, que a recebeu com alegria.
-Mas que surpresa! - exclamou Breno. - No a vejo desde o nosso casamento.
-Tenho andado ocupada - desculpou-se Luciana. - E voc, como est? Gostando da vida de casado?
-Estou adorando. Voc devia experimentar.
-J passei por essa experincia antes, Breno, e s o que quero agora  desfrutar da minha liberdade.
-Sei. Quem diz que quer ser livre, o que quer, na verdade,  um amor que a prenda.
-Desde quando voc deu para filosofar? Voc  advogado, no filsofo.
Nesse momento, Masa entrou na sala, os cabelos ainda molhados do banho.
-Ouvi a sua voz e mal pude acreditar que era voc quem estava aqui - disse ela, beijando a amiga na face. - O que deu em voc para vir nos visitar?
-Pare com isso, Masa - protestou Luciana, um tanto quanto envergonhada. - Ns sempre fomos amigas.
-Mas, desde que eu me casei, voc nunca mais veio a minha casa. Acho que nem a conhece.
-... Mas est muito bonita. Foi voc quem a decorou?
-Masa? - objetou Breno. - Imagine! Contratamos um decorador.
-Ficou uma beleza!
-No foi para falar da decorao do meu apartamento que voc veio aqui, foi? - tornou Masa.
-No. Na verdade, queria conversar. Estou me sentindo sozinha.
-Ento, venha comigo. Podemos conversar enquanto seco o cabelo.
-Vocs vo sair?
-Mais tarde. Temos um casamento para ir.
-De quem?
-Voc no conhece. De um amigo do Breno.
-Ah...
Luciana saiu acompanhando Masa, triste, porque teria que ficar sozinha naquela noite. Sentia uma indefinvel opresso no peito, uma sensao estranha que ela no
podia explicar.
-Aconteceu alguma coisa? - perguntou Masa, sentando-se  penteadeira e ligando o secador de cabelos.
-No sei! - gritou Luciana, para se fazer ouvir por cima do barulho do secador.
-Como assim, no sabe?
-Estou me sentindo estranha, mas no sei definir.  um sentimento de vazio, de solido... a sensao de que perdi algo que no sei o que .
-Brigou com a Ceclia?
-No. Ao contrrio, estamos muito bem.
-Por que no a procura?
-Estive com ela at agora. Almoamos juntas e ela foi para casa. Vai com a me visitar a av doente.
-Eu nunca soube que Ceclia tinha uma av.
-Nem eu, mas tem.
-Sei... Quer dizer ento que vocs almoaram juntas?
-Foi. E adivinhe s! Ela est querendo fazer vestibular para odontologia.
-Que interessante! E voc vai lhe pagar um cursinho.
-Como voc sabe?
-No  difcil adivinhar - Masa desligou o secador e virou -se de frente para Luciana. - No entendo voc, Lu. Sempre foi to maliciosa, to esperta. Como
 que se deixa enganar por essa aproveitadora? No v o que ela est fazendo com voc?
-Voc est exagerando. Sei que ela  ambiciosa, mas eu a controlo bem.
-Mas por que voc tem que ficar lhe dando coisas?
-O que lhe dou  muito pouco. Nada alm de bobagens e pequenos agrados.
-No est apaixonada por ela, est?
-Acho que no. Gosto dela, mas no  amor.
-No falei em amor, falei em paixo. E acho que voc est apaixonada, sim. Est empolgada com a beleza dela, com o seu entusiasmo, com a sua vontade de subir
na vida. E no est percebendo que ela est se aproveitando de voc.
-No creio que ela se aproveite de mim. E, se  assim, aproveito-me dela tambm.  uma troca.
-S quero ver o que ela vai fazer quando no puder lhe tirar mais nada. Vai se mandar.
-Ela no me tira nada demais e tem um emprego, o que no  assim to fcil de se arranjar.
-Isso  s o comeo, voc vai ver. Alis, ela j est pedindo mais, no ? Voc vai lhe pagar um curso.
- uma forma de ajud-la a crescer.
-Como se ela estivesse mesmo interessada em crescer...
-Deixe disso, Masa. Sei bem o que fao, e no  por causa de Ceclia que estou chateada.
-E por que , ento?
-No sei. De repente, me senti s...
-Se quiser, podemos lev-la ao casamento conosco. Ainda d tempo de voc ir em casa e se arrumar, ou pode pegar um vestido meu emprestado.
-Obrigada, mas no quero. No estou com nimo para festas.
-Credo, Luciana, espante esse desnimo para l! Voc no  disso.
-No sou mesmo, mas hoje estou assim. O que posso fazer?
-No  possvel. Aconteceu alguma coisa?
-No aconteceu nada. De repente, acordei assim... -foi s ento que Luciana se lembrou do sonho e comentou em dvida: - Tive um sonho estranho hoje de manh.
Acordei muito cedo e, como estava chovendo, acabei dormindo de novo e sonhei com aquela moa.
-Que moa?
Em breves palavras, Luciana contou o sonho a Masa.
-Acha que minha chateao tem a ver com isso?
-No sei - respondeu Masa. - No entendo nada de sonhos.
Luciana ficou pensativa e continuou conversando com Masa
sobre outras coisas, at que a opresso no peito comeou a diminuir, e ela foi para casa. Sentia-se melhor, embora confusa e, de repente, lembrou-se de Marcela.
Fazia tempo que no a via e sentiu uma pontinha de saudades. Pensou em ligar para ela, mas mudou de idia. Marcela estava namorando um rapaz e no se sentia  vontade
em sua companhia. Ela sempre se envergonhara de ser o que era e agora, mais do que nunca, tinha medo de que algum descobrisse a verdade. Luciana no concordava
com aquilo, mas respeitava Marcela. Se ela queria fingir que nunca houvera nada entre elas, Luciana no insistiria. Mas a saudade continuou, e ela no conseguiu
afast-la.
Apesar da chuva, Marcela havia combinado de passar o domingo em companhia de Flvio, que chegou a sua casa logo pela manh. Os dois pretendiam ir a Petrpolis, mas
o tempo ruim desaconselhava subir a serra por causa da neblina e do cho molhado e escorregadio.
-Que tempo, hein? - avaliou Flvio, sacudindo o guarda-chuva na rea do apartamento de Marcela. - No vai dar para ir a Petrpolis. O que vamos fazer agora?
-Podemos ficar aqui. Posso cozinhar e preparar um almoo delicioso.
-Isso me parece irresistvel - sussurrou ele, puxando-a pela cintura e colando seu corpo ao dele.
Comearam a se beijar, e ele a conduziu para o quarto, deitando-a na cama com carinho e paixo. Os dois estavam comeando a se despir quando a campainha da porta
soou, e Marcela fez meno de ir atender.
-Deixe tocar - protestou ele baixinho. - No esperamos ningum a essa hora. Deve ser algum chato.
Por mais que Marcela no quisesse perder aquele momento, a campainha no parava de tocar, e ela comeou a se irritar com o seu som estridente.
-Acho melhor atender - falou ela. - Seja quem for, no parece disposto a desistir.
A surpresa foi instantnea, e Marcela ficou boquiaberta, vendo Luciana parada na porta, toda molhada de chuva.
-Luciana! - exclamou, entre assustada e confusa.
-Posso entrar?
Antes que Marcela pudesse responder, Luciana passou para o lado de dentro, sacudindo os cabelos encharcados e molhando o cho da sala.
-Voc est toda molhada - observou Marcela. - No tem guarda-chuva?
-A chuva me pegou no meio do caminho, e eu...
Calou-se abruptamente, vendo Flvio surgir na porta do quarto
com a camisa entreaberta e os cabelos em desalinho. Luciana olhou para Marcela e reparou que ela tambm parecia um tanto quanto amarrotada, s ento se dando conta
de que interrompera algo importante.
-Ol - cumprimentou Flvio, tentando se lembrar de onde a conhecia.
-Eu... sinto muito... - gaguejou Luciana. - No sabia que vocs... que vocs... Perdoem-me.
Rodou nos calcanhares e saiu pela porta entreaberta, deixando Marcela apavorada e Flvio, curioso. Luciana saiu maldizendo a si mesma, a sua imprudncia, a sua precipitao.
No imaginava encontrar o rapaz ali to cedo. E o que pretendia? No havia terminado com Marcela? Por que resolvera procur-la, quando sabia que Marcela evitava
encontrar-se com ela?
Em casa, Marcela no sabia o que dizer. Quase no acreditava que Luciana irrompera pela porta de forma to intempestiva. V-la causou-lhe um certo tremor no corao,
muito mais pelo medo do que pela paixo. Marcela no negava que fora apaixonada por Luciana nem queria rejeit-la e deix-la magoada, mas a situao que vivia agora
era outra. Amava Flvio e no podia correr o risco de que ele a deixasse, caso descobrisse que ela e Luciana haviam sido amantes. Ainda mais depois da conversa que
tiveram no outro dia, quando ele lhe dissera que desaprovava a relao entre duas mulheres.
-O que foi que houve, meu bem? - perguntou ele, olhando para ela com ar inocente. - Quem era aquela? Acho que j a vi em algum lugar, mas no me lembro de
onde.
- Luciana - respondeu Marcela com cuidado. - Voc a viu no casamento de Masa, lembra-se?
-Ah! Aquela sua amiga. Agora me lembro. O que ela queria?
-No sei. Ela no teve tempo de me dizer. Acho que ficou sem graa e foi embora.
-Ser que ela est pensando mal de voc? Quero dizer, ela no  do tipo puritana, ?
-No, no. Luciana  uma moa liberal.  dentista e tambm mora sozinha. Na verdade - acrescentou com cautela -, ns moramos juntas quando viemos de Campos.
-Moraram? Mas ento, vocs devem ser amigas ntimas. O que foi que aconteceu entre vocs? Brigaram?
-No exatamente.
-No v me dizer que ela... - interrompeu a fala, conca-tenando as idias, at que prosseguiu: - No v me dizer que foi por causa dela que o seu ex-namorado
a deixou. Foi isso, Marcela? Foi por isso que voc tentou se matar? Porque o seu namorado a trocou pela sua melhor amiga?
Flvio estava criando uma histria em cima do que acontecera a ela, s que uma histria bem distante da realidade, o que deixou Marcela extremamente confusa. Tinha
a chance de lhe contar a verdade, mas o medo a paralisou. No seria melhor deixar que ele acreditasse naquela fantasia, desviando assim as suspeitas sobre o seu
passado? A vinda de Luciana talvez ainda a ajudasse, fazendo com que Flvio jamais desconfiasse de que elas haviam sido amantes. Era uma mentira, mas uma mentira
conveniente e providencial, que ela bem poderia aproveitar em seu benefcio. Mas, ainda assim, era uma mentira, e ela no estava acostumada a mentir. Sim, mas, na
verdade, ela no seria obrigada a mentir. Podia simplesmente se calar e deixar que Flvio pensasse o que quisesse.
-No quero falar sobre isso - ela encerrou o assunto, com ar meio zangado.
A reao de Marcela deu a Flvio a certeza de que fora aquilo mesmo que acontecera, e ele se calou. Prometera a Marcela que no faria perguntas sobre o seu passado
e pretendia cumprir a promessa. Apesar da curiosidade, no disse nada e tomou-a nos braos, amando-a com uma paixo e uma ternura ainda maiores, imaginando o quanto
ela deveria ter sofrido com aquela dupla traio.
Na segunda-feira, Marcela levantou-se para trabalhar como sempre fazia. Havia passado um dia maravilhoso ao lado de Flvio e estava ainda sob o efeito das lembranas
suaves do que haviam vivido na vspera, quando chegou  escola em que dava aulas. Ela estava de bem com a vida, e o dia transcorreu de forma maravilhosa. Quando
o turno da manh terminou, Marcela apanhou as suas coisas e dirigiu-se para o ponto de nibus. Gostava de lecionar, mas Flvio a convencera a parar de trabalhar
depois do casamento, e ela estava decidida a s cuidar da casa e dos filhos.
No ponto de nibus, ficou esperando, at que um carro ltimo tipo parou perto dela, e uma moa jovem e muito bonita lhe pediu uma informao:
-Estou perdida e no sei como chegar a esse endereo. Voc pode me ajudar?
Ao pegar o papelzinho que a moa lhe estendia, Marcela levou um susto. Era a sua rua, e o nmero ficava bem prximo do seu.
-Moa, voc no vai acreditar na coincidncia, mas o fato  que eu moro nessa mesma rua e perto do nmero para onde voc vai.
- mesmo? - a outra fingiu surpresa. - Mas que coincidncia, hein?
-Nunca vi nada igual.
-Tenho uma idia. Por que voc no entra, e eu lhe dou uma carona? Assim voc me mostra onde fica e no precisa tomar o nibus.
Marcela olhou para ela com hesitao. No conhecia aquela moa e lembrou-se dos conselhos da me, quando era criana, dizendo-lhe para no entrar em carros de estranhos.
No entanto, a coincidncia era um fato, e a moa, apesar de estranha, no parecia capaz de lhe fazer nenhum mal. Pela aparncia e pelo carro, tratava-se de pessoa
muito rica, e ela bem podia imaginar a dificuldade em encontrar um endereo num bairro de classe mdia inferior feito o seu.
E depois, estava chovendo, e a conduo sempre demorava.
No faria mal nenhum aceitar aquela carona. Seria bom para a moa e para ela tambm.
-Est certo - concordou Marcela por fim, abrindo a porta do carro e entrando devagar.
A outra ps o automvel em movimento e comeou a conversar:
-Meu nome  Adriana. E o seu?
-Marcela.
-Muito prazer, Marcela - revidou Ariane, entusiasmada por ter conseguido dar incio ao plano de Dolores com tanto sucesso.
No foi difcil para Dolores descobrir onde Marcela trabalhava. O prprio filho lhe deu a informao, achando que tudo no passava de uma natural curiosidade de
me. Deu-lhe o nome da escola e o horrio em que Marcela saa, inclusive o nmero do nibus que costumava tomar. Seu endereo tambm foi fcil de conseguir porque,
numa conversa informal, ele disse tudo, at satisfeito com o interesse da me por Marcela.
De posse dessas informaes, no foi difcil montar o plano. Dolores escolheu um nmero prximo quele em que Marcela vivia e mandou que Ariane lhe pedisse informaes.
-E o que vou fazer na casa de um estranho? - perguntou Ariane, logo que tomou conhecimento do plano.
-Seja sonsa e pergunte por qualquer um: Paulo, Pedro, sei l. Muito provavelmente, no vai morar ningum naquela casa com o nome que voc der. Pea ento
desculpas e chore no ombro de Marcela, dizendo-se enganada por algum rapaz por quem voc se apaixonou e se aproveitou da sua ingenuidade. Isso vai sensibiliz-la,
e ela vai tentar consolar voc.
-Como sabe que ela vai tentar me consolar?
-Isso faz bem o tipo de Marcela: a tola boazinha.
-E se o nmero no existir?
-Ento, ser mais fcil ainda. Diga que ele lhe deu um endereo inexistente.
-Mas... e se ela me perguntar por que fui procurar o rapaz?
-Diga que ele no lhe deixou nmero de telefone e voc est apaixonada por ele, mas ele sumiu de repente, logo aps conseguir lev-la para a cama. Isso vai
deix-la ainda mais sen sibilizada. Ah! E no esquea: mude de nome.
No comeo, Ariane sentiu medo de se aproximar da pessoa errada mas a descrio daquela moa batia com a que Dolores lhe dera de Marcela. Mesmo com medo, arriscou
e acertou em cheio. Embora ela no lhe dissesse o nome antes de entrar no carro, era impossvel haver duas pessoas, com a mesma descrio fsica, trabalhando no
mesmo local e morando na mesma rua. Ariane chegou  escola antes do turno de Marcela terminar e viu quando ela atravessou a rua, a caminho do ponto de nibus. Achou-a
bonitinha, embora um tanto sem graa, e ficou imaginando o que Flvio vira naquela moa para deix-lo to apaixonado. Ela, Ariane, era muito mais bonita, fina, rica
e elegante do que aquela Marcela, que lhe pareceu muito tmida e sem classe.
Era preciso, contudo, ocultar a indignao e fingir-se de aflita, para que Marcela acreditasse na histria que lhe contaria.
-Estou muito nervosa, Marcela - comentou Ariane, emprestando um excessivo tom de nervosismo  voz. - Nunca vim  casa de um rapaz antes.
- um rapaz que procura?
-, sim. Meus pais no sabem que vim aqui, mas estou desesperada. Ele me fez mal e agora sumiu.
-Como assim, fez mal?
-Transou comigo. Por favor, no faa mau juzo de mim. Estou to desesperada!
Ariane comeou a forar o choro, e Marcela a tranqilizou:
-Acalme-se, Adriana, no tenho nada com a sua vida e no estou fazendo nenhum mau juzo de voc. Sei bem como so essas coisas.
-Voc sabe?
-Sim... Quero dizer, j estive apaixonada antes e entendo o que voc deve estar passando.
-Fico aliviada. No tenho ningum com quem conversar.
-Uma moa to bonita e fina! No  possvel que no tenha amigas.
-Minhas amigas se afastaram de mim quando comecei a namorar esse rapaz, s porque ele  pobre.
-Oh! Mas que preconceito tolo!
-Tambm acho, mas voc no tem idia de como as moas da sociedade so esnobes. At meus pais so assim, e  por isso que eles foram contra o nosso namoro. 
Imagine, agora, se eles descobrem que eu e o Mike j transamos.
Ela escolheu um nome estrangeiro para no correr o risco de encontrar algum com o mesmo nome na casa em que fosse procurar, e Marcela retrucou:
-Isso no  nada demais, Adriana. Hoje em dia as coisas esto ficando mais liberais.
-Pode at ser, desde que eu me entregasse a algum de nosso meio. Mas a um p-rapado, como diz a minha me...
Enquanto dirigia, Ariane ia seguindo as instrues de Marcela, at que chegaram  rua em que ela morava.
- aqui que eu moro - informou Marcela, apontando para um prdio de quatro andares logo no comeo da rua.
O prdio pareceu horrvel a Ariane, que virou o rosto para o lado, a fim de que Marcela no visse o seu ar de repulsa. No entendia como Flvio podia se envolver 
com aquela mulherzinha pobre e vulgar. Mas era preciso continuar fingindo e levar adiante o plano bolado por Dolores.
-Ser que voc no poderia me acompanhar at a casa do Mike? Estou to apavorada!
Marcela considerou por alguns segundos, j comeando a sentir pena daquela moa rica e infeliz.
-Est bem - concordou. - Vou com voc at l e depois venho para casa.
Na mesma hora, Ariane acelerou o carro e parou em frente ao nmero que tinha anotado no papel. Era um outro prdio, e Marcela lhe chamou a ateno para o fato de 
que o nmero que ela possua no indicava o apartamento.
-Ser que  aqui mesmo? - duvidou Ariane.
-Esse  o nmero que voc tem.
-Mas qual ser o apartamento?
-Vamos tocar em todos.
-Tocar em todos? Ficou maluca? Vo-nos xingar. O prdio  muito grande, vai ser impossvel localizar o apartamento do Mike.
-Vamos perguntar ao porteiro. Mike no  um nome comum, e o porteiro deve conhecer.
Marcela saiu do carro, com Ariane atrs dela, envergonhada por se ver naquela situao, parada diante de um edifcio to simples e em companhia de uma moa to pobre, 
mas no tinha jeito. Se pretendia levar avante o plano, tinha que engolir a repulsa e seguir as ordens de Dolores.
-Por favor - comeou Marcela, dirigindo-se ao homem que estava na portaria. - O senhor conhece algum Mike que more aqui?
-Mike? - repetiu o homem, de olho no carro elegante de Ariane. - Aqui no  lugar de bacana, no, moas. Estrangeiro por aqui s o Joaquim da padaria.
-Ele no  estrangeiro - objetou Marcela, olhando de esguelha para Ariane, que negou com a cabea.
-Pior ainda. Brasileiro com esse nome no tem por aqui, no.
-Tem certeza?
-Absoluta. Trabalho aqui h oito anos e nunca vi nem ouvi falar de nenhum Mike.
-Ser que no se mudou ningum para c chamado Mike e o senhor no viu?
-Moa, no se muda ningum para c h bem uns cinco anos.
-Mas o senhor tem certeza?
-J disse que tenho. No tem nenhum Mike aqui nesse prdio, no. Pode acreditar.
-Est certo - finalizou Marcela desapontada. - Obrigada.
As duas voltaram para o carro, e Ariane, apesar de exultante,
conseguiu imprimir s feies uma expresso de tanta dor, que Marcela se condoeu ainda mais.
-No fique assim, Adriana, voc deve ter anotado o endereo errado.
-No! Ele  um mentiroso, falso! Aproveitou-se de mim e depois me deixou. Eu bem devia ter desconfiado, mas sou uma tola, romntica, acreditei que ele me 
amava. Isso  bem feito, para eu aprender a no confiar nos homens.
-Voc diz isso agora, porque est magoada, mas vai passar.
-Duvido. Nunca mais vou me apaixonar por ningum, nunca!
Ela estava to descontrolada que Marcela se preocupou e
apertou a sua mo.
-Por que no vamos  minha casa? Posso lhe preparar um ch.
-Obrigada, Marcela, mas voc j fez demais por mim. Eu nem a conheo e a envolvi nos meus problemas, fiz voc se expor e estou perturbando-a com as minhas 
lamrias. Voc no tem nada com isso.
-No posso deix-la ir embora assim. Vamos, venha at a minha casa e beba alguma coisa. Voc vai se sentir melhor, tenho certeza.
Era tudo o que Ariane queria, e ela aceitou exultante, embora demonstrasse uma certa contrariedade.
-Est bem, mas no quero atrapalhar.
-No vai atrapalhar.
Seguiram para o apartamento de Marcela, que levou Ariane direto para a cozinha e ps-se a preparar um ch.
-Voc mora sozinha? - indagou Ariane.
-Moro. Minha famlia  de Campos, e eu vim para o Rio estudar.
-Voc os v com freqncia?
-Na verdade, desde que sa de l, foram poucas as vezes que os vi.
-Deve se sentir muito s.
-Um pouco.
-No tem ningum na sua vida? Um namorado?
-Tenho um namorado, mas ele no mora comigo.
-Ele a ama?
-Acho que sim.
-E voc o ama?
-Muito. Sou louca por ele.
-Deve ser muito bom amar algum - revidou ela, com raiva por Marcela estar se referindo a Flvio.
-, sim,  maravilhoso.
-E como foi que vocs se conheceram?
Marcela no gostava de falar sobre a sua vida particular, mas Adriana era uma estranha que nada sabia a seu respeito e com quem poderia iniciar uma nova amizade.
-No hospital. Ele  mdico.
-E voc  enfermeira?
-No, no, sou professora. Trabalho naquela escola em frente ao ponto de nibus em que voc me encontrou. Conhecemo-nos no hospital porque eu estava doente, 
e foi ele quem cuidou de mim.
-Doente? O que voc teve?
-Bem, no propriamente doente. Eu passei mal e fui atendida por ele.
-Mal de qu?
-Eu... - ela hesitou - na verdade... eu tentei me matar.
Ariane no esperava por aquilo e, instintivamente, levou a mo
 boca, sufocando um grito de espanto.
-Por que voc fez isso?
A curiosidade suplantou a raiva que ela sentia de Marcela e, por uns instantes, Ariane viu-se interessada na vida daquela moa que mal conhecia. Marcela, por sua 
vez, sentia estranha confiana em Ariane e sequer lhe passava pela cabea a trama srdida em que a estava envolvendo. Sentia vontade de lhe contar tudo, mas o medo 
e a vergonha a fizeram recuar, e ela contou apenas uma parte da histria.
-Tive uma decepo amorosa.
-Meu Deus! E eu aqui, chorando por causa de um idiota qualquer.
-No diga isso. Cada um tem os seus problemas, e a nossa dor parece sempre a maior, porque no podemos sentir a de mais ningum.
Ariane ficou vendo Marcela preparar o ch em silncio e observou a cozinha. Era pequena, mas estava muito limpa e brilhando, como de resto, todo o apartamento. E 
havia algo naquela moa que a deixava inquieta. Ela a odiava s pelo fato de estar lhe roubando o namorado, mas parecia simptica e inteligente, bem diferente do 
que lhe dissera Dolores. Ser que era certo o que estava fazendo? Tentando descobrir seus segredos para us-los contra ela?
No perguntou mais nada. Bebeu o ch ainda em silncio e s depois voltou a falar:
-Est ficando tarde e tenho que ir embora.
-No quer ficar para almoar? Sou excelente cozinheira. Flvio sempre diz isso.
-Flvio?
-. O meu namorado.
O nome Flvio, pronunciado com tanta intimidade por Marcela,
reavivou a raiva de Ariane, que se lembrou do porqu estava ali e do plano que deveria seguir. Mas j era realmente tarde, e ela no tinha mais estmago para prosseguir 
no mesmo dia. Tinha que ir com calma e deixaria o resto para depois.
-Eu realmente preciso ir embora - lamentou, levantando-se e apanhando a bolsa. - Mas ser que no poderamos nos ver novamente? Estou precisando tanto de 
uma amiga, e voc foi to atenciosa comigo!
-Venha quando quiser, Adriana. Ser um prazer conversar com voc. Espere! Vou-lhe dar o meu telefone.
Ariane apanhou o telefone de Marcela e sorriu intimamente, certa de que a outra cara como um patinho em seu plano.
-Vou telefonar para voc, Marcela. Podemos nos encontrar para um ch ou um lanche.
-Vai ser muito bom.
Despediram-se, e Ariane saiu com o corao aos pulos. Estava dando certo! Ia dar tudo certo. Marcela no desconfiara de nada e j no primeiro encontro revelara particularidades 
de sua vida. Em breve, todo o seu passado estaria desvendado, e Ariane tinha certeza de que teria em mos as armas com que poderia destru-la.
***
Depois de deixar Marcela, Ariane voltou para casa exultante, ainda sob o efeito do sucesso de seu plano. Mal abriu a porta, vozes altercadas alcanaram seus ouvidos, 
e ela parou hesitante. Os pais estavam brigando, o que a deixou transtornada. No agentava mais aquelas brigas. Aproximou-se vagarosamente e ficou observando-os 
de longe. A me suava frio e estava  beira das lgrimas, e o pai parecia prestes a ter um ataque do corao. Andava de um lado para outro da sala e gritava enraivecido:
-No suporto mais isso! No tenho sossego dentro da minha prpria casa!
-Essa nem parece mais a sua casa. Voc entra como se fosse um estranho e sai feito um desconhecido.
-Isso  porque voc no me d paz. Vive me apoquentando com a sua ladainha!
-Ser que  demais pedir que voc se comporte como meu marido? Voc no me d mais ateno, no liga para mim.
-Quer saber, Anita?  voc quem no liga mais para si mesma. Parece uma matrona, toda largada e feia.
-Ento  por isso que voc no me procura mais? Porque estou gorda e feia?
-Voc nem se parece mais com a mulher com quem me casei!
-E o nosso amor, Nlson, onde  que fica?
-Nosso amor? - ele hesitou, mas acabou se enchendo de coragem e disparou: - Acabou. Quem  que pode amar uma criatura feito voc?
-No faa isso comigo - suplicou ela, atirando-se em seus braos e tentando beij-lo. - Sou sua mulher, ainda o amo.
Ele se desvencilhou com rispidez, atirando-a para o lado, e rebateu com ar de repulsa:
-Voc me d nojo.  asquerosa, gorda e desleixada. Nenhum homem pode sentir atrao por voc.
Anita comeou a chorar e se teria atirado no cho, no fosse a entrada sbita de Ariane. Ouvira o suficiente para no permitir que o pai humilhasse ainda mais a 
me.
-Papai! - berrou ela, com ar reprovador. - No tem vergonha de falar assim com a sua prpria mulher?
Ele ficou confuso, fitando a filha com ar de assombro. Sem dizer nada, virou as costas e saiu porta afora, lanando ainda um ltimo olhar de raiva para Anita, que 
chorava descontrolada. Ariane se aproximou dela e enlaou-a com ternura, sentando-a no sof e tentando acalmar o seu pranto.
-Isso no pode ficar assim, me. No est direito o que papai faz com voc.
-Voc ouviu o que ele disse?
Ouvi o bastante para saber que o seu casamento acabou.
-No diga isso! Casei-me para sempre.
-E voc vai ficar se sujeitando a essas humilhaes? Est na cara que ele no a ama nem a deseja mais. Por que rasteja desse jeito?
-O que posso fazer, minha filha? No tenho dinheiro, no tenho ningum. S vocs e ele.
-Huguinho ainda  muito criana, no entende dessas coisas, e os outros dois esto longe. Voc s tem a mim, me. No pode contar com papai para nada.
-Oh! Ariane, o que vou fazer? Quero mudar, mas no consigo!
-Voc devia ter umas conversas com Dolores, me de Flvio. Ela  uma mulher e tanto!
-De jeito nenhum! E onde fica o meu orgulho? Dolores  praticamente uma estranha. Alm disso,  esnobe e, provavelmente, vai rir de mim.
-Tudo bem, voc  quem sabe. Mas eu ainda acho que desse jeito no d para ficar. Por que ao menos no experimenta mudar o visual? Voc podia sair, ir ao 
cabeleireiro, fazer as unhas. Quem sabe at comprar uma roupa nova?
-Que roupa? Daquelas lojas especiais que s vendem roupas para gordinhas? No, obrigada. Acho aquilo horrvel.
- melhor do que andar malvestida do jeito como voc anda.
-Oh! Ariane! - soluou Anita, deitando no colo da filha. - Estou to deprimida! Agora percebo que meu casamento foi um erro.
-Tambm no precisa exagerar. Nos primeiros tempos no deve ter sido
assim.
-No comeo, tudo parecia maravilhoso. Seu pai tinha dinheiro, e eu era linda. Mas agora compreendo que nunca houve amor por parte dele. Ele no queria se
casar comigo, era por outra que estava apaixonado.
-O qu? Voc nunca me contou isso.
-Estou contando agora. Ele amava uma moa pobre, mas os pais dele no consentiram no casamento. Foi por isso que se casou comigo.
-Mas... que disparate! - ela estava confusa com aquela revelao, sem saber direito o que pensar. - Se ele amasse a moa de verdade, teria batido o p e 
se casado com ela.
-Voc no sabe... Sua av e eu fizemos uma coisa terrvel!
-O que vocs fizeram? - interessou-se Ariane, cada vez mais aturdida.
-Oh! Minha filha, jura que no vai me odiar por isso? No vai me achar uma mulher cruel e mesquinha?
-No vou achar nada de voc, me. Mas me diga: o que foi que vocs fizeram?
-Ns lhe oferecemos dinheiro... muito dinheiro... para que
ela o deixasse.
-E ela o deixou?
-Sim.
-Mas, ento, ela no o amava. Se o amasse jamais teria aceitado. Voc no devia se torturar por causa disso.
-Voc no est entendendo. No  o fato de ele no ter se casado com a moa que me tortura.  porque ele acabou se casando comigo sem me amar. Eu o queria 
a qualquer preo, sem pensar nas conseqncias de um casamento sem amor. No se case sem amor, Ariane, no estrague a sua vida como
eu estraguei a minha.
-Eu no vou fazer isso...
-Quando vejo voc e Flvio, fico pensando. Ele no a ama, mas voc o quer assim mesmo. Cuidado para no fazer como eu fiz.
Ariane se levantou nervosa e comeou a andar de um lado a outro, pensando no que a me lhe dizia e no que ela prpria tava fazendo.
-No tenho nada a ver com voc, me - rebateu ela rapidamente. - Ao contrrio de papai, Flvio me ama.
No force um casamento sem amor, Ariane. Vai estragar a sua vida.
-No estou forando nada. Flvio me ama, voc vai ver.
-Tem certeza?
Se havia alguma coisa de que Ariane tinha certeza, era que Flvio no a amava. Percebia pelos seus gestos, as suas palavras, a forma como a tratava. Tudo indicava
que estava mesmo apaixonado por aquela tal de Marcela, que ela conhecera naquele dia. Contudo, apesar dessa certeza, Ariane ficava dizendo para si mesma que Flvio
poderia vir a am-la com o tempo. Quando descobrisse o quanto ela era carinhosa e meiga, voltaria para ela a sua afeio, e os dois poderiam ser felizes juntos.
Seria isso verdade? Ouvindo as palavras de Anita, Ariane ficou confusa. Aquilo era uma revelao muito significativa do passado da me e do pai. Ela nunca soubera
daquele detalhe do casamento dos dois e ficou comparando as duas situaes, dizendo a si mesma que eram diferentes. Mas diferentes em qu? Ela no
tencionava dar dinheiro a Marcela, como a me fizera com a tal moa. O que pretendia era descobrir algo em seu passado que acabasse com a confiana e a admirao
que Flvio tinha por ela.
Se no descobrisse nada no passado de Marcela que pudesse servir aos seus propsitos, o que faria? Seguia a intuio de Dolores. Dolores conhecia muito bem a vida
das pessoas para saber quando elas escondiam algo importante. E se Dolores achava que Marcela escondia algo importante de seu passado, era porque realmente escondia.
Isso no era o mesmo que tentar comprar a moa. At porque, Dolores no a julgava venal, seno j teria lhe oferecido uma boa quantia para ela sumir da vida de Flvio.
O que elas tencionavam era muito diferente do que a me fizera. Era um favor, um bem que fariam a Flvio livrando-o de uma mentirosa, falsa e fingida. Com isso, 
ele
se decepcionaria, e o amor que pensava sentir por Marcela se desmancharia, deixando-o livre para amar qualquer outra que o cobrisse de atenes e carinhos. E aquela
outra seria ela. Tinha que ser ela.
Contudo as palavras da me ficavam se repetindo em sua cabea: no force um casamento sem amor, o que a deixava transtornada. No queria forar Flvio a se casar
com ela; queria que ele a amasse. Estava fazendo aquilo em nome do amor, para despertar nele esse sentimento por ela. Mas no estaria ela se iludindo? Ser que no
estava se deixando levar pela conversa de Dolores, prestando-se ao papel de espi traidora s para satisfazer a sua vontade? No sabia mais o que pensar.
- Venha, me - disse ela por fim, puxando Anita pela mo. - No vamos mais pensar nisso. Vamos sair e nos distrair um pouco.
J era de noite, e as duas se aprontaram para ir a um restaurante. Anita, pela primeira vez em muitos anos, aceitou um convite para sair sem o marido e foi jantar
com a filha. No tinha nada bonito para vestir, mas Ariane improvisou algo, com um xale e sapatos altos. Maquiou a me e prendeu seu cabelo num coque benfeito. No
estava nenhuma maravilha, mas ao menos no chamava a ateno de forma negativa.
Quando chegaram ao restaurante, no havia mais mesas vagas, e elas tiveram que esperar, para desespero de Anita, que se sentia mal todas as vezes em que se via exposta
aos olhares alheios.
-No podemos ir a outro lugar? - sugeriu ela, acabrunhada.
-Acho melhor - concordou Ariane, desanimada com a quantidade de pessoas  sua frente.
J iam saindo quando o maitre as alcanou, tocando Ariane no brao.
-Perdo, senhoras - falou ele polidamente -, mas h um senhor l dentro que diz que as conhece e mandou perguntar se as senhoras no gostariam de acompanh-lo
ao jantar.
-Quem? - indagou Ariane, olhando para o maitre com uma certa desconfiana.
-Acompanhem-me, que eu lhes mostro.
Anita olhou para a filha com ar de splica. No queria que ningum mais a visse, mas Ariane fingiu no perceber. Ficou curiosa para saber quem as chamava e saiu
puxando a me, apesar de seus protestos quase mudos, seguindo atrs do maitre. Ele as levou para uma mesa no centro, onde um senhor jovem tomava um drinque, desacompanhado,
tendo em mos o cardpio aberto. Quando elas chegaram, o homem levantou os olhos e sorriu amistosamente, indagando com jovialidade:
-Como vai, Ariane? No gostaria de me fazer companhia?
-Justino! Mas que surpresa! Ser um prazer acompanh-lo.
Ariane se sentou e repreendeu a me com o olhar, fazendo
com que ela se sentasse a seu lado.
- sua me, Ariane? - tornou Justino, observando Anita discretamente.
-, sim. No se lembra dela?
-Est um pouco diferente - Anita corou, temendo que ele fizesse algum comentrio pejorativo, mas ele continuou naturalmente: - Como vai, dona... Anita, no
 mesmo?
-Este  o doutor Justino, me - interrompeu Ariane. - O pai de Flvio.
-Ah...! - respondeu ela, completamente sem graa. - Vou bem, doutor Justino, e o senhor?
-Muito bem, graas a Deus. Bom, ainda no pedi o jantar. O que vocs vo querer?
A um sinal de Justino, o garom trouxe mais dois cardpios, e os trs fizeram os pedidos. Enquanto comiam, estabeleceram
uma conversa amigvel e despretensiosa, e s quando se despediram foi que Anita se deu conta do quanto havia se divertido naquela noite. Justino era um homem alegre
e bem-educado e, em momento algum, disse nada que pudesse deix-la pouco  vontade ou constrangida.
Elas estavam de carro, de forma que Justino no precisou lev-las a casa. Acompanhou-as at o estacionamento e tomou o seu prprio automvel, seguindo direto para
seu apartamento. No caminho, ia pensando naquela noite. Fora um jantar agradvel e alegre, e ele descobrira que Ariane podia ser inteligente e interessante, muito
diferente da moa que via sempre em companhia de Dolores.
E a me dela ento? Que mulher adorvel parecia ser Anita. Culta, inteligente, bonita  sua maneira, embora um pouco descuidada da aparncia. Justino conhecia bem
as pessoas para saber o que os problemas familiares podiam causar  sua imagem fsica. Ainda mais Anita, cujo marido era amante de sua ex-mulher. Ser que ela sabia?
Seria por causa disso que relaxara daquela maneira, deixando de cuidar de si mesma e se entregando  falsa idia de que era uma mulher feia e sem direito  beleza
e ao amor?
De repente, Justino percebeu que pensava em Anita mais do que deveria. Ela no lhe saa da cabea. Podia estar um pouco acima do peso e maltratada, mas isso no
tinha importncia para ele. Justino sabia que, por detrs daquela gordura, havia uma mulher exuberante e bela, pronta para ser amada e querida. Ele no ligava para
aparncias e julgava que beleza fsica no era nada. Bastava olhar para Dolores: uma mulher linda, elegante, fina, mas sem nenhuma beleza no corao. De que valia
tanta beleza exterior, se por dentro s o que se via era uma alma turva? E Dolores tinha a alma turva, como nenhuma mulher deveria ter.
Apesar do interesse por Anita, Justino procurou tir-la da cabea. Ela era uma mulher casada, e ele no pretendia seguir o exemplo de Dolores e de Nlson. O fato
de os dois serem amantes no era justificativa para que ele iniciasse um caso com Anita. Precisava parar de pensar nela, mas havia algo que o deixava inquieto.
Seria piedade, por ela estar sendo enganada pelo marido e deixada de
lado por causa da ex-mulher? Ou uma certa empatia, que o fazia aproximar-se dela por causa das circunstncias? Ou, o que ele achava mais provvel, seria apenas interesse
genuno por uma mulher interessante, que no precisava de desculpas para atrair a ateno de um homem? De qualquer forma, ela era casada, e ele pretendia respeit-la 
por isso. E depois, talvez nunca mais a visse, o que o ajudaria a no mais pensar nela.
O medo passou a ser uma constante na vida de Marcela, pois temia que Flvio descobrisse o seu envolvimento com Luciana. V-la parada na sua porta, naquele dia, causou-lhe
imenso constrangimento, e Marcela no sabia o que pensar ou como agir. Contudo, ainda sentia por Luciana uma grande afeio e no podia simplesmente fingir que ela 
no a procurara. Mas por que ela o fizera? Luciana era uma mulher independente e decidida, e Marcela duvidava que ela tivesse voltado atrs na deciso de deix-la. 
Alguma coisa deveria ter acontecido. Acima de tudo, elas sempre tinham sido amigas, e uma podia confiar na outra para qualquer coisa.
Tentou no pensar mais naquilo, mas a preocupao foi-se acentuando, at deix-la a tal ponto inquieta, que ela no conseguiu mais suportar. Se alguma coisa acontecesse 
a Luciana, ela jamais se perdoaria por no ter, ao menos, tentado ajud-la. Tomou uma deciso e foi ao seu consultrio no Mier. Chegou cedo, antes do horrio de 
Luciana, e foi Ceclia quem a recebeu com uma certa desconfiana.
-Voc tem hora marcada? - indagou com um tom intimidador.
-No. Sou uma amiga.
-Uma amiga? Lamento inform-la, mas a doutora Luciana est com a agenda cheia, e no sei se vai poder receb-la.
Vai me receber, sim, tenho certeza. Sou amiga de muitos anos.
Sem perceber a desconfiana e o desagrado de Ceclia, Marcela sentou-se para esperar. Poucos minutos depois, a porta da sala de atendimentos se abriu, e Masa saiu 
logo atrs do ltimo paciente daquela manh. Ao ver Marcela ali sentada, levou um tremendo susto, mas exclamou com satisfao:
-Marcela! Que bom ver voc! O que a trouxe aqui?
Marcela a abraou meio sem jeito e respondeu baixinho:
- a Luciana. Preciso falar com ela.
-Aconteceu alguma coisa?
-No sei. Ela foi me procurar no domingo...
Nesse instante, Luciana vinha chegando e ficou deveras surpresa ao ver Marcela no consultrio.
-Aconteceu alguma coisa? - indagou ela, mal acreditando no que via.
-Foi exatamente o que perguntei a ela - informou Masa.
-Foi uma surpresa e tanto v-la aqui.
-Sou eu que devo perguntar isso - retrucou Marcela, fitando Luciana com emoo. - Vim saber por que voc foi me procurar no domingo.
Luciana olhou de soslaio para Ceclia, sem saber o que dizer. No lhe agradava partilhar detalhes de sua vida particular com outras pessoas alm de Masa.
-Por que vocs no vo beber alguma coisa? - sugeriu Masa, sensvel  situao. - Deixe o seu primeiro paciente comigo, Luciana. Eu o atenderei.
-Srio?
- claro. V, no se preocupe.
Sob o olhar de fria de Ceclia, Luciana saiu em companhia de Marcela, e foram sentar-se numa lanchonete perto dali. Pediram dois refrigerantes, e Marcela foi a
primeira a falar:
-Sinto incomod-la no trabalho, Luciana, mas no pude simplesmente ignorar o fato de que voc foi me procurar, debaixo daquela chuva toda. Aconteceu alguma
coisa?
-No - respondeu Luciana, sem saber o que dizer. Na verdade, nem ela sabia ao certo por que fora procurar Marcela
-Espero no ter estragado nada.
-No estragou... Mas deixou Flvio pensando que voc  a causa do meu quase suicdio.
-Como  que ?
-Ele pensa que meu namorado fugiu com voc, que era a minha melhor amiga.
-Que histria  essa, Marcela?
-Flvio no sabe do meu passado. Pensa que eu tentei me matar por causa de um ex-namorado. Quando viu voc, achou que esse tal ex-namorado tivesse me abandonado
por sua causa.
-E voc o deixou acreditando nessa mentira? Marcela aquiesceu e respondeu em tom de desculpa:
-Ele nem desconfia de que fomos amantes. Se souber, vai me deixar.
-No tenho nada com a sua vida, Marcela, mas, como j disse, no acho justo engan-lo. E depois, se ele a ama de verdade, vai aceitar. Afinal, voc no fez
nada de sujo nem de errado.
-Flvio no pensa assim.
-Ele lhe disse isso?
-Disse... mais ou menos.
-Tudo bem, Marcela, o problema  seu. Eu s acho que no se constri um relacionamento em cima de uma mentira. Mais cedo ou mais tarde, ele vai acabar descobrindo.
-No vai, no. S se voc lhe contar.
-Eu!? Era s o que me faltava! No se preocupe, de mim, ele no vai saber nada.
-Obrigada, Luciana, sabia que podia contar com voc. Mas no foi por isso que vim procur-la. Fiquei preocupada com voc. O que foi que houve para voc aparecer
l em casa daquele jeito, debaixo daquele temporal?
-Aquilo? No foi nada. Eu estava me sentindo sozinha e bateu uma saudade de voc...
-Saudade?
-. Das nossas conversas, da nossa amizade. Senti vontade de ver voc, de saber como estava passando. Gosto de voc como uma grande amiga e queria lhe dizer
isso.
A emoo levou lgrimas aos olhos de Marcela, que apertou a mo de Luciana discretamente. As duas estavam to entretidas na conversa que nem repararam que estavam
sendo observadas. Do outro lado da rua, Ceclia as vigiava, mordendo os lbios a cada
instante. No conhecia aquela Marcela, mas no tinha dvidas de que ela e Luciana eram bem prximas. ntimas, para dizer a verdade, o que poderia representar uma
ameaa aos seus planos.
Assim que o primeiro paciente da tarde havia chegado, Ceclia o encaminhara para Masa e esperara at que ela fechasse a porta da sala de atendimento para sair.
Tirou o fone do gancho, para que o telefone no comeasse a tocar e atrasse a ateno de Masa, e saiu procurando Luciana. S havia uma lanchonete a que elas pudessem
ter ido, e Ceclia foi direto para l. Acertara em cheio. Luciana e Marcela conversavam muito prximas, demonstrando uma intimidade que ela nunca vira Luciana ter
com ningum, nem com Masa.
Um dio cego brotou dentro dela. No era cime, mas medo. Medo de que Luciana a deixasse por aquela outra, por quem demonstrava visvel afeio. Com ela, era diferente.
Luciana a tratava bem, mas nunca lhe dirigira aquele olhar de ternura que tinha para com aquela moa.
Alguns minutos depois, Luciana e Marcela se separaram, e Ceclia correu na frente dela, de volta ao consultrio. Quando chegou, Masa ainda estava na sala com o 
paciente e no desconfiou de nada. Passaram-se alguns instantes, e Luciana chegou tambm. Vinha com ar de felicidade, o que encheu de dio o corao de Ceclia.
-Quem era aquela? - indagou Ceclia, tentando no emprestar  voz um tom de excessiva cobrana. - Ouvi Masa cham-la de Marcela.
- uma amiga - foi a resposta seca.
-Que amiga?
-No interessa. No lhe dou o direito de fazer interrogatrios sobre a minha vida.
O sangue subiu s faces de Ceclia, que teve de fazer um esforo tremendo para no voar em cima de Luciana.
-Ser que  demais eu sentir cimes de uma desconhecida? Afinal, pensei que voc gostasse de mim.
-E gosto.
-Ento, por que no me diz quem  ela?
-Porque voc no tem nada com isso.
-No quero me intrometer em sua vida, se  o que est pensando. Mas a cumplicidade e a confiana so naturais no relacionamento entre duas pessoas. E voc
no confia em mim.
-No  isso... - retrucou Luciana, no fundo, dando razo s palavras de Ceclia. - Marcela  uma amiga de longa data, nada mais.
-No entanto, vocs se tratavam com uma intimidade que ns nunca tivemos.
-Impresso sua.  que conheo Marcela h mais tempo do que conheo voc.
-Vocs namoraram?
Luciana hesitou. No havia nada de mau em dizer que ela e Marcela haviam tido um romance, mas ela se lembrou da promessa que lhe fizera e teve medo de revelar a 
verdade.
-Deixe isso para l, Ceclia. No vamos criar um caso por nada. Afinal,  com voc que eu estou no momento, no ? Esquea Marcela e pense s em ns.
A sada do paciente foi providencial, deixando Luciana deveras aliviada. Ela se desculpou com o rapaz, agradeceu a Masa e entrou na sala de atendimento, dando graas 
a Deus por se livrar do interrogatrio de Ceclia.
No final da tarde, Ceclia a estava esperando para sarem juntas do consultrio, mas no fez nenhum outro comentrio sobre a visita de Marcela. Queria descobrir 
mais, mas tinha que ir devagar, ou Luciana acabaria mandando-a embora. Por isso, ao invs de crivar a outra de perguntas, no disse nada e tratou
de agrad-la o mais que pde, para alvio de Luciana.
***
Mais tarde, naquele mesmo dia, Flvio foi-se encontrar com Marcela em sua casa, como era de costume.
-Voc quer sair para jantar? - perguntou ele, logo aps pousar a maleta de mdico na poltrona.
-No. Podemos comer aqui hoje. Gosto de cozinhar para voc.
Ele a enlaou por trs, e ela sorriu intimamente, perguntando-se
o que ele faria se descobrisse sobre Luciana. Ele nunca poderia descobrir. Luciana prometera no contar, e Marcela confiava nela.
-O que fez hoje o dia inteiro? - prosseguiu ele. - Liguei para c e voc no estava.
Ela precisava inventar uma desculpa rpida para lhe dar, quando se lembrou da moa que conhecera na vspera. Como se esquecera de contar sobre Adriana, podia dizer 
que tudo se passara naquele dia, e no no anterior, e ele jamais ficaria sabendo que ela fora ao encontro de Luciana.
-Voc nem imagina o que aconteceu! - comeou ela, despertando-lhe a curiosidade.
-O qu?
-Conheci uma moa na sada da escola. Ela estava procurando um endereo, e adivinhe s: era justamente na minha rua.
-No brinque! Que coincidncia, no?
-Pois . Como eu estava parada no ponto de nibus, ela me ofereceu uma carona...
Flvio tinha a ateno presa na histria que Marcela lhe contava e ficou perplexo com a situao daquela moa.
-Como  que ela se chama?
-Adriana.
-Adriana de qu?
-Isso eu no sei nem me interessei em perguntar. Por qu?
-Voc disse que ela  da alta sociedade. Talvez eu a conhea.
-E se a conhecer, o que vai fazer? Vai contar aos pais dela o que lhe aconteceu?
-Eu, no! Deus me livre de ser fofoqueiro. Perguntei apenas por curiosidade, porque acho um absurdo o que esse rapaz fez. Esse sujeito  um canalha. Onde 
j se viu enganar assim uma moa?
-Para voc ver como existem pessoas ruins.
-Sei que existem - tornou ele com brandura, achando que ela se referia ao inexistente ex-namorado. - Mas existem pessoas boas tambm. Pessoas como eu, que 
a amo acima de qualquer coisa.
Flvio parecia testar a sua confiana. Todas as vezes que ele lhe falava de seu amor, ela se sentia tentada a lhe contar a verdade, mas o medo de perd-lo era muito 
grande, e ela se calava.
-Tambm o amo - disse ela, beijando-o nos lbios. - Mais do que tudo no mundo.
Ele sorriu satisfeito e a beijou com vontade, at que ela se soltou e continuou a fazer o jantar.
-Minha me nos espera para o almoo no sbado - informou ele, comendo um pedao de cenoura.
-De novo?
-Minha me quer conhec-la melhor. No vejo nada demais nisso.
-Nem eu... Mas  que tenho medo dela.
-Sua bobinha, minha me no morde. E depois, voc no tem com o que se preocupar. Sei que ela  autoritria e arrogante, mas tem medo de me desagradar e 
que eu me mude e a deixe sozinha.
-Por falar nisso, ns no vamos morar com ela depois que nos casarmos, vamos?
- claro que no! Deus me livre! Gosto muito de minha me, mas ela vai se meter na nossa vida de todas as maneiras, e eu no quero isso. No, minha querida, 
quando nos casarmos, vamos para a nossa prpria casa. S eu e voc... e nossos filhos.
A conversa mudou de rumo, e Marcela se pegou pensando novamente em Luciana. Os dois eram muito parecidos: tanto Flvio quanto Luciana eram decididos e sabiam muito 
bem o que queriam. Seria por isso que ela se aproximara tanto de Flvio? No importava. O que tinha importncia era que ela e Flvio estavam apaixonados e iam se 
casar, construir uma vida e um futuro, ao
passo que Luciana pertencia agora ao passado.
***
Enquanto andava pela rua, a caminho de casa, Luciana ia pensando no seu relacionamento com Ceclia. Masa tinha razo: j estava indo longe demais. Por mais que 
Ceclia lhe dissesse que no queria nenhum compromisso, no era isso que suas atitudes demonstravam. Ela a tratava feito namorada e agora estava com cimes, insistindo 
para que lhe contasse sobre o seu relacionamento com Marcela, o que a deixou muito insatisfeita. Afinal, nunca lhe dera tanta intimidade para se intrometer em sua 
vida, e as perguntas que ela fez lhe causaram imenso desagrado.
Se fosse para se envolver com algum que quisesse dominar
a sua vida, era melhor terminar com ela. Luciana lamentaria ter que perder uma secretria competente feito Ceclia e esperava no precisar chegar quela medida extrema.
Mas, se ela no se contivesse, no veria outra sada, a no ser terminar de uma vez com o romance. Tudo dependeria de como Ceclia se portaria em seu prximo encontro.
Naquela noite, Ceclia no apareceu em sua casa, e Luciana pensou que ela estivesse chateada com o ocorrido  tarde, mas a verdade era que ela estava em companhia 
de Gilberto e nem pensava em Luciana. A visita de Marcela, embora tivesse despertado preocupao em Ceclia, no a incomodou mais, porque pouco ou nada se importava 
com os antigos casos de Luciana. Desde que no atrapalhassem seus planos, no se preocuparia.
Quando Luciana chegou ao trabalho na tarde seguinte, Ceclia a tratou normalmente e no fez nenhum comentrio sobre a vspera, o que deixou Luciana aliviada. Ao 
final do expediente, enquanto trancava a porta, Ceclia ia perguntando:
-O que vai fazer hoje  noite?
-Nada. Vou para casa, jantar e dormir. Estou muito cansada.
-No gostaria de ir ao cinema?
-Hoje no.
Ceclia no insistiu. Se pressionasse Luciana, ela se irritaria e a mandaria embora, quem sabe, at de sua vida. Precisava agir com cautela.
No dia seguinte e no outro, Ceclia no fez mais nenhum comentrio sobre a visita de Marcela e ficou  espera de que Luciana a convidasse para sair, o que, efetivamente, 
aconteceu. Embora receando mais perguntas indiscretas, Luciana convidou Ceclia para ir a sua casa depois do expediente.
-Tem certeza, Luciana? - indagou Ceclia, com cuidado. - No quero atrapalhar voc.
-No vai me atrapalhar. Tenho me sentido muito s... - calou-se, j arrependida de ter demonstrado fraqueza.
-No precisa ter vergonha de mim - afirmou Ceclia, notando o embarao da outra. - Todo mundo se sente s, de vez em quando.
Luciana sorriu em agradecimento, e as duas foram para casa. Enquanto Luciana tomava banho, Ceclia preparou um jantar
maravilhoso, que as duas comeram quase em silncio, e depois foram ver televiso. Era uma fita de amor e, em breve, as duas tambm estavam se amando, at adormecerem
em seguida. Durante todos os momentos em que estiveram juntas, Ceclia no fez nenhuma pergunta ou observao a respeito de Marcela, o que deixou Luciana um pouco 
mais tranqila.
Adormecida nos braos de Ceclia, Luciana sentiu que seu corpo flutuava e abriu os olhos assustada. A seu lado, l estava aquela mulher novamente, fitando-a com 
uma certa tristeza:
-Voc de novo? - indagou Luciana, hesitando entre retornar ao corpo fsico e aproximar-se da desconhecida.
-Como voc consegue dormir com ela? - tornou o esprito, apontando com o queixo para Ceclia.
-Gosto dela. Por qu? O que voc tem com isso?
-No tenho nada com isso. Mas tambm gosto de voc, Robert, apesar de tudo o que me fez.
-Robert? Perdo, mas voc deve estar me confundindo com algum. Por que cisma de se referir a mim como homem?
-Voc no se lembra mesmo, no ?
-Do que deveria me lembrar?
-De mim...
-Quem  voc?
-Sou Rani. No se lembra? - Luciana meneou a cabea. - No se lembra dos nossos anos na ndia?
-ndia? Eu nunca estive na ndia.
-Ah! Esteve, sim. Conheceu-me l e me levou para a Inglaterra. De l, viemos para o Brasil, tentar a sorte.
-Voc deve estar louca. Meu nome  Luciana e eu sempre estive aqui, no Brasil. Nada sei sobre a Inglaterra ou a ndia, alm do que se l nos livros ou jornais.
-Diz isso agora. Mas voc j foi um aventureiro ingls que primeiro tentou a sorte na ndia, onde no obteve o sucesso desejado. Quando me conheceu, eu era 
uma moa pobre e ingnua, e acreditei nas suas juras de amor e promessas de casamento. Deixei minha casa e meus pais para seguir voc. A sorte no nos sorriu, e 
voltamos para a Inglaterra, mas as coisas l tambm no estavam muito boas. Voc devia muito dinheiro, e o que eu
ganhava vendendo o meu corpo no dava para cobrir as suas dvidas. Por isso, viemos para o Brasil, onde ningum o conhecia, e voc podia se fazer passar por um respeitvel
cavalheiro ingls acompanhado de sua esposa indiana. Isso tambm no deu certo, e eu continuei me vendendo para sustentar voc, at que conseguimos juntar algum 
dinheiro, e voc montou aquele bordel...
Luciana ouvia aquela histria entre atnita e crdula.  medida que o esprito falava, sua memria ia-se reavivando, e ela conseguia vislumbrar pequenos pedaos 
de sua vida passada.
-Por que est me contando isso? - perguntou confusa.
-Porque eu o amo. Apesar de tudo, meu corao ainda est preso ao seu, Robert.
-Gostaria que voc parasse de me chamar de Robert. Meu nome  Luciana, e eu sou uma mulher.
-Mais ou menos, no  mesmo? - tornou ela em tom mordaz, apontando para Ceclia novamente. - Voc sempre foi muito mulherengo. Devia saber que trocar de
corpo no faria voc respeitar as mulheres.
Eu respeito as mulheres! Respeito todo mundo, inclusive voc, que eu nem conheo e me aparece assim, de repente, para me contar uma histria fantstica e assombrosa! 
Quem voc pensa que ?
-Perdoe-me, Robert, eu no quis ofender...
-Pare de me chamar de Robert! Meu nome  Luciana! Se no consegue se acostumar com isso, peo que v embora e no aparea mais. Sua presena no me faz bem.
Para surpresa de Luciana, o esprito a encarou com olhar magoado e se virou para a parede, sumindo em seguida. Furiosa, Luciana retornou ao corpo e acordou sobressaltada, 
ainda sob a forte impresso que o esprito lhe causara. Que histria seria aquela de ndia e Inglaterra? A mulher no sonho lhe dissera algo a respeito daqueles pases 
e a chamara por outro nome, um nome de homem, Roberto ou Robert, no se lembrava bem. E lhe dissera tambm o seu nome, mas ela no se recordava. Era muito esquisito.
Durante o resto da semana, Rani no apareceu para Luciana, magoada com a forma como ela a havia tratado. Desde que
Robert vivera na ndia, sempre fora um homem grosseiro e rude, apesar de ardoroso e bom amante. Muitas mulheres haviam sido enganadas por ele, e agora Robert se
disfarara de mulher para fugir daquelas que o perseguiam. As que o achassem se decepcionariam ao encontr-lo preso num corpo feminino e perderiam o interesse por 
ele.
Mas Rani no. Durante muitos anos, ele se perdera para Rani, ela no sabia onde ele estava. Mas tanto fez, tanto pensou nele que conseguiu captar a sua vibrao 
e, com a permisso dos espritos superiores, descobriu-o na vida atual. V-lo no corpo de uma moa no deixou de ser uma surpresa, mas, ao contrrio das outras, 
no se desanimou. Ainda era o seu Robert por debaixo daquelas curvas femininas, e o que ela amava em Robert no era o seu corpo, mas a essncia do homem que ela 
conhecera e por quem se apaixonara um dia.
No fora por outro motivo que os espritos superiores a encarregaram de auxiliar Robert em sua nova trajetria. Ela no era nenhum ser iluminado e estava bem longe 
da perfeio, mas o seu amor a impedia de tentar prejudicar Luciana e a fazia querer-lhe bem.
-O que voc tem? - questionou Ceclia, que notava o quase alheamento de Luciana.
-Nada. Tenho andado cansada, s isso.
-Tem certeza? No  nada comigo?
-No,  s cansao mesmo.
-Que bom.
-Vou tomar um banho e j volto - disse Luciana, para encerrar o assunto, dirigindo-se ao banheiro.
Ceclia estava deitada na cama e resolveu ligar a televiso, que ficava sobre a cmoda. Levantou-se com preguia e girou o boto que acionava o aparelho, e a imagem 
em preto e branco logo surgiu na tela. Por que  que Luciana ainda no havia comprado uma TV colorida? Assim que terminou de ajustar o canal, Luciana entrou no quarto, 
enrolada na toalha, e se dirigiu ao armrio, para se vestir. Quando passou pela cmoda, notou que havia esquecido ali algo que no deveria: uma caixa de madeira 
contendo todas as lembranas que guardava de Marcela. Estivera mexendo na caixa,  procura de uma foto, e se esquecera de guard-la depois.
Como Luciana no queria que Ceclia a visse, tratou logo de apanh-la para guard-la de volta no armrio, mas no foi cuidadosa o bastante. Na pressa, a caixa deslizou
de suas mos e foi direto ao cho, espalhando todo o seu contedo. Na mesma hora, Ceclia se abaixou para ajudar a catar as coisas, apesar dos protestos de Luciana:
-Que desastrada! Pode deixar que eu mesma cato tudo, Ceclia, no precisa se incomodar.
Abaixada ao lado de Luciana, Ceclia ia apanhando cartas e fotos viradas, e foi s quando desvirou uma que percebeu do que se tratava. Eram todas fotografias de 
Luciana ao lado de Marcela, e ela reconheceu a moa que fora ao consultrio no outro dia.
-Quem  essa? - indagou Ceclia, segurando a foto nas mos.
-Ningum. D-me isso aqui.
Luciana arrancou o retrato da mo de Ceclia e tornou a guard-lo na caixa, enquanto Ceclia desdobrava um papel de carta cor-de-rosa e lia uma declarao comovente 
de amor, de Marcela para Luciana.
-Ora, ora, mas ento vocs foram apaixonadas! - constatou ela, olhando para Luciana com ar de triunfo. - Por que o mistrio?
-No h mistrio nenhum.
-Como no? Voc se recusa a falar sobre essa Marcela. Diz que so apenas amigas.
-E somos.
-No  o que parece - afirmou Ceclia, abrangendo, com um gesto, as cartas e as fotos de Luciana.
-Tivemos um relacionamento um dia, mas hoje somos apenas amigas.
-E por que esconder isso? Voc no me parece o tipo de pessoa que precise ocultar o passado.
Luciana, sentada sobre os tornozelos, ajeitou a toalha em volta do corpo e olhou para Ceclia com ar desanimado. Por que fora mexer naquela caixa? Se a tivesse deixado 
onde estava, a outra nem a teria percebido. Mas agora todo o seu contedo estava ali, derramado no cho, e ela no tinha mais como esconder o relacionamento que 
tivera com Marcela.
Pensando bem, por que deveria esconder? Marcela no queria que o namorado soubesse que ela vivera com uma mulher no passado, mas Ceclia no era o seu namorado.
Sequer a conhecia. E ela, Luciana, no tinha problema nenhum com aquilo. Sempre assumira a sua condio de lsbica e no se envergonhava do que era. Por que ento 
deixar que o temor de Marcela a contaminasse e a fizesse sentir vergonha de algo que lhe parecia to natural?
-Olhe, Ceclia - comeou ela a dizer -, voc tem razo. No d mais para esconder, no ? Marcela e eu vivemos juntas muitos anos, mas isso acabou. Ela agora 
est namorando um rapaz, e ns quase no nos vemos.
Ajudada por Ceclia, Luciana terminou de guardar as coisas na caixa e comeou a trocar de roupa, enquanto ia contando tudo a respeito de seu relacionamento com Marcela. 
Contou de suas vidas em Campos, de como fugiram para o Rio, de seus empregos, estudos, sua paixo, at o dia em que Luciana a deixou e ela tentou se matar.
-Muito comovente essa histria - falou Ceclia, tentando disfarar o desprezo.
-, sim. Eu amei muito Marcela, e ainda amo, s que de uma outra maneira. Contudo, ela tem vergonha do que foi e no quer que o namorado saiba. Por isso, 
eu lhe peo: jamais diga qualquer coisa sobre o que hoje lhe contei.
-Por que eu diria alguma coisa? Eu nem a conheo!
-E no quero que voc sinta cimes de Marcela. Gosto muito dela, mas ela  apenas minha amiga.
-No estou com cimes. Quando a vi no consultrio, naquele dia, fiquei enciumada, sim, mas depois passou. E agora que sei o que aconteceu, no tenho mesmo 
motivos para sentir cimes.
-timo. Gosto de Marcela como se fosse minha irm e, embora no concorde com o fato de ela estar ocultando do rapaz o seu passado, no tenho nada com isso. 
A vida  dela, e eu pretendo respeit-la.
- claro. No se preocupe, nunca direi nada.
-Obrigada. Sabia que podia confiar em voc.
Ceclia em nada se comoveu com aquela histria. Temia apenas que Marcela pudesse representar alguma ameaa a seus
interesses e precisou disfarar para que Luciana no percebesse o seu receio. Fora isso, no sentia nada alm de um profundo e quase indisfarvel desprezo.
Assim que saiu do colgio, Marcela notou o carro de Ariane parado perto do porto de entrada e se dirigiu para l. A moa estava ao volante, de culos escuros, e
a chamou quando ela passou:
-Ol, Marcela. Como est?
-Oi, Adriana. Tudo bem e voc?
Ariane deu de ombros e indicou a porta do carro:
-No quer uma carona?
Sem de nada desconfiar, Marcela entrou no carro e se sentou ao lado dela. Fazia algum tempo que Ariane, vez por outra, a procurava na sada da escola, e elas seguiam 
conversando. O motivo era sempre o mesmo: solido e falta de amigos.
-E a? - perguntou Marcela. - Teve notcias do Mike?
-No. Ele nunca mais apareceu...
-Por que voc no o deixa para l? Est na cara que ele no a ama. Voc  uma moa bonita, culta, sensvel. Merece coisa melhor.
-Acha mesmo? - retrucou Ariane, segurando a tentao de lhe dizer: "algum melhor feito Flvio".
-Acho, sim.
-Pena que as coisas no sejam assim to fceis. Bons rapazes, hoje em dia, so difceis de se encontrar.
-Nem tanto. Veja eu, por exemplo: conheci Flvio num momento difcil, e ele me ajudou a me levantar da minha runa.
-Voc ficou assim to mal quando o seu namorado rompeu com voc?
-Fiquei... Olhe, Adriana, sei que voc  minha amiga, mas no gosto de falar do passado.  muito doloroso.
-Entendo. Bem, fale-me de Flvio, ento. Ele foi o mdico que a atendeu e salvou a sua vida, em todos os sentidos.
- verdade. No fosse por ele, acho que teria tentado me matar de novo. Mas ele me deu uma nova razo para viver, trouxe um novo alento para a minha vida.
-Ser que voc no  muito dependente dele?
-No sei. Talvez at seja, mas ele  a nica pessoa com quem posso contar.
-Voc gostaria de tomar um sorvete? - perguntou Ariane, parando o carro perto de uma sorveteria. - Podemos continuar conversando, se no for atrasar voc.
-No tenho nenhum compromisso agora. Flvio s vem mais tarde.
Sentaram-se a uma mesa e pediram duas taas de sorvete, e Ariane se pegou muito mais interessada na vida de Marcela do que propriamente na de Flvio.
-Pelo visto, Flvio no liga para o fato de voc ter tentado se matar por causa de outro.
-Lgico que no. Foi ele, inclusive, quem insistiu para que sassemos.
-Esse Flvio deve mesmo ser um homem maravilhoso... Quem me dera encontrar um homem assim.
-No perca as esperanas, Adriana. Tenho certeza de que esse homem est por a, em algum lugar, esperando por voc.
-Mas no sou mais virgem...
-E da? Quem  que se importa com isso hoje em dia?
-Muita gente. Flvio no se importa?
- claro que no.
-Vocs transam, no transam?
-Essa pergunta  um pouco indiscreta, mas no faz mal contar para voc - ela deu um sorrisinho malicioso e completou: - Quando conheci Flvio, j no tinha
mais o que preservar.
De repente, Ariane se deixou tomar por um cime incontrol-vel e por pouco no estragou tudo, mas conseguiu se conter a tempo. Ento Marcela se gabava de dormir
com Flvio, enquanto ela ainda era virgem e nunca transara com ningum.
-Ento Flvio no foi o primeiro, foi? - revidou ela, mordendo os lbios para que Marcela no percebesse o seu cime.
-Oh! No!
-O primeiro foi seu antigo namorado.
-Foi... Mas no quero falar sobre ele.
-Como  o nome dele?
-J disse que no quero falar sobre ele, Adriana.  muito doloroso.
-Est bem, desculpe-me. Foi apenas curiosidade, perdoe-me.
-No tem importncia. Na verdade, sou eu quem deve lhe pedir perdo. No queria ser grosseira, mas...
-Voc no foi. Eu  que estava sendo indiscreta. Vamos fazer uma coisa? Vamos mudar de assunto.
Era preciso ir devagar ou Marcela acabaria desconfiando.
-E os seus pais, Marcela? Voc disse que quase no os v. No sente falta deles?
-Sinto, sim. Antigamente, no Natal, ligava para eles, mas eles deixaram bem claro que no querem mais saber de mim. Com o tempo, desisti de procur-los.
-Por que eles fizeram isso?
-Meus pais so gente de cidade pequena. No aceitam mulheres independentes e jamais quiseram que eu viesse para o Rio.
-Mas ento eles no sabem o que lhe aconteceu?
-A tentativa de suicdio? No, no sabem. E nem precisam saber.
Ariane ficou pensando se no seria uma boa idia procurar os pais de Marcela e lhes contar tudo, mas achou que s serviria para aproxim-la ainda mais de Flvio 
e desistiu.
-E voc, Adriana? Por que no me fala um pouco mais de voc?
-O que quer saber? J lhe contei tudo sobre mim. Minha vida  muito vazia e sem graa. Desde que o Mike se foi, no tenho nem sado mais.
-Isso  uma pena! Mas voc pode vir me visitar quando quiser. Por que no marcamos para sair num sbado? Voc fica conhecendo o Flvio, e ele pode levar 
um amigo.
Aquela era a ltima coisa que Ariane pretendia fazer, e ela tornou com cuidado:
-No d, Marcela. Voc e Flvio querem namorar, e eu s atrapalharia.
-Mas se estou dizendo que ele pode levar um amigo!
-No estou pronta para isso ainda. Enquanto no conseguir tirar Mike da cabea, no vou poder sair com mais ningum.
-No creio que lhe faa bem ficar assim pensando num homem que no lhe d a mnima. Ele no merece voc.
-J sei, mas no consigo evitar.  duro quando o corao est ferido.
-Voc tem que tentar vencer isso.
-Eu estou tentando, mas tem que ser no meu tempo. No adianta querer forar o que no estou sentindo.
-Tem razo. Mas quero que saiba que sou sua amiga, e voc pode contar comigo sempre que precisar.
-Obrigada, Marcela.
Ariane sentiu o aperto de mo que Marcela lhe deu e ficou emocionada. Aquela moa parecia muito sincera na amizade que lhe oferecia. Afinal, ela no era assim to 
diferente da Adriana que inventara. No tinha amigos e perdera o namorado. As moas com quem se relacionava eram todas fteis e viviam s voltas com festas e rapazes. 
Pensando bem, no que  que ela diferia das outras moas? Tambm s pensava em festas e num rapaz em particular. No tinha nenhuma ocupao, nada com o que se preocupar, 
nenhum compromisso de trabalho, estudo ou outra coisa qualquer. Levava uma vida vazia, voltada para as aparncias e os eventos sociais. Ser que aquilo realmente 
a agradava?
Marcela era diferente. Era professora, tinha uma profisso e um objetivo. Havia pessoas que dependiam dela, que precisavam dela para alguma coisa. Ela era responsvel 
por ensinar dezenas de alunos, o que tornava Marcela bem mais importante do que ela. Se Ariane morresse, no faria falta a ningum na sociedade, no deixaria de 
prestar algum servio til. Mas, se Marcela viesse a morrer, o que seria de seus alunos? Mesmo que arranjassem outra para colocar no seu lugar, seria uma pessoa 
a menos no mundo para colaborar com o seu crescimento. E ela? Com que crescimento contribua? Nem com o dela mesma.
Aqueles pensamentos incomodaram Ariane, e ela se apressou para sair da sorveteria. Deixou Marcela em casa e seguiu para a sua, levando no corao aqueles questionamentos
todos. Poderia tentar dividi-los com a me, que no era uma pessoa ftil, mas a me estava muito envolvida em seus prprios problemas para compreend-la. O pai no 
queria saber dela, e Dolores a chamaria de tola e idiota. A nica pessoa que parecia capaz de realmente entend-la era mesmo Marcela.
Mais tarde, quando Flvio chegou, encontrou Marcela preocupada e triste.
-Aconteceu alguma coisa? - perguntou, beijando-a como sempre.
-Lembra-se daquela moa de quem lhe falei? Da Adriana?
-Lembro. Por qu?
-Ela apareceu na escola hoje de novo.
-E...?
-Est cada vez mais triste, deprimida. O namorado desapareceu, e ela no tem com quem se abrir.
-Ser que essa moa no est se apegando a voc?
-Creio que sim. Ela no tem amigas, e eu lhe ofereci a minha amizade. Fiz mal?
-De jeito nenhum. Por que no a convida para vir aqui uma noite dessas? Podemos lev-la para dar uma volta e espairecer.
-J dei essa idia. Disse at que voc convidaria um amigo, mas ela no aceitou. Ainda est muito ligada no rapaz.
-Ento, s o tempo  que poder ajud-la.
-Foi o que pensei. Quando essas coisas acontecem,  melhor dar tempo ao tempo. Mas no posso deixar de me sentir triste.
-No quero que se sinta assim. Voc est sendo amiga dela. Quando ela quiser, vai sair dessa. - Ele a abraou e mudou de assunto: - No se esquea do nosso 
almoo amanh. E voc pode convidar a Adriana, se quiser.
-Engraado, Flvio. Agora que voc mencionou isso  que me lembrei de que no tenho nem o telefone, nem o endereo dela. No posso entrar em contato com 
ela.
-Que pena! Bom, deixe para uma prxima vez. Quando ela aparecer de novo, pea o seu telefone, e ns poderemos
convid-la numa outra oportunidade. E agora - tornou ele, em tom solene -, quero lhe mostrar uma surpresa.
-Uma surpresa? O que ?
Ele tirou da bolsa uma caixinha e a depositou nas mos de Marcela, que soltou um gritinho de alegria. Entusiasmada, soltou o lao de fita que a envolvia e exibiu 
o seu contedo.
-Flvio! - exclamou embevecida, admirando o solitrio que reluzia sob a luz. -  lindo!
-No tanto quanto voc - contestou ele, retirando o anel da caixinha e colocando-o no dedo de Marcela. - Serviu feito uma luva. Parece que foi feito para 
voc.
Marcela olhava admirada para o diamante e beijou Flvio com paixo, acrescentando com embarao:
-No precisava...
-Voc no gostou?
-Se no gostei? Eu adorei! Mas no quero que voc gaste seu dinheiro comigo.
-Isso  porque eu a amo e quero me casar com voc.
-Est me pedindo em casamento? - ele assentiu emocionado. - Oh! Flvio, como eu o amo!
-Quer dizer ento que aceita?
-E como poderia recusar? Amo-o mais do que a prpria vida.
Ele retirou uma outra caixinha do bolso, contendo duas alianas de ouro, e experimentou a menor no dedo de Marcela, que a fitava embevecida.
-Ento, est resolvido - disse ele, enquanto empurrava o anel no anular direito de Marcela, junto com o solitrio. Deu a outra aliana para ela, que a colocou 
no dedo dele. - Agora s falta comunicar aos meus pais e aos seus. Comearemos com
a minha me. Diremos a ela amanh, no almoo.
***
No dia seguinte, Flvio foi buscar Marcela para o almoo em sua casa, e encontraram Dolores mais sorridente do que o habitual. Minutos antes, Ariane a havia colocado 
a par de todo o ocorrido, e ela considerou o resultado satisfatrio. Marcela j
estava comeando a se abrir com Ariane e no tardaria muito a lhe fazer as confidncias mais ntimas.
-Boa tarde, dona Dolores - cumprimentou Marcela, esten-dendo-lhe a mo.
-Como vai, Marcela?
-Bem, e a senhora?
-Muito bem tambm.
-Mame, h algo que gostaria de lhe contar.
-Sim? O que ?
-Mostre a ela, Marcela - ela mostrou o anel e a aliana a Dolores, e Flvio anunciou em tom solene: - Marcela e eu decidimos nos casar.
Um raio no a teria fuzilado com maior intensidade, e ela retrucou atnita, no conseguindo ocultar o desagrado e a contrariedade:
-Casar? Mas j? Ainda  cedo...
-No , no. J estou com quase trinta anos, e Marcela tem vinte e sete. No somos mais crianas.
-No, claro que no. Mas no era a isso que me referia. Um casamento no se resolve assim, da noite para o dia. Precisamos organizar a festa de noivado, 
a lista de convidados, a igreja, o salo...
-No precisa se preocupar com nada disso, mame. Marcela e eu s queremos uma cerimnia simples no civil, com um almoo em famlia.
-Mas... e os nossos amigos? E a sociedade?
-Mais tarde, mandaremos a todos um cartozinho oferecendo a nossa casa.
-Isso no  possvel, Flvio! Todos j conhecem a nossa casa.
-Conhecem a sua casa. Mas Marcela e eu pretendemos ter o nosso prprio apartamento. Na segunda-feira vou entrar em contato com uma imobiliria e pedir que 
nos encontrem algo.
-Vocs no vo morar aqui?
- claro que no.
-Mas no pode ser! Voc no pode me deixar sozinha. A casa  muito grande, tem espao suficiente para vocs e os filhos que vierem a ter.
-Conhece o ditado, me: quem casa quer casa? Ento? Vamos nos casar e queremos ter a nossa prpria casa, onde Marcela possa fazer tudo do jeitinho dela. 
No , meu bem?
Marcela assentiu com um sorriso, o que encheu Dolores de fria e indignao:
-Mas isso  que no! - explodiu. - No vou permitir que meu nico filho me envergonhe diante de toda a sociedade. J no basta querer se casar com algum
fora de nosso meio? Ainda tem que fazer um casamento de pobre?
-Mame, est ofendendo Marcela - censurou ele, notando o rubor que subia s faces da moa.
-Pouco me importa! No vou admitir que meu filho envergonhe o nome da nossa famlia por causa de uma pobretona.
Indignada, Marcela se levantou de chofre e comeou a falar, envergonhada e aflita:
-Lamento se a desagrado, dona Dolores. Flvio, eu... quero ir embora. Por favor, leve-me para casa.
Nem esperou que ele respondesse. Apanhou a bolsa, rodou nos calcanhares e saiu, indo aguard-lo do lado de fora.
-Viu o que voc fez, mame? Insultou minha noiva e fez com que ela fosse embora.
-Ela no  sua noiva. Vocs ainda nem oficializaram o noivado.
-As alianas em nossos dedos so mais do que oficiais. E, se quer saber,  tudo o que me importa. No os anis em si, mas o que eles representam. Marcela 
aceitou o anel, aceitou o meu pedido de casamento, e isso j  mais do que tornar o nosso noivado oficial.
- claro que ela aceitou! Que moa pobre e sem classe no aceitaria um diamante daqueles de um homem feito voc?
-Est insinuando que Marcela s quer se casar comigo por causa do meu dinheiro?
-Insinuando, no. Estou afirmando.
-Lamento que pense assim, me, mas no posso fazer nada. Nosso casamento j est decidido, e nada do que voc diga vai me fazer mudar de idia. E agora,
com licena. Minha noiva est me esperando l fora.
Ante o olhar de fria de Dolores, Flvio voltou as costas e saiu ao encontro de Marcela, que chorava no porto da frente. Ele a abraou por trs, e ela enterrou 
o rosto no seu peito, dando livre curso s lgrimas.
150
-Oh! Flvio, ela foi mesquinha, horrorosa, cruel.
-Eu sei, minha querida, e lamento. Devia ter imaginado que algo assim pudesse acontecer.
-E agora? O que vamos fazer?
-Vamos nos casar, ora essa.
-Contra a vontade dela?
-Contra a vontade de todo mundo, se necessrio. S o que me importa  voc. Voc me ama?
-Voc sabe que sim.
-Isso para mim j  o suficiente. Lamento pela minha me, mas, ou ela se acostuma, ou vai perder o filho.
-No quero que vocs briguem por minha causa.
-Nem eu, mas no posso permitir que ela estrague a minha felicidade por causa dos seus conceitos mesquinhos. Sociedade... Pois sim! No estou nem um pouco 
interessado nisso.
-Mas Flvio, ela pode ter razo. Eu no sou do seu nvel.
-Que nvel? Isso  besteira. No me importo com isso, no me importo com nada. Amo-a do jeito que voc .
-Tem certeza?
-Voc ainda duvida?
-Seria capaz de aceitar qualquer coisa de mim?
-Qualquer coisa... - ele a olhou ressabiado. - Por qu? Est me escondendo algo?
-No. Mas  que eu passei por tanta coisa!
-Isso no me importa. J disse que o seu passado no me interessa. O que voc fez da sua vida antes de me conhecer no  problema meu. Quando a conheci, 
sabia o que voc havia feito e por qu. No  novidade para mim que voc tenha tido outro homem antes de mim e tenha sido apaixonada por ele, to apaixonada a ponto 
de querer se matar. Voc quis morrer por ele, mas agora quer viver por mim. Isso no  mais importante?
Ela no conseguiu responder. Estava emocionada demais para falar. Flvio a amava, no tinha dvidas, e dizia que a aceitava de qualquer jeito, fosse o que fosse 
que ela tivesse feito no passado. Contudo, ainda se lembrava do que ele dissera sobre relacionamentos homossexuais e sentiu medo. Ser que ele ainda pensaria assim 
se descobrisse que o ex-namorado por quem ela quase se matara no era um homem, mas sim outra mulher?
***
A notcia que Flvio trouxera deixou Dolores espumando de raiva. No podia contar com aquilo. Por mais que imaginasse que Flvio e Marcela tinham planos para se
casar, no imaginou que fosse to rpido. Era preciso agir, e agir com presteza. Precisava falar com Ariane, pression-la para que ela descobrisse logo alguma coisa 
importante no passado de Marcela.
-Voc precisa fazer algo com urgncia! - berrava ela ao telefone. - Ou pode esquecer Flvio para sempre.
-Mas fazer o qu? - respondeu Ariane, do outro lado da linha. - S me encontrei com Marcela algumas vezes. Por mais que ela esteja comeando a confiar em 
mim, ainda  muito pouco tempo para confidncias mais ntimas.
-No interessa! Voc disse que ela j estava comeando a se abrir, no disse?
-Disse, mas...
-Pois ento, faa-a abrir-se de vez! Obrigue-a a lhe contar todos os seus segredos.
-Est certo, Dolores, verei o que posso fazer. Mas antes de segunda-feira, no poderei agir. Preciso esperar que Flvio esteja no trabalho, ou ainda acabarei 
dando de cara com ele, o que no vai ser bom para ningum.
Desligaram. Naquele momento, Ariane no podia tomar nenhuma atitude. Tinha que esperar at segunda-feira, quando ento pensaria em algo. Mas o qu? Pensando melhor, 
j no tinha mais certeza se queria mesmo fazer aquilo. Olhou para a me, largada no sof, devorando uma caixa de bombons, e ficou imaginando se era aquele o futuro 
que pretendia para si. A me forara o casamento com o pai, e para qu? Para terminar deixada de lado, gorda e relaxada, lamentando uma vida inteira sem amor? Ser 
que o exemplo da me no era suficiente para ela? Por que insistia em repetir o seu erro? No valia a pena tramar para destruir o romance de Flvio se ele no a 
amava. Ele podia fazer como seu pai, casando-se com ela por desgosto, assim como o pai se casara com sua me para ocultar a frustrao. Mas amor mesmo, no havia. 
O pai nunca amara a me, assim como Flvio tambm no a amava.
E depois, tinha Marcela. Desde que a conhecera, sentira uma forte amizade pela moa, que era bem diferente do que Dolores dizia. Marcela era meiga, gentil e amiga.
Podia no ser rica, mas no tinha nada de vulgar ou interesseira. Ao contrrio, era uma moa inteligente e agradvel, e ela bem podia compreender por que Flvio
se apaixonara por ela. Marcela sabia conversar, conhecia assuntos ricos em interesse e no era ftil. Muito diferente dela.
Contudo, Dolores insistia naquela empreitada. Dolores no lhe daria trgua e s ficaria satisfeita quando separasse Marcela de Flvio e o fizesse casar-se com Ariane.
Mas ela j no estava bem certa se queria se casar com Flvio. Queria algum que realmente a amasse, no um homem que a desposasse s por ter perdido a mulher amada.
Quando segunda-feira chegou, Ariane havia decidido que faria a ltima tentativa com Marcela. Talvez ainda valesse a pena arriscar com Flvio, afinal de contas. Quem
sabe ele no a amasse e estivesse apenas impressionado com a vida livre que Marcela levava? Pensava nisso enquanto se arrumava, para ir ao encontro de Marcela na 
sada da escola, quando vozes altercadas entraram pela janela de seu quarto:
-No agento mais voc, Anita! - berrava Nlson. - Quero o desquite!
-Voc no pode fazer isso. E os nossos filhos? E os nossos bens?
-No quero saber! Os filhos j esto grandes, e temos muitos bens. Vamos dividir tudo meio a meio.
-Mas Nlson, eu no quero. Eu o amo...
-Mas eu no a amo! Se quer saber, nunca a amei! Nem sei por que me casei com voc.
-Por favor, Nlson, no me deixe - choramingava ela. - Podemos tentar mais um pouco. Farei o possvel para agrad-lo. Vou emagrecer, me arrumar direito, 
voc vai ver.
-Isso no me interessa mais, Anita. Voc pode se tornar a miss Universo, que eu no a quero mais. Acabou, entendeu bem? Acabou!
Ariane ouviu uma porta batendo, e soluos angustiados chegaram aos seus ouvidos. O pai havia sado, e a me estava
chorando. Ela no agentava mais aquilo. Era nisso que dava um casamento sem amor. E era isso que ela desejava para si mesma? No. Decididamente, merecia um futuro 
melhor. Decidira-se novamente por no procurar Marcela, no queria mais saber de nada de seu passado que a pudesse comprometer.
No entanto, os gritos da me continuavam a ferir seus ouvidos, e Ariane no conseguiu mais suportar. Seu lar se havia transformado num inferno, e ela comeou a chorar, 
acompanhando o pranto da me. Como queria que ela se desvencilhasse do pai e fosse feliz! Ariane estava muito sentida, at que ouviu a voz da me, que a chamava. 
Mas ela no queria ir. No suportava mais as lamrias da me, os gritos do pai. Tudo o que queria era fugir dali, ir para algum lugar onde ningum nunca tivesse 
ouvido falar nela.
Sem responder aos apelos da me, Ariane passou a mo na chave do carro e correu porta afora. Foi guiando pela rua, a esmo, sem saber bem aonde ir, e, quando deu 
por si, havia parado o carro em frente  escola em que Marcela dava aulas. Tinha ido at ali sem querer e pensou em ir embora quando viu a moa se aproximando pelo 
outro lado, vindo do ponto de nibus.
-Oi, Adriana - cumprimentou ela. - Aconteceu alguma coisa?
-Oh! Marcela!
Ariane comeou a chorar convulsivamente, e Marcela abriu a porta do carona, sentando-se ao lado dela.
-Foi o Mike? Ele apareceu?
Naquele momento, Ariane quase lhe contou toda a verdade, mas tinha medo da reao de Marcela. E depois, sentia-se to sozinha que queria algum para conversar.
-Ser que ns podemos ir a algum lugar?
-Quer ir at a minha casa?
-Flvio no est para chegar?
-No. Por qu?
-Queria conversar a ss com voc. Estou to triste, Marcela!
-Vamos l para casa, ento. Fao-lhe um ch e conversaremos mais  vontade.
Durante todo o trajeto, Ariane permaneceu em silncio, e Marcela nada disse, achando que ela estava deprimida por algo
que houvesse acontecido com Mike. Chegaram em poucos minutos, e Marcela indicou o sof para Ariane, indo preparar-lhe um ch. Voltou alguns instantes depois, estendendo
uma xcara para Ariane, enquanto se sentava com a outra.
-Pode beber.  camomila, vai acalm-la.
Com um sorriso de gratido, Ariane comeou a bebericar o ch, enquanto as lgrimas desciam pelo seu rosto.
-Lamento procurar voc com os meus problemas - comeou ela a falar -, mas  que no tenho mais ningum.
-No tem importncia. No disse que sou sua amiga? - Ariane assentiu. - Ento, pode falar.
-So os meus pais... Vivem brigando, e hoje...
Com a voz carregada de emoo e angstia, Ariane narrou a Marcela tudo sobre o casamento de seus pais e o que vinha acontecendo nos ltimos tempos, chorando muito
a cada passagem. Marcela ouviu a narrativa em silncio, apenas balanando a cabea de vez em quando e lanando-lhe olhares de simpatia e compreenso.
-Deve ser muito difcil para voc - comeou Marcela a dizer, logo aps Ariane terminar sua histria.
-No  o fato de eles no se amarem mais que me incomoda.  que eles no se respeitam. Meu pai humilha minha me, e ela, por sua vez, se humilha diante dele.
 deprimente.
-J tentou conversar com eles?
-Com minha me, sim. Com meu pai, no tenho dilogo.
-Sei que no  algo agradvel, mas talvez voc deva dar mais fora a sua me.
-Mais do que eu fao? Converso com ela, levo-a para sair, insisto para que ela se arrume. E tudo isso para nada. Ela no se anima.
-Acho que voc deveria lhe mostrar o seu apoio. No apenas insistir para que ela faa algo que ainda no est pronta para fazer, mas mostrar a ela que, ainda
que ela no consiga sair dessa situao, voc estar ali ao lado dela.
-Como assim?
-No me leve a mal, Adriana, mas sua me no me parece querer, realmente, mudar a aparncia. S que voc fica insistindo
nisso, como se fosse a melhor soluo para a crise no seu casamento, quando voc sabe que no  verdade. Isso deve angusti-la ainda mais, e ela deve se sentir cada 
vez mais culpada por no conseguir mudar.
-Mas eu no a culpo de nada!
-Sei que no, mas ser que ela no entende assim? Se voc chega perto dela quando ela est chateada e vai logo falando da aparncia fsica, ser que no 
est, indiretamente, acusando-a de ter contribudo para a perda de interesse de seu pai?
-Voc acha isso?
-Acho que  uma possibilidade. s vezes, queremos mudar, sabemos que precisamos, mas no conseguimos. No nos sentimos fortes ou preparados. Ou talvez no
queiramos de verdade. Voc pe a aparncia fsica em primeiro lugar, quando os sentimentos  que deveriam vir antes. O que importa ser feio ou gordo quando h amor?
-No h amor entre meus pais.
-Exatamente. E  por isso que seu pai quer o desquite: porque no h amor. No porque sua me est gorda nem relaxada. Isso  apenas uma desculpa que ele 
d a si mesmo para justificar que no sente nada por ela,
-Acho que voc tem razo, Marcela. No h amor entre eles, e meu pai no devia tentar justificar essa ausncia de amor com a gordura da minha me. Isso no 
 justo. E, afinal, ela nem est to gorda assim. Est mais relaxada do que gorda. E depois, onde ficam as outras qualidades? Ela sempre foi boa esposa e boa me. 
Por que meu pai no reconhece isso?
-No o culpe, Adriana, porque tambm no deve ter sido fcil para ele se casar com ela s porque a outra o deixou.
-No o estou culpando. Vendo por esse ngulo, acho que ningum  culpado de nada.
-Isso mesmo. Acho que o mais importante agora  voc dar apoio  sua me, mas sem acusar o seu pai. Ela me parece mais frgil, precisa mais de voc.
- isso mesmo o que vou fazer, Marcela. Vou voltar para casa e procurar conversar com mame. Talvez consiga ajud-la.
-Faa isso e depois me conte como foi. Vai ver que ela vai se sentir bem melhor, e voc tambm.
Mais calma, Ariane agradeceu e saiu, antes que Marcela se lembrasse de pedir o seu telefone e o seu endereo. Quando chegou a casa, saiu em busca de Anita, que estava
no quarto, devorando um pacote de biscoitos recheados. Sem dizer nada, Ariane se aproximou e, gentilmente, retirando o saco de biscoitos das mos da me, abraou-a 
com carinho e falou emocionada:
-Eu estou aqui, me, e a amo.
Era a primeira vez que Ariane a abraava daquela maneira, e Anita se agarrou a ela, chorando sem parar.
-Oh! Ariane, voc nem imagina o que aconteceu! Seu pai... seu pai saiu de casa... disse que quer se desquitar.
-Eu sei, me, eu ouvi.
-Voc ouviu?
Ela assentiu:
-Eu estava no quarto quando escutei os dois conversando, ou melhor, gritando.
-Tudo isso porque eu no consigo emagrecer!
-No pense assim, me, porque no  verdade. Gordura nada tem a ver com amor.
-Tambm pensava desse jeito, at seu pai se distanciar de mim. Ele esfriou comigo porque estou feia e gorda.
-No  verdade. Ele esfriou com voc porque nunca a amou, porque s se casou com voc para preencher o vazio que a outra deixou.
Anita engoliu o choro e tornou entre soluos:
-Eu no devia ter feito aquilo, no devia!  nisso que d se casar sem amor. E eu ainda fui engordar...
-Pare de se acusar, me, ningum tem culpa. O casamento de vocs acabou, mas voc no. Voc ainda  uma mulher jovem, pode refazer a sua vida.
-Quem  que vai querer uma mulher gorda?
-Quem falou que voc precisa ter algum? Voc no precisa lutar consigo mesma para fazer algo que no quer. Pode ser feliz assim mesmo do jeito que .
-Voc no acha mais que seu pai me deixou porque eu estou gorda e feia?
-No, me, eu no acho. Acho que ele a deixou porque no
a ama, nunca amou. Mas voc pode amar a si mesma e fazer algo por voc. Pode levar a sua vida do jeito que quiser.
-Mas eu no consigo emagrecer!
-Quem  que est falando em emagrecer? - Anita ficou confusa. - Voc  que est com idia fixa. Por mim, amo-a do jeito que voc est.
-Isso  porque voc  minha filha.
-Para voc ver como o amor verdadeiro no se incomoda com isso. E, assim como eu, quem a amar tambm no vai se importar.
-Voc est mudada, Ariane. Aconteceu alguma coisa?
-Aconteceu. Refleti em tudo o que voc me contou e aprendi com o seu erro. No quero repetir na minha vida o que voc fez com a sua.
-Mas o que aconteceu?
-Nada. Descobri que Flvio ama outra mulher, no a mim, e estou disposta a aceitar esse fato, ainda que isso custe a minha felicidade a seu lado.
-Ariane!
- verdade, mame. Quero ser feliz ao lado de algum que me ame, assim como voc ainda pode encontrar a felicidade ao lado de um homem que tambm a ame de 
verdade. Ns merecemos isso.
Anita estava deveras impressionada com Ariane. Apesar de sempre terem sido muito ligadas, nunca a filha demonstrara tanta maturidade quanto agora. Ela se abraou 
a Ariane e beijou suas faces, sentindo inexplicvel vontade de viver e se sentir viva.
-Quer saber de uma coisa? - ela perguntou, olhando para a filha com uma desconhecida vivacidade no olhar. - Vamos sair. Ns duas. E vamos procurar ser felizes.
Ariane no respondeu, mas concordou com um aceno de cabea, intimamente agradecendo o conselho que Marcela lhe dera. Era o primeiro passo para fazer a me acreditar 
que tambm merecia ser feliz.
***
Nlson respirou aliviado. Aquele casamento de mentiras j o estava desgastando, e ele no estava mais disposto a continuar
com aquela farsa. Deixou as malas no hotel e telefonou para Dolores, pedindo para falar-lhe com urgncia. Agora sim, podia assumir a vida ao lado da mulher que realmente
amava.
Combinaram de se encontrar em um restaurante discreto e afastado dos lugares freqentados por conhecidos. Quando Dolores chegou, Nlson j a estava aguardando, bebendo, 
a goles largos, seu segundo copo de usque.
-Graas a Deus, Dolores! - exclamou ele, assim que ela chegou. - Mal podia esperar a hora de lhe contar a notcia.
-Sua voz parecia grave ao telefone. O que houve? Alguma coisa com Anita?
-Eu me separei de Anita. Sa de casa hoje cedo e no pretendo mais voltar. Resolvi pedir o desquite. - Dolores ficou boquiaberta, olhando para ele com ar 
de assombro. - Voc ouviu o que eu disse, Dolores? Pedi o desquite. Vamos poder ficar juntos publicamente. No  maravilhoso?
O sangue subiu e desceu das faces de Dolores com a rapidez de uma cascata, para depois subir novamente, deixando-a rubra de raiva e indignao.
-Voc ficou louco? - berrou. - Est fora do seu juzo?
-Mas... mas... - gaguejou ele - no entendo... Pensei que voc fosse ficar feliz.
-Como posso ficar feliz se voc quer atirar o meu nome na lama? Acha mesmo que eu vou comprometer o nome da minha famlia assumindo um romance com voc?
-E por que no? Estou livre agora, podemos viver juntos.
-Nem pensar! O que as pessoas vo dizer? Que ns j tnhamos um caso antes do seu desquite.
-As pessoas no vo dizer nada. Ns podemos esperar...
-De jeito nenhum! Todo mundo vai falar que voc saiu de casa por minha causa.
-E no foi?
-Se foi, voc  muito estpido! O que o fez pensar que eu assumiria um compromisso pblico e srio com voc?
-Pensei que voc me amasse.
-Nunca disse que o amava. Se voc pensou assim, sinto muito, mas  problema seu.
-Se no me ama, por que ficou comigo esses anos todos?
-Pelo mesmo motivo que voc ficou comigo.
-Eu a amo!
-Ento, eu me enganei, e nossos motivos foram diferentes. Pensei que estivssemos juntos por convenincia de ambas as partes.
-Que convenincia?
-Voc sabe. Sua mulher est um lixo, e meu marido nunca
foi l grande coisa.
-Como pode dizer isso com tanta frieza, Dolores? No sente
nada por mim?
Dolores olhou bem dentro de seus olhos e respondeu com voz glacial:
-No. Nosso relacionamento acabou. Ningum mandou voc ser burro e sair de casa. De hoje em diante, no me procure mais.
Antes mesmo que o garom pudesse anotar os pedidos, Dolores passou a mo na bolsa e saiu apressada. Entrou no automvel rapidamente e foi embora, deixando Nlson 
no restaurante, segurando o copo de usque, tomado de verdadeiro assombro.
Dolores no podia acreditar que ele havia feito aquilo. Estragara tudo! Ela jamais amara Nlson, como nunca amara homem algum, nem o marido. Nlson fora bom amante, 
mas ela j comeava a se cansar dele. E depois, ele dera para beber alm da conta e estava praticamente falido. Aquela parte, ela no desejava. Deixava para a mulher 
dele aturar os seus problemas. S o que lhe interessava era o prazer do sexo que ele podia lhe proporcionar. Mas, se ele comeava a misturar sexo com sentimento, 
estava na hora de deix-lo de lado e arranjar outro.
Da parte de Nlson, a nica coisa que lhe interessava era Ariane. Dolores at que gostava de Ariane. Sempre desejara ter uma menina, mas, por complicaes no parto 
de Flvio, ficara impossibilitada de ter outros filhos. Por isso tambm lhe interessava o casamento dos dois. Ariane era uma moa tola e faria o que ela desejasse, 
desde que continuasse vivendo aquela vida de compras e festas. Se tudo corresse bem, Ariane lhe daria uma neta, a menina que tanto desejara e manteria sob seus cuidados 
e sob sua vigilncia, para fazer o que ela quisesse.
E Nlson aparecia para estragar os seus planos. Ariane no
se sentiria nada  vontade se Dolores e ele fossem viver juntos. Por mais tola que a menina fosse, era muito ligada  me e no aceitaria aquela traio. E se Ariane
se aborrecesse e lhe virasse as costas, Flvio se casaria com Marcela, e seus planos iriam por gua abaixo. Era prefervel que ela e Nlson no se vissem mais. Ele 
no estava mesmo valendo mais a pena. Dolores gostava de sexo, mas homens, havia muitos pelo mundo, e ela tinha dinheiro. Podia comprar um rapago musculoso e de 
cabea vazia, que
fizesse sexo e nenhuma pergunta ou observao mais complexa.
***
Depois de uma semana longe de casa, Nlson comeou a sentir o vazio que a falta da mulher deixara. Ele no a amava, mas no podia viver s. Acostumara-se  boa vida 
que ela lhe dava e no lhe fazia bem o atendimento distante e frio daquele hotel barato. Alm disso, as despesas comeavam a pesar. O dinheiro estava acabando, e 
ele no tinha mais de onde tirar. Resolveu voltar para casa. Anita lhe implorara que no se fosse e o aceitaria de volta sem questionar, e ainda lhe agradeceria.
Quando tocou a campainha, foi Ariane quem atendeu. Ela estava de sada e abriu a porta assim que a campainha soou.
-Papai! - assustou-se ela.
-Perdi minhas chaves... - balbuciou ele, ansioso para passar.
-O que faz aqui?
-Ora, o que fao aqui... Eu moro aqui, se esqueceu?
-Que eu saiba, voc saiu de casa h uma semana.
-Mas estou de volta. Tive apenas uma briguinha com sua me, coisas de casal, mas j passou. E agora, deixe-me entrar.
Ele tentou entrar, mas Ariane postou o corpo na frente dele e estendeu os braos, barrando a sua passagem.
-Lamento, pai, mas aqui no  mais a sua casa.
-Que disparate  esse, menina? Trate de me respeitar.
-Se quer ser respeitado, d-se ao respeito primeiro.
-No fale assim comigo, Ariane! Eu no admito.
-E eu no admito que voc trate a minha me da forma como a tratou.
-Isso  assunto de marido e mulher! Voc no tem nada com isso!
-Tenho. Se a sua mulher  a minha me, eu tenho tudo com isso.
-Saia da frente - ordenou ele, tentando empurr-la para trs.
-No! Aqui voc no entra. E, se insistir, chamo a polcia.
-Onde j se viu chamar a polcia para me impedir de entrar na minha prpria casa? - desdenhou ele, empurrando-a novamente. - Deixe-me passar, j disse!
-No! V procurar as suas vagabundas e pea abrigo a elas.
-Olhe l como fala comigo, menina.
Nesse momento, Hugo, irmo mais novo de Ariane, vinha chegando da escola e parou abismado diante daquela cena.
-O que est acontecendo? - perguntou ele confuso.
-Sua irm no quer me deixar entrar na minha casa - respondeu Nlson com raiva, dirigindo-se a ela: - E seu irmo? Vai deix-lo na rua tambm?
Ariane no respondeu e afrouxou os braos, para dar passagem ao irmo, e Nlson, percebendo a manobra, agarrou o filho pelo punho e empurrou Ariane com violncia, 
atirando-a de costas ao cho. O menino comeou a chorar assustado, e Anita entrou na sala nessa hora, vindo do banheiro, os cabelos molhados cados sobre o rosto.
-Mas o que  isso? - indagou atnita, correndo para levantar a filha do cho. - Ariane, voc est bem?
-Estou bem, mame - respondeu ela. - Apesar de meu pai se comportar como um animal, eu estou bem.
Anita no a escutava direito, preocupada que estava em acalmar Hugo. Abraou o menino com amor e, virando-se para Nlson, explodiu com fria:
-Voc no tem o direito de vir  minha casa maltratar os meus filhos! Olhe s o que voc fez!
-Eles so meus filhos tambm. Ariane  muito atrevida, e Hugo vai acabar se tornando um maricas, de tanto que voc o mima.
-O que veio fazer aqui, Nlson? J no estava decidido a pedir o desquite?
-Mudei de idia. Meu lugar  na minha casa, ao lado da minha mulher e dos meus filhos.
-Mas que cinismo! - disparou Ariane. - Desde quando voc se interessou em ficar conosco?
-V para o seu quarto, Ariane! - ordenou o pai. - E leve seu irmo. Isso no  assunto de crianas.
-Eu no sou mais criana! Ns tambm moramos nessa casa e temos o direito de saber o que acontece aqui.
-Saiam, vamos!
-No vamos sair.
Nlson avanou para ela, e Anita se colocou entre os dois, ainda com Hugo agarrado a sua cintura:
-Voc no vai bater na minha filha! No vou permitir!
Ele se conteve e retrocedeu dois passos, mas continuava disposto a ficar e esbravejou:
-O que  isso, afinal? Um compl dentro da minha prpria casa?
-Esta no  mais a sua casa - tornou Anita. - Quando voc escolheu nos deixar, deixou tambm o seu lar.
-Vai me impedir de ficar?
-Vou.
-Voc no pode fazer isso. Eu tenho meus direitos.
-Pois ento, v busc-los na Justia!
A atitude de Anita, em seguida, foi inesperada. Desvencilhou-se do filho, fazendo sinal para que Ariane o acolhesse, e saiu empurrando Nlson, que foi caminhando 
para trs a cada cutuco que ela lhe dava. Tinha vontade de esbofete-la, mas a presena dos filhos o intimidou, e ele foi-se deixando enxotar, at que ela o empurrou 
porta afora.
-Anita... - ele ainda tentou suplicar.
Anita no respondeu. Empurrou-o com fora, o que o fez tombar sobre as malas, desabando no cho tal qual Ariane, e Anita bateu a porta em sua cara. Durante alguns 
segundos, todos sustiveram a respirao, esperando que ele esmurrasse a porta, mas nada aconteceu. Ferido em seu orgulho e espumando de dio, Nlson apanhou as malas 
e foi embora. Ouviram o barulho da porta do elevador se fechando, e Ariane correu para a janela. Pouco depois, o pai apareceu na portaria, seguindo pela rua com 
as malas.
-Ele foi embora! - espantou-se ela. - Mame, voc o colocou para fora!
-Coloquei - confirmou Anita, mal acreditando que havia feito aquilo. - Posso suportar tudo de um homem, menos que maltrate meus filhos.
Os filhos correram para ela e a abraaram emocionados, Hugo ainda chorando assustado. Anita o abraou fortemente, beijou sua cabea e o levou para o quarto, esperando 
at que se acalmasse. Sentou-se na cama e conversou com ele longamente, at que as horas foram avanando, e ele acabou se distraindo com um episdio antigo de Viagem 
ao Fundo do Mar. Anita tornou a abra-lo e o beijou vrias vezes, repetindo, a todo instante, o quanto o amava.
Certificando-se de que ele havia realmente se acalmado e tinha a ateno presa na TV, Anita se levantou e foi procurar Ariane.
-Como ele est? - indagou ela, correndo para a me.
-Est mais calmo. Ficou assustado, mas agora est melhor.
-Voc foi admirvel, mame! - elogiou Ariane. - Teve muita coragem e determinao.
-No posso permitir que Nlson trate os meus filhos desse jeito. Isso no!
-Espero que voc mantenha essa deciso de no o aceitar de volta.
-Quer que lhe diga mesmo, Ariane? - ela assentiu. - Eu gostei de ter tomado a atitude que tomei. Serviu para me mostrar que sou capaz de cuidar de mim e 
dos meus filhos. No preciso me submeter a todo tipo de humilhao s para ter um marido ao meu lado. Foi seu pai quem escolheu nos deixar, no eu. Mas eu no posso 
ficar aqui sentada,  espera de que ele volte, para aceit-lo seja de que maneira for.
-Por que acha que ele voltou?
-Quem  que vai saber? Talvez a amante no o queira, afinal.
-Voc acha que ele tem uma amante?
-Ele diz que no, mas eu tenho quase certeza. Ele nunca mais me procurou, parece at que tem nojo de mim. Homem, quando fica assim com a mulher em casa, 
 porque tem outra na rua.
-E isso no a incomoda?
-J incomodou. Agora que estou decidida a no aceitar mais o seu pai de volta, ele pode fazer o que quiser, que eu no me importo. Quero viver a minha vida
em paz.
-Assim  que se fala, mame. Voc ainda pode ser muito feliz.
-Gorda desse jeito? No acredito.
-L vem voc de novo com essa histria de que est gorda.
-E no estou?
-E da? Voc pode emagrecer, se quiser. Se no quiser, no faz mal. Aceite-se desse jeito e voc vai ser muito mais feliz. Se algum tiver que amar voc, 
vai am-la de qualquer maneira.
-Voc est estranha, Ariane. Muito mudada.
-Estou aprendendo com a vida, me. Conheci uma moa que est me ensinando outros valores.
-Que moa  essa?
-Voc no conhece.
-Ela  do nosso meio?
-No. Por qu? Tem preconceito?
-De jeito nenhum! Seu pai  que se prende a essas bobagens.
-Ela  professora. Um dia, apresento-a a voc.
A conversa tomou outro rumo, e Anita percebeu que respirava mais aliviada. A ausncia de Nlson at que estava lhe fazendo bem. Quando ele estava em casa, ela vivia 
sobressaltada, com medo de que ele partisse, e se humilhava constantemente. Ele a destratava, no lhe tinha respeito e no a desejava. O dinheiro que dava em casa 
tambm comeou a diminuir, e ela foi obrigada a cortar algumas despesas. E agora ele comeava a maltratar os filhos. Aquilo fora a gota d'gua. Ela podia suportar 
qualquer coisa, menos que maltratassem seus filhos.
Olhando o acontecido por um ngulo mais otimista, Anita achou que at que o resultado fora positivo. Ela tomou conscincia do tipo de homem em que Nlson se transformara 
e revolveu nela o amor por si mesma. Atravs dos filhos, Anita percebeu que precisava se amar e se valorizar como mulher e como pessoa, para inclusive dar-lhes um 
exemplo de dignidade e respeito.
E o exemplo de mulher que queria ser para os filhos era bem diferente do modelo de me insegura e apagada que fora at aquele momento. Ela podia estar feia e gorda, 
mas era uma
pessoa decente e honrada, e ningum no mundo tinha o direito de lhe tirar a dignidade. Queria mostrar isso aos filhos, para que eles tambm se impusessem no mundo
como pessoas dignas e conscientes do seu valor, para que ningum os humilhasse ou os desrespeitasse. A partir daquele momento, preocupar-se-ia em dar-lhes esse exemplo.
Mais um almoo na casa de Dolores, e Marcela acabaria por enlouquecer. Dolores j demonstrara claramente a opinio que tinha a seu respeito, e ela no pretendia
se sujeitar aos rompan-tes da futura sogra. O noivo que a perdoasse, mas ela no tinha estmago para aquilo.
Marcela saiu da escola no horrio de sempre e, como de costume, deu uma olhada para ver se o carro de Adriana estava l, mas ela no aparecera. Fazia alguns dias 
que no vinha, e ela estava preocupada. Da ltima vez que se tinham visto, ela estava aflita com o casamento dos pais e sara de sua casa disposta a ajudar a me. 
Ser que conseguira? Marcela tencionava pedir o seu telefone, mas acabara esquecendo e agora no tinha como obter notcias.
Quando Marcela se aproximou de casa, estranhou um carro parado diante da sua porta. Era um carro muito elegante para aquela vizinhana, e ela no sabia de ningum 
que possusse um modelo daqueles. Ao se aproximar ainda mais, a porta se abriu subitamente, e Dolores saltou, fitando Marcela com olhar mordaz.
-Dona Dolores! - exclamou Marcela, realmente espantada. - Que surpresa...
-Como vai, Marcela? - indagou ela, olhando com ar de proposital desagrado para o edifcio em que ela vivia. -  aqui que voc mora?
-Sim, senhora.
-No vai me convidar para entrar?
-Sim, claro.
A visita de Dolores no agradara Marcela, mas o que ela podia fazer? No podia ser grosseira com a futura sogra e no teve outro remdio, seno abrir a porta e deixar 
que ela passasse. Dolores torceu o nariz e entrou no prdio, fingindo que disfarava a repulsa. Subiu os dois lances de escada at o apartamento de Marcela, no 
sem antes fazer um comentrio desagradvel sobre a falta que faziam os elevadores. Marcela apenas assentiu, at que chegaram ao segundo andar, e abriu a porta para 
Dolores passar.
O apartamento, apesar de pequeno, estava muito bem cuidado, e Dolores lamentou no poder chamar Marcela de relaxada. Marcela indicou o sof, e Dolores se sentou 
e sorriu de um jeito afetado, esforando-se para que a moa conseguisse ler, em seus olhares estudados, a desaprovao que fazia a sua pessoa.
-Muito bem - falou Dolores, utilizando um tom de voz excessivamente alto para uma simples visita. - Aqui estamos.
Marcela sorriu sem jeito e retrucou pouco  vontade:
-A senhora gostaria de beber alguma coisa? Uma gua, um caf?
-Gostaria mesmo de um clice de xerez, mas no creio que voc tenha algum por aqui.
As faces de Marcela enrubesceram at a raiz do cabelo, e ela concordou constrangida:
-Desculpe-me, dona Dolores, mas eu no bebo.
- claro que no - ela ficou tamborilando com os dedos no brao do sof, estudando o ambiente com olhar crtico, at que encarou Marcela de frente e disparou: 
- Muito bem. Vou ser sincera com voc, Marcela. Dei-me o trabalho de vir at aqui procur-la porque estou muito preocupada com o futuro do meu filho. Voc me entende, 
no ?
-No, no entendo - respondeu Marcela, sustentando o seu olhar e lutando para no demonstrar o pnico que a invadia.
-Ora, vamos, menina, no precisa se fazer de tola comigo. Bem sei o quanto  esperta.
-Lamento, dona Dolores, mas no sei do que a senhora est falando. Sou uma moa simples.
-Muito simples, para dizer a verdade. No sei se tanta simplicidade assim faria bem ao meu Flvio.
-No estou entendendo...
-No est? Pois eu acho que me entendeu muito bem.
-Por que a senhora no fala com mais clareza? No compreendo esse jogo de adivinhas.
-Tem razo, Marcela. No sou mesmo mulher de fazer rodeios. A verdade  que tenho minhas dvidas se Flvio fez uma boa escolha. No sei se voc  a moa 
certa para ele. No que eu tenha alguma coisa contra voc, no  nada disso. Mas  que eu a acho... um pouco simplria demais. Meu Flvio  um homem da alta sociedade, 
e no estou bem certa se voc conseguiria acompanhar o seu estilo.
-A senhora est querendo dizer que no me aprova como esposa do seu filho.  isso, no ?
-No  que no aprove.  que, no fundo, me preocupo com voc. Como se sentir quando tiver que comparecer a festas e recepes, com esse seu jeito simples 
de moa do interior? No acha que vai se sentir envergonhada?
Cada vez mais ruborizada, Marcela ainda tentou contra-argumentar:
-Posso no ter tido uma educao esmerada, mas tambm no sou mal-educada. Sou professora e tenho meus princpios. Isso no conta para nada?
-Que princpios voc tem? - rebateu Dolores de imediato. - Conte-me que princpios so esses, para que eu possa conhec-la melhor.
-Sou uma pessoa decente, dona Dolores! - exaltou-se ela, levantando-se de chofre. -A senhora, nem ningum, tem o que dizer de mim.
-Acalme-se, menina, e sente-se. No vim aqui para acus-la. Quero apenas lhe mostrar onde voc est se metendo.
-No creio que esteja me metendo em lugar nenhum. Flvio e eu nos amamos, e  s isso que importa.
-Ser que o amor de vocs vai ser forte o suficiente para enfrentar as diferenas sociais?
-A senhora fala como se eu fosse uma mulher vulgar e grosseira. Posso no ter tido bero, mas creio que meus pais me educaram muito bem.
-Por falar em seus pais, por que eles no vm v-la?
-J falei sobre isso. Meus pais esto ficando velhos e tm medo do Rio.
-Eles no vm para o casamento?
-Na poca certa, irei busc-los. Mas no creio que a senhora tenha vindo at aqui para falar de meus pais.
-No. Como disse, gostaria de conhecer os seus princpios. Soube que Flvio a conheceu no hospital.
-Foi.
-Porque voc tinha tentado o suicdio.
-Como  que a senhora sabe disso? - espantou-se. - Ele lhe contou?
Dolores apenas sorriu. Quem lhe dera a informao fora Ariane, que soubera pela prpria Marcela.
-Por que voc tentou se matar? Alguma decepo amorosa?
-Eu... sinto muito, dona Dolores, mas no gosto de falar sobre isso. O que aconteceu no passado ficou enterrado no passado.
- mesmo? E o que aconteceu no passado?
-Nada, j disse. No quero ser grosseira, mas isso  problema meu. Nem Flvio me faz essas perguntas.
-Flvio  muito ingnuo, mas eu gostaria de saber.
-Por que?
-Curiosidade de sogra, talvez. Ou, quem sabe, no poderia ajud-la? Voc fez algum aborto?
-No!
-Mas voc e Flvio j... Voc sabe.
-Isso tambm no lhe diz respeito - retorquiu ela, o rosto parecendo em chamas.
-Meu filho no liga para essas coisas. Nem eu, na verdade.
-Se no liga, por que est me crivando de perguntas? Ser que no  suficiente a senhora saber que Flvio e eu nos amamos?
-Eu acredito nisso, mas gostaria de conhec-la melhor. Por que voc  to relutante em falar do passado?
-No sou relutante. O passado acabou, no interessa mais.
-Est escondendo alguma coisa, Marcela?
-No tenho nada a esconder. Sou uma moa simples que, num momento de desespero, atentou contra a prpria vida, mas graas a Deus no consegui. Seu filho 
me salvou a tempo.
- por isso que ele se apegou tanto a voc. Sente-se responsvel.
-No  nada disso! Flvio no  responsvel por mim. Ele salvou a minha vida, mas eu sou adulta e capaz de responder por meus atos. O que aconteceu foi que 
ns nos apaixonamos. Por que  to difcil para a senhora aceitar isso?
Dolores no respondeu, mas ficou olhando para ela com aquele sorriso irnico de quem est se divertindo com a situao. Estava claro que Marcela escondia algo, mas 
ela no conseguia atinar o que fosse. J ia fazer outra das suas perguntas maldosas quando um som insistente de buzina entrou pela janela. Seria Flvio?
Ao se aproximar da janela, Marcela suspirou aliviada. Adriana estava l embaixo buzinando, e ela acenou para a moa, fazendo sinal para que subisse. Ariane saltou 
e trancou o carro, entrando no edifcio, e Marcela foi abrir-lhe a porta.
-Graas a Deus voc chegou - sussurrou ela, assim que Ariane surgiu.
-Voc nem vai imaginar o que aconteceu, Marcela! - falou ela exaltada, sem notar o ar de alvio da outra. - Minha me deu um basta na situao. Colocou meu 
pai para fora e...
Calou-se abismada, ao dar de cara com Dolores, que olhava de uma para outra com um ar entre divertido e zangado.
-Esta  dona Dolores, Adriana. Me de Flvio.
-Muito prazer - cumprimentou Dolores, levantando-se e estendendo a mo para Ariane.
-Dona Dolores, esta  minha amiga Adriana.
-Ol... - respondeu Ariane, lvida de espanto e surpresa.
-Sente-se bem, minha filha? - continuou Dolores em tom zombeteiro. - Voc ficou plida de repente.
-Estou bem... - afirmou Ariane, apoiando-se em uma cadeira para no cair.
-Bem - fez Dolores, levantando-se e apanhando a bolsa -, acho que sua amiga veio aqui para conversar com voc. Parecia mesmo muito entusiasmada para lhe 
contar algo, e eu no quero atrapalhar. At logo.
-At logo - repetiu Marcela, que no esperava essa atitude de Dolores.
-Ah! - exclamou Dolores, virando-se para Ariane. - Seja o que for que tenha vindo conversar com sua amiga, espero que no seja nada que no se possa resolver.
-Obrigada - falou Marcela, porque Ariane no se mexia nem piscava.
Em seguida, Dolores saiu, caminhando para seu carro a passos largos. Ver Ariane ali naquela hora no foi tanta surpresa. Fazia parte de seu plano aproximar-se de 
Marcela. O que Dolores realmente estranhou foi o entusiasmo, a alegria com que ela se dirigira  outra. Havia um tom de amizade e confiana nas suas palavras, o 
que deixou Dolores desconfiada e preocupada. Seria possvel que Ariane tivesse tomado amizade pela tonta da
Marcela? Aquilo, alm de impossvel, era um desastre.
***
Em seu apartamento, Marcela suspirou aliviada, assistindo, pela janela, ao carro de Dolores sumir no fim da rua. A seu lado, Ariane parecia petrificada. No af de 
contar a Marcela as novidades de sua casa, nem percebera que o carro parado na frente do seu era o de Dolores.
-Ufa! - suspirou Marcela. - At que enfim, ela se foi.
-O que ela veio fazer aqui? - perguntou Ariane, sinceramente interessada.
-Essa mulher  terrvel! No aprova o meu casamento com Flvio.
-Por que no?
-Porque eu no perteno  alta sociedade.
-Mas que besteira...
-Voc pensa assim. J esteve apaixonada por um rapaz pobre e entende essas coisas do corao. Mas dona Dolores queria uma princesa encantada para o filho, 
e eu no fao esse tipo.
-Mas o que ela queria?
-Veio me fazer perguntas... perguntas sobre o meu passado. Perguntou da tentativa de suicdio. Como  que ela soube disso? - Ariane engoliu em seco, sinceramente 
arrependida de
ter aceitado aquele papel de espi. - Ser que foi o Flvio quem contou? Mas por que ele faria isso, conhecendo a me que tem?
-Vai ver que no foi ele.
-Mas quem foi ento? Ningum mais sabia disso. S ele e Luciana... - Marcela parou de falar abruptamente e olhou para Ariane, que havia escutado o que ela 
dissera.
-Quem  Luciana?
-Uma amiga.
-Voc nunca me falou sobre ela.
- que... faz tempo que no a vejo. Ela... ela... se mudou.  isso, Luciana se mudou do Rio. No sei mais onde mora.
Marcela comeou a andar de um lado para o outro nervosamente, apavorada porque havia falado demais.
-Por que voc ficou assim de repente? - tornou Ariane desconfiada.
-Assim como?
-Nervosa, aflita.
-No estou nervosa. Ou melhor, estou.  que dona Dolores me tira do srio.
-No foi por causa dessa Luciana?
-De Luciana?  claro que no. Imagine... No vejo Luciana h tanto tempo!
Era visvel que ela estava mentindo, mas Ariane achou melhor no perguntar mais nada. O nome Luciana mexera demais com Marcela, e tudo indicava que havia algo mais 
naquela histria. Quem seria aquela Luciana? Onde estaria? E que importncia tivera na vida de Marcela? Essas eram as perguntas que Ariane se fazia, e uma curiosidade 
mrbida foi-se apossando dela. Ser que ela e a tal de Luciana haviam sido comparsas em alguma atividade ilcita ou imoral? Ser que se drogavam juntas? Ou ser 
que foram companheiras na prostituio?
Por mais que Ariane estivesse um pouco arrependida de iniciar aquele jogo de espionagem e traio, a curiosidade foi-se aguando, e ela se pegou louca de vontade
de conhecer mais sobre aquela Luciana. Talvez Dolores tivesse razo afinal, e houvesse alguma histria escabrosa no passado de Marcela. Ser que valia a pena descobri-la
para us-la contra a moa?
Ariane se afeioara a Marcela, mas aquela no era uma amizade verdadeira. No podia ser. Ariane precisava deixar de lado o sentimentalismo e se concentrar em seu
objetivo. S assim
conseguiria reconquistar Flvio.
***
Era sbado, Luciana havia acabado de chegar da praia em companhia de Ceclia. Estava tomando banho, enquanto a outra preparava o almoo, at que o telefone comeou 
a tocar com insistncia. Ceclia deu uma espiada na direo do banheiro, mas a porta fechada e a gua do chuveiro indicavam que Luciana no estava ouvindo. Ceclia 
largou a colher de pau dentro da panela e correu a atender:
-Al?
-Luciana? - falou a voz do outro lado.
-No. Luciana est no banho. Quer deixar recado? - silncio. - Se no, pode ligar mais tarde.
-Quem , Ceclia? - perguntou Luciana, que acabara de sair do banheiro.
-No sei. Uma moa.
Luciana estendeu a mo, e Ceclia colocou nela o fone, voltando para a cozinha. Luciana esperou at que ela sasse para atender:
-Al? Quem fala?
-Sou eu, Lu, a Marcela.
-Ah! Oi, Marcela, tudo bem? Como conseguiu o meu telefone?
-Peguei com a Masa. Espero que no se importe.
-Voc sabe que no me importo. Eu o teria dado a voc, se tivesse pedido.
-Obrigada.
-Diga-me l! O que a fez ligar para mim?
-No sei... - pausa. - Estou confusa... com medo...
-De qu?
-Tenho medo, Luciana. Sinto que vou perder o Flvio.
Ela estava chorando, e Luciana tentou tranquiliz-la:
-Tenha calma, Marcela. O que foi que aconteceu?
-Ser que no podemos conversar?
-Tem certeza de que  isso que voc quer?
-Voc disse que era minha amiga!
-E sou. Mas  voc quem tem vergonha da nossa amizade.
-Oh! Luciana, estou to confusa! Diga-me o que fazer. Voc sempre soube o que fazer.
-Acho melhor termos essa conversa em outro lugar. Por telefone, no d.
-Ser que posso ir  sua casa?
-Hum... No sei se seria bom.
-Voc est com algum, no est? Foi quem atendeu o telefone.
-Sim, tenho outra pessoa e no sei se seria boa idia conversarmos aqui.
-Ela pode no gostar, no  mesmo? No quero atrapalhar a sua vida, Luciana. Se vou lhe trazer problemas, deixe para l.
-No, espere. Ceclia  s uma amiga. - Deu um riso maroto e emendou num sussurro: - Um pouco mais do que uma amiga, mas bem menos do que voc.
De onde estava, Ceclia no perdia uma s palavra do que Luciana dizia. Fingira que voltara para a cozinha e se pusera a escutar no corredor, fora das vistas da 
outra. Amiga, no ? E menos do que Marcela? O que ela queria com Luciana? Pelo tom de sua voz no comeo, e pelo jeito de Luciana, era algo srio. Ceclia s esperava 
que ela no representasse nenhum perigo. De jeito nenhum, poderia permitir isso.
Alguns instantes depois, Luciana desligou o telefone, e Ceclia correu para a cozinha, apanhou a colher de pau e fingiu que mexia a panela. Passaram-se mais alguns 
minutos, at que Luciana apareceu toda arrumada, pronta para sair.
-Quem era? - indagou Ceclia, de forma estudadamente desinteressada.
-Uma amiga.
-Marcela? - Luciana aquiesceu. - O que ela queria?
-Falar comigo.
-No posso saber o que ?
- assunto particular, Ceclia. No lhe diz respeito.
-Voc vai sair? - retrucou ela, mordendo os lbios.
-Vou almoar com ela.
-E o almoo que estou preparando?
-Guarde para o jantar. Poderemos comer juntas.
-No jantar, no estarei mais aqui.
-Voc  quem sabe.
O pretenso cime de Ceclia era o que irritava Luciana. Ela queria ter a posse de sua vida, e Luciana no gostava de pessoas possessivas. Ceclia j a estava cansando 
com suas cobranas e o seu apego, e j era hora de deixarem de se ver.
-Sabe de uma coisa, Ceclia? - prosseguiu Luciana. - Acho melhor que voc no esteja mesmo aqui na hora do jantar.
-Como assim?
-Creio que j  hora de terminarmos esse relacionamento. Foi muito bom, mas acabou. Quero de volta a minha liberdade.
-Voc no pode estar falando srio!  por causa dessa Marcela, no ? Voc ainda gosta dela.
-Marcela no tem nada a ver com isso. O que sinto por ela  apenas amizade.
-Ela vai lhe pedir para voltar, e voc vai aceitar.  por isso que no me quer mais.
-Como lhe disse, Marcela agora namora outra pessoa, e eu no a amo mais. Gosto dela como uma irm, s isso.
-Mas quer terminar comigo s porque ela telefonou.
-Engano seu. Vou sair para conversar com ela, sim, mas estou terminando com voc porque j estou cansada das suas cobranas. Desde que nos conhecemos, eu 
lhe disse que no gostava de ficar presa a ningum, mas voc parece se esquecer disso s vezes.
-Isso  porque eu a amo!
-No sei se acredito nesse seu amor. Acho que voc est empolgada comigo e pensa que me ama, mas no ama. Voc ainda  jovem e vai arranjar outra pessoa 
em breve.
-Voc no pode fazer isso comigo, Luciana. No  justo.
-No queria que as coisas fossem assim, mas no posso mentir ou fingir s para agradar voc.
-Voc no tem mais interesse por mim?
-No. Lamento, Ceclia, mas  assim que eu sou.
-No pode! No aceito!
-Eu lhe avisei quando comeamos e voc concordou. Disse que tambm no queria compromisso.
-Mas era porque ns mal nos conhecamos. Com o tempo, fui-me apegando a voc e hoje a amo de verdade.  impossvel que voc no sinta nada por mim.
-Sinto apenas amizade.
-Amizade  um sinnimo bonito para desinteresse.
-No  verdade. Interesso-me por voc, pelo seu futuro, o seu bem-estar. Vou continuar pagando seu cursinho pr-vestibular e voc vai continuar trabalhando 
no consultrio. Nada vai mudar.
-S no dormiremos mais juntas.
-S isso.
-S isso? Voc acha que  pouco?
-No sei se  muito ou pouco, mas  assim que vai ser.
-Por favor, Luciana, no faa isso comigo! - ela comeou a chorar. - Vou sentir muito a sua falta.
-Voc se acostuma.
-Por que est sendo to fria e cruel?
-Estou sendo apenas verdadeira. Voc no ia querer estar ao lado de uma pessoa que diz que a ama s da boca para fora, ia?
-No...
-Pois ento? Eu no a amo, Ceclia, e lamento se voc pensa me amar. No d mais para continuarmos, e nosso relacionamento termina agora. Vou sair e, quando 
voltar, espero no a encontrar mais aqui.
-Est me mandando embora?
-No, em absoluto! Estou apenas tentando fazer as coisas da forma mais clara possvel.
-Vai voltar com Marcela, no vai?
-Marcela  s minha amiga, j disse. Vivemos juntas por muito tempo, mas agora somos s amigas. Por favor, no me faa mais repetir isso.
Ceclia se calou por um momento, engolindo o dio que, naquele momento, jorrava aos borbotes de seu corao.
-Por favor, Luciana...
-No! Por favor, peo eu. No rasteje nem se humilhe.  repugnante.
Repugnante? Aquilo j era demais. Luciana a estava rejeitando e humilhando, o que era muito mais grave. E tudo por causa daquela Marcela. Se perdesse a fonte de
renda de Luciana, ela ia ver s.
Luciana bateu a porta e deu um suspiro doloroso. No gostava de magoar ningum, muito menos Ceclia, que fora sua amante durante muito tempo. Mas era melhor terminar
tudo antes que Ceclia se apaixonasse verdadeiramente por ela, o que no acreditava que j houvesse acontecido. Ela fora dura, mas tinha um propsito: s assim conseguiria
fazer com que Ceclia entendesse e aceitasse que seu romance chegara ao fim.
Saiu do edifcio e deixou a lembrana de Ceclia para trs, concentrada no telefonema de Marcela. No precisava nem encontr-la para saber que o problema era ela,
o envolvimento que tiveram no passado. Chegou ao restaurante cinco minutos adiantada, e Marcela j a estava aguardando, olhando o relgio a cada segundo.
-Oi, Marcela - cumprimentou Luciana, puxando uma cadeira para se sentar.
-Oh! Luciana, estou to aflita! No sei mais o que fazer. Estou me enfurnando cada vez mais numa mentira.
-O que foi que houve dessa vez?
-Fiz amizade com uma moa... Ela me perguntou de voc, e eu inventei que voc havia se mudado. Mas isso foi porque dona Dolores foi me procurar, me fazendo
perguntas...
-Ei, ei! Calma. Uma coisa de cada vez. No estou entendendo nada.
Marcela parou de falar e respirou fundo, sentindo as lgrimas umedecerem seus olhos. Tomou flego algumas vezes, assoou o nariz e comeou a contar tudo o que vinha
acontecendo desde que ela conhecera Flvio.
- isso, Luciana - finalizou. - No sei mais o que fazer. Estou entrando cada vez mais fundo nessa mentira e no vejo como retornar.
-Bom, vamos por partes. Essa tal de Adriana  uma amiga
recente e no conhece o Flvio, logo, no pode prejudicar voc. Quanto  me dele, acho que voc no lhe deve satisfao nenhuma. O problema  o Flvio mesmo. Voc
devia contar para ele.
-Mas eu no posso! Ele j externou a sua opinio sobre lsbicas. No vai me aceitar!
-Voc no  lsbica.
-Mas j fui!
-Olhe, Marcela, eu nem sei se algum deixa de ser lsbica. Essas coisas no so assim, a gente no escolhe o que vai ser de repente.  a natureza. O que
eu acho mesmo  que voc  bissexual e agora se apaixonou por Flvio...
-Eu o amo, Luciana! Paixo  pouco.
-Tudo bem, voc o ama. Mais um motivo para lhe falar a verdade.
-Mas ele vai romper comigo, sei que vai.
-No acredito que ele faa isso. Mas, se fizer, no  melhor do que construir a vida em cima de uma mentira?
-Ele no precisa saber!
-Ele vai acabar descobrindo, pode crer.
-S se voc contar a ele.
-s vezes, essa  a vontade que d. S assim, voc acaba com essa agonia.
-Nem pensar! Voc no tem o direito.
-Sei que no, mas tambm no me agrada ver voc nesse estado. E falar assim do nosso relacionamento depois de todos esses anos, Marcela, francamente... Eu
esperava um pouco mais de considerao da sua parte.
-Voc est chateada comigo?
-No  que esteja chateada, mas di ouvir voc falar de mim como se eu fosse uma aberrao. Pense bem: como voc se sentiria se eu lhe dissesse que tenho
vergonha de voc?
-Mas eu no tenho vergonha de voc!
-Tem, sim. De mim e de voc. Tudo seria muito mais fcil se voc chegasse para o Flvio e, naturalmente, lhe contasse tudo. Ele pode ficar chocado no comeo,
mas vai entender. E, se no entender,  porque no ama voc tanto assim.
-No posso, Luciana. Sei que voc est certa, mas no me pea para fazer isso.
-Quer que eu faa por voc?
-Como assim?
-Quer que eu conte a ele? No tenho problema nenhum quanto a isso.
-Deus me livre! A mesmo  que ele vai me odiar.
-Acho que voc est fazendo um julgamento precipitado sobre seu noivo. Afinal, o que ns fizemos no foi to grave assim.
-Pode no ter sido para voc, mas para ele e a sociedade foi, sim.
-Ele no pensa que voc tentou se suicidar por causa de um rapaz?
-Pensa.
-E no a aceitou mesmo assim, mesmo imaginando que voc j no era mais virgem porque havia transado com outro?
-Mas  diferente...
-No , no. Basta voc dizer que ele est certo em quase tudo. O nico ponto em que ele errou foi no sexo do seu namorado. No era namorado, era namorada...
-Isso no  hora para brincadeiras, Luciana! O assunto  srio.
-Tem razo, desculpe-me. Ento me diga: o que voc quer que eu faa?
-S quero que me ajude. Se algum vier lhe perguntar alguma coisa, diga que fomos apenas amigas.
-Voc quer que eu minta?
-Por favor, Luciana, eu estou implorando.
-Voc sabe que eu no gosto de mentiras. Nem sei mentir.
- s desta vez.
-Que vez? Ningum nem me conhece!
-Eu sei, mas o meu corao est pequenininho. Sinto que algo vai acontecer.
-Bobagem sua.
-Voc no vai contar nada a ele, vai?
-J disse que no.
-Mas h pouco voc falou que tinha vontade...
-Mas no vou contar. Embora no concorde com essa sua deciso, vou respeitar a sua vontade. Quem tem que contar  voc.
-Obrigada, Lu - suspirou ela aliviada. - Sabia que voc compreenderia.
Naquele momento, um estranho pressentimento perpassou o corao de Luciana, e uma sombra cinzenta turvou o semblante de Marcela. O destino na terra  traado pelas 
prprias pessoas que o vivem, que, muitas vezes, conseguem alterar o rumo que suas vidas tomam. Mas, quando isso no acontece, e as desgraas sobrevm, a tendncia
dos encarnados  culpar a sorte, a fatalidade, Deus e os espritos. Em tudo procuram uma desculpa para os seus infortnios, mas se esquecem de que a nica justificativa
para o seu sofrimento  a sua prpria vontade, a sua imprevidncia e a sua invigilncia.
Depois de deixar Marcela, Luciana voltou para casa pensativa. As mentiras da amiga ainda a colocariam em uma situao difcil, e ela no poderia evitar. Respeitava
a deciso de Marcela e tinha seus prprios problemas para resolver.
Seu maior problema, no momento, era Ceclia. Na verdade, nem era Ceclia, mas ela mesma. Sua nsia desenfreada por liberdade, a averso que tinha a compromissos 
e ligaes srias a deixavam intrigada. Ela dizia a si mesma que tudo era reflexo do enorme tempo que vivera com Marcela, mas sabia que no estava sendo verdadeira 
consigo mesma. O que ela sentia era uma necessidade indescritvel de ser livre e no se apegar a ningum.
Reconhecia que acabava ferindo o sentimento alheio, como fora com Marcela e agora com Ceclia. Mas ela no podia evitar. No podia fingir o que no sentia nem enganar 
a si mesma e s outras. Procurava ser sincera ao mximo, mas sempre acabava machucando algum.
J estava cansada. Bem l no fundo, o que queria era algum que a aceitasse do jeito que ela era, que a fizesse aquietar o corao e se sentir amada. Mas algo dentro 
dela relutava em se submeter  passividade das relaes estveis e estava sempre em busca de algo mais que ela no sabia precisar ou definir.
Nunca se envergonhara de ser como era. Desde menina,
aceitara com naturalidade a sua preferncia por mulheres. S que agora comeava a questionar o porqu de muitas coisas. Ser lsbica no era problema, mas por que
ela precisava temer tanto o envolvimento emocional? Ficara aquele tempo todo com Marcela porque praticamente a dominava e representava o papel masculino na relao, 
no sentido de ser aquela que resolvia tudo e tomava a frente em todos os assuntos. Marcela era mais frgil, mais feminina, ao passo que ela sentia em si mesma uma 
alma forte e destemida, como se sua essncia fosse mesmo a de um homem.
Ela era uma mulher, mas no se comportava muito como tal. Bem que gostaria de ter nascido homem, mas no fora aquele o destino que a natureza lhe reservara. Por 
qu? Por que nascera num corpo to diferente de sua essncia? Muitas vezes, ela vivia imenso conflito consigo mesma. Se, de um lado, era uma pessoa sensvel; de 
outro, era muito prtica e at mesmo fria. Nascer mulher talvez a estivesse ensinando a exercitar uma sensibilidade que lhe parecia sufocada, mas por que ser que 
ela precisava de tudo aquilo? Eram essas as perguntas que se fazia e para as quais no conseguia encontrar as respostas.
A nica certeza que tinha era de que estava ficando cansada.
Na segunda-feira seguinte, Ceclia apareceu no consultrio acabrunhada e silenciosa, tentando fazer parecer que estava triste com o rompimento de Luciana, quando,
na verdade, o que temia era perder para sempre a sua fonte de renda. Logo pela manh, Masa estranhou o seu quase mutismo e indagou com uma certa preocupao:
-Est tudo bem?
-Est - foi a resposta lacnica.
-Voc parece meio abatida. Est doente?
-No tenho nada, estou bem.
Masa no insistiu e entrou em sua sala, preparando-se para comear os atendimentos. Tudo transcorreu normalmente durante a manh, embora a quietude excessiva de 
Ceclia causasse estranheza. Mais tarde, quando Luciana chegou, as coisas permaneceram iguais. Ceclia no queria que ela percebesse o seu temor e a sua raiva, mas 
sim que julgasse que ela estava sofrendo com a sua falta.
A posio que Luciana adotou foi de no dizer nada. J havia dito tudo o que precisava e no pretendia voltar atrs. Chegou em cima da hora, um pouco depois do paciente, 
e entrou logo para o atendimento. Entre um cliente e outro, Ceclia redobrava o ar de tristeza, para chamar a ateno de Luciana. Por fim, ao final do expediente, 
comovida com o ar desolado da secretria, Luciana considerou:
-No gostaria que ficasse assim, Ceclia. No gosto de ver voc sofrer.
Com gestos estudados, Ceclia encarou Luciana e forou as lgrimas, que umedeceram e avermelharam seus olhos, para, em seguida, responder baixinho:
-O que voc queria? Estou triste, no d para disfarar.
-No precisa disfarar. S no queria que voc sofresse.
-No se pode mandar nos sentimentos, e eu estou sofrendo muito.
-Ceclia, por favor...
Nessa hora, Ceclia se levantou e se virou de costas para Luciana, ocultando o rosto entre as mos.
-No d para agentar, Luciana. Eu a amo muito... - calou-se com um soluo abafado e fungou algumas vezes, ainda sem se voltar.
-Voc est enganada. No pode me amar.
-Como  que voc sabe? - fingiu explodir. - Por acaso voc est dentro de mim?
-No  isso.  que acho que o que voc sente por mim no  amor.
-Ah! No? E o que  ento? Desejo?
-No sei... pode ser...
-Voc no sabe nada, Luciana. No sabe o que eu sinto ou o que desejo. No sabe nem o que voc sente.
-Isso no  verdade. Sei muito bem o que quero e o que no quero...
-E o que voc no quer sou eu, mas o que quer  Marcela, no ?
-No diga isso. J falei que Marcela  apenas uma amiga.
-Uma amiga to ntima! - ela fitou Luciana com olhos injetados e disparou em tom de deboche, imitando a voz de Luciana ao telefone: - Um pouco mais do que 
uma amiga, mas bem menos do que voc... , Luciana, eu ouvi. Ouvi quando voc disse isso a sua amiguinha Marcela. O que queria que eu pensasse?
-Voc no tinha o direito de escutar minha conversa ao telefone! - zangou-se.
-E voc no tinha o direito de falar assim de mim! O que fui
para voc, afinal? Um passatempo? Uma distrao? Ou algum para satisfazer os seus desejos e as suas fantasias sexuais?
-Como se atreve a dizer uma coisa dessas? Tivemos uma relao de cumplicidade e troca.
Luciana estava se exaltando, e Ceclia, perdendo a cabea. Era preciso ter calma e inteligncia para no pr tudo a perder.
-Perdoe-me, Luciana - reconsiderou ela, imitando voz de choro e tentando aparentar arrependimento. -Voc tem razo... Nossa relao sempre foi de troca. 
 que eu estou sofrendo tanto! Estou desesperada!
A raiva fez com que o pranto brotasse do peito de Ceclia, e ela deu livre curso s lgrimas, fazendo parecer a Luciana que chorava de dor.
-No precisa ficar assim - ponderou Luciana, penalizada. - Voc  jovem, bonita. Pode ter a pessoa que quiser.
-Mas eu quero voc! S voc me interessa.
-Sinto muito, Ceclia, mas isso no  possvel. No posso ficar com voc s para agrad-la ou impedi-la de sofrer. No seria honesto nem comigo, nem com 
voc.
-Por favor, Luciana, pelo amor de Deus! O que voc quer que eu faa? Que implore? Que me ajoelhe a seus ps?
Num gesto dramtico, Ceclia atirou-se aos ps de Luciana e abraou as suas pernas, soluando de tal forma que quase no conseguia mais falar. Aquela cena provocou 
uma espcie de choque eltrico em Luciana. Se, por um lado, sentia piedade de pessoas em sofrimento; por outro, tinha repulsa daquelas que rastejavam e abandonavam 
o orgulho e a razo. Por isso, naquele breve momento, tomou uma deciso.
-Olhe aqui, Ceclia - falou ela, com voz entre compreensiva e firme, levantando a outra do cho -, assim, do jeito que est, no vai dar. No tem condio 
de voc continuar trabalhando para mim.
-Est me mandando embora? - indignou-se.
Luciana hesitou, mas era o melhor que deveria ser feito.
-Estou - afirmou convicta.
-Mas como? Do que  que eu vou viver? E o cursinho pr-vestibular?
-Lamento, mas  assim que tem que ser. No queria que as coisas chegassem a esse ponto, mas voc no me deixa escolha. No quero que voc sofra nem pretendo
prejudic-la, mas manter voc aqui s vai piorar as coisas.
-Por que? Trabalhei normalmente hoje, no foi?
-Voc passou o dia todo acabrunhada.
-No tenho nem o direito de ficar triste? Por acaso eu destratei algum? Fiz alguma grosseria para algum cliente?
-No se trata disso. No  com o trabalho que estou preocupada. O que me preocupa  voc. Acho que ficar perto de mim no vai lhe fazer bem.
-Voc no sabe o que me faz bem ou no. Amo voc, Luciana, mas no posso perder o meu emprego.
-Sinto, mas  o melhor. Tambm no queria mand-la embora, mas no vejo outra sada. Vou lhe pagar o aviso prvio, e voc pode ir procurando outro emprego.
-Aviso prvio? Mas assim, dessa forma?
-Amanh formalizaremos tudo.
-Mas Luciana...
-Vou pedir ao contador para resolver isso para mim. Voc vai ficar muito bem. Vou lhe pagar a indenizao e ainda lhe dar uma gratificao por fora.
-Quanta generosidade! Eu no quero esmola, quero o meu emprego e ganhar o meu dinheiro graas ao meu trabalho!
-Voc pode arranjar outro emprego. Vou lhe dar referncias...
A vontade de Ceclia era apertar o pescoo de Luciana at ouvi-lo
estalar em suas mos, mas ela no podia fazer nada. Perder o emprego significava perder a boa vida que Luciana estava lhe dando, e isso, ela no podia permitir.
Mas com Luciana, no podia agir de forma rude ou agressiva. Ela era geniosa e temperamental, e uma reao brusca s serviria para afast-la ainda mais. Era preciso
despertar a sua compaixo e a sua simpatia.
-Luciana, por favor...
-No adianta, Ceclia, estou decidida. A partir de amanh, voc no trabalha mais aqui.
-Voc no pode fazer isso. E a Masa? Ela no vai gostar.
-Masa no vai se opor, tenha certeza. Vou falar com ela e explicar tudo.
-Ela ainda no sabe do nosso rompimento?
-Ainda no. No queria envolv-la em nossos assuntos pessoais, mas agora no tem mais jeito. Hoje mesmo, conto-lhe tudo.
-Mas Luciana, eu a amo!
-Por favor, Ceclia, no repita mais isso.  degradante e humilhante.
-Como voc pode falar assim do meu amor?
-No vamos comear com isso de novo. J est decidido, e eu no vou voltar atrs.
-Luciana, me escute... - choramingou ela, as mos postas em sinal de splica. - Eu no posso viver sem voc. No  justo...
-Humilhar-se s vai piorar as coisas. Lamento muito que tenha que ser assim, Ceclia, mas  o melhor. Sei que voc vai me odiar hoje, mas isso vai passar, 
e a ento voc vai me dar razo.
-Eu a amo - insistia Ceclia, com voz cada vez mais splice.
-J disse que no acredito nesse amor.
-Mas  verdade! Voc no pode falar sobre os meus sentimentos.
-No quero comear tudo outra vez, j disse. E, ainda que seja verdade, ainda que voc me ame, eu no a amo. Nunca a amei.
O sangue foi subindo  cabea de Ceclia que, por mais que no quisesse se descontrolar diante de Luciana, no conseguia mais conter o seu dio.
-Voc me usou, no foi mesmo? Enquanto eu servia, me quis ao seu lado. Mas, quando sua ex-amante apareceu, voc logo aproveitou para me enxotar e voltar 
correndo para os braos daquela lsbica vagabunda!
-Isso j  demais! - vociferou Luciana, dirigindo-se para a porta e escancarando-a. - V embora. D-me a chave do consultrio e saia daqui!
Completamente vencida e atordoada, Ceclia apanhou a bolsa e passou por Luciana feito uma bala. J no pensava mais em reatar o romance. Queria se vingar de Luciana
de uma forma que ela jamais esquecesse. Em seu ntimo, pensamentos atrozes a visitavam, e ela foi-se deixando consumir por um dio desmesurado e irracional. Durante
quase um ano, tivera que se submeter aos caprichos e fantasias de Luciana, quando, na verdade, o que
queria era estar na cama de Gilberto. Suportara tudo em silncio e com fingida paixo e, embora tivesse alcanado alguns momentos de prazer com Luciana, aquilo no
era nada se comparado ao turbilho de emoes que sentia ao fazer sexo com Gilberto. Luciana era o seu p-de-meia, e Gilberto, sua verdadeira paixo. Submetera-se 
a tudo por causa dele, para agrad-lo, para conseguir algum dinheiro a mais e se colocar bonita e vistosa para ele. E, agora, Luciana queria acabar com tudo.
-Isso no vai ficar assim - rosnou Ceclia entre os dentes, seguindo pela rua aos tropees.
Era preciso tomar alguma atitude antes que algum descobrisse o que acontecera. Ningum presenciara aquela discusso e ningum sabia que elas haviam rompido. Ceclia 
precisava agir antes que Luciana tomasse alguma providncia. Mas o que poderia fazer? Pensando com rapidez, aproximou-se de um orelho e ligou para Gilberto, rezando 
para que ele estivesse em casa. O rapaz logo atendeu, e Ceclia lhe narrou brevemente o que havia acontecido, pedindo que ele fosse ao seu encontro no endereo de 
Luciana, o mais rpido que pudesse.
De l, Ceclia tomou um txi e se dirigiu para a casa de Luciana. No podia se dar queles luxos, mas aquela era uma ocasio especial. Chegou praticamente junto 
com ela, e Gilberto apareceu cerca de dez minutos depois.
Enquanto isso, dentro de casa, Luciana caminhava de um lado a outro na sala. A discusso que tivera com Ceclia deixara-a transtornada e aflita. Nunca imaginara
que Ceclia pudesse falar aquelas coisas e se surpreendera com a forma agressiva e grosseira com que reagira. Ser que Masa tinha razo?
Pensando na amiga, apanhou o telefone e ligou para ela. Foi Breno quem atendeu e foi chamar a mulher, que estava terminando o jantar.
-Oi, Lu - falou. - O que foi?
-Voc est muito ocupada?
-Estou fazendo o jantar. Por qu? Quer vir comer aqui?
-No. Preciso conversar com algum. Aconteceu uma coisa hoje, no consultrio...
-Que coisa?
Nesse momento, a campainha do apartamento de Luciana comeou a soar, e ela respondeu apressada:
-Um momento. Esto tocando a campainha.
Luciana largou o fone em cima da mesinha e foi atender a porta. Pelo olho mgico, viu que era Ceclia e balanou a cabea, contrariada. No conseguiu ver Gilberto, 
que estava escondido no patamar da escada, aguardando, e acabou por abrir a porta, pronta para mandar Ceclia embora novamente. Mas, antes mesmo que ela pudesse 
dizer alguma coisa, Gilberto saltou de onde estava e foi empurrando-a para dentro, ao mesmo tempo que a imobilizava e cobria sua boca com uma das mos.
-No pensou em me ver novamente, no , cadela? - rugiu Ceclia. - Pensou que podia me usar e me colocar na rua com uma mo na frente e outra atrs? Pois 
no pode, ouviu? No sou mulher de se dispensar. Pensa que estou realmente apaixonada? Por voc? Ora, francamente! Como  que uma mulher feito eu poderia se apaixonar
por uma aberrao feito voc? Eu sou mulher, entendeu? Gosto  do meu homem.
Luciana sentiu uma umidade repulsiva em seu rosto e percebeu que Gilberto passava a lngua em sua face, rindo e debochando dela.
-Voc s gosta de mulher , sua vadia? - escarneceu ele, ao mesmo tempo em que enfiava a mo entre as suas coxas. - Isso  porque ainda no experimentou
um homem de verdade.
Ela conseguiu se desvencilhar um pouco e tentou correr, mas Gilberto foi mais rpido e a alcanou, jogando-a no sof com brutalidade. O seu riso era debochado e 
frio, e Ceclia comeou a rir freneticamente, enquanto repetia com voz maldosa:
-Mostre a ela, Gilberto! Mostre o que  ser mulher de verdade.
Recobrando o domnio sobre si mesma, Luciana comeou a se
debater, tentando se soltar dos braos de Gilberto, que a apertou ainda mais. Ela gritava e estava quase se soltando quando ele, com medo de que algum pudesse ouvir, 
acertou-lhe um murro violento na face, depois outro, e outro, fazendo-a calar-se, o rosto inchado e sangrando. Mais que depressa, ele puxou o short que ela vestia 
e se deitou sobre ela, novamente apertando a sua boca para que ela no fizesse barulho. Ela soltou um grito abafado quando ele a penetrou, porm suportou tudo e 
no se permitiu
chorar. Estava com raiva, mas no daria a Ceclia o gostinho de v-la chorando e suplicando que no lhe fizessem mal.
Com a boca tapada, Luciana no podia dizer nada e disfarava o medo. Instintivamente, olhou para o telefone pousado na mesinha, e Ceclia, seguindo o seu olhar,
viu-o tambm. Correu para ele e o apanhou, colocando-o no ouvido. Estava mudo.
-Com quem estava falando? - perguntou ela, com raiva. - Com a tonta da Masa? Ou com sua amante lsbica?
Gilberto j havia terminado de estupr-la e olhou assustado para Ceclia.
-Vamos embora daqui - disse, cheio de medo. - Ela estava falando com algum. Devem ter ouvido tudo!
Luciana estava exausta. No tinha sequer foras para gritar e s o que conseguiu foi ficar ouvindo os dois tramando seus prximos passos.
-Sua cadela! -vociferou Ceclia, esbofeteando-a novamente. - Merecia era morrer!
-Vamos embora! - insistiu Gilberto com gravidade.
-No! Ela vai contar  polcia.
-Vamos fugir! Vamos fugir! - repetia ele descontrolado.
Mas Ceclia no o escutava. Deixara-se invadir a tal ponto pelo
dio que nada nem ningum poderia demov-la do propsito de matar Luciana. A passos rpidos, ela se aproximou da outra, desfalecida no cho, e se abaixou junto a 
ela, quando s ento Gilberto percebeu uma faca reluzindo em sua mo. Nem teve tempo de falar. Com extrema agilidade, e um olhar de loucura e dio sobrenatural, 
Ceclia enterrou a faca no peito de Luciana, que gemeu baixinho e depois se calou. Ela teria ainda enfiado a faca outras vezes se Gilberto, vendo a sangueira que 
se espalhava sobre o tapete, no a tivesse arrancado de suas mos e berrado cheio de pavor:
-Voc a matou! Vamos embora daqui!
Ceclia olhou para o corpo inerte de Luciana e deteve a mo, acompanhando, com um misto de prazer e fascnio, o sangue que escorria pelo tapete. Sem dizer palavra, 
virou-se para a porta
da frente, soltou a faca e correu.
***
Assim que Luciana pousou o fone na mesinha, uma forte apreenso foi tomando conta do esprito de Masa. Durante alguns minutos, apenas o silncio vinha pelo outro
lado da linha, at que, de repente, palavras de agresso, perfeitamente audveis, chegaram at seus ouvidos. O tom era inconfundvel, e Masa reconheceu a voz de
Ceclia. Apesar do dio com que falava, Masa conseguiu entender tudo o que ela dizia. Somou a suas palavras as poucas que trocara com Luciana momentos antes, o 
que foi suficiente para deduzir que ela e Ceclia haviam terminado, e Ceclia fora  casa dela movida por alguma inteno escusa.
Quando o silncio irrompeu pelo fone novamente, Masa desligou o telefone e chamou Breno, para juntos irem  casa de Luciana.
-Mas querida, e o jantar? - ele tentou argumentar.
-Desligue o fogo e vamos! Sinto que  urgente!
Ele no protestou. Masa no era mulher de fazer escndalos nem de se descontrolar por qualquer motivo e, se ela estava assustada e preocupada, uma boa razo havia 
de ter. Mais que depressa, saram de casa e partiram para o apartamento de Luciana, Breno guiando o mais rpido que podia. Luciana morava relativamente perto, e 
eles chegaram em menos de quinze minutos.
A porta do apartamento estava fechada, mas no trancada, e Masa a abriu facilmente. As luzes da sala estavam acesas, e a primeira coisa que ela viu quando entrou 
foi o corpo cado de Luciana, uma ferida aberta no peito, por onde escorria um fio grosso e espesso de sangue. Masa soltou um grito e teria desmaiado, no fossem 
a preocupao e a urgncia que o caso requeria.
Nem tiveram tempo de chamar a ambulncia. Masa estava to nervosa que nem saberia dizer se Luciana estava viva ou morta, e Breno teve que agir com rapidez. Ergueu 
o seu corpo, e foram correndo ao hospital. Ela ainda estava viva, mas a respirao parecia que ia sumindo, e Masa ps-se a chorar e a rezar. A seu lado, Rani acompanhava 
tudo. Desde o momento em que Luciana e Ceclia haviam brigado, no consultrio, permanecera junto a ela, j sabendo o que aconteceria.
Chegaram em instantes a um hospital particular, e Luciana foi logo socorrida e levada  sala de cirurgia. A ferida era grave, e ela tinha que ser operada imediatamente. 
Durante horas, Luciana
ficou na sala de cirurgia, entregue aos cuidados dos mdicos e dos orientadores espirituais daquele hospital. Ao final da operao, o mdico responsvel foi falar
com Masa e Breno, que permaneceram o tempo todo na sala de espera.
-Foram vocs que a trouxeram? - indagou ele, aproximando-se dos dois.
-Fomos - respondeu Breno. - Como ela est?
-Ainda  cedo para dizer. O estado  grave, mas ela tem chance de sobreviver. A ferida  profunda, e ela est com o rosto muito ferido, alm de ter sido 
estuprada.
-Estuprada!? - chocou-se Masa. - Mas por quem?
O mdico no respondeu, e Breno retrucou:
-Ela est consciente?
-No. Est em coma desde que chegou.
-Oh! Meu Deus! - exclamou Masa chorando, agarrada ao peito de Breno.
-Ser que vocs podem avisar  famlia?
-Ela no tem famlia no Rio. S ns.
-Entendo. Bem, pelos procedimentos legais, a polcia j foi avisada. Deve chegar aqui em alguns instantes.
Com efeito, o detetive de planto na polcia, naquela noite, chegou poucos minutos depois, e Masa e Breno foram conversar com ele. Masa deixou de lado o medo da
polcia e contou tudo o que ouvira pelo telefone, mas as suas declaraes no eram suficientes para prender Ceclia. O policial, contudo, ficou de investigar.
- um absurdo! - desabafou Masa para Breno, depois que chegaram a casa. - Sei que foi Ceclia. Eu ouvi a voz dela!
-Querida, a polcia no pode sair por a prendendo as pessoas s porque voc acha que ouviu a voz de Ceclia ao telefone. E se voc estiver enganada?
-Mas no estou. E tinha mais algum com ela. No sei quem, mas ela foi estuprada, o que significa que havia um homem com Ceclia.
-O detetive sabe de tudo isso e vai investigar. Logo, logo, descobrem o meliante.
-Isso no  justo. Tenho certeza de que foi Ceclia. Se a prenderem, ela revela o nome de seu comparsa. Eles no podem ficar impunes!
-E no vo. Contudo, temos que aguardar. Se foi Ceclia quem fez isso, e ns sabemos que foi, a polcia vai descobrir e vai prend-la. Ela e seu cmplice.
-Pobre Luciana - lamentou-se Masa. - Eu cansei de avis-la sobre Ceclia. E agora vejo s no que deu.
-No  hora de ficar pensando nisso.
-Acha que eu deveria avisar a Marcela?
-E por que no? Marcela e Luciana viveram juntas por muito tempo. Ela precisa saber.
-Tem razo. Vou telefonar para ela.
***
O dia havia acabado de nascer quando Marcela entrou no hospital em que Luciana estava internada. Recebera a notcia poucas horas antes e quase desfaleceu de susto 
e tristeza. Deu o nome de Luciana na recepo e foi informada de que ela estava no Centro de Tratamento Intensivo, onde no podia receber visitas.
-Quero apenas notcias dela - implorou Marcela. - Por favor!
-A senhora  parenta?
-No... Sou uma amiga.
-Est bem. V ao segundo andar e siga pelo corredor  direita do elevador. No final, vai encontrar uma outra recepo, que  a do CTI. D o nome dela e pea 
informaes.
Marcela fez como a moa lhe dissera e foi pedir notcias de Luciana na outra recepo, onde foi informada de que o estado da amiga era grave.
-Posso v-la?
-Lamento, mas s parentes e, assim mesmo, por alguns poucos minutos.
Marcela saiu do hospital desolada. Como aquilo podia ter acontecido a Luciana? Masa dissera que estava certa de que fora Ceclia, a moa com quem ela estava saindo. 
Mas por que teria feito aquilo?
Uma profunda tristeza envolveu o corao de Marcela. Precisava ao menos ver como Luciana estava, mas ela no era parenta nem mdica, e no podia entrar. Sim, ela 
no era mdica, mas Flvio
era. Talvez ele pudesse ajud-la a entrar. Aquela parecia ser a nica oportunidade de ver Luciana pessoalmente, porm havia outras coisas a considerar. Flvio faria
perguntas... mas ela no precisava lhe contar sobre o seu envolvimento com Luciana. Ele sabia que elas haviam sido amigas e que tinham morado juntas. Ele at pensava 
que Luciana era a responsvel pelo seu quase suicdio, porque, supostamente, haveria roubado o homem por quem Marcela se apaixonara.
-Por que voc quer v-la? - indagou Flvio, quando ela lhe contou o que havia acontecido.
-Ela  minha amiga... ou era... Viemos juntas de Campos e...
-E ela lhe roubou o namorado, no foi? - Marcela no respondeu. - Tudo bem, Marcela, no precisa me explicar nada. Admiro a sua generosidade e o seu desprendimento. 
Qualquer uma, no seu lugar, no ligaria a mnima e ainda acharia bem feito.
-No sou qualquer uma.
-E  por isso que eu amo voc.
-Vai me ajudar, ento?
-Como no poderia ajud-la?
-Vai at l comigo?
- claro. Quando  que voc quer ir?
-Pode ser agora?
-Pode. Vamos l.
No foi difcil arranjar a visita de Marcela. Flvio gozava de nome e prestgio na comunidade mdica e foi prontamente atendido em seu pedido. Marcela, contudo, 
foi avisada de que o estado de Luciana era grave e no seria nada agradvel a viso da moa ligada a aparelhos e toda espetada de agulhas. Marcela quis ir assim 
mesmo, e Flvio foi com ela.
Realmente, ver a amiga naquele estado provocou incontidas lgrimas em Marcela que, durante alguns minutos, permaneceu parada diante dela, olhando o seu corpo com 
um assombro mudo. De repente, apanhou uma das mos de Luciana e levou-a aos lbios, chorando com angstia e sussurrando coisas inaudveis, que Flvio no conseguiu
compreender. Ela estava a ponto de se descontrolar quando Flvio a retirou dali.
-Voc est bem? - perguntou ele, do lado de fora, preocupado com o estado em que Marcela havia ficado.
-Oh! Flvio,  to horrvel! Como algum pde fazer isso com ela?
-Ser que no foi o namorado? - sondou ele com cautela. - Quero dizer, o mesmo que...
Marcela no conseguiu mais ouvir e desatou a correr pelo corredor do hospital. Queria fugir dali o mais rpido possvel, para no escutar as conjeturas de Flvio 
e no ter que mentir novamente. Aquela mentira estava chegando ao limite do insustentvel, e ela estava a ponto de lhe contar toda a verdade. Se ele quisesse deix-la 
depois disso, no teria importncia. O que ela no suportava mais era conviver com tanta mentira, tendo que esconder seus sentimentos justamente do homem que amava
e em quem deveria confiar.
Foi s quando alcanou a recepo da entrada que Marcela parou de correr, e Flvio chegou logo em seguida. Ela chorava muito, e ele a abraou comovido.
-Tenha calma, Marcela - ele procurava consolar. - Seja quem for que tenha feito isso, vai ter que se entender com a Justia.
-No estou preocupada com a Justia, Flvio. Mas  que ver Luciana naquele estado... Uma moa to jovem, to cheia de vida. E eu, que a conheci antes disso... 
 muito doloroso!
-Eu sei, querida, mas no fique assim. Tudo vai acabar bem.
-No importa o que ela tenha feito... o que ns tenhamos feito... Eu a amava mesmo assim. Ser que voc pode compreender o que  o verdadeiro amor?
- claro que sim, meu bem. Acho isso muito bonito de sua parte. No guardar mgoa nem rancor.  admirvel que algum seja dotado de tanta capacidade de amor 
e compreenso quanto voc.
-Ah! Flvio... - suspirou ela, certa de que ele no compreendia o que ela estava falando.
-Marcela - eles ouviram uma voz chamar nesse instante.
Os dois se viraram ao mesmo tempo e viram Masa parada
perto deles, com profundas olheiras e ar cansado.
-Ah...! Oi, Masa - cumprimentou Marcela, enxugando os olhos e assoando o nariz no leno. - Lembra-se de Masa, Flvio?
- claro - respondeu ele, apertando-lhe a mo. - Como vai?
-Quem  que pode estar bem numa situao como essa?
- verdade.
-Vocs foram ver Luciana?
-Fomos - disse Marcela. - Oh! Masa, fiquei to chocada!
-Foi uma coisa horrvel.
-J sabem quem foi que fez isso? - perguntou Flvio.
Conhecendo o problema de Marcela, Masa a fitou discretamente e tornou de forma vaga:
-Ainda no. Mas a polcia est investigando.
-Espero que prendam logo o bandido. Um crime como esse no pode passar impune.
-Espero que ela sobreviva-desabafou Marcela, entre lgrimas.
- claro, querida, eu tambm.
-Bom - finalizou Masa -, vou l em cima ver como ela est.
-Voc pode entrar?
-Posso. Como Luciana no tem famlia no Rio, tive que assinar como sua responsvel.
Marcela assentiu com a cabea e, braos dados com Flvio, saiu do hospital, deixando l dentro a vontade e a determinao de lhe contar a verdade. Estava muito fragilizada 
com o que acontecera a Luciana e, se Flvio a abandonasse naquele momento, era bem capaz de tentar matar-se novamente. A verdade podia esperar.
Havia apenas trs pacientes no Centro de Tratamento Intensivo daquele hospital, e Rani os observou com piedade. Os corpos fludicos de todos estavam adormecidos
acima de seus corpos fsicos, inclusive o de Luciana, que pairava a alguns centmetros do leito. Ela esperou pacientemente. Os espritos de luz lhe disseram que 
Luciana logo despertaria, e caberia a ela recepcion-la naquele mundo.
Efetivamente, cerca de dez minutos depois, Luciana abriu os olhos e levou um susto, sentindo seu corpo flutuar bem mais prximo do teto do que normalmente estaria.
Assustada, tentou se levantar e acabou se virando para baixo, dando de cara com seu corpo fsico estirado na cama, todo ligado a aparelhos. Ela comeou a se debater 
no ar, e Rani resolveu ajudar. Estendeu-lhe a mo e ajudou-a a reequilibrar-se, puxando-a gentilmente para baixo. Os ps de Luciana tocaram o cho, e ela fitou novamente 
o seu corpo fsico, sentindo um temor diante do desconhecido.
-Estou morta? - perguntou a Rani.
-No. Sua matria densa est em processo de coma, contudo, ainda vive.
Luciana ouviu as explicaes com ar de assombro e encarou Rani desconfiada.
-Quem  voc? No a conheo de algum lugar?
-Estive algumas vezes em sua companhia, durante o sono fsico.
- isso mesmo! Agora me lembro... Voc  a mulher que me confundiu com o tal de... Robert...
-Voc no  mais Robert. Agora compreendo isso. Sei quem voc  hoje e no estou aqui para prejudic-la.
-Por que est aqui? O que quer comigo?
-Fui designada para auxili-la nesse momento difcil.
-Quem a designou?
-Espritos iluminados que so superiores a mim.
-Onde esto eles?
-No sei. Deram-me a incumbncia de conversar com voc e expor o seu problema.
Luciana virou-se para o seu corpo fsico e observou com azedume:
-Parece-me que voc no pode resolver o meu problema.
-S quem pode resolver esse problema  voc.
-Olhe... Como  mesmo o seu nome?
-Rani.
-Olhe, Rani, vamos parar com essa conversa e vamos direto ao ponto. Eu nem a conheo, mas voc diz que foi mandada para me ajudar. Posso saber por qu? Quem 
a mandou?
-Porque eu a amo sinceramente, e h espritos superiores a mim interessados no seu crescimento. Se voc est recebendo uma chance de se reconciliar com a 
vida, eu tambm estou recebendo a minha de me reconciliar com o passado.
-Chance de qu? No estou entendendo nada.
-Voc no se lembra do seu passado de mentiras e manipulaes, no  mesmo? - Luciana meneou a cabea. - Pois foi isso que levou Ceclia a tentar matar voc.
-Isso o qu?
-No se lembra do que fez a todas ns?
-Eu fiz alguma coisa a vocs?
-Voc sabe. Apenas no quer se lembrar. Mas est tudo a dentro de voc.
De repente, foi como se um vu se descortinasse, e Luciana quedou estarrecida diante do que via. As paredes do hospital foram se desmanchando, e algo parecido com 
uma tela surgiu em seu lugar, ligada a fios tnues e transparentes que, por sua vez, se ligavam  sua mente. Os pensamentos comearam a se
atropelar, e imagens de vrios momentos de suas vidas zuniam pela sua cabea, enquanto Luciana ia-se recordando de vrias passagens do que vivera no passado. Era
ela quem controlava a mquina, que respondia ao que ela pensava e relembrava, projetando na tela imagens vividas de suas recordaes.
Vrias cenas iam surgindo e desaparecendo, at que, em dado momento, sua mente se fixou em uma lembrana especfica, e ela comeou a ver, na tela diante de si, o 
que se desenrolava na tela de seus pensamentos.
Ela no era ela, mas um ingls bonito e elegante, que caminhava por uma rua suja e escura de uma cidade que ela reconheceu como o Rio de Janeiro do sculo XVIII. 
O ingls, Robert, trazia pela mo uma moa ainda muito novinha, de seus treze anos, toda trmula e assustada. Ao final da rua, entraram no que parecia ser uma taverna, 
mas na verdade era um prostbulo clandestino que oferecia aos fidalgos da corte mocinhas recm-sadas da puberdade, todas entre doze e quatorze anos no mximo.
-Por favor, senhor - dizia ela -, no quero. Tenho medo.
-Deixe de ser tola - respondeu ele num portugus mal falado e carregado de sotaque britnico. - Voc vai ganhar muito dinheiro.
-Mas meus pais vo me matar se eu fizer isso.
-Se no fizer, quem vai mat-la sou eu.
A menina comeou a chorar, e Robert a empurrou para dentro de um quarto tosco e mal iluminado, onde um homem velho e gordo ressonava em cima da cama. Robert cutucou 
o homem com a bengala, e ele despertou assustado. Assim que abriu os olhos, viu a menina ao lado de Robert, e seus olhos se encheram de cobia. Robert colocou a 
menina diante dele e rasgou as suas roupas com violncia, expondo seu corpo esguio ao homem, que passava a lngua pelos dentes, j se contorcendo de prazer. Em seguida, 
atirou-a nos braos dele e saiu, sem ligar para o seu choro e as suas splicas.
Duas horas depois, a porta do quarto se abriu, e o homem saiu satisfeito. Pagou a Robert o prometido e foi embora sem dizer nada. Robert ento entrou no quarto e 
encontrou a menina deitada na cama, chorando, toda machucada com a brutalidade do homem.
-Levante-se da, vamos! - ordenou ele. - Voc j pode ir embora.
Apesar de dolorida, ela obedeceu. Levantou-se da cama e apanhou as roupas, vestindo-se em lgrimas.
-O que vou dizer a meus pais?
-No diga nada. Mostre-lhes o dinheiro, e eles ficaro satisfeitos.
-Por que fez isso comigo, mister Robert?
-Quando lhe ofereci o dinheiro, voc concordou.
-Mas eu no sabia o que aconteceria. O senhor me disse que ele era pintor...
-Deixe de lamrias, menina, e tome o seu dinheiro. Foi merecido.
Robert atirou vrias cdulas em cima dela, que as recolheu entre soluos.
-Nunca mais quero fazer isso, nunca mais...
Ela se levantou para ir embora e, ao passar rente a ele, sentiu que suas mos a seguravam.
-Voc  uma menina muito bonita - elogiou ele, roando os lbios nos dela. - Pena que no fui o primeiro.
Assustada, a menina recuou e se desvencilhou dele, correndo porta afora, e as imagens se misturaram e passaram correndo pela tela e a mente de Luciana, ora indo 
para a frente, ora para trs. Em dado momento, tornaram a parar, e l estava Robert novamente, deitado ao lado da mesma menina. Ela agora estava com ar mais descansado, 
aparentando paixo nos gestos e na voz.
-Mister Robert - falou ela, quase num sussurro -, quando  que o senhor vai me tirar da minha casa?
-Tenha calma, menina. Voc ainda  muito jovem, e seu pai no vai permitir. Voc no quer que eu seja acusado de rapto, quer?
-Oh! No! Mas  que eu gosto tanto do senhor!
Novamente, as imagens se misturaram, at pararem no mesmo
quarto, em outro momento, e a menina dizia novamente:
-Estou esperando, mister Robert. Meu pai j est ficando desconfiado.
-Voc tem que ter pacincia, j disse. No posso me casar com voc assim, de uma hora para outra.
-Mas o senhor disse que me amava. E eu amo tanto o senhor!
-Se me ama de verdade, ento vai ter que esperar.
As imagens deram outra volta, e mais outra, e todas mostraram a Luciana a mesma cena que se repetia: a menina declarando o seu amor e suplicando a Robert que se 
casasse com ela. Por fim, uma ltima cena preencheu a tela, e a menina ia dizendo, aos prantos:
-Isso no est certo! O senhor prometeu.
-Deixe de sandices, menina! Ento no v que no posso me casar com voc?
-Mas o senhor prometeu. Disse que me levaria embora da minha casa.
-E voc acreditou? Ora, vamos, mas quanta burrice.
-O senhor mentiu para mim.
-Eu at que tinha vontade de lev-la comigo para bem longe daqui, mas isso no  possvel. Tenho negcios a cuidar, e minhas garotas dependem de mim.
-No posso ser uma de suas garotas?
-Voc . No lhe arranjo clientes especiais?
-O senhor s me arranja velhos.
-Isso  porque eu gosto de voc e no quero correr o risco de que voc se envolva com nenhum jovem galante.
Era mentira. A menina, de nome Mariana, era oferecida aos velhos e ricos fidalgos porque era jovem e pouco experiente, o que rendia um dinheiro extra a Robert. As
moas de seu prostbulo s atendiam homens do povo, sem muitos recursos, porque os nobres se recusavam a pisar num bordel sujo, com mulheres castigadas pelo tempo 
e malvestidas. O futuro de Mariana, fatalmente, seria aquele, mas enquanto ela ainda era jovem e fresca, Robert podia se aproveitar para extrair um pouco mais de 
dinheiro daqueles homens ricos e nobres, que procuravam mulheres fora do lar e pagavam bem em troca de seu segredo. E, enquanto elas serviam aos ricos, serviam tambm 
a ele, porque Robert no gostava de mulheres velhas e usadas, mas s das menininhas de corpo rijo e doce.
-Quero me casar com o senhor - prosseguiu Mariana. - Se no, vou contar tudo a meu pai.
-Voc no faria isso. Ele a expulsaria de casa.
-Mas mataria o senhor primeiro. Meu pai  soldado da guarda real e no vai deixar o senhor sair impune.
-Soldado? Mas voc no disse que seu pai era arteso?
-Disse. Mas s porque tive medo de que o senhor no me quisesse. Ou acha que eu me deitei com aqueles porcos velhos por causa do dinheiro? Deitei-me com 
eles para agradar o senhor, porque era o que o senhor queria, mas o que eu queria mesmo era me deitar com o senhor.
-Por que fez isso, menina? Ns dois podemos acabar muito mal.
-Eu sempre via o senhor da minha janela... to bonito, to distinto... Apaixonei-me pelo senhor s de v-lo passar.
-Voc  louca? O que est dizendo?
-Estou dizendo que fiz o que fiz por amor ao senhor. E agora que consegui o que queria, no posso perder. O senhor vai ser sempre meu. Se eu falar com o
meu pai, ele vai obrigar o senhor a se casar comigo.
-Ele vai me matar! Voc mesma disse.
-S se o senhor no quiser se casar. Meu pai tem verdadeira adorao por mim e nunca me mataria.
-No faa isso, Mariana! No posso me casar. Voc  s uma menina!
-E o senhor  um homem muito mau. Enganou-me para conseguir o que queria, fez-me milhes de promessas e agora quer fugir ao seu compromisso. Meu pai precisa
saber disso.
-Se seu pai me matar, voc vai ficar sem mim. No  isso o que voc quer, ?
-No. Mas prefiro v-lo morto a v-lo nos braos de outra mulher. Ou o senhor se casa comigo, ou no vai ser de mais ningum.
-Voc  louca! Louca! Devia estar num sanatrio!
Robert estava apavorado. Casar-se com aquela doidivanas
era a ltima coisa que desejava. J estava ficando cansado dela e pretendia terminar tudo, mas aquela revelao o deixou estarrecido e amedrontado. Mariana mentira, 
dizendo que o pai era arteso, mas ele era um soldado, provavelmente violento, que no hesitaria em matar o homem que tivesse roubado a honra de sua nica filha. 
O que poderia ele fazer?
-Ele j sabe sobre ns? - perguntou Robert, o rosto iluminado pela terrvel idia que tivera.
-Ainda no.
-Contou a mais algum sobre ns?
-No, j disse. Ningum sabe. Por enquanto.
-Pois ento - tornou ele, um brilho frio no olhar -, ningum nunca vai saber.
De um salto, Robert agarrou o pescoo de Mariana, que comeou a se debater assustada, nos olhos uma indizvel expresso de surpresa e dor. Ela era pequena e frgil
e, em poucos minutos, tudo estava terminado. Depois que ela morreu, Robert enrolou o seu corpo num cobertor e, altas horas da madrugada, colocou-o numa carruagem
e saiu com ele da cidade. Chegou a um rio turbulento e profundo, e amarrou vrias pedras no corpo de Mariana, atirando-o na gua. As guas imediatamente o tragaram,
e o corpo de Mariana sumiu para sempre; nunca mais foi encontrado.
O desaparecimento de Mariana foi um mistrio. Ningum sabia que ela e Robert se encontravam. As moas do bordel nem desconfiavam de que ele estava dormindo com uma
menina. Apenas Rani, sua preferida e confidente, sabia de seu envolvimento com ela, mas Rani nunca disse nada. O pai de Mariana ficou feito louco, procurando-a por
toda parte, afirmando que ela era um pouco estranha e perturbada, sempre fantasiando as coisas, e precisava de cuidados, mas no conseguiu apurar nada. Os fidalgos
que se deitaram com ela, por medo e vergonha, se calaram, at que ningum nunca mais ouviu falar da pobre e pequenina Mariana.
Nesse ponto, as imagens se desvaneceram na mente de Luciana, e a tela projetada na parede do quarto se dissolveu. Luciana encarou Rani com lgrimas nos olhos e se
ajoelhou diante dela, enlaando seus joelhos. Em seguida, deitou a cabea em
seu colo e simplesmente chorou.
***
Rani teve que aguardar alguns minutos at que as lgrimas de Luciana secassem. As lembranas haviam levado a moa a extrema comoo, e ela sentia a dor da culpa
pesar sobre seus ombros.
-Agora compreendo tudo - lamentou-se Luciana, ainda agarrada ao colo de Rani. - Pobre Ceclia... foi aquela menina.
-No fui autorizada a lhe trazer essas lembranas para que voc se sentisse culpada.
-Como  que voc acha que eu deveria me sentir? Agora me lembro de quem fui e do que fiz a ela. Acha que  fcil saber que matou algum?
- por isso que temos conscincia: para que ela nos alerte sobre o que fizemos de bom ou mau, de certo ou errado, mas para que possamos consertar e evoluir. 
No  para nos castigar nem para nos infligir punies.
-Mas e o remorso?
-O remorso  muito bom, porque  atravs dele que reconhecemos o mal que fizemos. Mas no encare o mal como essa coisa terrvel e condenvel. O mal  parte 
do crescimento humano, porque  atravs dele que aprendemos o valor do bem. E, mais cedo ou mais tarde, todo mundo aprende.
-Ah! Rani, o que foi que eu fiz? Eu nasci homem e abusei das mulheres. E hoje, vim como lsbica para aprender o qu?
-Voc nasceu mulher para experienciar o universo feminino que tanto desprezou. Robert jamais acreditou que as mulheres possussem inteligncia e vontade. 
Para ele, as mulheres eram objetos inteis e descartveis. Quando jovens e belas, serviam para o prazer. Se feias, tinham utilidade nas tarefas domsticas. As velhas 
eram dispensveis e podiam ser abandonadas. Quantas mulheres Robert colocou na rua porque, ao envelhecer, ficavam impedidas de trabalhar ou no despertavam mais 
o interesse dos homens? Quantas moas grvidas ele abandonou porque no podiam mais se deitar com ningum? E quantos abortos provocou para no perder os seus lucros? 
Foram muitos lares desfeitos, muitas vidas perdidas, muitas esperanas destrudas.
-Obrigada, Rani, isso s faz com que me sinta mais culpada - ironizou Luciana.
-Pois no devia. Devia era agradecer a Deus a oportunidade que teve de reencarnar e se modificar. Eu ainda no consegui essa chance.
-Por que no?
-Porque s queria estar junto de voc, e isso no ser possvel.
-E voc, Rani? Onde  que entra nisso tudo?
-J disse que voc me trouxe da ndia para a Inglaterra, e depois, para o Brasil. Eu sempre fui a sua preferida, a nica que voc respeitava e a quem realmente 
amou. Mas no era a nica em sua vida, apesar de voc sempre voltar para mim. Tive que suportar muitas humilhaes para ter voc ao meu lado.
-No tem dio de mim?
-Meu corao no aprendeu a odiar, s a amar. Durante muito tempo, procurei-a, porque queria estar perto de voc, partilhar da sua vida, mesmo que no mundo 
astral. Demorei muito a encontr-la, porque procurava um homem. Mas os seus pensamentos acabaram me atraindo, e eu a reconheci sob essa capa de mulher. O amor que 
sentia naquela poca, ainda sinto, mas o desejo que experimentei em sua companhia esfriou quando a vi. Foi bom, porque pude perceber o que , realmente, o amor. 
Tanto faz, para mim, que voc seja homem ou mulher. O que sinto por voc vem daqui de dentro - ela colocou uma das mos sobre o seu corao e outra sobre o corao 
de Luciana. - Quando entendi isso, ficou mais fcil perdo-la.
-Voc me perdoou?
-J disse que sim. Sabe, Luciana, quando desencarnei, passei algum tempo no astral inferior, presa  paixo que sentia por voc. Mas, depois que voc sumiu, 
fiquei pensando... de que me valia tanto sofrimento se voc j no estava mais ali? E, ainda que estivesse, do que valia, para mim, estar ao seu lado naquele momento 
de solido e dor? Resolvi partir tambm. Os espritos que me acolheram ressaltaram que eu possua muitas qualidades e as foram mostrando a mim, uma a uma. Disseram
que eu era uma pessoa generosa e boa, amiga de todos, compreensiva, sensvel, honesta e sincera, incapaz de maltratar ou de querer mal a quem quer que fosse, ainda 
que a meus inimigos, e acima de tudo dotada de grande capacidade de amar. Meu nico problema, eles diziam, era o apego que sentia por voc.
-E as outras mulheres? Tambm pensam como voc?
-A maioria a odeia, mas muitas desistiram de voc quando a encontraram nesse corpo. Disseram que no tinha graa se
vingar de um homem que agora era mulher. Outras sequer a encontraram, porque estavam to presas ao sexo e  sua mas-culinidade que no conseguiram enxergar, no corpo
de Luciana, a alma do Robert de antigamente.
-Pelo que voc est me dizendo, eu nasci mulher para fugir das minhas inimigas.  isso?
-Mais ou menos. No para fugir, propriamente, mas para ter liberdade de viver as suas experincias sem interferncias indesejveis.
-No sei se adiantou muito vir mulher...
-Se est se referindo ao fato de ser lsbica, isso no tem nada a ver com os seus projetos. A sua preferncia sexual,  claro, est ligada  sua sexualidade
do passado. Voc sempre foi um homem atrado pelas mulheres, com uma sexualidade muito ativa e forte. Mas no foi para compreender a feminilidade sexual que voc 
reencarnou como mulher. Voc nem fez disso um plano de vida. Voc gosta de mulheres porque sempre gostou, isso est impregnado em sua alma. Continua com essa preferncia 
porque isso no influi nos seus projetos de crescimento. Tanto faz que voc goste de fazer sexo com homens ou mulheres. Sua necessidade  de valorizao dos ensinamentos 
morais, de amor e respeito ao seu semelhante.
-E eu no poderia conseguir isso reencarnando como homem?
-Se voc tivesse vindo homem, estaria usando as mulheres, talvez no da mesma forma, porque os tempos hoje so outros, mas continuaria no tendo respeito 
por elas, julgando-as seres inferiores e servis. Talvez voc se casasse, e sua esposa seria praticamente uma escrava, sem vontade ou direitos. Se tivesse filhas, 
no permitiria que elas estudassem nem que vivessem suas prprias vidas, mas as criaria para o lar e para servir a seus maridos. Se possusse empregadas a seu servio, 
iria discrimin-las e trat-las como subalternas, pagando-lhes salrios menores e dando-lhes cargos inferiores aos dos homens. Foi para isso que voc veio mulher: 
para ter essa compreenso de que homens e mulheres so iguais em importncia no mundo, e o papel que cabe  mulher na sociedade no a torna incapaz de exercer as
suas prprias escolhas nem de dar vazo  inteligncia e  liberdade de seguir o destino que eleger. Uma mulher pode ser
carinhosa e me, ao mesmo tempo em que est apta a estudar e seguir a carreira que quiser.
- algo a se pensar, Rani.
-O que voc fez no passado no deve influir nessa vida a ponto de pensar em deix-la antes do tempo programado. Voc precisa voltar.
-Entendo o que voc diz, mas, no fundo, no fundo, no sei se sinto alegria nessa vida. Acho que as culpas, inconscientemente, me levam a querer desistir.
-Voc no pode desistir. Pense no que j conquistou at agora.
-Estou pensando no que ainda no consegui conquistar. A atitude de Ceclia me fez pensar na minha falta de amor. Sou uma mulher muito sozinha, e isso me 
di bastante.
-Di porque voc estava acostumada a viver rodeada de mulheres, mas agora no tem ningum.
-No sei, Rani. Sinto que falta alguma coisa. Um amor, talvez... um amor de verdade.
Os olhos de Luciana se encheram de lgrimas, bem como os de Rani. Naquele momento, Luciana tinha vividas na memria as lembranas de todas as mulheres que conhecera 
em outras vidas, inclusive de Marcela, que fora uma das que mais abusara, e de Rani, que sempre fora sua companheira e amiga. Agora compreendia o vazio dentro de 
si e o desejo oculto que a levava a pensar em retornar ao mundo espiritual, ainda que, conscientemente, seu crebro fsico no tivesse aquela impresso.
-Voc no deve se sentir assim - falou Rani, lendo-lhe os pensamentos. - Por mais que eu a ame, no poderei estar com voc.
-Estou to cansada! Tenho medo de estar usando as mulheres novamente, como fazia antes.
-Isso no est acontecendo. Voc as respeita, porque  uma delas e sabe o quanto de potencial possui para fazer coisas boas e produtivas.
-Mas no consigo amar ningum. Nem Marcela, que viveu comigo tantos anos.
-Voc e Marcela j aprenderam a se amar, e  por isso que no esto mais juntas. Marcela agora tem outras experincias
para viver, assim como voc tem as suas. Sei que voc no quer
mesmo morrer. Est apenas triste e cansada, mas vai superar
Voc  um espirito forte e determinado, e no vai desistir da vida com tanta rapidez.
-Voc tem razo, mas eu preciso de um pouco mais de tempo para pensar.
-E voc ainda tem uma tarefa a cumprir.
-Que tarefa?
-Algo que vai ajud-la a compreender o que seja o ser feminino.
-O que ?
-Logo vai descobrir. Quando chegar o momento, virei prepar-la.
-Para qu?
-No quero deix-la curiosa nem apressar o curso das coisas. Vim apenas alert-la de que h uma misso muito importante em sua vida, que impulsionar o seu 
crescimento.
-No sei do que est falando, mas confio em voc.
-timo. E agora, volte logo, que  para no causar danos ao seu corpo fsico. E, se precisar, chame por mim. Virei ajud-la, se puder.
Rani e Luciana trocaram um abrao efusivo, e o esprito de Rani desapareceu num piscar de olhos. Durante algum tempo, Luciana ficou fitando o lugar vazio onde ela
estivera e depois se virou para o corpo fsico, deitado na cama branca do hospital. Caberia a ela decidir se aquele corpo viveria ou no, o que a assustava um pouco. 
Ela sempre achara que a vida ou a morte eram estados de poder, e esse poder estava nas mos de Deus.
E estava. Deus era soberano em todas as coisas, mas deixava a seus filhos o livre-arbtrio para direcionar as suas vidas. Tratava-se de uma concesso, e Luciana 
pensou que deveria aproveitar aquela concesso da melhor forma possvel. Por isso, sabia que tinha que retornar e, na volta, tentaria fazer diferente.
Ainda havia a misteriosa tarefa que Rani dissera que lhe cabia. Embora no soubesse do que se tratava, algo em seu ntimo lhe dizia que era importante. Era algo 
relacionado ao ser feminino, algo que talvez transformasse a sua vida para sempre. Luciana nem desconfiava o que poderia ser, mas sua alma se agitou e se colocou 
na expectativa.
O tempo estava comeando a esquentar, aps uma breve e refrescante chuva, e Ariane no queria ficar em casa e perder a oportunidade de sentir na pele a proximidade
do vero. Estava se preparando para sair quando a me veio cham-la ao telefone.
-Quem ? - perguntou Ariane desinteressada.
- a me de Flvio. Disse que  urgente.
Dolores detestava ter que falar com Anita e, por isso, raramente telefonava para sua casa. Mas era imperioso que conversasse com Ariane, ou ela acabaria estragando 
todos os seus planos.
-Al? - disse Ariane ao telefone.
-Venha a minha casa imediatamente - ordenou Dolores, com voz arrogante. - Estou esperando.
Desligou antes que Ariane pudesse responder. Pelo tom de sua voz, Dolores parecia bem aborrecida, o que s podia ter uma razo: ela presenciara Ariane em companhia 
de Marcela, e era visvel a amizade que entre as duas havia se firmado. Ariane pensou em no ir, mas sentiu incmoda hesitao. Afinal, travar amizade com Marcela 
fora idia de Dolores, na tentativa de descobrir algo no passado da moa que pudesse aniquilar o seu relacionamento com Flvio. No meio do processo, Ariane comeou 
a mudar de idia, em funo do afeto e da verdadeira amizade que j sentia por Marcela.
Chegou mesmo a pensar em desistir, mas algo lhe dizia que estava chegando perto de conhecer algum segredo importante
da vida de Marcela, um segredo que talvez a ajudasse a reconquistar Flvio. E aquele segredo parecia estar relacionado a uma moa chamada Luciana, que Ariane no 
conhecia e de quem nunca antes ouvira falar, nem mesmo pela prpria Marcela. Fora por acaso que ela deixara escapar aquele nome, em tom de nervosismo e medo, o que 
dava a Ariane a certeza de que Marcela e Luciana eram cmplices em algum segredo srdido e escuso.
Mas teria ela o direito de vasculhar a vida de Marcela e revelar esse segredo, se  que havia realmente um?
De toda sorte, era melhor atender o chamado de Dolores. Ela estava zangada, e com uma certa razo, porque presenciara uma camaradagem entre Marcela e Ariane que 
jamais deveria existir. Poucos instantes depois, Ariane entrava na casa de Dolores, que a aguardava com impacincia.
-At que enfim! - exclamou Dolores. - Pensei que no fosse aparecer mais.
-Estive ocupada... - desculpou-se a moa,  falta de coisa melhor para dizer.
-Fazendo o qu? Voc no trabalha nem estuda. Gasta a vida em butiques e restaurantes. Ser que no lhe sobra tempo para prestar contas de suas atividades
a sua futura sogra? - Ariane no disse nada. Queria protestar, mas havia uma supremacia nas palavras e nos gestos de Dolores que a fazia calar-se. - Muito bem, explique-se.
-Explicar-me? - balbuciou Ariane. - Como assim?
-No se faa de tonta, menina! Vi muito bem a forma como voc e Marcela se tratavam. Pareciam at grandes amigas!
-Foi impresso sua. Quero dizer, Marcela at que  uma garota legal, mas...
-Uma garota legal? - esbravejou ela, os olhos chispando fogo. - Voc j se esqueceu de que foi ela quem lhe tomou o noivo?
-No.
-Pois ento, comece a agir como se ela fosse sua inimiga. Do contrrio, de nada adiantar essa farsa.
-Isso no  verdade, Dolores. Voc no sabe o que est acontecendo.
-Pelo visto, muitas coisas esto acontecendo, e uma delas 
que voc e Marcela se tornaram amigas. Ser que ela vai convidar voc para ser madrinha do seu casamento?
-No diga uma coisa dessas. Flvio vai se casar comigo - concluiu ela, sem muita convico.
-Voc no me parece muito segura disso.
-As coisas no so to fceis como voc pensa. E depois, Marcela  uma pessoa com sentimentos...
-Voc est desistindo do nosso plano?  isso? Encantou-se pela pobretona e est querendo partilhar com ela sua vida inglria? O que h?  monotonia? Cansou-se
da vida regalada e farta que voc leva? Da vida que eu lhe dei, porque, sem a minha ajuda financeira, o seu pai j teria falido!
-O qu?! Que histria  essa? Meu pai tem a clnica...
-Que quase faliu quando Justino se retirou da sociedade. E quem voc pensa que ajuda seu pai a manter aquela porcaria? Sua me? - ela no respondeu. - Voc
no sabe, no , sua tonta, mas quem d apoio financeiro ao incompetente do seu pai sou eu. E sabe por qu? Porque quero que a filha dele se case com o meu filho.
Vim preparando voc desde pequena para isso e no admito que voc me traia agora. Ou voc segue adiante com o plano e se casa com Flvio, ou pode ir procurando uma
cama vaga no apartamento ftido da sua amiguinha. Voc, sua me e seu irmozinho!
Aquilo era uma humilhao. Por que o pai nunca dissera que mantinha a clnica graas  ajuda de Dolores? Ser que a me sabia daquilo? No devia saber, porque nunca
comentara nada.
-Por que est sendo to cruel, Dolores? Voc sabe que amo Flvio, mas no me julgo capaz de concluir esse plano.
-Ah! No? Quero ver s quando voc estiver debaixo da ponte, o que  que vai pensar. Vai se arrepender de no haver seguido as minhas ordens.
-O que voc quer que eu faa? - tornou Ariane, em lgrimas. - J tentei, mas no consegui nada. No  culpa minha se Marcela  uma boa pessoa...
-No acredito nisso! Ela esconde alguma coisa, sei que esconde! E voc sabe o que !
-No sei de nada...
-Impossvel. Voc no sabe mentir. Est em seus olhos que descobriu alguma coisa. O que ? Vamos, fale. Eu exijo que me conte a verdade!
-No sei se  importante - hesitou Ariane, oprimida pela irresistvel fora de Dolores.
-Ah! Ento existe algo, no ? O que ? Diga-me!
-No  nada... quero dizer,  apenas uma suspeita, nada de concreto.
-Que suspeita  essa? Fale logo, Ariane, porque eu j estou perdendo a pacincia! O que est esperando? Fale, ou vou pr o seu pai na falncia!
A ameaa era muito grave para Ariane resistir. Ela era jovem e achava que podia se virar sem o luxo e o conforto, mas o que dizer da me e do irmo? A me j no 
tinha mais idade para procurar emprego e no sabia fazer nada, e o irmo ainda estava estudando. E quanto ao pai? Ariane no se importava com ele. Era por culpa 
dele que ela agora se encontrava nessa situao, mas no podia permitir que a incapacidade do pai colocasse em risco a vida de todos na sua famlia.
-Marcela tem uma amiga... - comeou ela a dizer, entre a contrariedade e o medo.
-Que amiga?
-O nome dela  Luciana.
-E da? O que tem essa amiga demais?
-Desconfio que ela e Luciana guardam algum segredo. Acho que compartilharam algo escuso ou ilcito, no sei.
-Por que pensa assim?
-No dia em que voc esteve l, Marcela deixou escapar o nome de Luciana e ficou muito nervosa com isso.
-Hum... O que voc acha que pode ser?
-No sei ao certo. Pensei em drogas ou prostituio.
-Sim! - berrou Dolores de repente. - S pode ser isso. Ela mora sozinha e j mantm relaes com Flvio h muito tempo. E meu filho no foi o primeiro, tenho 
certeza. A infeliz veio de Campos e, no tendo como sobreviver, tratou logo de se prostituir. Deve ter conhecido essa tal de Luciana na vida, e ela a apresentou
s drogas. Todo mundo se droga quando as coisas vo mal, no  mesmo?
-Pode ser. O fato  que Luciana sabia, inclusive, da tentativa de suicdio.
-Sabia? Mas que interessante! Deve ter sido por isso que ela tentou se matar. A vida foi ficando dura, ela deve ter apanhado de algum malandro e j devia
estar cheia de maconha ou herona quando resolveu que viver assim no valia a pena. Vai ver que foi por isso que tentou dar cabo da prpria existncia. Menina idiota!
Nem se matar conseguiu!
-Por falar nisso, por que voc foi falar sobre o suicdio com Marcela? Ela est pensando que foi o Flvio quem contou.
-E da? Melhor que pense. Vai achar que no pode confiar nele e, quem sabe, no cai fora? - Ariane no respondeu, e Dolores prosseguiu: - Se essa tal de
Luciana sabia da tentativa de suicdio,  porque deve ser uma pessoa bem chegada, voc no acha? ntima mesmo. Ser que Flvio sabe a seu respeito?
-No sei.
-Precisamos descobrir mais. Voc est no caminho certo, Ariane, algo me diz que est. Em breve, essa vagabunda vai se delatar e vai colocar todos os podres
para fora.
-Ela  professora concursada. No deve ser nenhuma vagabunda. Pensando melhor agora, essa histria est muito exagerada. Nunca ouvi falar de prostitutas
drogadas que consigam se formar professoras e ainda passar num concurso pblico.
-, isso  esquisito. Mas talvez ela s puxasse um baseado de vez em quando, para diminuir a dor da sua misria. Devia estudar de dia e se prostituir  noite.
Isso no  to incomum assim. Depois que se formou, abandonou a vida e as drogas, mas duvido que tenha contado algo a Flvio. Se isso for verdade, ele precisa saber.
Pelo bem da nossa famlia, Flvio tem que ser alertado sobre o passado sombrio e negro dessa moa.
-V com calma, Dolores. Ns nem sabemos se isso  verdade.
- por isso que voc tem que voltar l e descobrir. No quero fazer intrigas infundadas, porque Flvio no  nenhum tolo e, se no for verdade, ele vai se 
voltar contra mim.
-E se ele j souber de tudo? E se ela lhe contou e ele a aceitou desse jeito? Afinal, foi ele quem cuidou dela no hospital.
-Duvido muito. Ela deve ter inventado uma histria comovente,
e Flvio, corao mole, caiu direitinho. Mas eu sei a criao que dei a meu filho e duvido muito que ele aceitasse se casar com uma prostituta.
-Marcela diz que tentou se matar por causa de um ex-namorado.
-Muito conveniente, no  mesmo? Uma moa pobre e sozinha, seduzida e abandonada pelo namorado numa cidade grande. Quer algo mais tocante e comovente? O 
tolo do Flvio logo amoleceu e resolveu que tinha que cuidar da pobrezinha. Est a a mentira.
-No sei, Dolores, algo nessa histria no cai bem. Ela no combina com a personalidade de Marcela.
-Marcela  uma idiota que pensa que  esperta. Se ela acha que vai dar o golpe do ba no meu filho, est muito enganada. No vou permitir!
-Engraado, no ? Voc no quer que Flvio se case com Marcela porque ela  pobre. No entanto, pelo que voc mesma disse, eu no estou muito longe de me 
tornar to ou mais pobre do que ela.
- diferente, meu bem - ironizou. - Voc tem bero, tem estilo. Sua famlia  do nosso meio, e voc no vai causar comentrios em sociedade.
-Ser mesmo por isso? Ou ser porque voc espera a minha gratido e a minha obedincia?
-Isso no tem importncia. O que importa  que voc  a mulher ideal para o meu filho. Venho sonhando com esse casamento desde que voc nasceu. No  justo 
que Flvio destrua os meus sonhos de me. Ele no tem esse direito.
-Ele no tem o direito de ser feliz?
-Ele no sabe o que  felicidade. Se ele se casar com essa moa, vai ver como o preconceito da sociedade pode torn-lo extremamente infeliz. Estou lhe fazendo 
um favor e, mais tarde, ele ainda vai me agradecer.
-Acho que voc est sendo egosta. Est pensando apenas em si mesma e nas aparncias sociais.
-Quem  voc para me julgar, menina? - enfureceu-se ela. - No me queira como inimiga, porque posso destruir voc e a sua famlia com uma simples assinatura.
-E voc seria bem capaz disso, no  mesmo?
-Quer experimentar?
-No precisa. Sei bem quem voc .
-Voc devia estar do meu lado. Fiz tudo por voc, para que seja feliz com o homem que ama. Por que se volta contra mim agora?
- voc que est contra o mundo, Dolores. Pensa que o mundo lhe pertence e no se conforma que ele gire em direo contrria  que voc pretende.
-Muito bonito e filosfico, mas no quer dizer nada. O mundo no me pertence por inteiro, mas existe uma parcela dele que eu posso comprar.
-Voc no pode comprar amor. E  por isso que vai acabar sozinha nesse seu mundo de riquezas e dinheiro.
-Pare com essa discusso tola - cortou ela irritada. - No gosto de sermes nem de digresses moralistas. E depois, voc no  ningum para me dar lies
de moral. Deixe de lado as crises de conscincia e alie-se a mim. Ver que s tem a lucrar.
A vontade de Ariane era de chorar, mas nem lgrimas ela conseguia mais verter. S agora conseguia enxergar a mulher mesquinha e egosta que era Dolores. E acabara 
se deixando envolver por suas maldades. Em sua paixo irracional por Flvio, embrenhara-se num caminho de traio do qual no via mais como voltar. No gostaria 
de levar adiante aquele plano prfido, mas tinha que pensar em sua famlia.
A noite mal dormida e os pesadelos constantes impediram Marcela de ir  escola naquele dia. A visita que fizera a Luciana na vspera a deixara transtornada e aflita,
e doa-lhe no corao lembrar-se da imagem da amiga, toda ligada a tubos e fios, jogada inerte na cama daquele hospital. Apanhou o telefone e ligou para a escola,
informando que no poderia ir naquele dia. No era seu costume faltar. Nem as faltas mensais a que tinha direito, ela costumava tirar. Por isso, ningum reclamou 
de sua ausncia, e ela tranqilizou a diretora afirmando que apenas no se sentia muito bem.
Foi para a cozinha preparar um caf e ligou para Flvio vrias vezes naquela manh. Sentia-se insegura e com medo, porque o estado de Luciana lhe despertava muitas
preocupaes, ao mesmo tempo que a assustava a possibilidade de que, com isso, Flvio viesse a descobrir a natureza de sua ligao.
J perto da hora do almoo, vencida pelo cansao, recostou-se no sof e acabou adormecendo, s despertando quando a campainha da porta comeou a tocar insistentemente.
Marcela se levantou sonolenta e olhou o relgio da parede. Passava de duas horas da tarde, e o estmago doeu de repente. Ela passara a manh toda sem se alimentar 
e agora sentia fome. Mas no tinha vontade de preparar nada nem se animava a sair para comer.
Quando Marcela abriu a porta, ouviu a exclamao de Ariane, que a encarava com ar de espanto:
-O que foi que houve, Marcela? Estou h meia hora tocando!
-Eu dormi, Adriana. Passei a noite em claro e acabei pegando no sono no sof.
-Voc no foi trabalhar hoje. Fiquei preocupada.
-No estou me sentindo bem.
-Voc est com uma cara horrvel! Est doente?
-No se preocupe, no  nada.
-Ningum fica assim por nada. Se no est doente, o que foi que houve?
-No estou me sentindo bem, j disse.
-Mas o que voc tem?  dor de cabea? De barriga? Clica?
-Por favor, Adriana, eu estou bem. Apenas gostaria de ficar sozinha, se no se importa.
-Quer que eu v embora? - Marcela assentiu. - Tem certeza?
Marcela no resistiu. No agentava mais guardar tanta dor
dentro do peito sem poder partilh-la com algum. A nica com quem ainda podia falar sobre Luciana era Masa, mas ela quase no a via. Estava sozinha e apavorada, 
com medo de Luciana morrer e de acabar revelando a verdade a Flvio. Mas ela no queria realmente ficar sozinha. Dissera aquilo s porque sabia que, se Ariane ficasse, 
ela acabaria se abrindo e lhe contando o que a machucava tanto. E foi exatamente isso o que aconteceu. Marcela se atirou no pescoo de Ariane e desatou a chorar 
de tal forma que a outra ficou deveras preocupada.
-O que  isso? - perguntou Ariane, abraando a amiga com carinho. - O que foi que houve?
-Oh! Adriana!
-Foi o Flvio? Vocs brigaram? - ela meneou a cabea, e Ariane prosseguiu, deveras preocupada: - Foi a me dele? Ela lhe fez alguma coisa?
-No  nada disso... Mas eu estou to desesperada!
-Por que voc no se acalma e me conta o que aconteceu? Sou sua amiga, quero ajud-la.
-Ser que posso confiar em voc?
Ariane engoliu em seco e respondeu com uma quase convico:
-Voc sabe que pode - o estmago de Marcela roncou, e Ariane tornou com preocupao: - J almoou?
-Ainda no.
-Pois ento venha. S sei fazer macarro, mas, pelo menos, voc no morre de fome.
Enquanto Ariane apanhava as panelas e os ingredientes da macarronada, Marcela se sentou  mesa da cozinha e afundou o rosto entre as mos, comeando a chorar novamente.
-Estou me sentindo pssima... - balbuciou ela. -Aconteceu algo to horrvel!
-Com voc? - ela negou. - Com Flvio? - negou novamente. - Ento, com quem?
-Luciana...
-Quem?
-Luciana. Lembra-se de que lhe falei sobre ela?
-Lembro-me de que voc falou o nome dela, mas no me disse nada a seu respeito. O que foi que houve com Luciana?
-Voc no sabe o quanto ns somos amigas! E agora... - ela comeou a chorar novamente, at que conseguiu falar com voz sofrida: - tentaram mat-la...
-Mat-la? Mas quem, meu Deus? Foi assalto?
-No... foi... uma... ex... companheira...
-Meu Deus! E por que ela fez isso? Foi por causa de algum namorado?
-Voc no entendeu. Luciana no tem namorado. Ela tem...
-Tem o qu? Um amante?
-No - Marcela achou que j era hora de parar de divagar e, enchendo-se de coragem, disparou: - Na verdade, Luciana foi esfaqueada pela mulher que era sua 
amante.
-O qu?! - Ariane parou o que estava fazendo e abriu a boca, pasmada. - Quer dizer que Luciana  lsbica?
-.
-Que coisa nojenta!
-No diga isso, Adriana, no  nojento. Somos apenas pessoas comuns.
-Somos? Marcela, no v me dizer que voc e essa Luciana... - calou-se, com medo das prprias palavras - que voc e ela tiveram... um caso!
-Tivemos. Sinto se a decepciono, mas a verdade  que eu
fui perdidamente apaixonada por Luciana, e foi por causa dela que tentei me matar.
Nesse ponto, Ariane soltou as panelas e se sentou ao lado de Marcela, fitando-a com um assombro mudo. E ela, que imaginara tantas coisas que justificassem um segredo,
nem de longe pensara que Marcela pudesse ser lsbica. Como poderia pensar aquilo, se ela e Flvio iam se casar?
-No estou entendendo - murmurou Ariane confusa. -Voc e Flvio... voc o est enganando?
-No. Flvio  tudo o que me resta, e eu o amo mais do que a prpria vida. No entanto, no posso negar a pessoa importante que Luciana foi e ainda  em minha 
vida.
-Isso  um disparate! - gritou Ariane, levantando-se da mesa e afastando-se de Marcela. - E eu que pensei que voc quisesse a minha amizade. O que pretendia
comigo? Seduzir-me? V esquecendo, Marcela, porque no sou disso.
-Voc est sendo injusta, Adriana. Quando a conheci, era voc quem estava procurando uma amiga. Foi voc quem me procurou todas as vezes, quem ia ao meu
trabalho me esperar na hora da sada. E nunca, em todos esses momentos, sequer me passou pela cabea ter alguma relao ntima com voc. Gosto muito de voc, mas 
 como amiga.  Flvio que amo e  s com ele que quero estar.
Raciocinando em cima das palavras de Marcela, Ariane se acalmou e tornou a se sentar, levantando-se em seguida para mexer a panela no fogo. No sabia o que fazer
e no queria encarar Marcela, por isso, ps-se a preparar a comida, tentando pensar em algo para dizer.
-Como foi que isso aconteceu? - perguntou ela, lutando contra a indignao.
-O qu?
-Como foi que voc e Luciana...
-Como ns nos conhecemos? - ela assentiu. - Ns ramos amigas em Campos...
De forma pausada e paciente, Marcela contou a Ariane toda a sua histria desde que sara de Campos, para ir atrs de Luciana. Contou de seus primeiros anos juntas,
dos estudos, dos empregos,
dos concursos, da fora que Luciana sempre lhe dera e como a incentivara a ser algum na vida.
-Luciana trabalha como dentista? - perguntou Ariane, surpresa com a histria que Marcela contara.
-Tem um consultrio com uma amiga, e esto indo muito bem, pelo que Masa me disse.
-Masa  outra de suas amantes?
-No.  a amiga que divide o consultrio com Luciana. So amigas desde a faculdade, mas Masa no  lsbica, se  o que quer saber.  casada com um advogado,
filho de um desembargador.
-Como uma mulher que no  lsbica pode ser amiga de outra que ?
-Amizade no tem nada a ver com sexo.
-Acho difcil. Quem no  lsbica no aceita uma coisa dessas.
-No julgue os outros por si mesma. S porque  precon-ceituosa, no quer dizer que todo mundo tenha que ser.
-Oua, Marcela, no tenho nada a ver com a vida dessa sua amiga Luciana. Se ela quer enveredar por esse caminho, o problema  dela. Mas o fato  que voc
me enganou. Fez-se passar por algum que no .
-Eu a enganei? Nunca menti para voc. Apenas guardei um segredo que s a mim pertence e j me arrependo de ter revelado.
De repente, as palavras de Marcela provocaram, em Ariane, uma reflexo sobre si mesma. Quem era ela para falar em enganar ou mentir? Marcela estava certa: ocultara-lhe
aqueles fatos porque sabia que ningum compreenderia, mas eram coisas que s a ela diziam respeito e no faziam mal a ningum. Mas, e quanto a ela? Ariane, sim,
mentia e se fazia passar por algum que no era, s para descobrir segredos com que pudesse destruir a vida de Marcela. Ser que aquilo era correto? Onde estava
a sua capacidade de discernir e avaliar o que era certo ou errado? E depois, fora ela mesma quem dissera a Marcela que podia confiar-lhe o seu segredo. Que amiga
era aquela, afinal, que oferecia confiana, mas o que dava mesmo era recriminao? E quem era ela para julgar? Se havia algum ali com uma conduta reprovvel, esse
algum era ela, que se fingia de amiga quando, na verdade, no passava de uma impostora.
Esses pensamentos envergonharam Ariane, que comeou a se sentir mal com tudo aquilo. De repente, percebeu que a verdade que Marcela lhe contara no era assim to 
terrvel. Teria sido muito pior se ela fosse viciada, prostituta ou ladra. Mas no. Marcela era uma moa direita e honesta, e ela no tinha como pr em dvida a 
sua amizade. Nunca fizera ou dissera nada que revelasse intenes escusas. Ao contrrio, procurou ajud-la em seu caso com o fictcio Mike e deu-lhe sbios conselhos 
referentes  problemtica da me. Sempre se demonstrou muito apaixonada todas as vezes em que falava de Flvio. Afinal, onde  que estaria a razo?
Se Dolores soubesse daquilo, seria um desastre. A primeira coisa que faria seria contar a Flvio, e Ariane no sabia o que ele pensava sobre o assunto, porque nunca
antes haviam conversado a respeito. Naquele ponto, ela comeou a se sentir curiosa e perguntou com mais calma:
-Seu namorado sabe disso?
-No.
Marcela estava magoada, o que era bastante compreensvel.
-No fique chateada comigo, Marcela - desculpou-se Ariane.
-O que voc queria? Contei-lhe o meu maior segredo, e voc veio logo com um monte de recriminaes. Acreditei que voc era minha amiga, confiei em voc,
mas voc no pde me compreender. Estou decepcionada comigo mesma, porque pensei que voc fosse algo que realmente no .
-Como assim? - tornou Ariane assustada.
-Pensei que voc fosse compreensiva, mas agora vejo que  igual a todo mundo: preconceituosa e crtica.
-Perdoe-me, Marcela, eu no quis criticar voc nem nada. Mas  que voc me pegou de surpresa. Jamais poderia imaginar que voc fosse lsbica.
-Eu no sou. Luciana diz que no, porque estou apaixonada por Flvio e pretendo me casar com ele. E, ainda que fosse, o que isso tem demais? Por acaso diminuiu
a amizade que sinto por voc, e voc sente por mim?
-No sei... Acho que no...
-Voc no sabe de nada mesmo. Veja Masa, por exemplo.
Voc no a conhece, mas ela sempre foi muito amiga de Luciana. No comeo, at eu senti cimes, mas depois percebi que o que havia entre as duas era amizade mesmo.
Masa nunca se importou com a homossexualidade de Luciana nem se preocupou com o que os outros poderiam falar.  amiga porque , porque gosta de Luciana, porque
sente com o corao. No acha isso bonito?
-Se  como voc diz,  bonito, sim - ela se calou por uns instantes, fitando a outra e se permitindo sentir apenas com o corao. - E quer saber? Voc tem
razo. Acho que eu me deixei impressionar pelo preconceito da sociedade e me esqueci de dar mais valor ao sentimento. Amizade no tem preo. Preconceito  descartvel.
Gosto de voc assim mesmo, Marcela.
-Eu no sou lsbica, Adriana. No mais. Mas no posso negar ou me envergonhar do que senti por Luciana nem do que ela representou em minha vida. S tenho
medo  que Flvio no entenda isso.
-Foi por isso que no lhe contou?
-Eu tentei, vrias vezes. Mas ele j me deu a sua opinio a respeito, e no  muito favorvel. Tenho medo de perd-lo.
Em vez de sentir-se vitoriosa com o segredo que, finalmente, conseguira arrancar de Marcela, Ariane descobriu-se preocupada com o futuro da amiga ao lado de Flvio
e percebeu que no desejava mais separ-los. Nem se incomodava com o fato de que Marcela fora apaixonada por outra moa. S o que lhe importava, naquele momento,
era a felicidade da amiga, a preocupao que ela sentia por Luciana e o medo de perder Flvio.
-Quer que eu v com voc ao hospital visitar Luciana? - perguntou Ariane, sinceramente interessada em ajudar.
-Voc realmente faria isso? - ela assentiu. - Oh! Adriana, eu adoraria! Flvio sabe que Luciana est internada, mas desconhece a verdade, e eu tenho medo.
Se voc fosse comigo, eu me sentiria bem melhor.
-Ento est combinado. Vamos almoar, e eu a acompanharei ao hospital.
Marcela se aproximou de Ariane e segurou a sua mo, falando emocionada:
-Sabia que voc era minha amiga. Entendo a sua primeira
reao, mas sabia que voc tambm acabaria me entendendo. Obrigada, Adriana.
O nome Adriana deu uma pontada no corao de Ariane. Ela estava arrependida de haver iniciado aquele jogo e queria deixar tudo para trs, mas sua mentira a levara 
longe demais. Ariane mentira sobre seu nome, sobre o namorado fictcio e, principalmente, sobre seu relacionamento com Flvio e com Dolores. No havia como convencer 
Marcela de que tudo no passara de um mal-entendido e, se ela descobrisse, terminaria a primeira e nica amizade que conquistara em toda a sua vida. Pensando naquilo, 
Ariane abaixou a cabea e chorou. Ela tambm tinha um segredo que no queria que ningum descobrisse.
No hospital, a visita transcorreu sem alteraes. O estado de Luciana era estvel, e ela tinha boas chances de sair do coma. No havia seqelas aparentes, e tudo 
indicava que, se ela retornasse, se curaria e voltaria a ter uma vida normal. S o que faltava era reagir.
Ariane no pde entrar com Marcela, de forma que ela teve que
ir SOZinha. As enfermeiras se lembravam dela como a noiva do
doutor Flvio Raposo Epion, conceituado ortopedista que tinha particular interesse na doente. Sozinha com Luciana, Marcela desprendeu a emoo do peito e deixou 
que as lgrimas se derramassem em abundncia, extravasando os sentimentos que, na presena de Flvio, no podia se permitir demonstrar. Em seu estado de coma, Luciana 
via e ouvia tudo o que Marcela dizia, mas seu esprito, embora determinado a voltar ao corpo fsico e reassumir a sua vida no plano material, no se sentia forte 
o bastante para recomear em meio a uma torrente de lgrimas.
Quando Marcela deixou o Centro de Tratamento Intensivo, tinha os olhos inchados e vermelhos, e Ariane, num primeiro momento, sentiu raiva daquela situao. Estava 
perdendo o noivo para uma mulher que chorava por causa de outra mulher. No pela amizade, mas pelas lembranas de uma antiga paixo. Aquilo no lhe parecia justo. 
Por que Flvio tinha que ser o primeiro homem por quem Marcela se interessara?
Por outro lado, apiedou-se de seu estado dolorido. Era bvio que Marcela vivia um dilema muito grande, um conflito com seus prprios sentimentos. Ariane experimentava
sensaes contraditrias no que se referia a Marcela, dividindo-se entre a revolta pela perda do amado, naquelas circunstncias, e a amizade que sentia por ela. 
Queria reconquistar Flvio, mas se afeioara a Marcela a tal ponto que sofria com a sua dor.
-Foi tudo bem? - perguntou Ariane, logo que Marcela saiu do CTI.
Marcela assentiu pausadamente e respondeu com tristeza:
-D uma dor no corao v-la naquele estado!
-Ela vai melhorar, tenho certeza.
J dentro do carro, Marcela apertou a mo de Ariane e falou com emoo e sinceridade:
-Estou muito agradecida a voc, Adriana. Est sendo minha amiga de verdade, a nica que tive depois de Luciana. A amizade que sinto por voc no tem preo, 
e pode ter certeza de que  sincera e desinteressada, assim como sei que a sua  por mim.
Uma pontada de remorso descompassou o corao de Ariane, que apenas sorriu e virou a chave na ignio. Tinha medo de que Marcela descobrisse quem ela realmente era 
e se sentia atormentada pela culpa de estar enganando e traindo a outra. Mas agora j fora longe demais e no podia voltar. Marcela no a compreenderia e no a perdoaria 
jamais. O melhor que tinha a fazer era sumir. Desapareceria da vida de Marcela como uma nuvem de fumaa. Ela no sabia o seu endereo ou o seu telefone, de forma 
que no a veria nunca mais. Sim, pensando bem, era o melhor. No tinha foras para contar a verdade e no podia mais prosseguir naquela farsa.
Dolores que a desculpasse, mas ela no era mulher para aquilo. No comeo, deixara-se levar pelo cime e a paixo, mas agora percebia que de nada valia prender um 
homem que no a amava. E depois, havia coisas mais importantes do que assegurar um bom casamento: a amizade era uma delas, e s agora Ariane compreendia o seu verdadeiro 
valor.
Na porta da casa de Marcela, Ariane parou o carro e, sem desligar o motor, abraou a amiga e disse emocionada:
-Gosto muito de voc, Marcela. De verdade. Perdoe-me por ter parecido incompreensiva e chocada com o seu segredo, mas foi pura surpresa. Jamais pensaria
mal de voc ou deixaria de acreditar na sua amizade. E, se algum dia eu a magoar ou decepcionar, no ter sido por querer, mas porque sou uma mulher cheia de fraquezas 
e imperfeies. Tente me compreender e pense em mim apenas como um ser humano.
-Por que est dizendo isso? - estranhou Marcela.
-Queria que voc soubesse.
Ariane tornou a abra-la e procurou sorrir com naturalidade e, embora Marcela achasse muito estranha a sua atitude, no fez nenhum comentrio. Talvez ela tambm 
estivesse sensibilizada com o ambiente do hospital, ou no estivesse sendo sincera quanto  revelao de sua homossexualidade.
-Voc est assim por causa do que lhe falei esta manh? - indagou Marcela, parada a meio caminho da sada.
-No, em absoluto - respondeu Ariane, com tanta convico, que a convenceu de imediato.
-Ento, por qu?
-Coisas minhas, que nada tm a ver com voc. No se preocupe com o seu segredo; jamais o revelarei a ningum.
-No estou preocupada com isso. Preocupo-me com voc.
-No se preocupe. No  nada.
Ariane deu um beijo no rosto de Marcela e empurrou-a gentilmente para fora, tornando a ligar o carro. Marcela desceu com um estranho pressentimento e, quando o automvel 
se afastou alguns metros, novamente se lembrou de que no possua ainda o telefone e o endereo de Adriana. Ela ainda chegou a cham-la de volta e agitar os braos, 
mas Ariane fingiu que no a viu pelo espelho retrovisor. Continuou o seu curso, deixando Marcela com o
estranho pressentimento de que Adriana pretendia se afastar dela.
***
Quando Ariane chegou a casa, encontrou a me em frente ao espelho, arrumando-se para sair, o que a deixou um pouco mais aliviada, depois da comovente tarde que passara 
com Marcela.
-Voc vai sair? - perguntou Ariane surpresa, observando a me se arrumar.
-Pensei em ir ao cinema, ver Um Estranho no Ninho. Estava apenas esperando voc chegar para saber se no quer ir comigo.
-Hum... Jack Nicholson? - ela assentiu. - Voc sabe que adoro Jack Nicholson.
-Por isso mesmo, pensei logo em voc. Dizem que o filme  maravilhoso.
-E o Huguinho?
-Foi dormir na casa de um amigo. Ento? Vamos ou no vamos?
Ariane considerou por alguns minutos. No estava com muito
nimo para sair, mas no podia perder a oportunidade de ver a me se distrair.
-Est certo - concordou por fim. - D-me apenas meia hora para tomar um banho e me aprontar.
-Vista uma roupa bonita. Depois, vamos jantar. Dessa vez, fiz reserva naquele restaurante elegante a que fomos da outra vez.
-Qual? Aquele em que encontramos o doutor Justino, e ele nos convidou para nos sentarmos com ele?
-Esse mesmo.
Ariane estranhou o fato de a me fazer reservas em um restaurante, ainda mais em um restaurante chique feito aquele, mas no disse nada. Era bom que ela quisesse 
sair e se distrair, e no seria ela a estragar a sua alegria e a sua noite. Na verdade, nem Anita sabia que escolhera aquele restaurante movida pelo desejo inconsciente 
de reencontrar Justino.
Depois do filme, seguiram direto para o restaurante. Anita usava um conjunto de saia e blusa preto, que Ariane no conhecia.
-Essa roupa  nova? - indagou, quando se sentaram  mesa.
Anita assentiu e respondeu com um sorriso, feliz porque a filha
havia, finalmente, reparado.
-Comprei hoje. Voc gostou?
-Voc est querendo me dizer que saiu sozinha para fazer compras?
-O que  que tem? No posso?
- claro que pode! E deve. Ah! Mame, fico muito feliz por voc estar reagindo a essa situao.
-Obrigada. Mas voc ainda no me disse se gostou ou no.
-Gostei! Ficou muito bem em voc. Preto sempre emagrece.
Anita sorriu satisfeita e apanhou o cardpio que o garom lhe
estendia. Ambas estavam com os rostos enfiados no menu quando ouviram uma voz conhecida soando acima de suas cabeas:
-Acho que dessa vez fui eu que sobrei. Ser que no posso me juntar a vocs?
As duas olharam ao mesmo tempo, e Anita distendeu as feies num largo sorriso:
-Doutor Justino! Mas que surpresa!
-O restaurante est cheio, como sempre, e eu no consegui um lugar. Ia jantar com um cliente, mas ele desmarcou em cima da hora, e eu no confirmei minha 
reserva aqui, como sempre fao, de forma que fiquei sem mesa. Ento, posso me sentar com vocs?
- claro - respondeu Ariane, mudando a bolsa de lugar para que ele se sentasse.
-Ser um prazer retribuir o favor que nos fez da outra vez - acrescentou Anita, mais alegre do que normalmente estaria.
Ele se sentou e fitou Anita discretamente, porm com interesse, fazendo-a corar por uns instantes. De seu lugar, Ariane percebeu o olhar de Justino e o rubor da 
me, e seu corao bateu mais forte. Seria possvel que Justino estivesse interessado nela? Se estivesse, parecia bvio que a me tambm no lhe era indiferente, 
embora se esforasse ao mximo para no demonstrar um interesse anormal.
Que tima idia, pensou Ariane. Justino estava desquitado de Dolores, e a me e o pai no tinham mais chances de se reconciliar. Justino era um homem atraente e 
simptico, muito digno e correto, um verdadeiro cavalheiro. Bem o tipo de que Anita precisava. Ariane resolveu prestar mais ateno aos dois e tudo faria para incentivar 
um envolvimento entre eles.
-Vocs no vm sempre aqui, vm? - perguntou Justino.
-No - respondeu Anita. - Mas gostei muito do lugar e, desta vez, fiz reserva.
-Que sorte a minha! No fosse por vocs, eu no conseguiria jantar esta noite.
-Voc s janta fora? - indagou Ariane.
-Normalmente. Agora estou solteiro e no tenho ningum que me prepare um bom jantar.
Terminou as ltimas palavras fitando Anita diretamente nos olhos, o que lhe causou um estranho tremor e deu a Ariane a certeza de que ele estava interessado na me.
-Voc precisa ir jantar l em casa um dia desses - convidou Ariane.
-Eu bem que gostaria... Mas, infelizmente, no posso.
-Por qu? - era Anita.
-No me leve a mal, dona Anita, mas  que seu marido e eu j nos desentendemos uma vez...
-Mame e papai esto separados - cortou Ariane rapidamente, evitando o olhar de reprovao de Anita.
-Esto? Mas que pena! Sinto muito.
-No sinta - objetou Anita, voltando-se para encar-lo. - Foi a melhor coisa que j fiz por mim at hoje.
-Se  assim, sinto-me mais  vontade para aceitar o seu convite, Ariane. Isto , se sua me no se incomodar.
-No me incomodo - declarou ela, quase num sussurro.
-Acho uma tima idia! - era Ariane. - Hum... vejamos... que tal amanh?
-Amanh? - indignou-se Anita.
-Por que no? Amanh  sexta-feira. Um timo dia para jantar em casa de amigos. O que voc acha, Justino?
-Por mim, est tudo bem. A no ser que dona Anita no queira.
-Ela quer, no , mame? - Anita, confusa, no respondeu, e Ariane insistiu: - No , mame?
-Sim... Amanh est bem.
-Ento est combinado - confirmou Justino. - Amanh janto em sua casa.
-Ser um prazer receb-lo, doutor Justino - declarou Anita, saindo de seu estado de torpor. - Se no se importar com um jantar simples e caseiro.
-Faz tempo que no provo comida caseira - contraps ele, com simpatia. - E a senhora tem cara de quem cozinha muito bem.
-Por que vocs no param com a formalidade, hein?
- interrompeu Ariane. - Essa histria de dona para c, de doutor para l,  muito cafona.
-Acho uma excelente idia - concordou Justino. - Ainda mais porque agora considero Anita minha amiga, e formalismos so reservados apenas a estranhos. E 
ns no somos mais estranhos, somos?
Novamente aquele olhar penetrante, que fez com que Anita quase engasgasse. Ela sentiu o corpo gelar e teve vontade de sair correndo dali, agora que estava mais do 
que claro que Justino a estava cortejando abertamente. Mas como poderia ser aquilo, se ela era uma mulher gorda e velha? Seria possvel que ele estivesse apenas 
se divertindo com ela, fazendo-a crer que ele a cortejava quando, na verdade, s o que queria era zombar de sua aparncia?
Pensando nisso, Anita se retraiu um pouco e procurou se conter, embora a simpatia natural de Justino fizesse com que ela se desarmasse mesmo sem querer ou sentir. 
A noite transcorreu agradvel, at que chegou a hora de se separarem, e Justino lamentou profundamente o fato de elas estarem de carro e no precisarem que ele as 
levasse em casa. De toda sorte, o jantar ficou acertado para a noite seguinte, s oito horas, e ele no pretendia faltar.
No caminho para casa, Ariane ia falando com euforia:
-Ele est interessado em voc, me! Voc viu?
Ser? Acho que deve ser impresso. Um homem fino e elegante feito o doutor Justino deve ter muitas mulheres lindas  disposio. No se interessaria por uma gorducha 
feito eu.
-Por que voc se diminui tanto assim? Ele est interessado em voc, sim.
-No  possvel. No sou nenhuma beldade.
-E da? Justino  um homem de princpios e valores. E depois, voc no est to gorda assim. Mesmo que estivesse, ele pareceu no se importar. Bastava ver 
os olhares que ele lhe deu. Pareceu-me bem interessado.
-Tem certeza de que ele olhou mesmo para mim com interesse? Ser que no est zombando de mim? Ou ser que ns no estamos nos iludindo?
-Quanta besteira, mame! J disse que Justino  um homem de princpios. No perderia o seu tempo flertando com uma mulher s para zombar dela. E ns no
estamos nos iludindo. Se ele no tivesse interesse em voc, no aceitaria o nosso convite para jantar.
-Voc ouviu o que ele disse: est enjoado de comida de restaurante.
-Isso  desculpa. Ele pode muito bem pagar uma cozinheira. S falou isso para justificar o fato de que estava louco para aceitar o convite. Louco para jantar
com voc.
Aquelas palavras sacudiram o seu corao, e Anita corou novamente. Fazia muitos anos que nenhum homem demonstrava interesse por ela e parecia-lhe difcil convencer-se 
de que um homem feito Justino, dentre tantas mulheres jovens e bonitas, fosse interessar-se justo por ela.
-Foi muita coincidncia encontr-lo ali, no foi?
-Nem tanta. Justino costuma freqentar aquele restaurante. A coincidncia foi ele no ter feito reserva justo no dia em que ns fizemos. E, c entre ns, 
foi uma feliz coincidncia. Do contrrio, voc e ele no teriam se aproximado.
Anita no respondeu. Algo dentro dela retornara  vida, e ela via reacender, em si mesma, o fogo da paixo. No uma paixo de adolescente, desvairada, louca, inconseqente. 
Mas uma paixo madura e comedida, um fogo que no chega a queimar, ilumina sem ofuscar, um sentimento de euforia controlada no pela ditadura da razo, mas pela 
prpria experincia de vida que faz assentar o mpeto e despertar a ponderao.
No depoimento que deu  polcia, Masa acabou falando sobre o telefonema que Luciana lhe dera e sobre as vozes altercadas que escutara em seguida, quando ela largou
o fone para atender a campainha. Diante disso, a polcia intimou Ceclia para depor, mas ela negou tudo e, como Breno previra, nada pde ser comprovado. Vozes ao
telefone eram uma prova frgil demais para uma acusao formal.
A faca deixada na cena do crime ainda estava sob exame, e o resultado da identificao pelas digitais levaria algum tempo para sair. Ceclia compareceu ao consultrio 
uma semana depois, dizendo-se chocada e impossibilitada de trabalhar, mas foi logo dispensada por Masa, que sentia horror s de olhar para ela.
-No vai me pagar indenizao? - perguntou Ceclia, em tom de desafio, logo que Masa a despediu.
-Voc  muito descarada mesmo, no ? Depois do que fez, ainda se atreve a voltar aqui e, pior, pedir indenizao?
- o meu direito.
-Pois ento, v busc-lo na Justia. De mim, voc no vai ter nem um tosto.
- isso mesmo o que farei. Voc no pode me despedir assim, com uma mo na frente e outra atrs.
-Devia ter pensado nisso antes de fazer o que fez.
-Eu no fiz nada - objetou ela calmamente.
-A mim, voc no engana. Sei muito bem que foi voc que esfaqueou Luciana e posso imaginar por qu. Ela ia me contar tudo minutos antes de voc aparecer.
-Eu no apareci. Voc est me acusando de algo que no fiz. Posso process-la por isso, sabia?
-Pois faa! Vou adorar ver a sua cara na Justia quando ficar provado que voc  uma criminosa.
Coberta de dio, Ceclia saiu batendo a porta do consultrio. Estava furiosa e bem podia matar Masa tambm. No fosse a enrascada em que j se metera, daria cabo 
daquela megera. Masa jamais gostara dela, e ela tambm no gostava de Masa. Contudo, tinha que ter cautela. A polcia j a interrogara e estava desconfiada, embora 
no pudesse provar nada.
-O que vamos fazer? - perguntou ela a Gilberto, minutos mais tarde.
-O melhor  fugir.
-No posso fugir antes de apanhar o meu dinheiro. Masa me deve e vai ter que pagar.
-No seja tola, Ceclia. Como pretende obrigar Masa a lhe dar dinheiro?
-Posso ir  Justia do Trabalho.
-Voc deve ter enlouquecido mesmo. Se estamos tentando fugir da Justia, voc vai at a Justia para qu? Para se incriminar?
-Tenho os meus direitos.
-Que direitos? Raciocine, Ceclia! Voc quase matou uma mulher e est com a corda no pescoo. Se pensa que a polcia no desconfia de voc, est muito enganada.
-Ningum nos viu.
-Luciana nos viu.
-Ela est em coma e duvido que acorde.
-Pior para ns. Assassinato tem pena maior.
-Voc est se apavorando  toa. Ningum pode provar nada contra ns.
-Ah! no? E a faca? Esqueceu-se de que voc a deixou l quando fugimos? E se tirarem as suas impresses digitais?
Ela havia esquecido. Na pressa de fugir, Ceclia deixara cair a faca no cho da sala de Luciana e se esquecera dela
completamente. No depoimento que dera  polcia, no mentira sobre seu envolvimento com Luciana, fingindo-se triste e chocada, o que justificaria a presena de suas
impresses digitais no apartamento inteiro. Mas a faca, com o sangue de Luciana e contendo as suas digitais, era uma prova incontestvel.
-Temos que apanhar essa faca - anunciou ela, olhar febril. -  a nica prova contra ns.
-Ficou louca? A faca est nas mos da polcia.
-Precisamos fazer alguma coisa! - descontrolou-se. -Tinha me esquecido da droga da faca. Por que voc no a apanhou? Por que a deixou l?
-No venha me culpar agora. Voc no devia ter feito aquilo.
-Ela vai nos incriminar. A faca vai nos incriminar!
-Nos incriminar? Vai incriminar voc. Foi voc quem a usou.
-Vai dar para trs agora, vai? - revidou ela atnita. - Vai se acovardar e pular fora?
-No se trata disso. Mas eu no fiz nada. Dei uns socos na cara dela, mas no a matei.
-No a matou, mas a deixou bem machucada. E ainda a estuprou. Acha que isso tambm no  crime?
-Estupro no  homicdio, e os sopapos que lhe dei no a mataram. Ningum pode me acusar de algo que no fiz.
-Eu posso! Voc foi meu cmplice. Direi que, depois de estupr-la, voc a segurou enquanto eu a esfaqueava. Todo mundo vai acreditar. Quem  que vai duvidar? 
Um homem que estupra e esmurra uma mulher indefesa  capaz de qualquer coisa.
-Isso  uma loucura! - choramingou ele. - Por que fui me deixar envolver por uma doida feito voc?
-Agora eu sou doida, no ? Na hora que transvamos, voc no pensava isso. Quando trazia dinheiro para voc, minha loucura nunca o incomodou.
- diferente. Voc no tinha matado ningum.
-E voc? J havia estuprado algum antes?
-Eu... perdi a cabea. Tinha fumado um baseado...
-Mais um motivo para no duvidarem de mim: viciado, estu-prador e assassino.
-Eu nunca matei ningum.
-Voc foi comigo  casa de Luciana porque quis! - esbravejou ela.
-Voc no pode fazer isso comigo. Eu estava doido e no sabia o que voc ia fazer. Voc me disse que ns s amos dar um susto nela. Eu nem sabia que voc
estava com uma faca!
-No adianta se fazer de inocente agora. Ningum vai acreditar nessa sua histria.
-Vamos fugir - cortou ele desesperado. - Antes que nos prendam, vamos desaparecer daqui.
-E o dinheiro...?
-Deixe o dinheiro para l! Vamos arrumar nossas trouxas e meter o p na estrada. Antes que seja tarde!
Ceclia estava to desesperada quanto ele e comeava a ver sentido no que ele dizia. Tentar arrancar dinheiro de Masa era uma inutilidade, e ela no podia recorrer 
 Justia. O depoimento de Masa a comprometera e, em breve, a polcia acabaria prendendo-a, seguindo a pista das impresses digitais na faca que usara no crime. 
Que outra alternativa lhes restava? Estavam sem dinheiro, mas ela sempre podia se prostituir para arranjar algum. No era isso mesmo que vinha fazendo com Luciana? 
Algo que, de uma certa forma, at lhe parecia normal?
-Est bem - concordou ela afinal. - Vamos fugir hoje  noite. No quero que meus pais desconfiem de nada.
-Precisamos ter cuidado. A polcia mandou que voc no se ausentasse da cidade e, se nos pegar em fuga, ser o seu fim.
-Ser o nosso fim. Voc est comigo nessa, no se esquea.
A polcia nada sabia sobre Gilberto, porque, at aquele
momento, Ceclia no havia ainda revelado o seu nome, e ele no tocara em nada na casa de Luciana. Uma idia assomou em sua mente, e ele comeou a raciocinar com 
rapidez. A surra e o estupro deviam ser crimes srios, mas no to srios quanto um assassinato. A faca no continha suas digitais, s as de Ceclia, e ningum poderia 
provar que ele a usou. Restava a alegao de Ceclia de que ele segurara Luciana. Precisava desmentir isso. Talvez houvesse uma sada...
-Esteja pronta s dez horas - anunciou ele, tentando conter a excitao em sua voz. - Virei busc-la.
-No se preocupe, estarei esperando.
Com um aceno de despedida, Gilberto se foi. Mais tarde,
 hora aprazada, Ceclia o aguardava ansiosamente, a trouxa pronta, contendo as roupas e as pequeninas bugigangas que Luciana lhe dera. s dez e cinco, ela ouviu 
um assobio embaixo de sua janela e a abriu com cuidado, para no acordar as irms que dormiam com ela.
-Por que demorou tanto? - sussurrou, enquanto empurrava a trouxa para ele e enfiava uma perna pelo peitoril.
-Vamos embora - resmungou ele em resposta, ajudando-a a saltar.
Assim que ela pulou para o lado de fora e ajeitou as roupas, uma luz branca e brilhante se derramou sobre seu rosto, tornando-a cega por uns instantes. Colocou 
a mo na frente dos olhos, tentando ver o que estava acontecendo, at que uma voz grave e autoritria soou a seu lado:
-Vai a algum lugar, dona Ceclia?
Ela se assustou e, num timo de segundo, compreendeu tudo. Gilberto a havia trado e a entregara  polcia, avisando, inclusive de sua fuga, da fuga que ele mesmo 
sugerira. Tentou correr, mas foi agarrada por braos fortes que a seguraram e a conduziram para o camburo parado do outro lado da rua, oculto pela escurido.
-Vocs no podem fazer isso! - berrava ela. - Conheo os meus direitos! No podem me prender assim!
O homem que fizera a pergunta exibiu um papel sob os seus olhos e anunciou friamente:
-No se preocupe. Ns temos um mandado de priso.
Ela comeou a chorar desesperada e se virou para Gilberto,
mas ele havia sumido, e os guardas a empurraram para dentro do camburo e trancaram a porta, deixando-a aos gritos e dando socos na parede do carro.
Em outro carro, longe das vistas de Ceclia, Gilberto tremia. Fizera a sua parte entregando-a s autoridades, mas no podia simplesmente ficar parado vendo-a ser 
levada  fora para a priso. Ele gostava muito dela, mas no era justo o que ela pretendia fazer com ele. Queria acus-lo de algo que ele no fizera nem desejara. 
Aquilo l era amor?
Na delegacia, informaram-lhe sobre o que aconteceria. Se Luciana no desse queixa do estupro, o que eles achavam que ela no faria se acordasse, ele seria acusado 
de invaso de domiclio e leses corporais leves, mas no de tentativa de homicdio. E, o que era pior, se Luciana viesse a morrer, de homicdio consumado e qualificado. 
Ele no entendia o que isso significava, mas devia ser algo bem ruim. Embora no lhe agradasse passar uns anos na cadeia, convenceram-no de que era melhor do que 
ser acusado de assassinato. Assim, contou toda a verdade, que pareceu bem verossmil para a polcia, e Ceclia foi presa, enquanto ele
aguardaria, em liberdade, o julgamento pelos seus crimes.
***
A notcia deixou Masa entusiasmada. Ela no se conformava de ver Ceclia livre enquanto Luciana se consumia naquela cama de hospital. Masa estava a seu lado naquela 
tarde e, baixinho, contara sobre a priso de Ceclia. Depois, pediu que Luciana reagisse e, de olhos fechados, rezava, segurando a sua mo por cima do lenol. Luciana 
abriu os olhos lentamente e ouviu, ainda sem compreender, as splicas de Masa:
-Por favor, Deus, no a deixe morrer. Ela  to jovem, tem ainda tanto a viver...
-Tenho mesmo... - confirmou Luciana, a voz meio cavernosa como se acabasse de sair do tmulo. - O que estou fazendo aqui...?
-Luciana! - gritou Masa, hesitando entre abraar a amiga e correr para chamar a enfermeira.
-Estou com sede - prosseguiu ela, a voz ainda bastante fraca. - Pode me dar um copo de gua?
-Espere um instante... - falou ela apressada, enquanto saa pelo corredor em busca da enfermeira.
Poucos minutos depois, a enfermeira apareceu, seguida pelo mdico, que correu a examin-la. Masa teve que aguardar do lado de fora, mas logo recebeu a notcia de 
que Luciana estava fora de perigo e estaria sendo transferida para o quarto ainda naquela tarde.
-Voc no sabe o que tive que fazer por voc - anunciou
Masa de bom humor, assim que pde v-la novamente. - At o medo da polcia venci por sua causa.
-Jura? Ento, minha internao valeu para alguma coisa.
-No tem graa, Luciana. O mnimo que voc deve fazer  ficar em minha casa quando sair e deixar que eu cuide de voc.
Luciana no teve como contestar e ficou acertado que passaria uns dias na casa de Masa, at se recuperar totalmente. A notcia da priso de Ceclia deixou-a entristecida,
porque ela jamais poderia esperar que algum que ela julgava que a amasse fosse capaz de fazer uma coisa daquelas. Ela se lembrava vagamente do ocorrido. Lembrava-se
do aparecimento repentino de um rapaz atrs de Ceclia, da discusso que elas tiveram e das mos do homem a segurando. Em seguida, os socos em seu rosto, o gosto
de sangue e uma dor violenta nas entranhas, quando ele a violentou com brutalidade. J meio desfalecida, ouviu a voz dele a distncia, pedindo a Ceclia que fossem
embora. E, quando a conscincia ameaava esvanecer-se por completo, experimentou uma dor aguda e cortante na proximidade do corao, e a fraqueza a dominou inteiramente,
 medida que o sangue aflua numa torrente, fugindo sem controle de seu peito. Depois disso, a escurido e o silncio a atiraram no vazio de si mesma.
***
-Isso  maravilhoso! - dizia Flvio ao telefone. - Vou j para a.
Ele colocou o fone no gancho e se levantou para sair, parando com aborrecimento ao ver a me barrando a sua passagem na porta do quarto.
-O que  maravilhoso? - perguntou Dolores curiosa.
-Nada. Uma amiga de Marcela que sofreu um atentado e saiu do coma.
-Um atentado? Como assim?
-Algum tentou mat-la com facadas no peito. Deve ter sido um ex-namorado.
-Ex-namorado, ? Estranha a capacidade que a sua noiva tem de se envolver com gente desse tipo.
-Gente de que tipo, mame? - impacientou-se.
-No precisa fingir para mim, Flvio, porque sei de tudo.
-Sabe de tudo o qu?
-Sei que ela tentou se matar por causa de um ex-namorado.
-Quem foi que lhe contou isso?
-No interessa. Sou uma pessoa influente e tenho amigos em toda parte.
-E da? O que voc tem com isso?
-Nada. Mas no  estranho que, agora, a amiga quase tenha sido morta pelo ex-namorado?
-No vejo nada de estranho nisso. So coisas que acontecem.
-A fatalidade parece rondar a sua noivinha. Ser que tudo tem que acontecer com ela? - Flvio no respondeu. - Como  mesmo o nome da amiga dela?
-Luciana. Por qu?
Ela gelou ao ouvir aquele nome, o mesmo que Ariane pronunciara da ltima vez que estivera ali. Era coincidncia demais.
-Luciana de qu? - questionou ela, enquanto sua cabea ia maquinando.
-No sei e no me interessa.
-Ser que essa Luciana  uma pessoa direita?
-Como assim?
-No estar envolvida com drogas ou coisa assim? Talvez seja por isso que tenham tentado mat-la.
-Mame, voc devia ser escritora. Tem uma imaginao muito frtil. Luciana  uma moa decente e morou com Marcela quando elas vieram de Campos.
Dolores fingiu surpresa:
- mesmo?
-, sim. As duas se formaram, e Luciana hoje  dentista. Tem um consultrio particular, que divide com uma amiga.
-Onde  o consultrio dela?
-Acho que no Mier. Por qu? Est precisando se tratar?
-No seja tolo, Flvio. Estou pensando em enviar-lhe umas flores.
-Ela est no hospital. Envie para l.
-Muito bem. Em que hospital?
-Deixe de bobagens, mame. Conheo-a muito bem e sei que voc no est nem um pouco interessada em enviar flores a Luciana. Mas Marcela est aflita para
v-la. Por favor, deixe-me passar. Minha noiva est me esperando.
Com olhos brilhantes, Dolores saiu do caminho para que Flvio passasse. Assim que escutou o ronco do motor de seu carro saindo da garagem, ela apanhou o telefone
e ligou para Ariane.
-Venha aqui imediatamente - ordenou ela com voz fria, batendo o telefone em seguida.
Ariane j esperava uma ligao de Dolores e no se surpreendeu
nem ficou contrariada com o seu telefonema e a sua ordem. Estava decidida a acabar com aquela farsa e, embora no pudesse dizer isso a Dolores, agiria como se no
tivesse descoberto nada. Mas no precisava se apressar. Arrumou-se com calma e s apareceu na casa de Dolores duas horas depois.
Dolores andava em crculos pela sala, fumando um cigarro atrs do outro, quando ela chegou.
-Por que demorou tanto? - questionou contrariada. - Estou esperando h duas horas.
-S agora pude vir. Tenho meus assuntos para resolver.
-Que assuntos? Deixe isso para l. Quero informaes sobre a tal de Luciana. Por que no me contou que ela foi vtima de uma tentativa de assassinato?
-Como foi que descobriu?
-Flvio me contou. Por que no me disse?
-Achei que no era importante.
-No era importante? Onde  que voc est com a cabea, Ariane? Essa moa talvez seja a resposta aos nossos problemas.
-No sei por qu. Tentaram matar a moa, o que no tem nada a ver com Marcela.
-Duvido muito. Algo me diz que essa moa  a chave de tudo.
-Impresso sua. Voc est se deixando levar pelo desespero e quer se agarrar a qualquer coisa.
-Deixe que eu mesma decida isso. E agora me diga: quem tentou mat-la?
-E eu  que sei? Pergunte  polcia. Ou a ela, quando acordar.
-Ela j acordou. Flvio est indo para l com Marcela.
-J? - Ariane demonstrou genuna surpresa e alegria ao mesmo tempo.
-Voc parece satisfeita. Por qu?
-Quem no ficaria satisfeita em saber que algum, seja quem for, est se recuperando e voltou  vida?
-No fuja do assunto. Ela  importante para Marcela, no ? Muito importante.
-Isso, voc j sabe.
-O que h entre as duas?
-No sei.
-Voc sabe, mas no quer me contar.
-No sei de nada, j disse.
-Em que hospital ela est?
Ariane no queria dizer, mas no teve escolha. Dolores no acreditaria se ela dissesse que no sabia e a pressionaria at conseguir.
-No So Lucas - respondeu maquinalmente.
-Em que quarto?
-No sei. Da ltima vez que soube algo, ela estava no CTI.
-Ela agora est no quarto. Preciso descobrir qual . Voc vai ter que agir novamente.
-Para qu? O que voc pretende fazer? Interrogar Luciana?
-No seja tola! Estou seguindo a minha intuio. Quero que voc v at l e descubra algo.
-No posso fazer isso.
-Por que no?
- perigoso. Posso me encontrar com Flvio.
-Tem razo. Havia me esquecido desse detalhe.
Ariane suspirou aliviada. Ao menos por enquanto estava livre
de ter que procurar Marcela novamente, o que no estava mais disposta a fazer. No podia dizer a Dolores que mudara de plano mas no faria mais nada que ela pedisse.
Ficou imaginando o que ela diria se soubesse que Justino freqentava agora a sua casa e vivia em companhia de sua me, levando-a ao cinema, restaurantes. Na certa, 
ficaria
furiosa e a ameaaria ainda mais.
-Deixe Luciana para l - aconselhou Ariane. - Ela no pode nos ajudar em nada.  apenas uma amiga de Marcela.
-Duvido muito. Sou uma pessoa muito intuitiva, e a intuio me diz que h algo revelador entre essas duas, e estou disposta a descobrir o que .
Dolores no sabia o quo prxima estava da verdade. A seu lado, espritos das sombras a acompanhavam diuturnamente interessados tambm na infelicidade de Marcela.
Poderosos aliados de outras vidas, no perdiam a oportunidade de
intu-la sobre os fatos da vida de Marcela, o que levava Dolores sempre ao caminho certo. Sem imaginar,
ela seguia as dicas de seus amigos das sombras e ia adivinhando tudo o que era importante para o deslinde daquele mistrio.
Naquele momento, a intuio lhe dizia que deveria abandonar o plano que traara com Ariane. A moa j fizera muito, e ela devia agora agir por conta prpria.
-Pode deixar que eu resolvo tudo sozinha de agora em diante - falou para Ariane, seguindo os conselhos de seus amigos. - No preciso mais de voc, por enquanto.
Foi uma surpresa que Dolores no quisesse mais a interveno de Ariane. Ela pensava que teria que prosseguir naquele plano at o final e no entendia o que a havia
feito mudar de idia. Contudo, era timo no mais precisar fingir.
Depois que Ariane se foi, Dolores ficou pensando numa maneira de descobrir algo que ela nem sabia bem o que seria. Precisava obter informaes de Luciana, mas no
podia ir ao hospital visit-la. Foi quando teve uma idia que talvez pudesse surtir efeito. Arrumou-se toda e, em poucos instantes, seguia para a clnica decadente
de Nlson.
Ao chegar, foi informada de que ele no estava, e sentou-se em sua sala para esperar. O lugar estava precisando de uma pintura e havia poucos pacientes. Sem a sua 
ajuda, em breve, a clnica estaria falida. Nlson chegou meia hora mais tarde e foi tomado de imensa alegria ao v-la sentada em seu consultrio.
-Dolores, minha querida! - balbuciou ele, certo de que ela estava ali para reatar o seu caso. - Mal pude acreditar quando me disseram, na recepo, que voc 
estava aqui.
-No v se animando - cortou ela, esquivando-se dele. - No vim para o que voc pensa. Preciso de um favor.
-Um favor? Meu?
-Sim, seu. Voc  amigo do diretor do hospital So Lucas, no ?
-Sou. Ou fui, no sei bem.
-No importa. Quero que voc ligue para ele e obtenha umas informaes para mim.
-Que tipo de informaes?
-A respeito de uma moa. Seu nome  Luciana, no sei o sobrenome. Ela deu entrada h alguns dias, vtima de uma facada no peito. Quero saber tudo sobre ela, 
principalmente, o autor e o motivo do crime.
-Por que eu faria isso por voc? - retrucou ele de m von tade, encarando-a agora com ar hostil.
-Porque este lugar est um lixo, e eu posso limp-lo para voc. - Antes que ele respondesse, ela retirou o talo de cheques da bolsa e preencheu um, exibindo-o
para Nlson. - Isso  o suficiente para comear a limpeza?
Ele apanhou o cheque e engoliu em seco. Era muito mais do que poderia esperar faturar em um ms de servio com a clnica dando lucros. Ele a fitou com rancor, mas
ela nem se incomodou. Estava com o fone na mo e o passou para ele, que o apanhou sem qualquer emoo.
-Ligue para o hospital So Lucas - disse para a recepcionista. - Diga que  urgente.
Em poucos minutos, Dolores tinha em mos todas as informaes que Nlson conseguira obter com o diretor do hospital. Ele teve que esperar pacientemente at que o 
diretor
entrasse em contato com o setor correspondente e se informasse sobre a moa, o que levou cerca de meia hora.
Pelas informaes que obtivera, inclusive atravs dos comentrios que as enfermeiras ouviam, a moa fora ferida por uma
outra de nome Ceclia, que se encontrava agora
na priso. O motivo do crime, ele no conhecia nem ningum parecia comentar,
a polcia estivera poucas vezes no local, por causa do estado de Luciana, e fora aconselhada
a aguardar at que ela tivesse alta para depor.
Mas o que Dolores conseguira j era o suficiente. A criminosa fora presa e seria de grande utilidade, ainda mais se ela lhe acenasse com a possibilidade de uma ajuda
financeira para sua defesa. Iria procur-la pessoalmente, certa de que estava prestes a descobrir o grande segredo de Marcela, um segredo
que, esperava, aquela moa pudesse lhe revelar.
***
A ansiedade foi to grande que Dolores no esperou muito para fazer uma visita a Ceclia na cadeia.
Sua presena na delegacia causou estranheza, mas o delegado era esperto e prudent
e o nome Dolores Cndida Raposo era conhecido como o de uma das maiores socialites de ento. O que uma dama distinta e elegante como aquela poderia querer com uma
criminosa de baixo nvel feito Ceclia, era algo que ele jamais poderia supor. Contudo, o pedido foi feito, e ele no teve como negar a visita.
O delegado lhe arranjou uma sala reservada para que ela pudesse conversar a ss com Ceclia, que chegou algemada, conduzida pelas mos indelicadas de um guarda.
Num primeiro momento, Ceclia pensou que aquela mulher fosse a defensora designada para o seu caso e se largou sobre a cadeira de madeira que lhe foi indicada, fitando 
Dolores com uma certa expectativa e ansiedade.
Logo que o guarda as deixou a ss, Dolores comeou a falar com ar de superioridade:
-Sabe quem eu sou?
-Minha defensora? - Dolores meneou a cabea. - Ento, nem imagino.
-Meu nome  Dolores Cndida Raposo. Esse nome diz algo a voc?
-No. Deveria?
-Talvez. Mas isso no vem ao caso no momento. Basta que voc saiba que eu sou uma pessoa muito importante e influente na sociedade.
Ceclia pensou em perguntar: "e da?", mas teve medo de que ela fosse amiga ou parenta de Luciana e achou melhor no dizer nada.
-Sabe por que vim? - prosseguiu Dolores.
-No fao a mnima idia - respondeu Ceclia, agora com cautela.
-Voc deve ter tido um motivo muito srio para tentar matar Luciana, no teve?
-Quem foi que disse que fui eu que tentei mat-la?
-No precisa fazer teatro comigo, menina. No estou aqui para julg-la nem conden-la.
-O que a senhora tem com isso?
-Nada, particularmente. Estou apenas interessada em conhecer algo a respeito dessa moa.
-Por qu?
Notando o medo no olhar de Ceclia, Dolores aproximou mais o rosto do dela e tornou em tom baixo, porm, claro e audvel:
-Tenho dinheiro, menina. Dinheiro suficiente para pagar o melhor advogado do pas para fazer a sua defesa.
-E por que a senhora faria isso por mim? - retrucou Ceclia, cada vez mais desconfiada.
-Porque eu preciso de um favor seu e posso lhe oferecer um meu. Por que no fazermos a troca?
Durante alguns minutos, Ceclia permaneceu estudando aquela senhora rica e elegante sentada  sua frente. No sabia quem ela era nem por que estava ali, mas se ela
lhe oferecia dinheiro para pagar uma defesa brilhante, por que no aceitar? Estava mesmo comprometida at a alma, no tinha nada a perder.
-Muito bem - falou ela, o olhar vivido de quem agora se sentia um pouco dona da situao. - Farei como a senhora me pede. Mas em troca, quero um bom advogado 
para fazer a minha defesa.
-No se preocupe com isso. J disse que posso pagar o melhor.
-Ento, vamos l - ela jogou o corpo para trs e esticou as pernas sobre a mesa. - O que a senhora gostaria de saber?
-Em primeiro lugar, preciso saber por que voc tentou matar Luciana. No tenha medo. O que disser ficar apenas entre ns. No sou espi nem estou aqui a 
servio da polcia ou da Justia.
Ceclia venceu a desconfiana e contou tudo. Aparentemente, a tentativa de homicdio de Luciana nada tinha a ver com Marcela, e no havia indcios de uma ligao 
entre as duas. Mas os amigos espirituais de Dolores, irradiando baixas vibraes, iam inspirando-a para que tomasse o rumo certo, e Dolores seguia as suas sugestes 
sem nem titubear, atribuindo-as a sua prpria intuio, sem saber que a intuio nada mais era do que o pensamento dos espritos que a acompanhavam.
No apenas os bons espritos so capazes de inspirar pensamentos ou idias na mente dos encarnados. Os espritos das trevas tambm podem intuir para o mal e, estando
o encarnado em afinidade com eles, seguir os seus conselhos como o faria
uma pessoa mais avisada e vigilante, que tende a obedecer s sugestes de seus guias e mentores. Estabelecida a sintonia de propsitos, os pensamentos se ligam como
em cadeias, formando elos poderosos que s com a orao poderiam se romper.
Mas Dolores no sabia de nada disso e, ainda que soubesse, nada faria para alterar esse estado, pois o que lhe interessava era atingir o seu objetivo, fosse quem
fosse que a estivesse ajudando. E os espritos lhe diziam que seria atravs de Ceclia que ela descobriria o grande segredo de Marcela.
Agora um pouco intimidada pelo tom de voz de Dolores, alm de tambm estar sujeita  influncia dos espritos ignorantes que as cercavam, Ceclia desviou os olhos
do rosto da outra e contou com cuidado:
-Luciana me traiu.
-Como?
-Ela me traiu... Prometeu-me coisas e depois me deixou a ver navios.
-Que tipo de coisas? Vamos, menina, fale! Seja o que for, pode me contar. Estou velha demais para me chocar com as sujeiras do mundo.
Dolores esperava que Ceclia lhe contasse algo sobre drogas e prostituio e j comeava a se impacientar.
-Bem... - prosseguiu Ceclia, ainda com cautela - ela me prometeu dinheiro... mais ou menos.
-Por que? O que voc teria que fazer para ela?
-Olhe, dona, na verdade eu no tinha que fazer nada. S transar com ela.
-O qu?! Transar? Quer dizer, sexualmente? - ela assentiu. - Est querendo me dizer que Luciana  lsbica?
-Isso mesmo.
-S isso? - havia um tom de desapontamento na voz de Dolores que Ceclia no entendeu, e ela prosseguiu decepcionada: - Nem drogas, nem prostituio?
Ceclia no sabia o que Dolores queria escutar. Se soubesse, teria inventado uma histria s para agrad-la, mas como no conhecia os seus propsitos, achou melhor 
dizer a verdade:
-No sei a que a senhora est se referindo, mas Luciana no usa drogas e, que eu saiba, nunca se prostituiu.
-Sei... E o que sabe sobre uma moa chamada Marcela?
-Marcela? Nada. S sei que era amiga de Luciana.
-Amiga? Elas tambm foram amantes?
-Foram. Luciana me contou que ela e Marcela foram apaixonadas. Fugiram de Campos e viveram oito anos juntas aqi no Rio. Depois, Luciana se cansou dela e
terminou tudo. Parece que a tal de Marcela tentou at se matar por causa disso.
-Tentou se matar? - repetiu Dolores, comeando a vislumbrar o desfecho daquela histria, que comeava a lhe parecer interessante.
-Foi. A garota  uma tonta. Apaixonou-se pelo mdico que a salvou e vive com medo de que ele descubra a verdade.
Os olhos de Dolores brilharam intensamente, e ela concluiu com frieza:
-Obrigada, menina, voc me foi muito til. Aguarde uma visita de meu advogado.
- s isso?
-Voc j disse o que eu queria saber. - Dolores se levantou abruptamente e chamou o guarda que esperava do lado de fora - Pode lev-la agora. Estou satisfeita.
O guarda no esperou uma segunda ordem. Levantou Ceclia pelo brao e saiu conduzindo-a pelo corredor. Ceclia queria perguntar por que a entrevista se encerrara 
to
repentinamente, mas nem teve tempo. Esperava ser crivada de perguntas por aquela mulher, mas ela fora sucinta em seus questionamentos e pareceu interessada apenas 
no
relacionamento de Luciana e Marcela.
Para Dolores, tudo estava satisfatoriamente esclarecido. Particularmente, ela no via na atitude de Marcela algo que por si s, levasse a um rompimento do noivado 
com
Flvio. E conhecia a opinio do filho a respeito de homossexualidade, sabia que ele no a aprovava, mas no estava certa sobre a reao que ele teria ao saber que 
Marcela
era ou fora lsbica. Ele estava apaixonado demais, e homens apaixonados tendia a fazer coisas estpidas em nome do amor.
E se Flvio j conhecesse aquela histria? Se ela lhe contasse a verdade agora, talvez ele se aborrecesse e brigasse com ela acusando-a de querer fazer intrigas 
para
destruir o seu noivado.
E se ele nada soubesse, ser mesmo que se importaria? Talvez nem se incomodasse e at ficasse feliz porque Marcela no tivera outro homem antes dele. Mas tambm
podia ser que ele se desgostasse da moa e a condenasse pelo que fez. Como poderia ela saber? No podia agir de forma direta com o filho. Tinha que estudar uma maneira
de afast-los usando aquela verdade, o que no significava que, necessariamente, precisasse contar tudo a ele.
Ceclia lhe dissera algo que parecia muito importante: Marcela tinha medo de que ele descobrisse a verdade. Se era assim, ele no devia saber nada. O passado de 
Marcela permanecia obscuro
e sigiloso, o que constitua uma arma em suas mos.
***
Enquanto isso, Marcela e Flvio deixavam juntos o hospital, onde haviam acabado de visitar Luciana. Apesar do temor de que o noivo descobrisse algo, Marcela fez 
questo de ir com ele, para no o deixar cismado. Alm disso, o estado de Luciana ainda era delicado, e ela no podia falar muito, o que evitaria que Flvio fizesse 
perguntas comprometedoras.
Quando chegaram ao apartamento de Marcela, Flvio comentou:
-Voc sabia que foi uma moa que a esfaqueou?
-Uma moa? Como assim? Como  que voc sabe?
Marcela j sabia, por Masa, que Ceclia era a possvel autora
daquele crime horrendo, mas ela ainda no estivera com Masa para saber que Ceclia estava presa, e Luciana no tocou no assunto.
-Era o comentrio entre as enfermeiras - prosseguiu ele. - Dizem que a moa a esfaqueou por cime.
-Ser?
- o que dizem. E no foi por cime de namorado, no! Parece que as duas tinham um caso.
Marcela ouvia as palavras de Flvio cheia de horror, e um suor gelado comeou a brotar de sua testa.
-Isso  fofoca - rebateu ela, esforando-se para que a voz no sasse to trmula quanto seu corao. - Essas enfermeiras no sabem de nada. Pegam um comentrio 
aqui, outro ali, e criam uma histria sensacionalista.
-No sei, no. No creio que todas juntas fossem inventar a mesma histria. Dizem que foi o prprio detetive da polcia quem contou, meio em tom de chacota,
que a outra j est at presa.
O sangue fugiu do rosto de Marcela, que sentiu os lbios gelarem e o corao petrificar, ao mesmo tempo em que tentava ainda reverter aquela situao:
-Luciana no  assim.
-No era, voc quer dizer. Ou talvez fosse, e voc nunca tivesse percebido. Ela nunca tentou nada com voc? - Marcela meneou a cabea. - Nunca lhe deu uma 
cantada?
-No...
-No  possvel que voc no tenha percebido nada em oito anos de convivncia com ela.
-Luciana no  assim, j disse!
-No entendo essas meninas - continuou ele, sem dar ateno s palavras de Marcela. - Tanto homem dando sopa por a, e elas vo escolher logo outra mulher 
para transar.
-Por que voc  to preconceituoso? - rebateu Marcela, j no limite de suas foras.
-No sou preconceituoso. Se Luciana e a tal querem ter um caso, o problema  delas. Eu s no consigo entender... - ele parou de falar e retrucou desconfiado: 
- Voc nunca teve nada com ela, teve?
-E se tivesse tido? Terminaria comigo?
-No, porque sei que voc no teve. Voc no  desse tipo.
-Responda-me uma coisa, Flvio: o que voc sente ao ver duas mulheres transando?
-Nojo.
-Tem certeza? No fica excitado tambm?
-No...
-No  o que parece. Quando vamos ao motel, voc bem que se anima vendo aquelas fitas de mulheres transando.
- diferente. Aquilo  filme, so mulheres desconhecidas, no  com voc.
-Isso  hipocrisia.
-Est tentando me dizer alguma coisa, Marcela? - rebateu ele, j agora bastante desconfiado e se afastando dela uns centmetros.
Por uma frao de segundos, ela se viu contando toda a verdade, sem se importar com o que ele diria ou qual seria a sua reao. Mas o olhar de expectativa e paixo
que ele lhe lanava deu um choque na sua determinao, e ela voltou os olhos para dentro de si e examinou o seu corao. Como se sentiria se Flvio a deixasse por 
causa de seu passado com Luciana? Certamente, ela no suportaria e, por mais que dissesse a si mesma que o suicdio era um erro, sabia que seria a nica coisa que 
poderia fazer por si mesma. Era covarde e no tinha coragem de enfrentar a vida e seus dissabores.
-No estou tentando lhe dizer nada - respondeu ela vagarosamente. - S me incomoda o fato de voc ser preconceituoso, porque eu no sou.
Disse essas ltimas palavras com cautela e olhou para ele, que sustentou o olhar e revidou:
-Voc pode no ser preconceituosa, mas at que ponto vai essa sua liberalidade? Ser que voc e Luciana j chegaram a ter algum caso?
Era agora ou nunca. A ltima chance que poderia esperar de contar toda a verdade e acabar com aquela agonia. Marcela chegou a articular o monosslabo, mas a coragem 
lhe escapou na hora. O medo de perd-lo ainda era muito grande, e ela calou a voz da verdade e mentiu mais uma vez:
- claro que no. Quando morvamos juntas, Luciana nunca demonstrou nenhuma tendncia homossexual.
Mentir lhe fazia grande mal. Na verdade, aquela era a primeira vez que precisava elaborar uma mentira. At ento, o que vinha fazendo era silenciar quanto s afirmaes 
de Flvio, levando-o a crer que suas desconfianas sobre um possvel ex-namorado eram corretas.
-Posso lhe fazer uma pergunta que, at ento, jamais quis formular? - questionou ele, olhando-a com ar entre severo e splice.
-Pode. O que ?
-Por que voc tentou se matar?
Ela sentiu como se uma corrente eltrica descarregasse inteira sobre o seu corao, que quase se tornou audvel, tamanha a intensidade com que se descompassava.
-Voc sabe...
-Na verdade, no sei. Apenas fiz suposies sobre o que parecia ser. Mas agora gostaria de ouvir de voc. O que,
realmente, aconteceu?
-Eu... no gosto de falar sobre isso... E voc prometeu que nunca perguntaria... que no se importava com o meu passado.
-Isso foi antes... - ele ia tocar no nome de Luciana, mas desistiu. - Mas agora preciso saber. No quero que a mulher com quem vou me casar esconda nada 
de
mim. Precisamos de cumplicidade at nos nossos segredos mais ntimos.
Mais uma vez, a oportunidade de revelar a verdade se fazia; mas ela no tinha coragem e se atirou de cabea no poo da mais profunda mentira:
-Eu tinha um namorado, e ele me deixou. Quando fugi de Campos, estava sozinha com Luciana, ramos duas meninas e eu conheci esse rapaz num bar. Ns nos apaixonamos,
e eu me entreguei a ele. Depois de oito anos, ele simplesmente me abandonou. Pensei que o mundo tivesse desabado sobre mim e quis morrer.
-E Luciana? Quando foi que saiu daqui? Foi antes ou depois disso tudo acontecer? Foi por causa desse rapaz que ela se mudou? Vocs brigaram porque ele a 
trocou
por ela?
A presso estava por demais forte e, nesse ponto, Marcela nem conseguiu mais se conter, desabando num pranto angustiado e pontilhado de soluos aflitos, demonstrando
o seu estado de patente desespero.
-Por que est fazendo isso comigo? - lamentou ela. - Eu no fiz nada... Por que est me tratando como se eu tivesse feito alguma coisa errada? Eu o amo, 
Flvio,
ser que no v? O que importa o meu passado? No percebe o quanto est me fazendo sofrer com essa sua desconfiana?
As splicas o comoveram, e ele correu para ela, os olhos midos de arrependimento. Estreitou-a com fora e beijou-a diversas vezes na boca, nos olhos, nas faces.
Ela chorava e soluava, nem conseguia mais falar. Seu desespero era to visvel que ele comeou a se desesperar tambm e praticamente implorou:
-Pelo amor de Deus, Marcela, perdoe-me! Como sou estpido!
Eu a amo e sei que voc me ama. Por que estamos discutindo bobagens quando o que importa  o nosso amor?
-Ah! Flvio...! - soluava ela.
-No diga mais nada. No quero que voc diga mais nada. Eu acredito em voc, sei que voc me ama e no seria capaz de fazer nada de errado. Vamos deixar 
isso tudo para l e viver a nossa vida.
Ela redobrou o choro porque ele ainda no havia compreendido a verdade, e ela fracassara na coragem de ser sincera. Agora sabia que no poderia lhe contar. Embrenhara-se
na mentira e no sabia como desatar tantos ns. Por isso, encostou o rosto em seu peito e continuou a chorar, at que as lgrimas se cansaram e pararam de cair.
Ao deixar Marcela em casa, Flvio seguiu dirigindo em silncio, refletindo sobre tudo o que acontecera naquele dia: a visita a Luciana, os comentrios das enfermeiras
e a discusso com a noiva. Ele no sabia o que pensar. Algo dentro dele lhe dizia que a verdade estava no que no fora dito, nas palavras distorcidas e nos pensamentos
adulterados. Mas o que dizer do que sentia? Onde estaria a verdade a respeito de seus sentimentos?
Flvio no duvidava de seu amor por Marcela, mas estava preso  idia do modelo de mulher perfeita que a sociedade lhe impingira desde a mais tenra infncia. E agora
no sabia o que fazer. Por mais que Marcela negasse o seu envolvimento com Luciana, uma voz dentro dele dizia que ela estava mentindo, mas ainda assim, era melhor
no saber. Por outro lado, por que ela mentiria? Seria medo da sua reao ou vergonha de si mesma? Aquele era um assunto espinhoso, e ele preferia no ter que discuti-lo
com Marcela. No lhe agradava imagin-la trocando com outra mulher as mesmas carcias a que se entregavam, chegando mesmo a sentir uma certa repulsa. Preferiu no
pensar mais no assunto e centrou os pensamentos no futuro. Marcela e ele se casariam, teriam muitos filhos, e ele no precisaria mais se preocupar com aquela histria.
Quando chegou a casa, Dolores ainda estava acordada e o viu passar a caminho do quarto. Pensou em cham-lo, mas
conseguiu se conter. Suas palavras tinham destinatrio certo, e no era o filho.
No dia seguinte, Dolores acordou mais cedo do que o habitual e saiu sem dizer nada a ningum. No pediu motorista e foi, ela mesma, dirigindo at a casa de Marcela. 
Queria encontr-la antes que sasse para o trabalho.
No eram nem sete horas quando ela tocou a campainha do apartamento de Marcela, que abriu a porta j arrumada para trabalhar.
-Dona Dolores! - surpreendeu-se ela. - O que faz aqui to cedo?
-Tenho urgncia em lhe falar - respondeu ela, passando para o lado de dentro e fechando a porta com cuidado.
-No pode ser outra hora? Estou de sada para o trabalho.
-Tem que ser agora.
-Mas vou me atrasar...
-Ligue e diga que est doente. Depois de ouvir o que tenho a lhe dizer, voc no vai conseguir trabalhar.
Mesmo sem saber do que se tratava, Marcela sentiu medo. Jamais vira aquele olhar de vbora amea-la de forma to exuberantemente feroz. Apanhou o telefone e ligou 
para a escola, dizendo que estava doente e precisaria faltar. Em seguida, desligou e foi sentar-se junto de Dolores.
-O que foi que aconteceu? - comeou ela, quase em splica.
-No vou fazer rodeios com voc, Marcela. Diga-me apenas o quanto quer para deixar meu filho em paz.
-O qu!? - retrucou ela, mal acreditando no que ouvia. - A senhora enlouqueceu? Amo Flvio, e ns vamos nos casar.
-S se eu morrer antes. Voc no se casa com ele nem que eu tenha que mover cus e terra para impedir.
-Por que est dizendo isso, dona Dolores? A senhora pode no gostar de mim, mas pensei que j havia me aceitado.
-Como voc  estpida, menina! Ento acha que eu me conformaria em ver o meu filho, meu nico filho, se casando com uma mulherzinha apagada, vulgar e sem 
classe feito voc? E, ainda mais, lsbica?
Os olhos de Marcela se esbugalharam, e ela pensou que fosse desmaiar.
-O que a senhora est dizendo?
-No se faa de inocente comigo, garota. Sei muito bem que voc e uma tal de Luciana dormiram juntas por oito anos. Foram caso uma da outra, lsbicas, sim!
-Quem lhe contou isso?
-No importa. O fato  que eu sei, e no adianta nem voc tentar mentir. - Marcela abaixou a cabea, derrotada, e comeou a chorar de mansinho. - Isso, chore 
mesmo, sua oportunista-zinha barata. Seu plano de escalada social est desmascarado, e voc pode parar de fingir para o meu filho e voltar para a sua amante lsbica 
quando ela sair daquele hospital.
-Isso no  verdade, dona Dolores. No sou interesseira nem oportunista. Vou me casar com seu filho porque o amo de verdade.
-Como o ama, se voc gosta  de transar com mulheres? Ou ser que pretende enganar meu filho, depois do casamento, com sua amante de saias?
-Isso  uma afronta! - ela se levantou indignada. - Sou uma mulher decente, assim como Luciana tambm . A senhora no tem o direito de vir a minha casa 
e nos insultar.
-No precisa fazer cena comigo, Marcela, porque no vai funcionar. Sei muito bem quem voc  e o que pretende, e estou aqui para impedir que voc arruine
a vida do meu filho. Pela ltima vez, quanto voc quer para deix-lo em paz e sumir da sua vida?
-A senhora no pode fazer isso. No pode me obrigar a aceitar.
-Posso, sim. Ou ser que prefere que eu conte a verdade a meu filho? Ele ainda no sabe da sua estranha preferncia, sabe? - ela no respondeu. - Duvido 
muito. Voc no  mulher o suficiente para lhe dizer a verdade. Mas eu sou. E no hesitarei em lhe contar tudo o que sei.
-O que a senhora ganha fazendo isso? Flvio pode muito bem me aceitar como sou.
-Duvido muito. Conheo a educao que dei a meu filho, e nela no se inclui o trato com gente da ral.
-A senhora no faria isso. Vai fazer Flvio sofrer.
-Aposto como ele sofreria muito menos se voc simplesmente
desaparecesse. Voc lhe pouparia o desgosto de saber que a noiva que ele tanto pensa que ama nada mais  do que uma lsbica safada e interesseira.
-Que prazer a senhora sente em me humilhar, dona Dolores? Que mal eu fiz  senhora?
-Voc faz mal  prpria vida. Sua existncia corrompe a sociedade e macula as pessoas de bem.
-Isso no  verdade - soluou ela. - Eu amo Flvio, e nem a senhora, nem ningum pode negar meu sentimento.
-No estou aqui para discutir o seu amor. E estou sendo generosa com voc, porque podia simplesmente contar tudo a meu filho, e ele a abandonaria de qualquer
jeito. Mas no. No quero que voc fique na pior. Sei que voc  pobre e trabalha duro naquele colgio para ter o que comer. Por isso quero lhe dar uma ajuda. Voc
pode melhorar de vida, nem vai precisar casar-se com Flvio ou com qualquer outro homem. Pode simplesmente pegar o dinheiro e ir buscar a sua amante para viver com 
ela confortavelmente em qualquer outro lugar. Por que no voltam para Campos?
-A senhora est sendo cruel. No sabe nada a meu respeito, no conhece os meus sentimentos. Por que me julga dessa maneira?
-Conheo gente feito voc. Caadoras de dote, h muitas por a. Voc no ser a primeira nem a ltima. Mas o meu filho no vai ser vtima de nenhum golpe 
barato para lev-lo ao altar. No enquanto eu ainda estiver viva.
Havia tanta angstia no olhar de Marcela que Dolores, ao invs de se condoer, sentiu-se vitoriosa e capaz. Ela, sozinha, podia manipular toda a vida de uma pessoa, 
o que lhe dava uma sensao de poder indescritvel, como se ela fosse a senhora do destino de Marcela.
-Vou lhe dar um tempo para pensar - prosseguiu Dolores. - At amanh de manh. Depois disso, conto tudo a Flvio, e voc pode esquecer o noivado e o dinheiro. 
Pense bem.
No havia mais o que fazer ali, e Dolores se levantou elegantemente para sair. Depois que ela se foi, Marcela ficou alguns minutos parada, olhando para a porta que 
acabara de fechar. Aquilo devia ser algum pesadelo. Ainda na vspera estivera
conversando com Flvio, e tudo parecia ter-se acertado. Ele no fizera mais perguntas, e os dois haviam se amado com intensi dade e paixo. Como podia ser que agora
Dolores aparecia em sua casa para lhe fazer aquele tipo de ameaa? E quem poderia ter-lhe contado tudo? Teria sido a prpria Luciana?
No. Luciana prometera que jamais contaria. Masa tambn no. Flvio no tinha certeza de nada. S sobrava Adriana, mas a nova amiga no conhecia Flvio nem a me
dele. Ah! Que falta fazia Adriana. Marcela no tinha o seu telefone, mas era com ela que gostaria de conversar. Luciana estava no hospital, e ela no podia levar-lhe
problemas. Masa, apesar de amiga, no era ntima e ela no costumava fazer-lhe confidncias. Com Flvio, no podia nem pensar em falar. Quem sobrara ento para
conversar?
Ningum. Marcela no tinha amigos nem ningum com quem pudesse abrir o seu corao. De repente, sentiu-se to sozinha, to infeliz! Comeou a chorar descontrolada
e atirou-se na cama fitando o retrato de Flvio em cima da mesinha. Seus olhos percorreram o quarto, pousando sobre o exemplar de Morte e Vida Severina, e algo significativo
assomou em sua mente: no seria melhor pular da ponte e da vida?
Marcela no queria morrer porque amava Flvio e sabia que ele a amava. Mas no poderia suportar separar-se dele.
Tambm no agentaria se ele descobrisse a verdade
atravs de Dolores. O juzo que ele faria dela seria pior do que a morte, e Marcela no conseguiria enfrentar seu olhar de decepo. Se era assim, se era para decepcion-lo,
para faz-lo infeliz e estragar a imagem que ele construra sobre o seu amor, o melhor mesmo era morrer.
Atordoada e vencida, Marcela se levantou da cama e foi procurar remdios para dormir, mas, desde o dia em que Flvio entrara em sua casa pela primeira vez, retirara
todos os comprimidos do armrio e a proibira de comprar outros. No armrio do
banheiro havia um aparelho de barbear com o qual se depilava, e ela retirou a gilete.
Experimentou a lmina no dedo, e um filete de sangue aflorou, tnue e quase imperceptvel.
Voltou para a cama com a gilete e se deitou, apanhando o retrato de Flvio e agarrando-se a ele. Igualzinho ao que fizera com o de Luciana, pensou. A nica diferena
era que sujaria o
retrato de sangue. Ser que valia mesmo a pena fazer aquilo? Ser que no preferia viver? Ficou pensando na reao das pessoas quando soubessem, na cara de quem
descobrisse o seu corpo. Dessa vez, no haveria Masa para impedir a consumao de seu ato extremo.
Faltava ainda uma coisa: Marcela no podia partir sem deixar uma mensagem a Flvio. Ele precisava saber, ao menos, do seu amor. No pretendia lhe contar sobre aquela 
mentira srdida, mas no podia deix-lo pensando que ela se fora porque no o amava. Ao contrrio, partia por excesso de amor a ele, para no ter que faz-lo sofrer.
Apanhou a caneta em sua escrivaninha e arrancou uma folha de caderno, escrevendo com uma caligrafia bonita e caprichada, a tpica letra de professor:
Meu querido Flvio,
Parto desta vida por minha covardia, por falta de amor a mim mesma e medo de ser o que sou. O que sou agora no importa. Basta que voc saiba que sou uma mulher 
cheia de erros e defeitos, mas que talvez tenha, como nica virtude, o verdadeiro amor que sente por voc.
No chore a minha morte nem se sinta culpado por eu ter desistido de viver, e lembre-se de mim como aquela que mais o amou na vida, porque o meu amor por voc no
tem limites nem razo.
Amo voc.
Amo voc.
E s voc.
Marcela
Terminou de escrever o bilhete e o colocou em cima da cama, no travesseiro ao lado do seu. Queria que estivesse visvel para quem o encontrasse. Em seguida, apertou 
a gilete contra o pulso, fechou os olhos e chorou.
***
Assim que chegou a casa, a primeira coisa que Dolores fez foi telefonar para Ariane.
-Venha at aqui imediatamente - ordenou e bateu o telefone; sem esperar resposta.
Do outro lado da linha, Ariane fitava o fone mudo, coberta de indignao. Dolores no podia mandar nela daquela maneira. J estava passando dos limites. Afinal,
ela no era sua criada nem secretria particular, e ela no tinha o direito de dispor de seu tempo como se este lhe pertencesse. Contudo, mesmo contrariada, achou 
melhor atender o chamado de Dolores, pois, pelo tom de sua voz, alguma coisa muito importante deveria ter acontecido.
Ariane estava se preparando para ir  manicura, mas mudou de idia e rumou direto para a casa de Dolores. Encontrou-a recostada numa espreguiadeira,  beira da 
piscina, fumando tranqilamente ao sol frio da manh invernal.
-Bom dia, Dolores - cumprimentou ela, sem muito interesse.
-Por que me chamou to cedo?
-Voc sabe o que fiz hoje? - retrucou Dolores, em tom de irritante vitria.
-No. O qu?
-Salvei a honra de meu filho, a sua felicidade e a minha realizao.
-Como  que ?
-Resumindo: dei um jeito de fazer aquela Marcela sumir.
-Voc o qu?
-Acabei com ela, Ariane. Voc tinha que ver a cara dela quando eu a desmascarei.
-Como assim, voc a desmascarou?
-Sente-se aqui, e eu lhe conto tudo. Voc no vai acreditar. Fiz, em um dia, bem mais do que voc em vrios meses. Sabe o que descobri? - Ariane meneou a
cabea. - Que a sua amiguinha Marcela  lsbica e vivia com a tal de Luciana. Voc sabia?
-Ariane no respondeu, e Dolores continuou falando, sem lhe prestar muita ateno. - Isso no importa. O importante  que eu acabei com aquele ar de anjo
que ela pendurou na cara s para impressionar o meu filho. Podemos nos considerar vitoriosas. Marcela est fora da jogada, e Flvio vai se voltar para voc. Trate 
de estar bem-disposta para lhe oferecer conforto e carinho.
-O que voc fez? - tornou Ariane atnita. - Como foi que descobriu essa... particularidade de Marcela?
-Eu sou esperta, meu bem. Peguei as suas informaes e rapidinho consegui desvendar a histria toda. Descobri por que e por quem Luciana foi esfaqueada e
o paradeiro da quase assassina. Ela est presa, e eu fui visit-la na cadeia.  uma pobretona, mau carter e interesseira, e no foi difcil arrancar-lhe a verdade.
-Que verdade?
-A que lhe contei, ora! Que Marcela  lsbica e vivia com Luciana. A moa, que se chama Ceclia, me contou tudo...
Enquanto Dolores falava, o corao de Ariane ia se tornando pequenininho de dor e arrependimento, pois sabia que fora ela quem comeara aquela histria toda. Se 
no tivesse se aproximado de Marcela, Dolores jamais descobriria sobre Luciana e, muito menos, sobre a tal de Ceclia. E agora, Dolores fizera alguma coisa para 
terminar com o namoro de Marcela e Flvio, e ela era a nica culpada. No queria aquela culpa, no podia conviver com a lembrana de que conquistara a felicidade 
passando por cima da felicidade de mais algum.
Dolores no parava de falar, sentindo um prazer mrbido ao narrar para Ariane a conversa que tivera com Marcela e ver a reao da moa ao se descobrir desmascarada. 
Havia at uma certa euforia ao descrever o ar de assombro, de frustrao, de medo e de desespero de Marcela quando ela desferiu o golpe fatal, procurando for-la 
a aceitar dinheiro e sumir, antes que ela contasse ao filho a verdade sobre o seu passado sujo.
No fundo, sabia que estava atingindo Ariane tambm. Fingia falar descontroladamente, mas no havia nada que Dolores fizesse que no fosse estudado e planejado. Contava 
o que acontecera entre ela e Marcela com ar de superioridade e vitria, deixando claro, nas entrelinhas, que esmagara Marcela como poderia esmagar qualquer uma que 
atravessasse o seu caminho.
Para Ariane, o efeito era diferente. A cada palavra de Dolores, ela se lembrava da histria que a me lhe contara sobre o seu casamento, sobre ter dado dinheiro 
 moa por quem o pai fora apaixonado para que a me pudesse se casar com ele. E no que foi que deu? Anita vivera uma vida infeliz, e o pai tambm nunca sentira 
o que era a verdadeira felicidade, porque se casara com uma mulher a quem no amava apenas para se compensar da perda.
Ser que era essa vida que queria para ela tambm?
Decididamente, Ariane queria ser feliz ao lado do homem por quem se apaixonasse. Mas era essencial que esse homem a amasse tambm. Tinha o exemplo da me e do pai
e sabia como podia ser infeliz e destrutiva uma convivncia sem amor, principalmente naquelas circunstncias. No, no queria isso para si mesma nem para Flvio. 
Nem para Marcela. Eles eram pessoas que mereciam a chance de, ao menos, errar por si mesmas, sem que algum mais tivesse que determinar os seus erros. Era direito 
deles tentar o que achassem melhor, viver as suas prprias experincias, sofrer ou ser felizes com as escolhas que fizessem livremente. Dolores no tinha o direito 
de fazer isso por eles.
Antes que Dolores terminasse a sua narrativa srdida e mordaz, Ariane se levantou e virou-lhe as costas, caminhando para a rua a passos apressados.
-Aonde voc vai? - ela ainda ouviu Dolores gritar. - Volte, Ariane, ainda no acabei de contar...
Ariane no ouvia mais nada. Sua pressa a levou at o carro e fez surdos os seus ouvidos. Entrou rapidamente e ligou o motor, cantando pneus rumo  casa de Marcela. 
Tocou a campainha vrias vezes, mas ningum respondeu. Tentou a maaneta, que estava trancada, e ps-se a dar murros na porta, mas ningum atendia. Comeou a se 
apavorar. Algo em seu ntimo lhe dizia que alguma coisa muito errada estava acontecendo.
-Marcela! Marcela! - gritava em desespero, virando a maaneta vrias vezes. - Voc est a? Pelo amor de Deus, Marcela!
Como Marcela no respondesse, Ariane correu at um orelho prximo e ligou para o nmero particular da mesa de Flvio, no consultrio. Era a nica coisa que lhe 
ocorria naquele momento, e ele era a nica pessoa que ela conhecia e que conhecia Marcela tambm.
-Al! Flvio?  Ariane! - ele ia dizer qualquer coisa, mas ela no lhe deu tempo. - Venha  casa de Marcela agora!  urgente!
Desligou e voltou correndo para o apartamento de Marcela, deixando Flvio sem nada entender do outro lado da linha. O que Ariane estaria fazendo em casa de Marcela?
E desde quando as duas se conheciam? Sua voz, muito grave e aflita, o deixou preocupado. Por mais que no entendesse por que Ariane havia
lhe telefonado para cham-lo  casa da noiva, no podia simplesmente ignorar.
Flvio deu um sorriso sem graa para o paciente que aguardava atendimento e ligou para a casa de Ariane. Quem atendeu foi a me, e ele pediu para falar com a moa,
mas Anita o informou de que ela havia sado para ir  manicura e no havia retornado. Ainda assustado, tentou a sua casa, e a empregada lhe disse que Ariane l estivera,
mas que havia sado apressada fazia quase uma hora.
Ele consultou o relgio e constatou que o horrio conferia com o tempo que Ariane levaria para ir da sua casa  casa de Marcela, o que o deixou ainda mais preocupado.
quela hora, Marcela deveria estar na escola, dando aulas, de forma que ele no esperava encontr-la em casa. Ainda assim, ligou para l. O telefone tocou insistentemente 
por vrias vezes, mas ningum atendeu, e ele deduziu que Marcela deveria estar trabalhando.
No havia com o que se preocupar. Ariane, com certeza, fora  sua casa e conversara com sua me, retomando aquelas idias absurdas de namoro e casamento. Talvez 
a me tivesse lhe dito algo que a desagradara, e Ariane, de propsito, resolvera se vingar, deixando-o preocupado e angustiado por causa de Marcela, cujo endereo 
ela nem conhecia.
Ainda assim, uma opresso se espalhou pelo seu peito, e Flvio foi tomado por um indizvel medo de perder Marcela. Ele olhou para o paciente, sentado  sua frente 
com ar de interrogao, apertou o interfone e chamou a secretria, dando-lhe ordens para transferi-lo, imediatamente, ao consultrio do pai.
- Sinto muito, seu Odcio, mas recebi um chamado urgente. Tenho que sair.
O cliente fez uma expresso de pasmo e ia contestar, mas Flvio j havia atirado longe o jaleco e disparado porta afora. Em seus pensamentos, mil coisas se atropelavam
e, por mais que ele tentasse encontrar alguma explicao que o fizesse compreender por que Ariane estaria em casa de Marcela, no conseguia pensar em nada que fosse,
ao menos, razovel. Mesmo assim, seguiu avante,
procurando no se deixar levar pela surpresa e as indagaes.
***
Enquanto isso, Ariane chegava ao patamar onde ficava a porta do apartamento de Marcela e estranhou que ela agora estivesse apenas encostada. Pela pequenina fresta
que se abria, ela aprumou um olho e espiou para dentro. O apartamento estava
escuro com todas as cortinas cerradas, e parecia deserto. Ariane sentiu medo e quase desistiu
de entrar. Podia haver algum escondido ali, esperando para surpreend-la e atac-la, o que lhe causou calafrios. Podia at mesmo ser que Ceclia tivesse sido solta
e houvesse ido  casa de Marcela para ultimar sua vingana con Luciana. Quem poderia saber?
Talvez fosse melhor esperar que Flvio chegasse. Ela j havia telefonado para ele e tinha certeza de que ele no hesitaria em atender o seu chamado. No depois que
ela
dissera que se tratava de Marcela e era urgente. Mas, se esperasse,
quando Flvio chegasse, bem podia ser tarde demais. E se a porta estivesse aberta porque o malfeitor,
ouvindo o som da campainha houvesse resolvido ir embora? Podia ser que Marcela
estivesse ferida e precisando de ajuda, e cabia a ela ajudar.
No pensou em mais nada. Decidida a descobrir o que havia sido feito a Marcela, Ariane empurrou a porta e entrou na escurido da sala. Olhou ao redor e no encontrou 
Marcela
em lugar nenhum. Queria cham-la, mas a voz entalou na garganta, presa pelo medo de ser descoberta. Sem produzir qualquer rudo, Ariane dirigiu-se ao quarto e escancarou 
a
porta.
O quarto tambm estava vazio e parecia intocado, a no ser por uma pequena mancha de sangue derramada sobre a colcha branca que cobria a cama de Marcela. A viso 
do sangue
sobre o branco do tecido causou um choque em Ariane, que levou as mos aos lbios e abafou um grito de agonia e pavor, virando bruscamente para a porta de sada. 
No chegou
nem a dar um passo e se chocou de frente com a prpria Marcela, que
vinha do banheiro com olhos vermelhos e um dos pulsos enfaixado.
-Adriana! - exclamou ela, debulhando-se em lgrimas e atirando-se ao pescoo da outra.
-Marcela... - balbuciou Ariane, tentando entender o que havia passado. - O que foi que houve? Voc se machucou? Ariane se havia desvencilhado de Marcela 
e segurava
seu pulso
ferido com uma das mos, o sangue ainda a tingir a bandagem malfeita. - O que foi isso? Voc se cortou?
-No foi nada - esclareceu Marcela, puxando o brao s pressas e se atirando na cama logo em seguida. - Oh! Adriana, voc no sabe o que aconteceu! Dona 
Dolores... Foi horrvel!
Ela desatou a chorar convulsivamente, e Ariane aproximou-se dela, sentando-se na cama ao seu lado. S ento percebeu a gilete perto de onde o sangue se derramara 
e apanhou-a com cuidado.
-O que isso est fazendo aqui? - perguntou desconfiada, exibindo a lmina para a outra. - No v me dizer que voc...
-calou-se, temendo as prprias palavras.
-Oh! Adriana! - choramingou Marcela novamente.
-Voc ficou louca, Marcela? - revidou Ariane, entre zangada e aflita. - Ia tentar se matar novamente?
-De que adianta viver? - disparou a outra, redobrando o pranto. - Dona Dolores descobriu tudo! Sobre mim, Luciana e at sobre Ceclia! Como pde isso ter 
acontecido? Quem foi que teve a coragem de lhe contar s para me fazer infeliz?
Ariane sabia quem havia contado, mas no podia dizer. Estava feliz porque nada de mau havia acontecido a Marcela, e maldisse a si mesma por haver-se precipitado 
e ligado para Flvio. Ele j devia estar chegando, e ela precisava arranjar uma boa desculpa para ir embora no meio daquela comoo.
-No devia ter feito isso, Marcela. Voc ainda tem o Flvio.
-No tenho mais! Ele vai descobrir e vai me desprezar.
-No acha que o est julgando mal? J no  hora de acabar com essa agonia e lhe contar toda a verdade? Voc j foi longe demais com essa mentira, e veja 
s no que deu. Flvio precisa saber...
Antes que Marcela pudesse dizer alguma coisa, Flvio chegou ao quarto e estava parado no umbral da porta, fitando aquela cena sem nada entender.
-Saber o qu? - falou ele, assustando as moas. - E Ariane, o que est fazendo aqui?
-Vocs se conhecem? - retrucou Marcela, surpresa com essa constatao.
- claro que conheo Ariane! - continuou ele, indignado.
-Conheo-a desde pequeno.
-Como pode ser isso? Adriana, isso  verdade?
Na confuso, Marcela no percebera a troca de nomes, mas Flvio, sim. Num timo, compreendeu tudo: Adriana, a amiga misteriosa que ele nunca via e no deixava telefone
nem endereo. Nome muito parecido ao seu verdadeiro.
-Isso, por acaso, foi idia da minha me? - perguntou ele, cheio de raiva, e sem notar o sangue no pulso e na cama de Marcela.
-Foi - confirmou Ariane, a voz sumida de medo e vergonha.
-Isso o qu? - intercedeu Marcela. - Que idia? Ser que vocs podem me explicar o que est acontecendo? No estou entendendo nada.
-Conte a ela, Ariane. Explique para que ela possa compreender que grande amiga voc .
-O nome dela  Adriana - corrigiu Marcela, s agora se dando conta de que ele a chamava de outro jeito.
-No  no, Marcela! O nome dela  Ariane mesmo. Ela  filha do ex-scio de meu pai e amiga ntima de minha me. - Ele apontou o dedo para a outra e disparou 
em tom acusador: - Fazia parte do plano de vocs fazer-se passar por amiga de Marcela para destruir o nosso noivado?  isso, Ariane?
Marcela olhava de Ariane para Flvio to surpresa com o que ele dizia que at se esquecera de seu prprio sofrimento. De repente, foi como se uma nuvem sasse da 
frente de seus olhos, e ela pde enxergar e compreender a realidade daquela situao.
-Voc est querendo me dizer, Flvio, que Adriana adotou um nome falso e se fez passar por minha amiga s para destruir o meu namoro com voc? - Ele assentiu. 
- Por qu?
-Porque ela quer se casar comigo, e  o que minha me quer tambm.
Marcela fitou-a cheia de horror, sentindo no peito a dor aguda da traio.
-Adriana, como pde? Eu acreditei em voc, confiei em voc, contei a voc os meus segredos mais ntimos... Agora compreendo tudo - ela ocultou o rosto entre 
as mos e desatou a chorar. - Foi voc, no foi? Foi voc quem cometeu aquela traio e contou tudo a dona Dolores.
A muito custo, Ariane conseguiu retomar o domnio sobre si mesma e falar algo em sua defesa.
-Por favor, Marcela, em primeiro lugar, peo que me perdoe. Meu nome no  Adriana, como voc v, mas Ariane. Conheci-a seguindo o plano de Dolores, que
sugeriu que eu me aproximasse de voc e me tornasse sua amiga, para descobrir os seus segredos e us-los contra voc, afastando-a de Flvio.
Aquela confisso estava sendo muito dolorosa e sofrida, mas Ariane no podia parar e tentar inventar uma desculpa qualquer que a isentasse de responsabilidade em
tudo o que acontecera.
-Voc se fingiu de minha amiga! - acusou Marcela, entre a raiva e a decepo. - E eu lhe contei toda a minha vida, dei-lhe as armas para voc me destruir.
Quantas noites passei aqui, com pena de voc, julgando-a uma pobre menina rica abandonada pelo namorado e sem o apoio da famlia. Como fui ingnua e burra!
-Voc foi ingnua, mas no burra - contestou Ariane, a voz cada vez mais sumida. - Voc  uma pessoa muito especial, Marcela, e eu me afeioei a voc de 
verdade.
-Como quer que eu acredite em voc? Voc fingiu para me destruir... Conseguiu... Ariane... no foi? Como pde ser to cruel...? - calou-se decepcionada, 
engolindo o pranto, os lbios trmulos e o corao dolorido.
-Voc no sabe o que est dizendo. Flvio est ao seu lado.
Marcela chorava angustiada. No sabia o que lhe doa mais:
se o medo de perder Flvio ou a traio de Ariane.
-Por que fez isso comigo quando s o que eu quis foi ajud-la? Eu era sua amiga... Ariane. E voc? Nunca sentiu nada por mim?
Vendo o quanto ela chorava, Flvio se aproximou e estreitou-a em seus braos, s ento percebendo a bandagem manchada de sangue que cobria o seu punho.
-Mas o que  isso? - questionou ele alarmado. - O que houve com seu pulso?
Marcela se calou e voltou a ateno para ele, olhando de soslaio para a gilete que Ariane deixara sobre a mesinha, e o sangue que manchava a colcha. Flvio seguiu 
o seu olhar e ficou surpreso por no haver notado o que havia se passado ali.
-Voc tentou se matar novamente? - prosseguiu ele indignado. - Por qu?
Marcela e Ariane se olharam naquele momento, uma com angstia e medo, a outra com angstia e arrependimento.
-Seja o que for que ela lhe disser, Flvio - considerou Ariane -, ter sido em nome do amor.
-O que quer dizer com isso? O que houve entre vocs duas que eu no sei?
-No houve nada entre ns, exceto, talvez, uma grande amizade que mal chegou a nascer e j foi eliminada. Arrependo-me muito pelo mal que lhe causei, Marcela, 
e quero que saiba que eu gosto, realmente, de voc. Se fiz o que fiz, foi porque pensei que amava Flvio e o queria a qualquer preo. Hoje sei o quanto estava enganada 
e posso lhe afirmar com toda a sinceridade do meu corao: no quero me casar com Flvio, e nada me daria mais alegria do que v-lo casado e feliz com voc.
-No acredito em voc - contestou Marcela, embora sem muita convico.
-Eu tambm no acreditaria, se fosse voc, mas  a mais pura verdade. Aprendi a gostar de voc e a dar valor  amizade, embora estivesse presa ao poder de 
Dolores.
-Voc me traiu...
-Eu no a tra. Voc pode no acreditar em mim, mas jamais disse uma palavra a ningum... - ela parou de falar abruptamente, encarando Flvio, que as fitava 
cheio de assombro. - Lamento o mal que lhe fiz. Vou embora e prometo que voc nunca mais vai ouvir falar de mim.
Marcela no conseguiu se mover ou dizer nada que a impedisse. Estava decepcionada, triste, com raiva e com medo, tudo ao mesmo tempo. Queria ir atrs dela e lhe 
pedir maiores explicaes, mas a presena de Flvio a paralisou. Ele ouvira mais do que deveria e no tardaria a questionar sobre tudo aquilo. E ela agora j no 
tinha mais como lhe omitir a verdade ou inventar uma mentira que a salvasse.
Ningum seguiu Ariane. Por mais surpreso e indignado que Flvio estivesse, havia preocupaes maiores do que aquela com que se ocupar. Marcela havia tentado novamente
o suicdio, o que indicava que ela estava com problemas srios outra vez.
-Muito bem - disse ele, algum tempo depois que Ariane saiu. - Deixe-me ver esse pulso agora.
-No foi nada.
-Isso, quem decide sou eu. Vamos, mostre-me.
Embora contrariada, Marcela exibiu-lhe o pulso ferido. Ele
desatou as bandagens, fez um ar de reprovao e foi com ela para o banheiro refazer o curativo.
-Sorte que foi superficial - anunciou, examinando o corte com ateno. - Passou perto da veia, mas no vai precisar levar pontos.
Com extremo cuidado e muito profissionalismo, Flvio apanhou o material de primeiros socorros dentro do armrio e ps-se a cuidar da ferida, enquanto Marcela puxava
o pulso de vez em quando,  medida que ele limpava o local.
-Est doendo - queixou-se ela, mas ele no lhe deu muita ateno.
Depois de refeito o curativo, ele a conduziu de volta ao quarto e tirou a colcha da cama, sentando-se com ela sobre o lenol nu.
-E agora, ser que voc pode me explicar o que aconteceu?
Voc no viu? - falou ela, tentando desviar o assunto. - Sua ex-namorada se fez passar por minha amiga para me destruir.
-Voc sabe que no  a isso que me refiro. Quero saber o que aconteceu para voc cortar os pulsos.
-Eu... no cortei... foi um acidente...
-Acidente com uma gilete, em cima da cama, no pulso esquerdo? No me convenceu.
-Mas  a verdade... Eu estava vendo se a gilete estava afiada... precisava me depilar... passei-a por acaso sobre o pulso, e ele sangrou...
Flvio colocou os dedos sobre os seus lbios e a censurou com ternura:
-Est tentando enganar a si mesma, porque a mim, voc no engana. Ouvi muito bem Ariane dizer que voc j havia ido longe demais com a sua mentira e precisava 
me contar a verdade, porque eu precisava saber. Saber o qu?
- alguma inveno daquela fingida! - objetou ela, tentando imprimir  voz um tom de fria. - Provavelmente, mais uma de suas mentiras para fazer intriga.
-No me pareceu mentira nem intriga. Ela falava de algo que voc sabia muito bem o que era.
-Voc no pode dar crdito ao que ela disse. Ariane j provou que  falsa e mentirosa.
-No se trata de dar crdito, mas eu vi o jeito como vocs duas estavam falando. Voc est tentando me esconder algo.
-Prefere acreditar nas artimanhas daquela fingida em vez de confiar em mim? Como pude ser to estpida confiando nela? Que dio que sinto de mim mesma!
-Acho que voc est tentando fugir do assunto.
-Ser que voc no percebe que est fazendo justamente o que ela quer? Est entrando no jogo de Ariane e de sua me.
-No estou entrando no jogo de ningum. Estou apenas querendo descobrir a verdade.
-A verdade  cristalina. Voc no v, Flvio? Ela nos enganou com as suas artimanhas, fez-me passar por tola. E eu fiquei com pena dela. Jamais poderia imaginar 
que sua me estivesse por trs disso.
-Sei que mame e Ariane tramaram contra ns, mas no conseguiram nada. Alis, nem tiveram tempo, porque foram desmascaradas antes. Mas o que eu ouvi no
foi um truque nem artimanha. Ariane no sabia que eu estava aqui e se referia a algo que me pareceu bem real. O que  que eu deveria saber e voc no me contou?
-Nada... - hesitou. - Por que no acredita em mim? Se no acredita, por que no corre para Ariane e vai perguntar a ela? Talvez a palavra dela tenha mais 
peso do que a minha.
-Voc est usando Ariane como desculpa para no me contar a verdade, seja ela qual for.
-Eu, usando Ariane? Mas se foi ela quem me usou!
-Vamos esquecer Ariane. Quero que voc me diga o que est acontecendo.
-Ela no est aqui, mas plantou a sua semente de discrdia. Voc est me pressionando por causa dela.
-Pode at ser. Mas o que ela disse no foi inveno, e voc parecia bem transtornada. Vamos, Marcela, o que ?
-Ariane  quem deve saber. Afinal, foi ela quem disse...
-No tente me fazer de tolo, Marcela. Se voc est me escondendo algo, eu preciso saber. - Ela o encarava  beira das lgrimas, e ele pressionou mais um 
pouco: - Por que voc tentou se matar?
-Eu no tentei...!
-Voc acusou Ariane de mentirosa, mas no est me parecendo muito diferente dela. Por que reluta em me contar a verdade?
No havia mais sada, e Marcela sabia disso. Flvio escutara pouco, contudo, o que ouvira fora suficiente para lhe dar a certeza de que ela escondia algo importante.
-Por favor, Flvio, no  nada. Acredite em mim.
-Ningum tenta se matar por nada. E, no seu caso, o nada j quase a matou por duas vezes. No acha que  demais?
-Eu... - ela estava tentando imaginar algo convincente para lhe falar, mas no lhe vinha nada  cabea. A verdade lhe parecia, naquele momento, a nica soluo 
possvel. - Tenho medo...
-De qu? De mim?
-De voc no aceitar.
-O qu? Voc fez alguma coisa? - ela assentiu. - O qu? Vamos, diga-me. Eu exijo saber a verdade.
-Voc no tem o direito de me pressionar - objetou ela, quase em desespero.
-Tem razo, no tenho. Mas voc tambm no tem o direito de exigir que eu me conforme com mentiras e evasivas. Se no me contar a verdade,  porque no confia 
em mim, e se no h confiana entre ns, no pode haver casamento.
Ao ouvir isso, Marcela liberou o pranto e comeou a chorar angustiada. Atirou-se ao pescoo de Flvio e deixou-se ficar abraada a ele por alguns minutos. Ele a 
estreitou contra si, sentindo os tremores que os soluos infligiam a seu corpo frgil. Esperou pacientemente at que ela se acalmasse. Secou seus olhos, alisou seus 
cabelos e deu-lhe um beijo suave nos lbios, acrescentando com a voz mais doce que conseguiu entoar:
-Voc sabe que a amo, no sabe? Seja o que for que voc tenha feito, eu sempre vou continuar amando voc.
-Eu sei... - soluou ela. - Mas o seu amor... ser capaz de aceitar coisas com as quais voc no concorda e no consegue entender? Coisas que voc despreza 
e das quais sente repulsa e desprezo?
-Por que diz isso?
Ela ainda relutava em falar, mas descia por uma corredeira sem volta, que a obrigava a soltar o destino e deix-lo seguir seu curso normal na correnteza da vida.
-Ser que voc no sabe? Nem desconfia?
Flvio abaixou os olhos e balanou a cabea, falando com uma certa angstia:
-Voc  lsbica, no ? Tentou se matar duas vezes por causa de Luciana, no foi?
Ela simplesmente cobriu o rosto com as mos e assentiu, sem coragem de encar-lo.
-Eu no queria que as coisas fossem assim - murmurou ela, entre um soluo e outro. - Mas no podia apagar meu passado.
-Por que no me contou?
-Pensei em contar, mas tive medo. E depois, voc mesmo foi criando uma histria, acreditando que eu havia tentado o
suicdio por causa de um ex-namorado. Criou at uma parte para Luciana, como se ela fosse a mulher que tivesse tirado o namorado de mim.
-E voc achou melhor me deixar acreditar numa mentira...
-Tive medo. No queria que voc me desprezasse. Quando o conheci, fiquei confusa e assustada, nunca antes me havia relacionado com um homem, e era tudo novo 
para mim. Cheguei a pensar que estava confundindo as coisas...
-E no estava?
-No comeo, pensei que sim, porque voc foi aquele que salvou a minha vida, que me deu carinho e ateno, que se importou comigo sem ligar para o meu passado 
ou para o que eu havia feito. Pensei que tudo no passasse de gratido e carncia, porque voc se preocupava comigo de verdade e parecia sincero no sentimento que 
me oferecia. Mas depois fui percebendo que a sua presena me enchia de alegria, e a sua falta me causava tristeza e saudade. Depois que fizemos amor pela primeira 
vez, tive certeza de que estava mesmo apaixonada. Nunca antes havia experimentado algo to bom e maravilhoso e me senti satisfeita e completa. Se isso no  amor, 
ento desconheo o que seja amar.
-Voc possui uma forma muito estranha de amar.
-Por que diz isso?
-Seu amor a aprisiona na dependncia.
-Est sendo injusto, Flvio. Quando voc me conheceu, sabia que eu estava frgil e carente. No queria que eu me apegasse a voc e dependesse do seu amor?
-Ningum deve ser to dependente a ponto de abrir mo da vida quando v ameaada a segurana que pensa que a dependncia traz. Foi por isso que Luciana a 
deixou, no foi? Porque se cansou da sua dependncia.
-Voc no tem o direito de falar de coisas que desconhece! Est me julgando por fatos que ocorreram antes de voc surgir na minha vida e dos quais voc nada 
sabe.
-Voc est fugindo do assunto porque tem medo de me contar a verdade. Mas o fato  que ela a deixou, e foi por isso que voc tentou se matar.
-E da? - explodiu ela, agitando as mos nervosamente.
- Luciana simplesmente deixou de me amar. Isso acontece s vezes, sabia?
Com os olhos marejados, Flvio se afastou de Marcela e ps-se a caminhar de um lado a outro do quarto, mordendo os lbios para no desabar no pranto. Estava diante 
de uma situao que lhe despertava sentimentos contraditrios e confusos. Se, por um lado, no aprovava a homossexualidade; por outro, amava Marcela acima de tudo. 
O que deveria fazer?
-Por que tentou se matar novamente? - indagou ele, seguindo o emaranhado de pensamentos que no o levavam a lugar algum. - Foi porque Luciana quase morreu?
-No - objetou ela, entre perplexa e magoada. - J no sinto mais por Luciana o amor que sentia na poca em que o conheci.
O olhar de Flvio no parava de acompanh-la, e Marcela comeou a se sentir encurralada, como um animal acuado pelo predador faminto.
-Por que tentou se matar novamente? - repetiu Flvio, agora tomado por sbita rispidez e impacincia. Como  que ela podia lhe falar do amor por outra mulher
como se estivesse se referindo a um namoradinho de infncia?
-Eu... - balbuciou ela, percebendo a sua hostilidade recm-aflorada - tive medo de perd-lo... No queria perder voc, Flvio.
-E preferiu se matar a arriscar me contar a verdade.
-Tive medo... - repetiu ela, a voz sumida na garganta.
-O nico medo real que voc tem  de perder.
-Estou perdendo voc?
-No sei se posso conviver com isso. Sinto-me enganado e trado.
-No faa isso, Flvio. Eu o amo...
-Voc diz que me ama, no entanto, no confiou em mim o suficiente para me contar o seu grande segredo. Por qu? Ser que no  porque ainda ama Luciana?
-Isso  um disparate! J disse que no contei porque tive medo de voc no me aceitar. Depois de me dar a sua opinio sobre homossexuais e lsbicas, o que 
queria que eu pensasse?
Flvio ficou por um tempo refletindo no que ela lhe dissera. Realmente, falara coisas ruins sobre o assunto, mas de uma forma
impessoal. Era diferente quando a pessoa envolvida era aquela com quem pretendia se casar.
-No me referia a voc - defendeu-se ele.
-Referia-se, sim. Voc mesmo disse que no gostaria de me ver envolvida com isso. Como eu poderia me abrir com voc depois disso? Para mim, voc me deixaria.
-Ainda assim, devia ter-me contado. Por mais que me chocasse no comeo, meu amor por voc acabaria fazendo-me compreender e aceitar.
Ela deu um sorriso esperanoso e procurou abra-lo, mas ele no correspondeu.
-Por que no esquecemos tudo isso? - sussurrou ela. - O que importa  que ns nos amamos.
-No estou bem certo. Se voc realmente me amasse, teria assumido o risco de me perder e teria me contado a verdade.
-Mas voc no queria saber! Por vrias vezes, tentei lhe contar, mas foi voc mesmo quem disse que o meu passado no lhe interessava. Por que se importa 
com ele agora?
Era visvel a confuso de Flvio. Queria deixar aquilo de lado e estreit-la com ardor, mas se lembrava da reao dela quando Luciana fora esfaqueada, da sua aflio 
e de seu quase desespero. No seria aquilo uma prova de amor? Marcela no estaria sofrendo por medo de perder a pessoa a quem verdadeiramente amava?
E um pensamento maldoso o incomodava: Marcela o amava, no tinha dvidas, mas ser que o seu amor resistiria se Luciana quisesse voltar para ela? Como ele se sentiria 
se a sua noiva - ou esposa - o abandonasse por outra mulher?
-O que me importa agora - considerou ele -  a possibilidade de voc ainda amar Luciana...
-Mas eu no a amo!
-Voc no me deixou terminar. Incomoda-me esse amor, a mentira e a insegurana que sentirei daqui para a frente, o medo de ser trocado por uma lsbica.
-Voc est sendo cruel.
-E voc pode no conter as suas tendncias.
-Que tendncias? O que est querendo dizer? Que eu sou lsbica tambm?
-E no ?
-Eu sabia! Tudo no passa de desculpa para o seu preconceito.
-Ao contrrio de voc, eu nunca menti. Sempre fui sincero e claro a respeito do que pensava sobre homossexualidade.
-Est querendo me dizer que vai romper comigo por causa de um preconceito idiota?
-No. No me agrada que voc tenha se relacionado com outra mulher, mas eu at poderia relevar isso se voc tivesse sido honesta desde o princpio. A sua 
mentira s me faz imaginar que voc me usa como refgio para a sua frustrao. No digo que voc no me ame. Sei que ama. Mas o que pergunto : ser que o seu amor 
 genuno ou  fruto da sua carncia?
-Voc est sendo injusto novamente. Nunca fiz nada para que voc duvidasse do meu amor.
-No mesmo? E o que me diz do seu desespero quando soube que Luciana estava no hospital?
- diferente! No queria que ela morresse.
-Isso no  amor?
-, mas no o amor que voc est pensando. Luciana e eu, hoje, somos como irms. Por favor, Flvio, acredite em mim!
-Eu quero acreditar, mas tenho medo de ser enganado.
-Isso no vai acontecer. Eu juro!
-Voc j mentiu uma vez. No pode estar mentindo novamente agora?
-Por que  to impiedoso? J disse por que menti. Voc me obrigou a isso.
-Eu a obriguei? Ora, essa  boa.
-No, no voc, mas as circunstncias. Ser que o que fiz foi assim to terrvel? Voc no pode me perdoar?
-Tenho medo de estar me iludindo. Voc no confiou em mim. Como posso confiar em voc agora?
-Confie no meu amor. Perdoe-me por no lhe ter contado. Sei que errei, mas no foi com a inteno de engan-lo. Foi a minha insegurana.
-Preciso de tempo para pensar, Marcela.
-Voc no pode estar falando srio. Por favor, no me deixe.
-No estou deixando voc. Mas preciso de um tempo. H muito a considerar nesse caso.
-Voc est fazendo parecer que eu cometi um crime. E  o que sua me quer. No percebe?
-Minha me no tem nada a ver com as suas mentiras.
-Mas foi ela quem tramou isso tudo! Ela e Ariane. Sua me esteve aqui e me ameaou. No sei como ela descobriu, mas ameaou contar tudo a voc, caso eu no 
sumisse da sua vida.
Flvio sentiu a contrariedade que aquela notcia lhe causava e tornou com desagrado:
-Minha me esteve aqui?
-Hoje cedo.
Era bem o tipo de sua me. Aquilo podia ter sido mesquinho e cruel, mas no alterava as circunstncias. Fora Marcela quem mentira, no sua me.
-Isso no muda nada - contraps ele. - Voc me devia fidelidade e confiana, no ela.
-Pelo amor de Deus, Flvio, ela usou isso para nos destruir! Se ela no tivesse vindo aqui, eu no teria tentado me matar novamente, e Adriana no o teria 
chamado, e voc no teria descoberto, e...
-E eu continuaria vivendo na mentira. Era isso que voc pretendia? - Ela abaixou os olhos e no respondeu, e ele continuou: - Ento me diga por que desistiu 
de se matar. Ia me deixar, como minha me queria?
-No...
-Mas ento ela me contaria a verdade. Voc assumiria esse risco?
-No sei! - ela desatou a chorar e foi falando aos tropees: - No sei o que faria. A nica coisa que sabia era que no queria mais morrer. Quis viver
porque voc deu um novo significado a minha vida.
-Voc mesma me contaria, ento?
-No sei, j disse! Oh! Por favor, no me pressione mais! No sei de mais nada. Tudo o que sei, Flvio,  que o amo. Por que no pode acreditar nisso?
-No sei se posso acreditar em voc depois de tudo. Minha me no devia ter feito o que fez, mas no foi ela quem inventou essa histria. E se voc tivesse 
me contado antes, nada disso teria acontecido.
-Por favor, Flvio, reflita. E acredite em mim quando digo que o amo.
-No sei, Marcela. S com o tempo  que poderei dizer.
Ele se levantou para sair, mas ela tentou segur-lo.
-Por favor, no v.
-Deixe-me, Marcela. Ficar aqui com voc s vai aumentar a minha insegurana.
Mesmo contrariada, Marcela afrouxou as mos que seguravam o seu brao, e ele se encaminhou para a porta.
-Voc no vai mais voltar, no ? - indagou ela, com voz sofrida.
Flvio no respondeu. Hesitou alguns segundos, mas logo se reequilibrou e partiu sem olhar para trs.
Uma angstia indescritvel sacudiu o corao de Marcela, que j no tinha mais foras para discutir nem para tentar convenc-lo a ficar. Um extremo cansao dominou 
todo o seu ser, e ela foi arriando o corpo at que seu rosto tocasse o cho, e as lgrimas se espalhassem sobre ele. Fechou os olhos lentamente e suspirou entre 
soluos. Perdera tudo. Ser que ainda valia a pena viver?
Flvio voltou para casa com o corao oprimido e subiu direto para o quarto. Dolores se preparava para um encontro com um playboy de 28 anos e no queria se atrasar,
mas no conseguiu simplesmente ignorar a chegada do filho. Ouviu seus passos no corredor e foi atrs dele em seu quarto.
-Est tudo bem? - sondou ela.
-O que voc acha?
-No acho nada. Por isso, estou perguntando.
Ele remoeu a raiva que sentia, naquele momento, da me e retrucou com uma fria contida:
-Marcela tentou se matar outra vez. Voc sabia?
Ela meneou a cabea e respondeu com ironia:
-Como poderia saber? Quem dorme com ela  voc, no eu.
-No se faa de cnica, me! Sei muito bem que voc foi  casa dela e a ameaou.
O rosto de Dolores estava impassvel. No era surpresa que Flvio tivesse descoberto a verdade. S o que ela no podia era deixar que ele se voltasse contra ela.
-Fui  casa dela, sim - concordou Dolores com segurana. - Mas no lhe fiz nenhuma ameaa.
-No adianta fingir, me, porque j sei de tudo. Ela mesma me contou.
-Contou o qu?
-Contou-me de seu plano srdido, mandando Ariane se fazer passar por Adriana para fazer amizade com Marcela e a destruir.
-E da? Fiz o que toda me faria por seu filho.
-Quanta dedicao - desdenhou ele. - O que voc lucra destruindo a vida das pessoas? No se importa em destruir a felicidade de seu prprio filho?
-Quanto drama... Eu lhe fiz um favor. Voc ia se casar com uma lsbica oportunista. Devia me agradecer por t-la desmascarado a tempo.
-Como pode ser to insensvel e mesquinha?
-Quem foi que disse que sou insensvel? Sensibiliza-me a sua vida, a sua felicidade.
-Voc no se importa com isso. S o que v so os seus interesses.
-Eu apenas tentei evitar que voc estragasse a sua vida se casando com uma lsbica.
-No a chame assim! Marcela no  lsbica.
-E como  que se chama ento uma mulher que vive de amores com outra?
-Marcela no  assim.
-Creio que voc j sabe de tudo, no  mesmo? Do romance nefasto que ela teve com aquela dentista de subrbio.
-Isso no  problema seu. E depois, quem tem que se preocupar com isso sou eu.
-Voc devia aceitar o meu conselho e se casar com Ariane. Ela  a mulher ideal para voc.
-Ariane  uma mentirosa! E foi ela quem me telefonou quando Marcela tentou se matar novamente! Ela estava l, na casa dela, fingindo-se de amiga. Ningum 
me contou. Eu vi!
-Ariane, sim, o ama de verdade. No  uma aventureira feito Marcela.
- pior.  falsa, intrigante, maquiavlica.
-Mas no  lsbica. Raciocine, Flvio. Como voc pode ser feliz se casando com uma lsbica? Marcela gosta  de mulheres, e de voc, s o que quer  o dinheiro.
Flvio no conseguiu mais ouvir. Estava enojado daquilo tudo, sem
saber quem era pior naquela histria: se Marcela, a me ou Ariane.
***
Mas Flvio no era o nico a se lamentar pelo ocorrido. Ariane, muito mais do que ele, perdia-se em seu remorso. Se Flvio terminasse com Marcela, e se ela tentasse 
se matar novamente, ser que poderia conviver com a culpa? Ficou andando de um lado para outro no quarto, at que resolveu ligar para Marcela. Precisava saber se 
ela estava bem. J tentara se matar duas vezes. Quem garantia que no tentaria uma terceira? O telefone tocou insistentemente na casa de Marcela antes que ela atendesse, 
e Ariane exclamou aliviada:
-Marcela? Graas a Deus voc est bem!
Na mesma hora, Marcela reconheceu a voz de Ariane e desligou o telefone. No queria falar com ela nunca mais. No queria a sua amizade nem a sua simpatia. Muito 
menos a sua piedade.
Ariane sentiu uma infindvel tristeza com a reao de Marcela, mas no podia esperar nada diferente. Ela estava magoada e com raiva, o que era compreensvel. Mas 
estava viva, e isso era tudo o que importava. Sim, viva. Ficou pensando no que poderia fazer para ajud-la e achou que a nica soluo possvel seria tentar entrar 
em contato com Luciana.
Foi ao hospital em que ela estava internada, rezando para que Luciana ainda no tivesse tido alta. Encontrou-a acordada no quarto e pediu licena para entrar. Luciana 
no a conhecia e ficou  espera de que ela lhe dissesse por que estava ali.
-Sou amiga de Marcela - comeou ela a dizer, e Luciana abriu um sorriso simptico. - Meu nome  Ariane e... bem, no sei como lhe dizer isso. Sei que o seu 
estado  grave, mas no sabia mais a quem procurar.
-Eu estou me sentindo muito bem - rebateu Luciana, j comeando a se preocupar. - Pode me contar o que quer que seja. Se aconteceu alguma coisa a Marcela,
pode falar.
-No aconteceu nada, ainda...  o que espero.
-Como assim? Por favor, seja mais clara. Sinto-me confusa com tanto rodeio.
Ariane inspirou fundo, tomando coragem, e foi falando sem encarar Luciana:
-Gostaria que voc me perdoasse por vir procur-la, mas sei que voc  a nica amiga que ela tem. Acho que Marcela e Flvio brigaram, e estou com medo do 
que ela possa fazer...
-Brigaram? Voc quer dizer, terminaram? - ela assentiu.
-E voc est com medo de que ela tente o suicdio outra vez?
-Ela assentiu novamente. - Mas por qu? Eles pareciam to apaixonados!
-Voc sabe o quanto Marcela se esforou para esconder a relao de vocs duas, no sabe? - Era uma surpresa que aquela moa soubesse daquilo, mas Luciana 
no fez nenhum comentrio, limitando-se a aquiescer com a cabea. - Pois , a me de Flvio descobriu e ameaou contar tudo a ele, caso ela no terminasse o namoro. 
Por isso, ela tentou se matar de novo...
-O qu!? Est me dizendo que a doida da Marcela tentou outro suicdio? Mas voc disse que temia...
-Temia que ela tentasse ainda um outro, depois deste ltimo.
-O terceiro, voc quer dizer?
-. No sei no que deu a conversa que ela teve com Flvio, mas temo pelo pior. Se eles terminaram, Marcela bem pode tentar se matar outra vez.
-No me leve a mal por perguntar, mas qual o seu papel nessa histria toda? Se  amiga de Marcela, e amiga ntima, pois conhece at o seu passado, por que 
no vai correndo  casa dela averiguar e impedir?
-Porque... ns brigamos. Marcela est aborrecida comigo.
Por mais que Luciana quisesse saber por que, no teve tempo
de perguntar. A preocupao com a vida de Marcela era muito maior, e ela falou em tom incisivo:
-Apanhe o telefone e ligue para ela.
Ariane obedeceu sem titubear. Discou o nmero da casa de Marcela e estendeu o fone para Luciana, que o apanhou aflita. Como sempre, a campainha soou inmeras vezes,
mas ningum atendeu.
-Tente de novo - pediu Luciana, e Ariane ligou mais uma vez.
O som da campainha continuou a tocar, at que, l pela dcima
quinta vez, Marcela atendeu. Tinha uma voz sonolenta e pastosa, e Luciana falou com pressa:
-Marcela?  voc?
-Sim... Quem ? Luciana?
-Sou eu. Como voc est?
-Bem... E voc? Aconteceu alguma coisa para estar me ligando?
-Na verdade, Marcela... - ela pensava rapidamente em uma desculpa convincente para lhe dar - eu gostaria que voc viesse me visitar. Estou me sentindo to 
sozinha...
-Agora?
-Se possvel.
-Eu gostaria, Luciana, mas no sei se vai dar. Tomei uns comprimidos para dormir e estou me sentindo um pouco zonza.
-Voc o qu?
-Tomei uns comprimidos... - calou-se, s ento percebendo o temor na voz de Luciana. - Espere um pouco, no  o que voc est pensando.
-No?
-Eu estava com dor de cabea e um pouco nervosa. Por isso, tomei umas plulas.
-Pensei que o mdico tivesse proibido as plulas para dormir.
-Fui  farmcia e comprei. Voc sabe que ningum pede receita mdica mesmo.
-Isso no importa. Por que o nervosismo?
Ela demorou a responder, at que falou quase num sussurro:
-Flvio rompeu comigo...
Luciana fitou Ariane com ar significativo e retrucou:
-Isso no  motivo para fazer nenhuma besteira, ?
-No sei... Mas no quero que voc se preocupe.
-Impossvel no me preocupar. Oua, Marcela, por que voc no vem at aqui, e ns conversamos sobre isso?
-No estou com vontade de sair.
-Por favor, estou pedindo. Venha me fazer companhia. Falaremos sobre o assunto e, quem sabe, voc no se sentir melhor? - Ela no respondeu. - Por favor,
s um pouquinho.
-Est bem. J que insiste, vou tomar um caf forte e vou para a.
-timo! Venha logo. Estarei esperando.
Desligaram, e Ariane falou em seguida:
-Eu no disse?
-Mas graas a Deus ela est bem. Est vindo para c.
-Ento,  melhor que eu me v. Se ela me vir aqui, vai ficar com raiva e  bem capaz de ir embora.
-Foi s para isso que veio?
-Como disse, voc foi a nica pessoa em quem pude pensar e lhe sou grata por isso. Faa por ela o que no consegui fazer: seja amiga.
O assunto estava encerrado, e Ariane se despediu de Luciana, tomando o caminho de volta para sua casa. No queria que Marcela a encontrasse ali de jeito nenhum.
Quando Marcela chegou, Ariane h muito j havia partido. Ela beijou Luciana no rosto e sentou-se na poltrona ao lado da cama.
-E ento? - disse ela. - Como  que estamos?
-Muito bem. Acho que amanh ou depois terei alta.
-Fico feliz, Luciana. Esse hospital  deprimente.
-Hospitais no lhe trazem boas lembranas, no ?
-No.
-Que bom que no precisa mais deles.
- verdade.
-Bem, diga-me l: o que aconteceu entre voc e Flvio? Nada grave, espero.
-Ele rompeu comigo - ela comeou a chorar. - Acho que nunca mais vai voltar.
-No vai? Por qu?
S depois que o pranto se acalmou foi que Marcela conseguiu contar, em mincias, tudo o que havia acontecido. Contou de Dolores, de Ariane e da reao de Flvio, 
o que fez com que Luciana entendesse por que Ariane no queria que Marcela a encontrasse.
-Estou to deprimida, Lu! Sinto que desejo morrer.
-No deseja, no. Tem que viver para lutar pelo seu amor. Se morrer, quem  que vai lhe provar que voc  uma mulher de fibra e de coragem?
-Mas eu no sou.
-, sim. S no sabe disso.
-Estou me sentindo um lixo. Pensei que Flvio me amasse.
-Ele a ama. S est um pouco confuso, chateado com a mentira e inseguro. Mas vai passar.
-No sei. Ele estava muito decepcionado quando deixou a minha casa.
-E essa tal de Ariane? No me parece assim to ruim.
-Ela foi uma vbora! Onde j se viu se fazer passar por amiga, mudar de nome e tudo, s para me enganar?
-Talvez ela esteja arrependida.
-Tomara! Tomara que morra de remorso.
-Quem a ouve falar desse jeito at pensa que  rancorosa.
-No sou rancorosa, mas o que ela fez foi imperdovel.
Luciana no quis insistir. Afinal, no conhecia Ariane para tentar defend-la. O pouco que sabia era o que vira alguns minutos antes, no sendo suficiente para formar 
um juzo de valor.
-Preocupo-me com voc, Marcela - falou Luciana em tom srio. - Tenho medo de que tente aquilo novamente.
-No vou tentar.
-Promete?
-Prometo.
-Olhe l, hein? Pense que no vale a pena perder a vida por ningum.
Era a primeira vez que Luciana tocava no assunto da tentativa de suicdio de Marcela, que perguntou:
-Como foi que voc se sentiu, Luciana? Qual foi a sensao de saber que algum tentou se matar por sua causa?
-Nada agradvel. Senti-me horrvel, com medo e culpa, embora soubesse que fiz o que achava certo. Mas fiquei me questionando se havia feito da forma correta 
e no momento mais apropriado. No  uma sensao das mais confortveis para ningum.
-Imagino.
-No adianta tentar se matar, Marcela, voc s vai se enganar.
-Como assim, me enganar?
-Acredito que exista vida aps a morte, e o que ser de voc quando acordar l do outro lado, sem um corpo de carne e s com o seu arrependimento?
-O que quer dizer com isso?
-Quero dizer, e se voc se arrepender? Se destruir o seu corpo fsico, no pode mais voltar atrs. E dizem que os suicidas sofrem  bea no outro mundo. 
Ouvi dizer que at revivem o momento da morte e ficam sentindo os vermes comendo o seu corpo.
-Cruzes, Luciana! Onde foi que ouviu isso? Em alguma histria de terror?
-Eu li em algum lugar - afirmou, tentando se lembrar de onde poderia ter sido. Na verdade, suas palavras vinham de Rani, que se encontrava a seu lado, tentando 
incutir um pouco de juzo na cabea de Marcela, nem que fosse pelo medo. - De qualquer forma,  melhor no arriscar. Se for verdade o que dizem, sua alma pode ficar 
vagando por a, sem sossego, at a exausto da energia vital que voc teria para usar at o fim de seus dias.
-Pare com isso, Luciana, est me assustando! Eu nunca a ouvi falar nessas coisas.
-Nem eu - concordou Luciana, sem saber de onde vinham aquelas idias estranhas.
-E eu no estou mais pensando em me matar. Essa histria de suicdio j est ficando montona.
-Que bom que pensa assim. Ao invs de procurar um caminho que voc pensa que  o mais fcil, mas que no , deveria se fortalecer para continuar vivendo. 
Eu ainda acho que Flvio vai acabar voltando para voc, e voc precisa estar pronta para receb-lo de volta.
Receb-lo de volta... Era tudo o que Marcela queria, embora no acreditasse mais que aquilo fosse acontecer. Para ela, Flvio parecia um sonho perdido para sempre 
nas brumas da desiluso.
-Acho que isso no ser mais possvel - finalizou. - Eu o perdi para sempre.
Ela apertou a mo de Luciana, abaixou os olhos e chorou.
O envolvimento entre Anita e Justino cada vez mais se intensificava, e ela comeava agora a perder o temor que tinha de si mesma. Ele se demonstrava sempre gentil
e interessado, e lhe fazia observaes que elevavam o seu moral e a sua autoestima. Jamais fizera qualquer comentrio a respeito de sua gordura; parecia mesmo no 
se importar com ela, ressaltando os pontos favorveis que via em Anita. Isso fazia com que ela se sentisse segura e confiante, e recuperasse o gosto de se vestir 
e se arrumar, ficando mais satisfeita com sua aparncia fsica.
Eles haviam terminado de almoar, e Justino acabara de deix-la em casa para retornar ao trabalho. Anita se despediu com um longo e suave beijo e subiu ao apartamento
com uma sensao de felicidade soprando em seu peito. O filho j havia retornado da escola e estava vendo televiso na sala. Anita passou por ele e o beijou no rosto,
afagando seus cabelos desalinhados.
-Tudo bem? - perguntou ela. - Como foi na escola?
-Bem...
-E a sua irm?
Huguinho deu de ombros e falou sem desviar a ateno do aparelho de TV:
-Acho que est l no quarto.
Anita assentiu e foi bater  porta do quarto de Ariane, entrando eufrica e contando as novidades de seu envolvimento com
Justino. Contudo, ao perceber o estado de desnimo da filha, ficou alarmada e indagou aflita:
-Aconteceu alguma coisa? Voc est abatida.
Ariane olhou para ela com os olhos cheios de lgrimas e se atirou em seus braos, soluando.
-Ah! Mame, voc no sabe... no tem idia do que eu fiz...
Aos prantos, Ariane contou a Anita tudo o que havia se passado
entre ela e Marcela, desde o dia em que aceitara compactuar com o plano diablico de Dolores. Anita ouviu tudo com tristeza, temendo que o futuro da filha fosse 
igual ao seu se ela prosseguisse com aquela loucura.
-Voc no pode voltar para ele - objetou Anita.
-No vou fazer isso. Primeiro, acho praticamente impossvel que ele me queira depois de tudo o que aconteceu. E depois, eu mesma no o quero mais. No quero 
que a minha vida seja uma repetio da sua.
-Fico muito feliz que voc pense assim. Espero que tenha aprendido com o meu erro e no o repita. Ao menos essa utilidade teve a infelicidade do meu casamento: 
servir de exemplo para impedi-la de estragar a sua felicidade e a de Flvio, assim como eu estraguei a minha e a de seu pai.
-Tambm no exagere, me. Meu pai se casou com voc porque quis. Vocs dois foram imaturos e no refletiram no que estavam fazendo. Se voc se deixou levar 
pela paixo inconseqente, ele se deixou levar pela fraqueza e a convenincia. Ambos tiveram sua quota de participao.
-Que no precisa ser tambm a sua. No fique triste. Tudo passa nessa vida.
-Apenas uma coisa me incomoda... o fato de Marcela no querer mais ser minha amiga.
-Isso tambm h de passar. Com o tempo, a raiva de Marcela vai esfriar, e ela vai perceber que voc, apesar de ter trado a confiana dela, tentou ajud-la 
de todas as maneiras. Vai se sensibilizar e acreditar que o seu arrependimento e a sua amizade so sinceros.
-Espero.
-Voc  uma boa moa. Deixou-se envenenar pelas loucuras de Dolores, mas no  feito ela. Dolores  uma mulher ambiciosa
e mesquinha, e no se importa com a felicidade de ningum, s com a dela. Nem com a do filho se importa.
-O que ela diria se soubesse que voc e o ex-marido dela esto namorando?
-Anita corou levemente e retrucou envergonhada:
-Namorar  para garotinhas. Estamos nos relacionando...
-D no mesmo. O que interessa  que esto juntos. E Dolores se roeria toda se descobrisse.
-Vai acabar descobrindo. Mais cedo ou mais tarde, isso vai chegar aos seus ouvidos.
-E da? Est com medo?
-No tenho do que ter medo. Quando comecei a sair com Justino, ele j era desquitado. Quem  casada sou eu...
-Voc est se separando. E depois, foi papai quem deixou o lar.
-Tenho medo de que ele tire Huguinho de mim.
-Duvido at que tente. No se preocupe com isso. Justino, alm de tudo, pode ajud-la. Aposto como conhece bons advogados que podero defender a sua causa,
se isso vier a acontecer, no que no acredito.
-Voc  muito especial, Ariane, e agradeo a Deus por ter uma filha como voc. Sem o seu apoio, no sei o que seria de mim.
Emocionada, Ariane abraou a me e rebateu com olhos midos:
-E voc  a melhor me do mundo, que agora est se redescobrindo como mulher. Est mais bonita, bem-vestida, com ar de felicidade. A companhia de Justino
est lhe fazendo bem.
-Ele no se importa que eu seja gorda...
-Ele  um homem de verdade e d valor ao que voc tem por dentro. E depois, nem  to gorda assim. Est um pouco acima do peso, mas nada de extraordinrio. 
Ainda  uma mulher bonita.
Abraaram-se novamente, e Ariane consultou o relgio. Tinha uma idia em mente, algo que precisava fazer e no aliviaria apenas a sua conscincia, mas talvez ajudasse 
na reconciliao de Marcela e Flvio.
***
Quando o ltimo paciente do dia se retirou, Flvio se preparou para ir embora, no sem antes procurar o pai para uma conversa.
Encontrou-o em seu consultrio, examinando as radiografias de alguns pacientes.
-Ol, pai - cumprimentou da porta. - Posso entrar?
-E precisa perguntar? Entre, vamos. - Flvio entrou e foi-se sentar na poltrona defronte  mesa de Justino, que abaixou as chapas e olhou para ele. - Algum 
problema?
-Marcela e eu rompemos - anunciou ele, aps uma breve hesitao.
-Romperam? Por qu?
-Porque... ela mentiu para mim, me enganou, ... - calou-se, engolindo a ltima palavra.
- o qu?
-Lsbica.
-O que voc disse? Marcela  lsbica? No acredito. Como pode ser?
Com um suspiro de tristeza, Flvio contou tudo ao pai, que balanava a cabea de um lado a outro, ouvindo as palavras do filho com indignao e surpresa.
-Ela no me ama, pai - finalizou Flvio. - Est comigo apenas para esquecer uma antiga paixo.
Justino ficou olhando o filho por alguns instantes, at que considerou:
-No creio que isso seja verdade. E voc tambm, no fundo, no acredita nisso. Pode-se sentir o amor verdadeiro apenas com a sua proximidade. E duvido que 
voc no o sinta em Marcela.
-No sei mais o que sinto. Muitas coisas j me passaram pela cabea desde ento, inclusive que ela s esteja interessada no meu dinheiro.
-No se deixe levar pelas idias de sua me. Isso  ela quem acha. Mas voc, no fundo, acredita nisso tambm?
-No - desabafou ele, aps breves segundos. - Marcela no faz o tipo interesseira.
-Voc est com preconceito.
-No sei bem se  isso.  claro que no fico feliz em saber que a mulher com quem pretendia me casar transava com outra mulher. Mas o meu amor por Marcela 
poderia at superar isso...
-Ento, qual  o problema?
-Pense bem, pai. No meu lugar, o que voc faria? Aceitaria tudo numa boa, como se no fosse nada demais?
-No sei se  demais ou no. S sei que no perderia um amor verdadeiro por causa disso.
-Voc no concorda que , no mnimo, estranho? Quero dizer, me casar com uma ex-lsbica?
-Tambm no posso responder a essa pergunta - considerou ele com ar de dvida. - Talvez eu me chocasse um pouco no incio, porque no estou acostumado a 
esse tipo de relao. Mas acabaria por aceitar. Se voc analisar bem, Marcela no fez mal a ningum. Fez o que quis da vida dela, e ningum tem nada com isso.
-Mas ser que isso  certo?
-O que  certo ou errado, meu filho? Quem somos ns para julgar?
-Tudo bem, eu posso at aceitar seu envolvimento com Luciana. Mas e a mentira? Ela me enganou uma vez. Quem garante que no o far de novo?
-S porque ela no lhe revelou um segredo no quer dizer que v tra-lo. Marcela no  nenhuma mentirosa. E, depois, o que voc esperava? Nesse ponto, se 
eu estivesse no lugar dela, talvez tivesse feito a mesma coisa.
-No acredito. Voc sempre foi sincero e assumiria o risco.
-Marcela no tem que ser como eu. Alm do mais, se ela no disse a verdade, voc no queria ouvi-la. Foi voc quem provocou a mentira.
Ele fez ar de indignao e revidou:
-Quer dizer que o culpado agora sou eu?
-No h culpados. Voc teve medo de ouvir a verdade, ela teve medo de falar. Mas agora, seja de que maneira for, tudo se esclareceu. Ento, qual o problema? 
Surpresas e choques se resolvem na confiana e no amor.
-A  que est. No sei se ainda confio em Marcela. Receio que ela possa estar me usando para esquecer Luciana ou para conseguir salvar a sua reputao.
-Nisso mesmo  que no acredito. Marcela no  esse tipo de moa. Teve medo da sua reao e pode ter medo do preconceito
social, o que  bastante compreensvel, mas no leva jeito de quem usa um rapaz s para sustentar ares de respeitabilidade. Afinal de contas, ela j  uma pessoa
respeitvel.  professora, trabalha, vive de forma decente e ama voc. O que importa o resto?
-Voc acha que eu estou errado em me afastar dela?
-O seu corao  que vai lhe dizer isso, no eu. Voc  um homem decente, Flvio, mas se deixou impregnar pelas idias idiotas de sua me. No perca o amor 
da sua vida por preconceito ou insegurana.
-Mas, e se ela me trair? E se voltar a sair com mulheres?
-E se sair com outros homens? No  a mesma coisa?
Flvio ia dizer:  pior, mas mudou de idia e acrescentou
taciturno:
-No quero que ela me traia com ningum.
-Por que ento no espera para tomar uma atitude quando isso acontecer, se acontecer? No vale a pena ficar imaginando situaes que, provavelmente, nunca 
vo se concretizar. Voc no a ama?
-Amo.
-Pois ento, apresse-se. V procur-la antes que ela se canse e voc a perca para algum que a compreenda e a aceite sem acusaes ou temores. Quer que isso 
acontea?
Flvio desviou o olhar do pai e fixou o pensamento em Marcela, imaginando como seria a sua vida sem ela. Depois que a conhecera, sentira que tudo mudara e ganhara 
um significado que antes no existia. Marcela o preenchia em todos os sentidos: era meiga, carinhosa, inteligente, amiga e no era dada a futilidades como as moas 
de sociedade que conhecia. Era, enfim, tudo o que poderia desejar numa mulher.
Ele encarou o pai, que o fitava com ar de compreenso, e respondeu com voz sumida:
-No.
Com um sorriso que se misturava s lgrimas, Flvio se levantou resoluto, feliz por ter ouvido os conselhos de Justino. Sim, ele realmente amava Marcela e no achava 
que o que ela havia feito era crime ou pecado, algo reprovvel que no merecesse compreenso. O que o incomodava mesmo era o fato de ela ter
escondido aquilo por tanto tempo, de t-lo enganado e no ter confiado nele. Mas, como o pai lhe dissera, ele no quis lhe dar a chance de contar a verdade.
E quanto ao fato de que ela havia vivido com outra mulher, e da? Que importncia isso poderia ter diante do amor que sentiam um pelo outro? Ele acreditava que Marcela 
o amava. Ela no era aquela interesseira que a me dizia. A me fizera aquilo tudo s para afast-los, para que ele se casasse com Ariane. Mas ele no amava Ariane. 
Amava Marcela, e era com ela que se casaria.
Resolveu passar em casa antes de procurar Marcela. Precisava de um banho, de roupas limpas e descontradas. Compraria flores e bombons para ela. Faria tudo ao estilo 
antigo e romntico. Passou na floricultura e comprou um lindo buqu de rosas vermelhas. Em seguida, foi a uma loja de doces e pediu a caixa de bombons mais finos 
que havia. Apanhou tudo e foi para casa se aprontar.
Assim que entrou em casa, foi surpreendido pelo som de gargalhadas que partiam da sala de estar. A me estava recebendo visitas, mas ele no estava nem um pouco 
interessado nelas. Sequer iria cumpriment-las. Passou em silncio pela porta da sala, tomando o caminho da escada. A porta dupla de vidro estava apenas encostada, 
de forma que, ao passar diante dela, pde ouvir o que diziam l dentro.
-Essa  muito boa, Dolores - falava uma mulher com voz esganiada, entre gargalhadas sonoras. - Uma lsbica! Quanto atrevimento!
-Ah! Mas o meu Flvio colocou-a direitinho no lugar dela. Ela pensou que lhe tomaria dinheiro, mas ele descobriu tudo e a enxotou.
-E o que ela fez? - acrescentou outra amiga. - Foi correndo chorar nos braos da amante?
Nova gargalhada, puxada por Dolores, que respondeu convicta:
-Certamente! Correu para o colo de sua mulher de calas... ou homem de saias, no sei bem...
Nesse instante, a porta da sala se escancarou com estrondo, quase quebrando os vidros, e Flvio apareceu com o rosto em chamas. No disse nada. Fitou uma a uma das 
presentes com dio e terminou em Dolores, que o olhava com ar de triunfo. Em seguida,
rodou nos calcanhares e saiu, deixando as mulheres em um estado de torpor indescritvel, envergonhadas com aquela situao.
Apenas Dolores no sentia nenhum constrangimento. Na verdade, chamara as amigas ali para um ch bem na hora em que sabia que Flvio chegaria do trabalho, manipulando
a conversa de forma que ela se prolongasse at a hora em que ele chegasse. Era de seu interesse que ele ouvisse aquilo. As amigas ficaram impressionadas com a histria, 
e ela as insuflou ainda mais com uma quase histeria, rindo de suas prprias observaes e
levando-as a acompanh-la nas gargalhadas ensaiadas.
***
Em seu quarto, Flvio espumava de dio. No podia mais conviver com aquilo. Alm de tramar contra ele, a me ainda o desmoralizava na frente das amigas, fazendo-o
passar por idiota. Aquilo j era demais. No agentaria viver naquela casa nem mais um minuto e resolveu partir. Apanhou uma mala grande e comeou a arrumar suas 
coisas, at que a me apareceu, meia hora depois. Entrou sem bater e foi-se postar diante dele, cruzando os braos e acompanhando o seu trabalho de fazer a mala.
-Aonde  que pensa que vai? - indagou ela com ar reprovador.
-Isso no  da sua conta. E agora, saia, por favor. No lhe dei permisso para entrar no meu quarto.
-A porta no estava trancada.
-Saia, j disse!
-Est aborrecido comigo porque eu falei a verdade, ao contrrio do que Marcela fez com voc?
Ele soltou as camisas que dobrava em cima da cama e a fitou com raiva.
-Por que fez isso, me? O que voc ganha me humilhando dessa forma?
-Humilhando?! Mas se eu s o elogiei! Contei a minhas amigas o quanto voc foi digno e honrado ao despachar aquela vagabunda lsbica.
-Pare de repetir isso! - explodiu ele. - Voc no tinha o direito de falar da minha vida com ningum!
-Por que ficou to aborrecido, Flvio? Minhas amigas acharam at engraado.
-Muito engraado, no ? Devia se envergonhar de fazer fofoca. Ou acha que suas amiguinhas vo segurar a lngua e no vo falar isso com mais ningum?
-E da? Qual o problema? Todo mundo vai felicitar voc por ter posto aquela aventureira... (ia dizer lsbica, mas se conteve) no seu devido lugar. A no
ser,  claro, que voc volte para ela. A, sim, todos vo falar mal de voc.
Se ela no fosse sua me, ele a teria estrangulado, tamanho dio que sentia naquele momento.
- isso que voc quer, no ? Espalhar essa histria para todo mundo, para que eu fique com medo do falatrio, para que eu sinta vergonha e nunca mais volte 
para Marcela.
-A lngua da sociedade  implacvel, Flvio, mas ningum vai falar de voc.
-Quer saber de uma coisa, me? Eu no ligo. Pouco me importam os comentrios dessa gente hipcrita, ftil e vazia que freqenta a sociedade.
Para Dolores, presa s aparncias sociais, os comentrios em seu meio constituam uma espcie de estigma, uma marca vergonhosa que se deveria evitar. Pensou que
havia passado esse temor ao filho, mas no se surpreendeu muito com a sua reao.
-Os comentrios no incomodam voc - observou ela, em tom malicioso. - Mas deveriam. Quem  que quer ficar malvisto na sociedade?
-Voc  asquerosa! - disparou ele, coberto de fria. - Tenho vergonha de ser seu filho.
-Pode se envergonhar, desde que no me envergonhe.
-No ligo a mnima se voc sente vergonha ou no.
-Pelo visto, voc j perdoou a sua noivinha por ser lsbica. E por ser interesseira? Perdoou-a tambm?
-No me aborrea, me.
-Aposto como, assim que se casar com voc, ela vai voltar  sua vidnha de lsbica, s que agora com dinheiro e posio social. Muito conveniente.
-Voc no sabe o que diz. Marcela me ama.
-Ama? Quem lhe garante isso? Ela ou a outra? Sim, porque duvido que ela e Luciana realmente parem de se encontrar. Essa gente  assim: comea no vcio e
no larga mais.
-Marcela no  nenhuma viciada. Viveu a vida dela, e ningum tem nada com isso. Muito menos voc.
-Tudo bem. No tenho nada com isso. Mas e voc, no tem? Quem lhe garante que Marcela no vai cair em tentao outra vez e se atirar nos braos de sua namoradinha 
na primeira oportunidade que tiver? - ela acertou em cheio no seu questionamento, e ele no respondeu. - Ser que vale a pena arriscar tudo por uma noivinha lsbica?
-Para de cham-la de lsbica!
-Mas no  isso que ela ?
-O que ela  no  da sua conta, e voc no tem o direito de falar dela. Quem voc pensa que ? Uma mulher ftil, maquiavlica, maldosa. Acha que  melhor 
do que algum?
-Pelo menos, no sou nenhuma pervertida.
- pervertida, sim. Perverteu-se em sua moral e em seus valores. - Ele fechou o trinco da mala e lhe lanou um olhar faiscante de revolta. - E agora, saia 
da minha frente. Voc no  mais minha me.
Flvio a empurrou para o lado e saiu enfurecido. J no escutava mais nada. Ganhou a rua e entrou em seu carro, completamente transtornado. No banco ao lado, as 
flores e os bombons que comprara para Marcela jaziam  espera de um final feliz. Ele os apanhou com fria e os atirou pela janela. Estava to irritado com a me 
que aquele no lhe parecia o melhor momento para uma reconciliao, pois poderia estourar com Marcela e descontar nela a sua indignao. Ou, o que era pior, podia 
atirar sobre ela as desconfianas que nutria, e a me, to habilmente, conseguira alimentar.
Resolveu ir para a casa do pai. Era o nico lugar onde poderia
sentir a proximidade e o apoio de uma pessoa amiga.
***
No era bem o final que Dolores esperava para aquela histria, mas nem tudo estava perdido. Flvio esfriaria a cabea e voltaria
para casa, mas ela precisava se aproveitar de seu desequilbrio para afast-lo de vez de Marcela. Era hora de Ariane agir, de lhe dar apoio e estar ao seu lado.
Ligou para ela e mandou que fosse a sua casa imediatamente.
-Lamento muito, Dolores - respondeu Ariane com frieza -, mas no tenho nada que fazer a. Nossa relao acabou.
-O que  isso, menina? - rebateu Dolores com espanto. - E o nosso plano? Vai desistir, logo agora que estamos conseguindo sucesso?
-Prossiga com ele voc. No estou mais interessada.
-No est mais interessada em Flvio?
-No.
Desligou. No suportava mais nem ouvir a voz de Dolores. Lamentava ter-se deixado envolver por suas maldades, mas agora no tinha como apagar o que fizera. S no 
queria continuar se enredando cada vez mais naquela sordidez. Sentia-se culpada pelo rompimento entre Marcela e Flvio, e no queria atrair mais culpas para sua 
conscincia.
Dolores ficou parada com o fone na mo, hesitando entre a fria e a indignao. Pensou em telefonar novamente, mas no daria aquela importncia toda a Ariane. Seria 
melhor aguardar, at que ela, sufocada pelo amor, voltasse correndo e implorando sua ajuda para conquistar Flvio outra vez.
Mas no era nada disso que Ariane pretendia fazer. Estava to arrependida que no tencionava mais se envolver nem com Flvio, nem com Dolores. S o que queria era 
a sua conscincia tranqila de volta.
Ao meio-dia do dia seguinte, foi postar-se diante da clnica em que Flvio trabalhava. Sabia que ele costumava sair para o almoo por volta dessa hora e resolveu 
esperar. Dez minutos depois, ele apareceu em companhia do pai, o que a contrariou um pouco. No pretendia envolver Justino na conversa que precisava ter com ele. 
Mesmo assim, no desistiu. Aproximou-se dos dois e cumprimentou-os com um esforo para parecer natural.
-Ah! Ariane, boa tarde - falou Justino, rapidamente se apercebendo da situao.
Flvio no respondeu, e Ariane falou com uma certa hesitao:
-Esto indo almoar?
-O que voc acha? - rebateu Flvio com rispidez.
Ela no conseguiu dizer mais nada, j pensando em desistir, at que Justino interveio:
-Estamos indo almoar, sim. Gostaria de nos fazer companhia?
-Se no for incmodo...
O olhar que Flvio lhe dirigiu veio to carregado de dio que ela pensou em desistir novamente, mas Justino continuou tomando a dianteira:
-Que incmodo voc poderia nos causar? Venha conosco, ser um prazer.
Os dois comearam a andar pela calada, mas Flvio no se disps a acompanh-los. Permaneceu parado onde estava, fitando-os com uma certa fria.
-Flvio, voc no vem? - perguntou Justino.
-No, podem ir. Perdi a fome.
-No precisa ficar sem almoo, Flvio - contestou Ariane. - Quem est sobrando aqui sou eu. Deixe que eu vou embora.
-De jeito nenhum! - objetou Justino. - Flvio vai nos acompanhar, ora se vai! - Aproximou-se do filho e cochichou em seu ouvido: - No se esquea de que 
estou saindo com a me dela. Sei que voc no quer a sua companhia, mas faa isso por mim.
Mesmo contrariado, Flvio os acompanhou s para no recusar o pedido do pai. No restaurante, sentaram-se, e Flvio tomou a cadeira o mais distante de Ariane possvel, 
embora ficasse de frente para ela. Pediram o almoo e comearam a comer em silncio, que s era quebrado por uma observao ou outra que Justino fazia.
Justino comia apressado, o que no foi percebido nem por Flvio, nem por Ariane. De repente, olhou para o relgio e soltou uma exclamao:
-Meu Deus! Como fui me esquecer?
-De qu? - indagou Flvio.
-Marquei uma consulta de emergncia hoje, ao meio-dia e meia, e j  quase uma hora. - Flvio olhou-o surpreso, mas Justino prosseguiu: -Vocs vo ter que 
me desculpar; tenho que ir.
-Mas, pai, voc no pode - rebateu Flvio perplexo.
-Desculpe-me, filho, mas preciso correr. Acerte tudo a, sim? E no se esquea de levar Ariane em casa depois.
Rapidamente, Justino deu um beijo na face de Ariane e outro na cabea do filho, saindo apressado do restaurante. No tinha cliente nenhum para atender de emergncia, 
mas sua sensibilidade dizia que Ariane tinha algo de importante para conversar com o filho, e ele estava disposto a ajudar. No s pela moa, mas por Anita tambm, 
que estava muito preocupada com o abatimento da filha por causa do que fizera a Flvio. Ela lhe contara sobre o arrependimento de Ariane, e ele no achava justo 
que ela sofresse tanto por causa de uma irresponsabilidade da qual estava sinceramente arrependida.
Flvio cruzou os talheres em cima do prato e virou o rosto para o outro lado. Tinha que esperar Ariane terminar de comer, mas no estava disposto a lhe dar motivos 
para conversa. Ela, por sua vez, comia lentamente, de olhos baixos, tentando ganhar tempo e coragem para falar. Ficaram em silncio por quase quinze minutos, e a 
comida no prato de Ariane j havia esfriado porque fazia um bom tempo que ela no levava o garfo  boca.
-J acabou? - perguntou Flvio por fim, em tom bastante irritado.
-Estou acabando - respondeu ela, o rosto corado e em fogo.
-Ento ande logo. Tenho um paciente para atender daqui a pouco.
Ela deu uma garfada na comida e comeou a chorar de mansinho, sentindo a carne mais salgada do que realmente estava. Flvio no percebeu, ou fingiu no perceber,
que ela chorava e consultava o relgio a todo instante. At que, em dado momento, seus olhares se cruzaram, e ela sustentou o olhar dele, deixando que as lgrimas 
descessem abundantes pelo seu rosto.
- Eu sinto muito... - balbuciou ela, entre soluos.
Ariane soltou o garfo em cima do prato e escondeu o rosto entre as mos, chorando e soluando sem parar, para desespero de Flvio. Algumas pessoas no restaurante 
se viraram para olhar, e ele se viu obrigado a dizer alguma coisa.
-Sente muito pelo qu?
-Por tudo. Pelo mal que lhes causei... a voc e a Marcela.
-No acha que isso  um pouco tarde agora?
-No sei. Nunca  tarde quando se ama.
-A quem voc ama, Ariane? A mim? Duvido muito. E mesmo que me ame, essa no foi a melhor maneira de me dizer, voc no acha?
-No. Mas no  de mim que estou falando. Refiro-me a voc e a Marcela.
-Por que? Em que lhe interessa o nosso amor? Voc no fez tudo para nos destruir?
-Se quisesse destru-los, no teria ligado para voc no dia em que Marcela tentou se matar novamente.
- verdade - refletiu ele, por instantes. - Mas tenho certeza de que voc s fez isso porque no queria, na sua conscincia, o peso de um suicdio.
-No exatamente. Fiz porque gosto de Marcela e no queria que nada de mau lhe acontecesse.
-Estranho voc dizer isso, no , Ariane? Depois de tudo o que fez.
-Sei que agi mal, mas no fui eu que os separei.
-No. Foi a sua intriga.
-Eu no contei nada a ningum. Nem a voc, nem a sua me.
-Voc e minha me tramaram tudo. So iguaizinhas e s o que merecem  o meu desprezo.
-No quero me desculpar acusando sua me, e no foi para isso que vim procurar voc. No foi para implorar que voc me perdoe nem que volte para mim, porque 
isso, j no quero mais.
-No? E por que foi que veio me procurar ento?
-Apenas para me explicar.
-No precisa.
-Preciso, sim. Voc tem todo o direito de me odiar, se quiser, mas ao menos me d a chance de me explicar.
-Por que isso  to importante para voc?
-Porque . Sabe, Flvio, desde que voc me deixou, eu...
-Eu no deixei voc, Ariane. Ns nunca tivemos nada.
-Tudo bem, que seja. Mas eu pensei que tivssemos. Estava apaixonada por voc e me deixei iludir pelos meus sonhos, achando que amos nos casar. S que voc 
comeou a esfriar comigo e
deixou de ir  minha casa. Depois, apareceu com Marcela, que ningum sabia de onde tinha surgido. Senti-me trada, fiquei desesperada. Queria voc a qualquer custo.
- Ela o olhou com uma certa mgoa e prosseguiu: - Na poca, era ingnua e imatura, e acreditei que poderia t-lo de volta simplesmente afastando Marcela de seu caminho.
Sua me me prometeu ajuda e me convenceu a tomar parte no plano para separar vocs dois. Eu devia fazer amizade com Marcela e descobrir algo em seu passado que denegrisse 
a sua imagem diante de seus olhos. Sua me tinha certeza de que Marcela escondia algo, e eu me dispus a descobrir. Sob um falso nome, tornei-me amiga de Marcela 
e passei a conviver com ela. Mas o que eu no esperava era que me afeioasse a ela...
-No acredito nisso. Voc? Afeioando-se a sua rival?
-Ela, ento, j estava deixando de ser minha rival. Descobri em Marcela uma pessoa to doce, meiga e amiga, que comecei a refletir no que estava fazendo 
e percebi que a amizade que sentia por ela valia mais do que o meu desejo de ter voc de volta. Eu nunca tive amigos, e Marcela me ensinou o que  ser amiga de verdade. 
Aos poucos, fui desistindo do plano, mas tinha a sua me me pressionando do outro lado. No quero acusar Dolores, porque eu me deixei envolver deliberadamente. Hoje 
estou pronta para assumir a minha parcela de responsabilidade nessa histria toda e, embora no queira acus-la de nada, no h como lhe contar o que aconteceu sem 
tocar no nome dela.
-Sei do que minha me  capaz e sei o que ela fez. Voc no vai me contar nenhuma novidade.
-No quero que pense que estou tentando me justificar em cima do comportamento dela.
-No estou pensando nada.
-Muito bem. Pressionada por ela, contei-lhe algumas particularidades da vida de Marcela, mas no todas. Ela sabia de Luciana, mas eu nunca lhe disse que
elas haviam vivido juntas.
-E como foi que minha me descobriu?
-Atravs de Ceclia, a moa que esfaqueou Luciana. Sua me descobriu onde ela estava presa e conseguiu as informaes. Depois chantageou Marcela que, com 
medo do que voc faria
se descobrisse, pensou at mesmo em se matar. Da em diante, acho que voc j conhece a histria.
-J. No precisa mais perder o seu tempo para me contar.
-Por que est me tratando assim?
-Conheo as suas artimanhas.
-No o amo mais, Flvio...
Aquela conversa o estava deixando aborrecido, e ele perguntou de repente:
-J acabou de comer?
Ela percebeu que havia chegado ao seu limite e no insistiu. Balanou a cabea afirmativamente, e ele pediu a conta. Pagou-a, e os dois saram.
-No precisa me levar em casa - disse ela, no desejando mais a sua companhia.
-No poderia mesmo. Tenho muito trabalho me esperando.
Despediram-se, cada qual tomando o seu caminho. Ariane
ia se questionando sobre a eficcia daquela conversa, e Flvio pensava em Marcela. O que Ariane dissera no o influenciaria em nada. Ele j tinha mesmo se decidido 
a procur-la e s no o fizera porque a conversa com a me, na vspera, o deixara muito irritado, e ele no queria encontrar Marcela com dio no corao. Preferia 
se acalmar e se preparar para um encontro amistoso e cheio de amor.
Reconhecia, contudo, que Ariane tivera coragem. O pai j havia lhe falado do seu arrependimento, mas ele no lhe dera importncia. No fosse a raiva que sentia, 
a teria at admirado por sua sinceridade. Mas ela agira muito mal, e ele no sabia se conseguiria perdo-la. No sabia nem se deveria tentar.
Luciana voltou ao trabalho duas semanas depois de retornar do coma. Passou um tempo em casa de Masa, se recuperando, at que a ferida sarou por completo, e ela
pde retomar suas atividades. Depois desse episdio, parecia mudada. Continuava a mesma mulher forte e decidida de antes, mas uma certa maturidade indescritvel 
havia marcado o seu semblante. Comeou a reavaliar sua vida e concluiu que precisava de experincias que lhe ensinassem o que fosse, verdadeiramente, o amor.
-J no tenho mais idade para viver aventuras inconseqentes - disse ela a Masa. - Preciso de algo novo, bom e duradouro em minha vida.
-No seja to rgida - censurou Masa. - Seu relacionamento com Marcela foi bastante verdadeiro, e vocs s terminaram porque o amor acabou.
-No  a isso que me refiro. No sei explicar, Masa. Sinto que falta algo na minha vida, mas no sei dizer o que .
-No  um amor?
-No.
-Dinheiro no deve ser. Estamos indo bem financeiramente. Voc trabalha no que gosta. Ser que  um carro ou casa prpria?
-No  nada disso. No so bens materiais.
-Mas ento, o que ?
-J disse que no sei. S sei que sinto um vazio indefinvel
dentro do peito. Preciso de um objetivo novo e estimulante, que me encha de amor e prazer.
-Bem, no sei o que pode ser isso. Quando descobrir, me avise.
Naquela noite, Luciana foi dormir ainda com esses pensamentos, e Rani lhe apareceu novamente em sonhos. J mais acostumada  presena do esprito, com quem agora 
comeava at a simpatizar, Luciana logo se desprendeu do corpo fsico e foi ao seu encontro.
-Ouvi a sua conversa com Masa hoje  tarde - comentou Rani.
-Ouviu? E da?
-Sua alma anseia por novas experincias, algo que lhe ensine o valor da vida e do amor.
-Talvez. Mas no posso amar mais ningum.
-Voc fala de amor fsico. Esse voc j aprendeu. Falta-lhe a essncia do que  divino, do amor verdadeiro que no se acaba e no esmorece nunca.
-Como assim?
-J pensou em ser me?
-Eu?! No sei... Adoro crianas, mas no me vejo tendo relaes com nenhum homem.
Rani sorriu enigmaticamente e retrucou em tom de quem conhecia algum mistrio:
-J pensou em adotar uma criana?
-No, nunca. Para falar a verdade, por mais que goste de crianas, tambm no consigo me ver como me.
-Isso  porque voc no viu ainda a criana.
-Que criana? - tornou ela surpresa.
-Em breve, voc vai saber. Mas agora h outra coisa que preciso lhe perguntar: como vai o seu sentimento em relao a Ceclia?
-Bem, no quero mais assunto com ela.
- compreensvel. Mas voc a odeia?
Depois de pensar alguns instantes, Luciana respondeu convicta:
-No. No pretendo lhe dar a chance de tornar a fazer o que fez comigo, mas no a odeio. Acho at que compreendo os seus motivos.
-Voc tirou a vida de Ceclia em outra vida, lembra-se?
- por isso que digo que a compreendo. Deve ser difcil para a alma esquecer uma coisa assim.
-Pois . Ceclia no se esqueceu, assim como o pai dela tambm no.
-O que o pai dela tem a ver com isso?
-Muita coisa. Ele nunca desconfiou de voc em vida, mas, depois que desencarnou e descobriu que voc havia matado a sua filha, ficou com muito dio de voc. 
dio esse que precisa ser dissolvido.
-Como?
-A melhor forma de dissolver dios e ressentimentos so os laos de famlia.
-Laos de famlia? Mas ele no  da minha famlia... - ela se calou, temerosa, e comeou a gaguejar: - No pode ser... no o que estou pensando...
-Em que est pensando?
-O estupro... - calou-se novamente, j sentindo lgrimas nos olhos. - Mas eu fiquei menstruada... Por favor, Rani, diga que no  isso. Diga que no estou 
grvida daquele miservel que me estuprou.
-No posso dizer nada - objetou Rani, fechando o cenho de repente. - Mas em breve voc vai descobrir. S lhe peo para ter equilbrio e ponderao. Procure 
se lembrar de tudo isso que falamos. O pai de Ceclia precisa de uma nova chance, e chegou a hora de voc provar que no guarda rancor.
-Mas no posso aceitar ser me de um filho assim!
-Ningum est falando isso.
-Voc est sugerindo.
-No estou, no. Estou apenas lhe pedindo para refletir.
-Voc est me pedindo demais! Nenhuma mulher pode amar um filho gerado num ato de violncia!
-Deus nunca pede demais. Nada que voc no possa suportar.
-Mas, mas...
Rani no lhe deu mais ouvidos. Abraou-a com ternura e partiu. No dia seguinte, quando Luciana acordou, no se lembrava do sonho da noite anterior, mas achava que 
alguma situao surpreendente e complicada estava por vir. Tomou o caf em silncio e,
ao final, um enjoo repentino lhe causou nsia de vmito. Correu para o banheiro e colocou tudo para fora, arriando no cho com os joelhos trmulos. O que ser que
teria comido?
De repente, a idia de gravidez brotou em sua mente, e ela sufocou um grito. Seria possvel? Quando estava no hospital, fora examinada pela sua ginecologista particular 
e fizera exames para saber se havia contrado alguma doena, mas os resultados haviam sido todos negativos. S no fizera nenhum teste de gravidez, porque isso nem 
lhe passava pela cabea.
Estava apavorada ante a idia de estar grvida, ainda mais daquele canalha. Se estivesse, faria o aborto. Era contra o aborto, mas no via outra sada. Se tivesse 
aquele filho, seria um desastre. Reconhecia que o beb no tinha culpa de nada, mas ela no podia se impor um sentimento que sabia que jamais seria capaz de sentir.
No seria justo nem com ela, nem com a criana.
Lembrava-se de haver menstruado naquele ms, mas isso no significava nada. Sabia de mulheres que haviam ficado menstru-adas e, ainda assim, estavam grvidas, provavelmente, 
fora isso que acontecera com ela. No. Decididamente, precisava abortar. Arrancar de suas entranhas aquele ser indesejado e odioso.
Mas aquele ser indesejado era um beb inocente que nada sabia sobre o carter do pai e nada tinha de odioso. Nasceria livre de toda aquela sujeira, sem sequer desconfiar
de sua procedncia. Nesse momento, algo das palavras de Rani lhe veio  mente, e ela comeou a pensar na criana como um ser inocente e indefeso que, como todos 
os seres, s queria viver. Ser que ela teria o direito de privar uma pessoa do seu direito de nascer, cortando-lhe as esperanas de vida antes mesmo de ver as primeiras 
luzes do mundo?
No, pensando melhor, no faria o aborto. Era contra tudo aquilo em que acreditava como mais sagrado na vida, que era a prpria vida. O mais correto seria d-lo 
para adoo. Sim, faria isso. Deixaria que nascesse e o mandaria para adoo antes mesmo de v-lo. Nem queria tomar conhecimento de sua existncia. Limitaria sua 
participao at o parto e depois o entregaria a outras pessoas. Havia muitos casais sem filhos que dariam tudo por um beb forte e saudvel, que era como ela esperava 
ger-lo
em seu ventre. Ao menos dessa parte se encarregaria. Daria a ele o sustento da vida intrauterina, e depois ele, ou ela, poderia se arranjar com outras pessoas e
uma verdadeira famlia.
E ningum poderia culp-la por isso. Ningum.
Chegou ao trabalho com ar cansado, e Masa j estava de sada.
-Precisamos contratar outra secretria... - queixou-se Masa, mas, notando o abatimento de Luciana, indagou aflita: - O que voc tem?
Luciana olhou-a com um quase desespero. Precisava dividir aquilo com algum ou morreria asfixiada na prpria dor.
-Voc nem pode imaginar. Aconteceu algo terrvel.
-O qu?
-Acho que estou grvida.
-Grvida? Daquele bandido que a estuprou?
-S pode ser dele, Masa. No transei com nenhum homem.
-Meu Deus! E agora?
-No sei.
-Voc vai abortar?
-Acho que no. No tenho coragem.
-Vai ter a criana?
-Vou. E vou d-la para adoo.
-, talvez seja o melhor. Abortar  sempre um risco, nunca se sabe. Ainda mais nessas clnicas clandestinas, com esses carniceiros.
-No  por isso, Masa. Estou pensando na criana. Ela tem o direito de viver.
-Tem. Mas voc tambm tem o seu direito.
-Desde quando voc  a favor do aborto?
-No sou. Mas no seu caso... A lei lhe d esse direito, sabia? No sei qual o procedimento para isso, mas sugiro que voc procure um advogado.
-No vou abortar, j disse. Vou ter o beb e d-lo para adoo.
-Tudo bem, se  o que voc quer. No fundo, no sou contra. Acho at que  melhor mesmo. Voc tem razo quando diz que ele tem direito  vida. Afinal de contas, 
 um inocente e no tem culpa das maldades do pai. Pensando bem, por que voc no fica com ele?
-Ficar com ele?
-J que vai passar pelos problemas da gravidez e sentir as dores do parto, por que no fica com ele logo de uma vez?
-Voc muda de idia rpido, hein? H pouco achava que eu devia abortar. Agora me aconselha a ficar com ele.
-Pensei melhor. Tambm no sou a favor do aborto e, se fosse eu, no teria coragem.
-Mas voc no ficaria com ele.
-No sei. Talvez ficasse. Imagine-se segurando nos braos um beb lindo e rosado. Voc vai se apaixonar por ele... ou ela. Todo mundo se apaixona por bebs.
- por isso que no pretendo nem colocar os olhos nele.
O primeiro paciente de Luciana chegou, e ela teve que encerrar
a conversa.
-Precisamos de uma nova secretria - observou Masa novamente.
-E eu preciso fazer o teste antes - sussurrou Luciana.
-Amanh irei com voc.
Luciana agradeceu com um sorriso e entrou no consultrio com o paciente. Durante o resto do dia, procurou no pensar no assunto, embora sentisse que algo estava 
prestes a mudar sua
vida. E ela bem sabia o que era: um beb.
***
A primeira coisa que Luciana fez ao acordar foi ir ao laboratrio fazer o teste. Masa chegou cedo a sua casa e foi com ela. O resultado s ficaria pronto no dia 
seguinte, e ela teve que aguardar com uma estranha ansiedade. Queria muito que o resultado desse negativo, mas a idia de se tornar me lhe deu uma nova perspectiva 
de vida. No desejava estar grvida naquele momento, mas quem sabe, mais tarde, no encontrasse um homem disposto a transar com ela apenas para lhe dar um filho 
e nunca mais tornar a v-la? Ela poderia criar o beb sozinha ou com a companheira que escolhesse para dividir a sua vida. Quem sabe um filho no seria o algo mais 
que lhe faltava?
No dia seguinte, as duas foram buscar o resultado do exame.
Luciana abriu-o avidamente e leu apressada, seu rosto no demonstrava nenhuma emoo.
-Ento? - perguntou Masa, ansiosa. - O que foi que deu?
-Negativo.
-Graas a Deus!
-, graas a Deus.
Ela estava aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada. O que se lembrava do sonho com Rani no era suficiente para que insistisse na possibilidade de gravidez e num 
possvel erro no resultado do teste. Por mais que se recordasse da indiana, no dava crdito a suas palavras e via naquele sonho fragmentado apenas um sonho idiota, 
que no dizia nada. No dava importncia ao alerta da maternidade.
Masa seguiu para o trabalho, e Luciana foi resolver outros assuntos. O dia transcorreu normalmente, at que a noite chegou, e ela voltou para casa. Havia deixado 
de lado aquela histria de maternidade e bebs, e estava caminhando pela rua quando um carro parou a seu lado. Instintivamente, ela se afastou, temendo que fosse 
algum tarado ou coisa pior, e j ia se preparando para correr quando ouviu uma voz conhecida chamar o seu nome:
-Luciana!
Ela se voltou espantada e julgou reconhecer o rosto que a mirava pela janela do automvel.
-Flvio?
-Eu mesmo. Quer uma carona?
-No, obrigada. Moro logo ali.
Luciana sabia o que havia acontecido entre ele e Marcela, e ficou se perguntando o que ele poderia querer com ela.  claro que no estava ali para lhe oferecer carona, 
parecendo muito mais que a estava esperando.
-Ser que eu poderia falar com voc? - tornou ele, um tanto hesitante.
Ela estranhou aquele pedido, mas no quis recusar. Devia ser importante, ou ele no a procuraria assim, uma quase estranha que fora amante de sua noiva.
- claro - respondeu ela, curiosa. - Vamos at a minha casa.
Ela entrou no carro e indicou o prdio. Flvio estacionou em
frente, e os dois saltaram em silncio, Luciana tentando adivinhar por que ele a procurara. J no apartamento, ela fez com que ele se sentasse e se sentou diante
dele, fitando-o com curiosidade e expectativa.
-Muito bonito o seu apartamento - observou ele, olhando ao redor.
-Obrigada. Quer beber alguma coisa?
-No precisa se incomodar. No pretendo me demorar, porque sei que voc teve um dia cheio e deve estar louca para descansar. - Ela no disse nada, at que 
ele comeou a dizer o motivo por que estava ali. - Desculpe-me por vir procur-la assim to de repente... Na verdade, estava esperando voc chegar.
-Por que?
-Gostaria de falar com voc a respeito de Marcela - ela aguardou, e ele prosseguiu: - No sei se voc sabe que eu j sei de tudo. - Ela assentiu. - Marcela 
acabou me contando. Gostaria de ouvir a sua verso. O que leva uma moa bonita, inteligente e culta a tomar um rumo desse?
-O que o levou a ser mdico?
Ele se surpreendeu, mas respondeu com uma certa vergonha:
-Eu sempre gostei da medicina.
-E ns sempre gostamos de mulheres.
A resposta foi to direta que o chocou.
-Mas... por qu...? - balbuciou. - No me parece... natural...
-Tambm no me parece natural que algum que adore medicina estude direito s porque o pai assim quer.
-No estou entendendo.
-A escolha da profisso deve decorrer da vocao, voc no acha? Cada um tem uma preferncia, e ningum pode interferir nisso.  natural, faz parte da pessoa. 
Quando ela segue um outro rumo, porque algum assim determinou, na verdade, est indo contra a sua natureza, est se forando a ser algum que no . No  assim? 
- Ele concordou com a cabea. - Pois com o sexo  a mesma coisa. Cada um tem a sua preferncia e, quando se fora a seguir aquela que no  a sua, mas que  a nica 
aceita pela famlia ou a sociedade, est tambm forando a sua natureza e se impondo ser algum que no . Vai se sentir
frustrado, incompleto e infeliz, assim como os profissionais que optam por carreiras que no so de seu desejo, mas agradam aos pais, ou s lhe do dinheiro. Se
falta amor no que se faz ou se , no pode haver felicidade. S frustrao e insatisfao.
-Entendo... - rebateu ele, admirado. - E  da sua natureza, e de Marcela, gostar de mulheres.
-S posso falar por mim, embora essa seja uma conversa que no me agrade muito, mexe com a minha privacidade e viola a minha intimidade.
-Sinto muito... - balbuciou ele envergonhado. - Na verdade, no vim procur-la para saber de sua intimidade. Vim aqui porque gostaria de conhec-la melhor.
-Por que?
-Voc foi... - calou-se, sem achar a palavra certa, at que emendou encabulado: - namorada de Marcela. Ela foi muito apaixonada por voc... no foi?
-Foi. Mas no  mais, se  o que est tentando descobrir.
-Tem certeza disso?
-Por que no pergunta a ela? J que o sentimento lhe pertence, ningum melhor do que ela para responder.
-No me leve a mal, Luciana. No vim aqui s escondidas para descobrir coisas sobre Marcela. A verdade  que estou confuso, com medo. Eu a amo muito e no 
gostaria de perd-la.
-J lhe disse isso?
-Ainda no.
-Pois se a ama, devia estar falando com ela, no comigo.
-Tem razo.  justamente o que pretendo fazer, mas no sem antes ter a certeza de que ela me ama de verdade, e no a voc.
-J entendi. Pensa que Marcela se afeioou a voc para suprir a minha falta.  isso?
-De uma certa forma, sim.
-A certeza que voc quer, ningum pode lhe dar. Nem ela. S o tempo.
-Voc ainda a ama?
-Amo, embora no da maneira como voc pensa. Hoje somos mais como irms. Passamos muita coisa juntas, lutamos para sobreviver na cidade grande e ser algum 
na vida. Ambas
conseguimos e somos pessoas respeitveis, temos nossas profisses, nossos empregos. Pagamos nossas contas como todo mundo, damos nossa contribuio  sociedade.
Por que precisamos ser tratadas como marginais?
-No  isso. No creio que vocs sejam marginais.
-No entanto, terminou com ela s porque soube que ela viveu comigo no passado.
-Eu me senti trado. Ela devia ter me contado desde o incio.
-Nisso, voc tem razo. No foram poucas as vezes que a aconselhei. Mas ela teve medo, e voc devia entender isso.
-Agora entendo. E, como disse, pretendo procur-la e me reconciliar com ela. S gostaria de conhecer voc...
-E ter a certeza de que eu no represento nenhuma ameaa.
-Perdoe-me, mas  mais ou menos isso, sim. Amo Marcela demais, contudo, no quero sofrer.
-Entendo. Bem, voc j me conheceu. Espero que esteja satisfeito e isso lhe d um pouco da segurana que procura.
-Deu. Voc me ajudou bastante. Obrigado.
Ele j ia saindo, mas ela o interrompeu:
-Se pretende procur-la, no deixe para amanh, pois ela no vai estar em casa. Est procurando apartamento para se mudar.
-Mudar?
-Sim, mudar. Sei que amanh vai passar o dia na rua, olhando uns apartamentos, e me pediu para ir ver um com ela. Vou lhe dar o endereo e direi que no 
poderei ir. O resto  com voc.
-E se ela no for?
-Ela vai.
Luciana sabia que, para Marcela, seu apartamento passara a ter uma atmosfera pesada, fazendo-a sentir-se sufocada e triste. Ali, Marcela vivera anos de felicidade 
ao lado de Luciana, e fora ali tambm que, por causa dela, tentara se matar. Naquele lugar tivera momentos inesquecveis com Flvio e, novamente ali, desejara mais 
do que nunca morrer quando soube que o perderia. No podia mais viver entre aquelas paredes carregadas de lembranas, umas felizes, outras desesperadoras, que insistiam 
em jogar sua casca de tristeza sobre o que ela, um dia, conhecera como felicidade.
Estava na hora de se mudar, e ela resolvera entregar o imvel. Avisara o locador de sua inteno e sara  procura de um novo lugar para morar, longe de todas aquelas
lembranas, onde pudesse comear de novo sem a sombra marcante e assustadora do passado. Conseguira juntar um bom dinheiro, com o qual poderia dar entrada num pequeno 
apartamento. Comeara a procurar no jornal e passava os dias visitando apartamentos em vrios bairros da cidade. No fazia questo de nenhum em
especial. Desde que pudesse ter algo seu, tanto fazia onde fosse.
***
Flvio anotou o endereo e o horrio em que Luciana disse que se encontrariam com o corretor para visitar um apartamento. Chegou meia hora mais cedo, e no havia 
ningum. Estacionou o carro perto do prdio e ficou esperando. Vinte e cinco minutos depois, Marcela chegou com o corretor e entrou no edifcio, sem nem se dar conta 
da sua presena. Ele esperou at que ela entrasse e saltou do carro, subindo atrs dela.
Como era de se esperar, a porta no estava trancada, e o corretor percorria os pequenos cmodos com ela, mostrando-lhe tudo. Eles estavam de costas, apreciando
a vista da janela da sala, que dava para um morro ainda verdinho, quando ele se aproximou por trs e falou:
-No acha um pouco pequeno para ns?
Os dois se voltaram assustados, e Marcela ficou muda, no sabendo se chorava de emoo ou se fugia correndo de pavor. O corretor, por sua vez, achando que ele era 
o noivo, comeou a falar apressadamente, ressaltando as qualidades do apartamento:
-Ah! Mas o lugar  muito bom. Tem comrcio, conduo, tudo perto. E depois, se o senhor olhar melhor, vai ver que no  to pequeno assim.  timo para o 
incio de vida de um casal...
Flvio no estava mais escutando. Fitava Marcela com um misto de ternura e medo. Sentia o quanto a amava, mas temia que ela, magoada com a forma como ele a tratara, 
ignorasse a sua presena e o deixasse sozinho ali. Ela, contudo, tremia por dentro de felicidade. Realmente, estava magoada com ele, sentia-se
humilhada pela forma como ele a tratara e achava mesmo que nunca mais deveria olhar para ele. Mas o corao falou mais alto, e ela comeou a chorar de mansinho,
sem coragem de se mexer.
Ele se aproximou dela e tomou o seu pequeno queixo entre os dedos, fazendo com que ela voltasse os olhos para ele.
-Ser que pode me perdoar? - sussurrou.
Em vez de responder, Marcela aproximou dele os lbios e fez com que ele a tomasse nos braos e a beijasse, deixando o corretor embaraado.
-Bem... - balbuciou o homem - acho que vou deix-los sozinhos. Talvez queiram conversar sobre o apartamento e...
-No precisa se incomodar - cortou Flvio, ainda retendo Marcela em seus braos. - O apartamento  bom, mas  pequeno para ns. Agradeo a sua boa vontade, 
mas no  o que procuramos.
Ainda abraados, os dois se desculparam com o corretor e deixaram o imvel. Foram para a casa de Marcela e se amaram como nunca. De to feliz, Marcela no conseguia 
nem falar. Nem pensava mais na averso que sentia de sua prpria casa. Naquele momento, parecia um pedao do paraso, porque era Flvio que fazia a beleza do lugar.
-Ser que voc pode me perdoar? - suplicou ele ao final, estreitando-a cada vez mais. - Fui o maior idiota do mundo, mas no posso viver sem voc.
-Voc me magoou muito.
-Eu sei. No h justificativa para o que fiz, mas quero compens-la por tudo. Perdoe-me, Marcela, por favor. No devia ter falado aquelas coisas nem ter 
feito o que fiz. Voc no merecia.
-O que foi que aconteceu para voc chegar a essa concluso?
-Ouvi alguns conselhos, mas, principalmente, segui o meu corao. Voc  a mulher que eu amo, e no poderia perd-la por uma bobagem.
-Acha bobagem agora?
-Sim. Pessoas amigas me fizeram ver que nada disso importa. O seu passado s a voc pertence, como eu mesmo lhe repeti tantas e tantas vezes. O que importa 
 o que sentimos um pelo outro agora.
-Tem certeza do que diz, Flvio? No vai me atirar isso na cara depois? Sempre que discutirmos, no vai usar isso como arma para me ferir?
-Nunca! Se estou pedindo para voc me aceitar de volta,  porque esse assunto est superado e encerrado. No  mais importante para mim que voc tenha vivido 
com outra mulher ou no. S o que lhe peo  que seja somente minha a partir de agora.
-Sou somente sua desde o dia em que o conheci.
-Promete que nunca vai me trair?
-Se vamos comear com desconfianas, ento  melhor nem comearmos.
-Tem razo, perdoe-me novamente. No tenho motivos para desconfiar de voc. Voc sempre foi leal e sincera, sei que nunca me enganou nem me enganaria com 
ningum.
-Acredita no meu amor?
-Acredito. E voc? Acredita no meu?
-Confesso que cheguei a duvidar, porque achei a sua conduta incompatvel com quem diz amar tanto. Mas hoje, quando voc apareceu, no tive mais dvidas. 
Ningum que no ama  capaz de um beijo to apaixonado como o que voc me deu l naquele apartamento.
Ele a beijou novamente e considerou:
-Voc precisa mesmo sair daqui. Vamos logo marcar a data do casamento e procurar uma casa para ns. No um apartamento pequenininho como o que voc arranjou 
hoje cedo, mas uma casa grande, arejada e confortvel. Quero ter muitos filhos, e eles vo precisar de espao para correr.
-Tem certeza de que  isso mesmo o que voc quer? - tornou ela, ainda em dvida.
-Absoluta! Voc  a mulher que eu amo, e  com voc que quero me casar.
Passaram o resto do dia conversando e fazendo planos. Falaram sobre Luciana e Ariane, sobre Dolores e suas intrigas. Nada disso, porm, os abalou. Flvio concordou 
que Luciana era uma boa amiga e admitiu que a admirava. Dolores ficaria furiosa quando soubesse, mas nenhum dos dois se importava.
Apenas Ariane os incomodava. Ainda no estavam bem certos sobre suas atitudes, mas, por enquanto, preferiam no reatar amizade com ela.
Daquele dia em diante, comearam os preparativos, e a notcia logo se espalhou. Algumas pessoas que os conheciam, ao ver Flvio e Marcela em algum restaurante ou
qualquer outro lugar pblico, riam e cochichavam entre si, mas eles nem se incomodavam. Exibiam as alianas com naturalidade, e Marcela ostentava
o anel de brilhante que ele lhe dera com indisfarvel orgulho.
***
A notcia logo se espalhou, e Dolores no tardou a saber da reconciliao dos noivos. Espumando de dio, comeou a ligar para a clnica e o apartamento de Justino, 
onde sabia que Flvio estava morando. Na clnica, ele no atendia e, no apartamento, ela nunca conseguia encontr-lo. Ele e Marcela haviam, finalmente, achado uma 
casa e estavam empenhados em reform-la, passando l muitas noites, planejando a decorao e entregues ao amor.
Dolores no sabia disso e foi ficando cada vez mais furiosa. At que resolveu ir pessoalmente ao apartamento de Justino para tentar falar com o filho. Precisava 
cham-lo  razo, mostrar a ele algumas fotos em colunas sociais e uma observao maldosa feita numa revista de fotonovelas. Com isso, esperava que ele acordasse 
e rompesse de vez com aquela aventureira lsbica.
A campainha do apartamento de Justino quase estourou de tanto tocar. Era bvio que ele no estava em casa, e ela, por pouco, no teve um acesso. Esmurrou a porta, 
chutou, mas nada. No adiantava, ele no estava mesmo, e ela no via outro remdio, seno ir embora. Teve que esperar alguns minutos at que o elevador chegasse 
e, quando puxou a porta pelo lado de fora, algum a empurrou pelo lado de dentro, quase acertando a sua testa, o que a fez espumar ainda mais. J ia se preparando
para dizer um desaforo quando percebeu quem havia chegado. Justino estava parado no corredor, ainda segurando a porta do elevador e, l dentro, afigura de uma mulher,
que Dolores conhecia vagamente, levando-a a fazer tremendo esforo para se recordar.
-Anita! - gritou ela, finalmente se lembrando de quem era e avaliando a outra. - O que faz aqui com o meu marido?
-No sou seu marido, Dolores - objetou Justino com frieza. - E Anita no lhe deve satisfaes.
Ao ver Dolores ali parada, os olhos chispando fagulhas de dio, Anita pensou em recuar. Sua velha insegurana havia voltado, e ela se sentiu amedrontada e intimidada
com a figura elegante, esbelta e confiante de Dolores.
-Acho melhor eu ir para casa - murmurou ela. - Posso chamar um txi...
-Nada disso! - protestou Justino. - Voc veio comigo, e  Dolores quem no tem nada para fazer aqui.
-Tenho um assunto a tratar, mas no  com voc - comentou ela com azedume. -  com meu filho. Onde est ele?
-Ele no est aqui.
-Isso, eu j percebi. Quero saber onde ele est.
-No  da sua conta.
Justino a empurrou para o lado e abriu a porta, puxando Anita pela mo.
-E agora, se nos der licena, temos muito o que fazer - anunciou ele, entrando com Anita no apartamento. - At logo.
Diante do ar embasbacado de Dolores, Justino fechou a porta delicadamente. Ela estava perplexa e, ao mesmo tempo, furiosa. Ouvira falar que Justino estava saindo
com uma mulher, mas jamais poderia imaginar que fosse com a ex-mulher de seu ex-amante. Ela estava horrvel: gorda, velha e malvestida. Justino deveria estar muito
necessitado para aceitar sair com uma mulher daquela. Era revoltante e inadmissvel! Como podia ele se deixar envolver por algum sem linha feito aquela Anita?
Do lado de dentro, Anita tremia. Sentia-se pequenininha diante daquela mulher poderosa e cheia de classe. Justino percebeu o seu constrangimento e a abraou com 
ternura, passando-lhe amor e confiana.
-Por que est desse jeito? - perguntou gentilmente. - No se deixe intimidar por Dolores.
- que sua ex-mulher  to... to bonita... to elegante... to senhora de si...
-E to ftil, to m, to mesquinha. Por que se diminui diante dela? Ela no  melhor do que voc em nada.
-Ela ainda  uma mulher muito bonita.
-Voc tambm .
-No sou, no. Envelheci muito depois de meu ltimo filho. Deixei-me engordar e perdi a vontade de me arrumar, frustrada com o fracasso do meu casamento 
e a indiferena de meu marido.
-Pois eu acho que voc est muito bem.
-Voc est apenas sendo gentil.
-Se no gostasse de voc do jeito que , no a teria convidado para sair.
-Ainda hoje me pergunto o que foi que voc viu em mim...
-Alm de achar voc uma mulher atraente, interessante, sensvel, culta, inteligente e espirituosa? - Ela assentiu, surpresa com tantos elogios. - Apaixonei-me
por voc.
-Oh! Justino!
Os dois se abraaram, e ele foi at o bar. Serviu duas taas de champanha e ofereceu-lhe uma.
-Vamos brindar.
-A qu?
-Ao privilgio de sermos pessoas maduras, que sabem o que querem e so livres para viver um amor sereno, confiante e verdadeiro.
Ela sorriu, e ambos estalaram as taas. Anita estava feliz como nunca antes se sentira em toda a sua vida. Sabia que podia confiar em Justino, em suas palavras e
no seu amor. Dali em diante, no pensaria mais em si mesma como algum inferior e procuraria melhorar no apenas a aparncia fsica, mas, principalmente, os pensamentos.
No queria mais ser uma mulher insegura. Queria ser algum forte e corajosa, ciente de seu valor e do valor que Justino conseguia reconhecer nela. Ela o amava, mas 
no queria fazer isso por ele. Faria por si mesma.
A cada dia que passava, Dolores ficava mais e mais furiosa. Alm de o filho estar visivelmente evitando falar com ela, descobrira o caso ridculo de seu marido com
aquela mulher insossa e idiota. No fosse a ex-mulher de Nlson, ela at acharia graa em ver que Justino se envolvera com uma feiosa sem classe. Tratando-se de 
quem era, ficava pensando se ele realmente gostava dela ou se estaria fazendo aquilo somente para humilh-la. No acreditava, todavia, na segunda opo. Justino 
fazia o tipo gentil e bonzinho, e o mais provvel era que tivesse mesmo se apaixonado pela bruaca velha.
Mas Justino podia ficar para depois. No tinha tempo para perder em conjecturas sobre as aventuras sexuais do ex-marido. O que lhe interessava no momento era o filho. 
Flvio estava evitando falar com ela h semanas. Tinha certeza de que Justino lhe informara que ela estivera  sua procura, e ele no a procurara de propsito. No 
entanto, precisava conversar com ele e fazer com que voltasse  realidade.
No precisou esperar muito. Uma semana depois, Flvio apareceu em sua casa, levando em mos um envelope alinhado.
-O que significa isso? - rugiu ela entre os dentes, segurando nas mos o convite ainda lacrado.
- um convite de casamento, me. No deu para perceber?
-Quem vai se casar? Voc? - Ele assentiu. - Com aquela lsbica aventureira?
-Ela no  lsbica e, muito menos, aventureira.
-Ora, vamos, Flvio, voc conhece o passado dessa moa to bem quanto eu. Todos conhecem. Vai ser massacrado pela sociedade se voc se casar com ela.
-Isso no me interessa. Ningum tem nada com a minha vida.
-Voc saiu de casa por causa dessa moa e agora pretende levar adiante um casamento que vai causar a sua runa.
-Engano seu. Meu casamento tem tudo para ser bem-sucedido, porque ns nos amamos, nos compreendemos e nos respeitamos. Ah! E eu no sa de casa por causa
de Marcela. Foi por sua causa que me mudei: por causa de suas intrigas e da humilhao que me fez passar.
-Meu filho, deixemos isso para l. J passou.
-Sim, passou, e  por isso que no pretendo mais retornar a esse assunto. Procuro relevar o que voc fez, dizendo para mim mesmo que voc pode ser orgulhosa, 
esnobe e intrigante, mas  minha me e, presumivelmente, quer o meu bem. Ainda que o meu bem no seja, exatamente, o que voc quer me oferecer.
-Mas  claro que quero o seu bem!
-Ento, aceite o meu casamento com Marcela como fato consumado.
-Voc est me pedindo para abrir mo da nossa dignidade e conviver com uma lsbica?
-Ela no  lsbica. E, ainda que fosse, isso no faria dela essa pessoa desprezvel que voc quer fazer parecer.
-Est bem, est certo. Concordo que talvez isso no tenha tanta importncia. Mas o fato  que Marcela  uma pobretona, uma mulherzinha de classe inferior, 
sem eira nem beira. O que um homem da alta sociedade como voc pode esperar de uma criatura assim?
-Agora voc est sendo mais verdadeira. Est claro para mim que o seu problema com Marcela  a sua condio social. Pois ento, me, deixe que lhe diga o 
que posso esperar de Marcela: amor.  s isso que me importa.
-Amor, pois sim! Tudo muito bonito enquanto ela no o fizer passar vergonha na frente dos seus amigos.
-Marcela  uma moa culta e educada. No vai me fazer passar vergonha em lugar nenhum.
-Mas no  do nosso meio, no tem o seu nvel! Alm de tudo, no gosta de mim.
-Voc  quem no gosta dela. E no gosta porque no vai poder manipul-la como pensava fazer com Ariane.
-Ariane anda meio sumida, contaminada pelas idias estranhas que Marcela colocou na cabea dela. Mas ainda  a mulher certa para voc.
-Ariane no me quer mais, me. Ela mesma me disse.
- mentira. Ela est apenas escabreada com tudo o que passou. Mas se voc a quiser, duvido que ela o rejeite.
-Ela est arrependida. Ao contrrio de voc, Ariane mostrou senso de dignidade e veio se desculpar comigo.
-E voc a desculpou? - Ele no respondeu. - Pois eu acho que voc devia. Com o tempo, voc vai ver como ainda tm chance juntos.
-No adianta, me. Ariane e eu somos dois estranhos agora.  com Marcela que vou-me casar, quer voc queira, quer no.
-E veio me convidar para o casamento? - retrucou ela com indignao, exibindo o convite fechado. - Como se eu fosse uma estranha?
-Voc no  uma estranha, mas vai ser apenas mais uma convidada. No a quero no altar junto comigo.
-Eu  que no quero que me vejam no altar, recebendo aquela lsbica como nora!
-Pouco me importa. S no quero que Marcela se sinta mal no dia que deve ser o mais feliz da sua vida. - Ela o olhava com raiva, e ele finalizou: - Bom, 
o convite est entregue. Se quiser comparecer, timo. Se no quiser, tudo bem tambm.
Com um sorriso frio, Flvio se despediu. No tinha mais pacincia para as encenaes da me e no queria lhe dar a chance de encher os seus ouvidos com as suas histrias 
maledicentes. Entregara-lhe o convite por insistncia de Marcela, que era uma pessoa boa e no guardava ressentimentos. Mas no a queria no altar e no pretendia 
mais lhe dar a chance de lhe causar
embaraos ou humilhar sua noiva.
***
O casamento se realizou conforme o esperado, em uma recepo simples, porm elegante, para a qual foram convidados todos os amigos e conhecidos de Flvio e Marcela.
Ele no queria que dissessem que se casara em segredo, para no expor a noiva lsbica, como dizia a me, por isso, fez questo de uma cerimnia sem luxo, mas grande 
o bastante para comportar todos aqueles a quem, supostamente, deveria temer em sociedade.
Ele e Marcela receberam a todos com alegria e satisfao, e no havia quem no elogiasse a beleza, a elegncia e a delicadeza da moa. Alguns diziam mesmo que o 
que se falava sobre ela devia ser inveno, pois uma moa to bonita e inteligente no se prestaria quelas coisas. Quem ouviu os comentrios foi Luciana que, apesar 
de entristecida com a hipocrisia, a intolerncia e o preconceito das pessoas, no rebateu nem emitiu qualquer opinio, como teria feito em outros tempos.
-Deixe isso para l - falou Masa, a seu lado. - As pessoas falam mal daquilo que temem ou no compreendem. Muitos desses a devem fazer o diabo s escondidas, 
mas, como ningum sabe nem nunca viu, podem fazer-se passar por certinhos e moralistas.
- uma ignorncia, Masa. O que beleza e inteligncia tm a ver com isso?
-J disse para no ligar, Lu. No importa o que elas dizem.
-No sei nem por que me calei. Devia era ter-lhes dito umas poucas e boas.
-O mundo, infelizmente,  cheio de preconceitos e falsidades, mas isso ainda h de mudar um dia. Esse dia ainda no chegou, e acho que no cabe a voc fazer 
o papel de transformadora. No sozinha nem nesse momento. Vai se expor sem necessidade, atrair a ateno das pessoas que podem atirar sobre voc energias ruins. 
Para que isso? O importante  que voc sabe quem  e conhece o seu valor. Deixe que os outros fiquem com o seu preconceito e a sua hipocrisia, porque ns, que j 
ultrapassamos esse estgio, podemos nos preocupar com coisas mais teis.
Luciana olhou-a sem entender e retrucou admirada:
-Voc diz cada coisa, Masa...
-Ah! Deixe para l.
Nesse momento, a orquestra comeou a tocar uma msica
romntica, e Breno tirou Masa para danar, deixando Luciana sozinha  mesa. Em poucos minutos, Marcela estava a seu lado, e as duas comearam a conversar:
-Estou to feliz por voc, Marcela!
-Eu tambm.
-Voc est radiante. Tenho certeza de que vai ser muito feliz.
-Sabe, Lu, amo Flvio imensamente, mas no posso dizer que foi o nico que amei em minha vida. - Luciana limitou-se a olh-la, e ela completou: - Voc sabe 
do que estou falando, no sabe?
-No creio que essa seja uma conversa muito apropriada para o seu casamento - rebateu Luciana, sem entender o porqu daquilo tudo.
-No se preocupe. Sei o que estou falando, e Flvio tambm sabe. Depois de tudo o que aconteceu, prometi a ele que no lhe esconderia mais nada.
- o mais sensato. Mas por que est me dizendo isso agora?
-Gostaria que voc soubesse. O que sinto por Flvio hoje  nico, mas no apaga o que senti por voc. Foi nico tambm.
-Eu sei, mas no entendo por que est me dizendo isso. Nunca lhe cobrei nada nem fiz comparaes entre mim e Flvio.
- claro que no. Estou falando isso por mim mesma, porque preciso assumir, para mim, que posso amar um homem sem precisar negar ou me envergonhar de ter 
amado uma mulher. Hoje aprendi que o que se ama  a essncia, no o corpo fsico.
-Bom, esse deve ser o amor verdadeiro, mas eu ainda no consigo amar s a essncia... - disse ela, olhando de soslaio para uma moa bonita que vinha passando.
As duas caram na gargalhada, e Marcela abraou Luciana com carinho.
-Eu amo voc, sabia disso? - declarou Marcela. - Como uma verdadeira irm.
-Mas que comovente! - disse uma voz irnica atrs delas. - Mas a despedida de solteira no deveria ser hoje, no dia do casamento.
As duas desfizeram o abrao e se voltaram ao mesmo tempo. Dolores estava parada perto da mesa, a essa altura bastante
alterada pela bebida, acompanhada de trs mulheres que ostentavam sorrisos igualmente irnicos. A surpresa de Marcela foi genuna, porque Dolores garantira que no
compareceria ao casamento. Logo um grupinho comeou a se formar ao redor delas, e Dolores continuou falando:
-No sei se todos conhecem Luciana... Luciana de qu, mesmo? No importa. Luciana  amiga ntima de Marcela, no  mesmo?
Ela frisou bem aquele ntima e encarou a nora com olhar divertido e maldoso.
-, sim - concordou Marcela, o rosto em chamas. - Luciana  minha amiga de muitos anos.
-O que voc faz, Luciana? - indagou uma mulher, que a olhava com ar malicioso.
-Sou dentista - respondeu ela, devolvendo o olhar com outro, cheio de dignidade.
-Ah! Ento  doutora Luciana.
-Doutora, no, doutor - cochichou algum bem baixinho logo atrs, mas todos ouviram e comearam a rir, inclusive Dolores.
A conversa estava tomando um rumo bastante desagradvel, e as duas queriam sair correndo dali, mas no viam como. Luciana ainda sustentava os comentrios e os olhares, 
mas Marcela estava vermelha desde a raiz do cabelo, e seus olhos j comeavam a umedecer.
O grupinho estava sendo observado por Justino e Anita, que imaginavam bem o que deveria estar acontecendo. Justino pediu licena a Anita e foi procurar o filho, 
que cumprimentava um casal de tios idosos do outro lado do salo. Ele chegou bem perto do filho e sussurrou em seu ouvido:
-Acho melhor voc vir comigo. Sua me est aprontando das dela.
Flvio olhou por cima do ombro, surpreso com o aparecimento repentino da me, e imediatamente percebeu o que acontecia. Marcela e Luciana, sentadas a uma mesa, em 
meio a um grupo de fofoqueiros liderados pela me, s podia significar uma coisa: a me as estava envolvendo em seus gracejos maldosos, humilhando-as a pretexto 
de divertir todo o grupo. Na mesma
hora, pediu licena e se dirigiu para l, em companhia do pai, e Anita se juntou a eles. Tambm no queria mais evitar Dolores. No tinha por que tem-la.
-Divertindo-se, mame? - perguntou Flvio, pondo-se entre Marcela e Luciana, e envolvendo o ombro de cada uma com um brao.
-Estvamos apenas conversando.
- mesmo? E sobre o que falavam de to engraado? Conte-me, para que eu possa rir tambm.
De repente, a conversa parecia ter perdido a graa, e os convidados se sentiam constrangidos com a presena de Flvio, abraando a noiva e a amiga, demonstrando, 
nitidamente, o apoio que dava a Luciana. Alguns comearam a se afastar, e outros, muito pouco  vontade, olhavam a cena com um sorriso morto nos lbios.
-No estvamos falando nada demais - defendeu-se ela. - Apenas conversvamos sobre Marcela e sua amiga.
-No vejo que interesse isso possa despertar em nossos convidados.
-Nenhum.  que elas estavam se abraando... to bonitinho! No pudemos evitar.  to lindo ver uma amizade como essa: to verdadeira, to duradoura, to...
ntima.
Novamente aquele ntima frisado, que irritou Flvio.
-Bom, sinto estragar a sua diverso, mas Marcela e eu ainda temos muitos convidados para cumprimentar. Ah! Luciana, venha conosco. Quero apresent-la a algum.
-Uma namorada nova, como prmio de consolao para substituir a perdida?
Dolores falou praticamente sem pensar. Estava bbada e to contrariada com o casamento e, mais ainda, com a presena de Luciana, que no conseguiu se conter. A indagao 
mordaz apenas extravasou o que h muito ia represado em seu corao.
-Com que direito voc se atreve a fazer julgamentos e comentrios sobre a vida de Marcela? - dessa vez, foi Justino quem falou, a voz trmula de indignao.
Ela lhe lanou um olhar cortante, fitou Anita com desdm rebateu em tom de zombaria:
-Marcela, por acaso,  sua noiva? No, claro que no. Voc no gosta de mocinhas. Gosta de mulheres maduras e inchadas, que j esto caindo do p.
Ningum aguentou. A gargalhada foi geral, deixando Anita roxa de vergonha, Flvio, Marcela e Luciana, perplexos, e Justino, furioso. Em meio s risadas, Dolores
se virou para o salo, fazendo sinal para que os outros a acompanhassem. O grupo comeou a se dispersar, mas Dolores foi interrompida pela observao perfurante 
de Justino:
-Por que no conta a todos qual a sua preferncia, j que estamos falando de gostos? Quero dizer, antes de se envolver com rapazinhos.
Ela se virou bruscamente e o encarou com fria:
-Cale-se! No lhe dou o direito de falar da minha vida particular.
-Mas voc se acha no direito de falar da vida de seu filho, de sua nora, de minha mulher e de outras pessoas, no  mesmo?
-No estou falando nada demais. E voc no tem nada com isso.
-Graas a Deus, no tenho mais nada a ver com a sua vida mentirosa e libertina.
-Veja l como fala! - urrou ela. - No admito que ofendam a minha reputao!
O clima estava horrivelmente tenso, e nem Flvio entendia por que o pai dizia aquelas coisas naquele momento. Dolores estava visivelmente alcoolizada, mas Justino 
parecia sbrio e consciente do que dizia.
-Pai, por favor, pare com isso - pediu Flvio, tentando pux-lo pelo brao. - Deixe-a, ela bebeu demais.
-Eu no estou bbada! - gritou ela novamente, o rosto totalmente transformado pela clera. - S no vou permitir que seu pai, ou qualquer outro homem, tente
me desmoralizar!
Ningum entendia por que Dolores, de repente, ficara to furiosa. Ningum,  exceo de Justino. Na verdade, ela tremia de medo de que ele revelasse alguma coisa 
sobre o seu antigo caso com Nlson.
-No precisa se alterar dessa maneira, me. Vamos acabar com essa discusso por aqui.
-Sua me est assim, meu filho - falou Justino -, porque tem medo de que eu revele a todos por que nos separamos.
-Voc no ousaria!
-Eu lhe avisei, Dolores. Avisei-a para deixar Marcela em paz, mas voc no quis me ouvir. Pensou que eu no fosse capaz de expor as suas sujeiras? Pois se
enganou. Eu sou capaz, sim!
-Cale essa boca, Justino! - berrou ela. - No se atreva a comentar nossa vida particular em pblico!
-Pai, por favor...
-No, agora vou falar. Voc acha que  melhor do que todo mundo, no , Dolores? S porque tem dinheiro, pensa que est acima de tudo e de todos. Mas no 
est. Seu dinheiro pode comprar rapazolas interesseiros, mas no pode comprar a sua dignidade e, muito menos, o meu silncio!
-Voc est louco. No sabe o que diz!
Ela comeou a se afastar rapidamente, mas Justino elevou a voz e disparou:
-Tem medo de que todos saibam por que nos separamos, no ? Tem medo de que todos saibam que nos separamos porque eu descobri que voc estava de caso com 
Nlson Moreira, meu antigo scio na clnica e ex-marido de Anita!
Fez-se um silncio geral, e Dolores fechou os olhos, lutando para no voar no pescoo de Justino.
-Justino! - interrompeu Anita surpresa. - Do que  que voc est falando?
- isso mesmo! Dolores tinha um caso com Nlson, e era ela quem sustentava a sua clnica depois que nos separamos. Mas acho que se cansou dele tambm, porque 
hoje prefere gastar o seu dinheiro com playboyzinhos desocupados e tostados de sol.
Aquilo j era demais. Dolores no conseguiu se conter e se virou para ele, fuzilando-o com um olhar de tanto dio, que muitos no conseguiram nem olhar para ela.
-Voc no tem o direito! - vociferou.
-E voc no tem o direito de falar de Marcela ou de Luciana, ou de quem quer que seja. Quem  voc para julgar algum? Como pode acusar os outros quando
a sua vida  um mar de sujeiras e intrigas? Que moral voc tem para levantar o dedo acusador e decidir o que  certo ou errado na vida? Voc no  nada, Dolores.
-Cachorro! - grunhiu ela, avanando sobre ele e desferindo-lhe vrios tapas e arranhes no rosto.
Justino no fez nada alm de se defender. Segurou as suas mos, e ela comeou a chut-lo vigorosamente, at que Flvio intercedeu e a agarrou por trs, puxando-a
para fora do salo. Ela foi arrastada aos berros e pontaps, completamente transtornada e ensandecida. Do lado de fora, agarrou-se ao filho e desabou num pranto 
convulsivo e atropelado por palavras desconexas, carregadas de dio.
-Venha, me, vou lev-la para casa - anunciou ele, entrando
com ela no carro e partindo pela rua.
***
O episdio foi a sensao do ano nas colunas sociais. No havia uma s revista de fofocas que no noticiasse o ocorrido. Para Dolores, foi uma desmoralizao total, 
e ela se fechou em sua casa, recusando-se a receber visitas. Nem o telefone queria atender. Os amigos que ligavam no estavam interessados em levar-lhe algum conforto,
mas queriam saber detalhes sobre aquele caso secreto e to bem oculto, de que ningum sequer chegou a desconfiar.
Para sua surpresa, as nicas pessoas que foram a sua casa para tentar confort-la foram Flvio e Marcela. No comeo, ela pensou que a nora havia aparecido para tripudiar 
sobre o seu sofrimento, mas Marcela no fez nada disso. Sentou-se a seu lado e demonstrou um carinho que Dolores nunca antes havia visto, mas que a deixou envergonhada 
e irritada ao mesmo tempo. No queria a compaixo daquela mulher.
-Vocs no precisam se incomodar comigo - disse ela em tom arrogante, ainda sustentando uma pose de orgulho. - Estou muito bem.
-Dona Dolores, quero que saiba que no lhe guardo qualquer rancor. Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo.
A vontade de Dolores era cham-la de fingida, mas no conseguiu detectar nenhuma falsidade nas suas palavras, o que a deixou ainda mais desgostosa. Por que a nora
tinha que ser to
boazinha daquele jeito? No podia ser como todo mundo e aproveitar aquela arma para disparar contra ela? Mas no. Marcela se mostrava compreensiva e disposta a ajudar,
dando uma facada no seu orgulho.
Flvio, por sua vez, apesar da surpresa que a atitude da me lhe causou, logo apiedou-se dela, vendo ali uma mulher decadente e solitria, escrava do dinheiro e 
das aparncias.
-Deixe isso para l - ele tentou consolar. - Com o tempo, isso passa. As pessoas logo se cansam e arranjam outra coisa para fofocar.
-Seu pai no podia ter feito isso comigo - queixou-se ela. - S pode ter sido por vingana.
-Meu pai no  homem de se vingar.
-Ele me desmoralizou publicamente.
-Mas tambm, me, voc exagerou. Por que foi tentar humilhar Marcela e Anita na frente de todo mundo, no dia do nosso casamento?
Ela ergueu os olhos para Marcela e no disse nada. No tinha que dar satisfaes.
-Acho melhor no tocarmos mais nesse assunto - ponderou Marcela.
-Tambm acho - concordou Dolores. - E vocs podem ir. Eu estou muito bem e no preciso de nada.
Vendo que no adiantava oferecer-lhe ajuda, Flvio desistiu e resolveu deix-la sozinha. O tempo daria um jeito naquelas marcas, e ela logo estaria de volta ao seu
crculo social de futilidades e aparncias. Mas ele no sabia o quanto estava errado. Apesar de no perder a arrogncia, desde aquele dia, Dolores se manteve quieta 
em seu canto, fazendo questo de no ser notada nem se
ana paula envolvendo em nada que pudesse chamar a ateno sobre ela.
***
Justino se arrependeu de ter falado aquilo tudo no casamento do filho. De uma certa forma, ele contribuiu para estragar a festa. Depois do ocorrido, partiram o bolo 
assim que Flvio retornou da casa de Dolores, e a maioria dos convidados se retirou, encerrando a recepo mais cedo do que o esperado.
-Sinto muito, meu filho - disse Justino a Flvio mais tarde, depois que todos se foram. - No queria estragar o seu casamento. Estava uma festa to bonita!
-No foi culpa sua, pai. Mame estava pedindo por isso.
-Mas eu devia ter escolhido um outro momento.
-No faz mal. Aconteceu no momento que tinha que ser. E depois, ela estava humilhando Marcela, Luciana e at Anita diante dos nossos convidados. Apesar do 
estrago que fez na festa, foi bem feito para ela. Algum tinha que lhe pr um freio.
Depois disso, eles haviam ido viajar em lua de mel, e Justino foi procurar Anita. Ela estava muito abalada, e ele se sentia na obrigao de lhe dar alguma explicao. 
Anita estava em casa e havia narrado o episdio a Ariane, que no comparecera ao casamento, temendo desgostar os noivos. Nlson tambm no havia ido. Andava sempre 
embriagado e metido em jogatinas, afastado do convvio com a sociedade e envolvido com indivduos de reputao duvidosa.
-Foi horrvel - comentou Anita. - Ainda bem que voc e seu irmo no estavam l.
-O que disse a ele?
-Nada, por enquanto. E nem sei se vou dizer alguma coisa.
-Acho melhor voc contar a verdade. Sabe como so essas coisas: as pessoas comentam em casa, os filhos ouvem e contam tudo na escola.  melhor que ele saiba 
por voc.
-Tem razo. Vou conversar com ele mais tarde.
A campainha soou, e Justino apareceu acabrunhado. Deu um beijo no rosto de Anita, cumprimentou Ariane com um aceno de cabea e indagou preocupado:
-Como  que voc est?
-Melhor do que eu esperava - respondeu Anita. - Ainda estou tentando digerir isso tudo, mas tenho que confessar que, no fundo, no me surpreendi.  como
se achasse Nlson e Dolores capazes desse tipo de traio.
-E so mesmo.
-Por que no me contou isso antes?
-Porque achei que no devia. Quando ns comeamos a sair, tanto eu quanto voc j estvamos separados. No faria diferena.
-E como foi que voc descobriu?
-Eu os surpreendi.
Naquele ponto, j no havia mais por que ocultar as coisas de Anita, e Justino lhe contou exatamente o que acontecera. Anita e Ariane escutaram atentamente, sem 
fazer qualquer interrupo.
-De meu pai, pode-se esperar tudo - observou Ariane, depois que Justino terminou.
-E de Dolores tambm - acrescentou ele.
-Deve ter sido muito difcil para voc, na poca - disse Anita. - Nlson era seu amigo.
- verdade, foi. Mas eu consegui me recuperar muito bem. Abri a minha prpria clnica, juntamente com meu filho, e encontrei uma mulher realmente digna a 
quem amo. No posso querer coisa melhor.
Anita corou levemente e falou:
-Quanto a mim, s posso agradecer estar separada dele agora. Se tivesse descoberto isso quando ainda estvamos casados, teria sido muito doloroso.
-As coisas sempre aparecem no momento certo.
Os dois continuaram conversando, e Ariane foi para o quarto. A revelao de Justino no a deixara surpresa, nem revoltada, nem entristecida. Ela e o pai nunca haviam 
se dado bem mesmo, e era at melhor que os pais estivessem separados. Contudo, ficou pensando no casamento de Flvio e Marcela, sentindo uma alegria interna por 
ver que eles haviam conseguido ficar juntos. A nica coisa que a entristecia era no poder compartilhar com Marcela aquele momento.
Sabia que Marcela no confiava mais nela e talvez nunca mais lhe dirigisse a palavra novamente, mas precisava demonstrar o seu arrependimento e o seu afeto de alguma 
maneira. Resolveu sair e comprar algo para ela. No havia lhe dado nada de presente de casamento e ficou imaginando o que poderia dar que demonstrasse a sua amizade.
Todas as coisas eram comuns, e ela escolheu um presente pessoal, que no fosse muito caro. Havia uma promoo de lenis numa loja, e ela acabou comprando um jogo
completo, com as iniciais M e F gravadas. Deu o novo endereo deles, que
havia conseguido no caderninho de telefones da me, e comprou um carto numa loja. Comeava a escrever votos de felicidades e aquelas coisas que sempre se colocam
em cartes, quando a emoo a dominou, e ela acabou escrevendo uma mensagem bonita e cheia de sentimento.
Marcela e Flvio s receberam o presente uma semana depois, quando voltaram da lua de mel. Eles ainda nem haviam terminado de desembrulhar todos os presentes quando 
a campainha tocou, e a empregada que eles haviam contratado entrou com um pacote grande e bonito.
-Este chegou atrasado, dona Marcela - comentou a criada, depositando o embrulho ao lado dos outros.
-Deixe-me ver - pediu Marcela, apanhando o carto e abrindo-o com curiosidade.
Foi direto na assinatura e se surpreendeu ao ver o nome de Ariane.
-De quem ? - indagou Flvio, com interesse.
-De Ariane.
-De Ariane? No me diga!
-Vou ler o carto: Querida Marcela. No sei se deveria lhe enviar nenhum presente, muito menos lhe escrever, mas no posso deixar passar a emoo que me 
invade nesse momento. Agora que voc e Flvio esto casados, e nenhum interesse mais eu poderia ter em voc, posso lhe revelar o que realmente sinto. Dizer que me 
arrependo no  o suficiente, porque eu j lhe disse (e a Flvio tambm). No escrevo para falar sobre isso, mas para dizer como me senti quando soube do seu casamento, 
ao qual no compareci por razes bvias, e no por falta de vontade. Fiquei e estou muito feliz por voc, porque muito mais do que o meu arrependimento, o que me 
conforta  saber que voc e Flvio conseguiram se entender e esto felizes. Isso, para mim, j  motivo de felicidade. Que vocs possam sempre alimentar esse amor, 
um amor que eu, um dia, espero poder conhecer por um homem que me ame de verdade. Porque o amor que nasce da amizade, esse j conquistei ao conhecer voc. Mesmo 
que nunca mais nos falemos, jamais vou deixar de admir-la e am-la, porque a considero a melhor amiga de meu corao.
Marcela soltou o carto com lgrimas nos olhos e olhou para Flvio, que tinha o olhar vago e refletia as palavras de Ariane.
-Ela me procurou um dia desses - contou ele.
-Procurou-o para qu?
-Para me falar de voc. Disse que estava arrependida e me pareceu bem sincera.
-Tambm acredito no seu arrependimento. No sei por qu...
-Meu pai, que fica sabendo de muitas coisas atravs de Anita, garantiu que ela realmente se arrependeu e que gosta muito de voc.
-Voc acha que  verdade?
-Acho, sim. Quando ela me procurou, no me pareceu interessada em mim como antes. S estava preocupada com a sua amizade. Acho que ela, realmente, se afeioou 
a voc.
Marcela ficou pensativa. Mais tarde, quando foram dormir, teve um sonho estranho. Nele, ela e Ariane eram irms, mas Ariane, por ser a mais velha, tinha que se casar 
primeiro. Era uma poca muito remota, e as famlias da noiva e do noivo haviam acertado o casamento dos filhos assim que eles nasceram, e Ariane era a prometida 
de Flvio. Eles no se amavam. Como Flvio e Marcela estavam apaixonados, os pais de ambos haviam concordado em transferir o compromisso para Marcela, pois assim 
o acordo se manteria entre as famlias, mas Ariane no aceitou, forando os pais a manterem a palavra e concretizarem o enlace. E assim foi feito. Ariane e Flvio 
se casaram, e Marcela ficou solteira para sempre, mas Flvio nunca a esqueceu e foi infeliz ao lado de Ariane, fazendo-a infeliz tambm.
No dia seguinte, Marcela contou o estranho sonho a Flvio, que no o compreendeu muito bem.
Voc ficou impressionada com o carto que Ariane lhe escreveu - explicou ele. - Por isso sonhou essa bobagem.
No era bobagem. Na verdade, Marcela sonhara com uma vida passada, sem o saber. Algo despertara dentro dela. Desde que lera aquele carto, comeou a sentir compaixo 
de Ariane. No que tivesse pena propriamente. Mas conseguia se colocar no lugar da outra e tentou imaginar o que faria se ela mesma estivesse apaixonada por um homem 
que no a amasse, influenciada por algum que lhe prometia milagres de amor.
Ela, na certa, faria diferente. Mas ela era outra pessoa. No tinha aquela fraqueza de Ariane, mas tinha outras. E depois, quem na vida no cometia seus erros? Seria
justo condenar Ariane eternamente por ter-se deixado envolver por uma iluso?
Marcela fora capaz de superar a averso que sentia por Dolores e lhe oferecera a sua amizade, mesmo depois de tudo o que ela fizera. Por que ento no fazia o mesmo 
com Ariane? A resposta parecia bvia. Ariane a havia decepcionado, ao passo que, de Dolores, podia-se esperar qualquer coisa.
Mas, se era assim, tambm estava claro que havia um sentimento por Ariane, o que no existia com relao a Dolores. Marcela se sentira frustrada pela atitude de 
Ariane justamente porque se afeioara a ela. Reconhecia que gostava dela e, se gostava, por que no perdoar?
Ariane no se satisfazia mais com a vida que levava, repleta de ideais vazios e sonhos de casamento. Queria ser algum diferente. Queria se orgulhar de si mesma,
de sua contribuio ao mundo em que vivia. Resolveu estudar, contudo, como a situao financeira de sua famlia no andava l muito boa, pensou em arranjar tambm 
um emprego, o que no era muito fcil naqueles dias.
-Voc no pode ajudar? - indagou Marcela a Flvio, quando este lhe contou o que soubera.
-No sei. Meu pai sugeriu que o fizssemos. Tem presenciado o esforo dela e me garantiu que ela est disposta a mudar de vida. Perguntou-me se eu no concordaria 
em lhe oferecer um emprego em nossa clnica.
-E o que voc disse?
-Que ia conversar com voc primeiro. Nem ele, nem eu queremos fazer nada que a desagrade.
-Isso no vai me desagradar. Ao contrrio, gostaria mesmo de ajudar Ariane. Hoje compreendo a sua atitude e no tenho mais raiva dela.
-Nem eu. Ariane estava perdida e se deixou levar por uma iluso. Mas no  m.
- claro que no! Agora que a raiva passou, percebo isso. Sinto que ela, realmente, gostava de mim.
-Posso oferecer-lhe o emprego, ento?
- claro que pode.
-Muito bem. Vou falar com meu pai amanh mesmo.
Ariane recebeu a notcia com alegria e um certo receio. Gostaria
muito de trabalhar na clnica de Justino e Flvio, mas temia que Marcela no se sentisse muito  vontade.
-No se preocupe com Marcela - informou Justino. - Foi idia dela tambm.
-Foi!? - surpreendeu-se Ariane.
-Marcela  uma boa moa. No guarda raiva de voc.
Logo na segunda-feira, Ariane comeou a trabalhar como
recepcionista. Mostrou-se dedicada e atenciosa, e todos os pacientes gostavam muito da sua companhia. Isso influenciou a sua deciso na hora de escolher o que estudar. 
Ia fazer faculdade de enfermagem, e Justino lhe garantiu que ela teria uma vaga certa em sua clnica.
Ela e Flvio se viam todos os dias, at que ele resolveu convid-la para almoar. Ariane aceitou, embora sem nenhuma outra inteno que no fosse tentar conquistar 
a sua amizade. Sentaram-se  mesa, e Flvio pediu uns drinques antes de fazerem o pedido.
-Por que no pedimos logo? - indagou ela aflita. - No quero me atrasar na volta do almoo.
-No se preocupe. Meu pai est sabendo que voc veio almoar conosco.
-Conosco?
Nesse instante, Ariane levantou os olhos e viu que algum se encaminhava para a mesa, sorrindo para ela. Ela se levantou confusa e fitou a outra com uma emoo incontida 
no olhar. Marcela se aproximou e a abraou com ternura.
-Como est, Ariane? - perguntou ela de forma amistosa. - Faz muito tempo que no nos falamos.
- verdade... - respondeu a outra, confusa.
-No vo sentar-se? - interveio Flvio. - Acabamos de pedir alguns drinques.
-Hum... - fez Marcela. - Deixe ver... Acho que vou querer um coquetel de frutas, sem lcool.
Flvio fez o novo pedido e esperou at que o garom trouxesse os drinques.
-O motivo pelo qual a convidei para almoar, Ariane - comeou Flvio a dizer -,  que Marcela e eu estivemos pensando muito em voc...
Marcela o interrompeu com um gesto de mos e acrescentou em seguida:
-Deixe que eu fale, por favor. Afinal de contas, Ariane foi mais minha amiga do que sua. - Fitou a outra, que no sabia em que pensar, e concluiu: - No 
foi, Ariane?
Ela tomou um gole da bebida e encarou Marcela de volta, respondendo com toda a sinceridade:
-Sempre fui sua amiga, Marcela.
-Eu sei - concordou Marcela. - Hoje posso compreender. Li o seu bilhete no presente de casamento e compreendi tudo.
-Fui sincera quando escrevi aquilo. Eu realmente gosto muito de voc. Tenho-lhe uma amizade que jamais tive por mais ningum.
-Sei disso e agradeo. No princpio, logo que a verdade veio  tona, fiquei furiosa, sentindo-me trada, mas depois consegui entender a sua iluso.
-No quero me desculpar novamente pelo que fiz. Nem quero justificar a minha atitude acusando ningum. Fiz o que fiz porque, como voc mesma falou, deixei-me 
levar por uma iluso... - fitou Flvio discretamente e abaixou os olhos - a iluso de que, afastando-a de Flvio, ele seria meu. Hoje no penso mais assim e sei
que o que julgava sentir por Flvio era outra iluso. Eu no o amo, e voc pode acreditar em mim quando digo isso. Tenho-lhe muito carinho, mas no o amo. Do contrrio, 
no poderia estar aqui, conversando sobre isso com vocs dois.
Flvio desviou o olhar, meio sem jeito por estarem falando dele, mas Marcela prosseguiu:
-Sabemos de tudo isso. E no creio que seja saudvel revivermos o passado. Fiz com que Flvio a trouxesse aqui hoje para lhe dizer que no estou mais com 
raiva e acredito na sua amizade.
-Minha atitude naquela poca pode ter sido traioeira, mas meu sentimento no foi. E eu me sentia muito mal por ter que fazer aquilo.
-Sei disso.
Durante o resto do almoo, continuaram conversando sobre
o passado e os projetos para o futuro, acertando as diferenas e esclarecendo os mal-entendidos. Quando aquele almoo terminou e Ariane voltou para o trabalho, sentia
o peito mais leve e o corao livre. A amizade de Marcela era muito importante para
ela, muito mais do que o amor que pensara sentir por Flvio.
***
Com o passar dos meses, as coisas foram retomando a normalidade. Ariane tinha um bom emprego e se preparava para ingressar na faculdade de enfermagem. A me e Justino 
j comeavam a pensar em morar juntos, assim que o desquite de Anita se consumasse.
Numa tarde de domingo, Ariane estava em casa dando um jeito em suas gavetas quando o telefone tocou. A me e Justino haviam ido levar o irmo ao cinema, junto com 
alguns amiguinhos, e ela estava sozinha. Ao atender o telefone, prendeu a respirao e escutou em silncio a voz do outro lado. Sem dizer nada, fez uma anotao 
num caderninho e, em seguida, colocou o fone no gancho, trocou de roupa e saiu. Na rua, fez sinal para um txi e deu ao motorista o endereo que havia anotado minutos 
antes.
Levaram algum tempo para chegar ao local indicado, e Ariane se surpreendeu quando o motorista parou o txi e, voltando-se para ela, informou:
- S d para ir at aqui, madame. O resto, a senhora vai ter que ir a p.
Estavam parados em uma ladeira, e Ariane constatou que o nmero indicado no papel ficava na parte que subia o morro, onde no havia mais passagem para carros. Assustada, 
pagou o motorista e saltou. Havia bares dos dois lados da rua, e as pessoas a olharam desconfiadas, mas no disseram nada. Embora pobres, eram, em sua maioria, gente 
direita e decente, que aproveitava o domingo para tomar uma cerveja e ver jogos de futebol com os amigos, pela pequena TV em preto e branco colocada em um dos bares.
Sem dizer nada, ela comeou a subir a ladeira, que agora se estreitava para s dar passagem a uma pessoa de cada vez. O
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calamento era precrio, e ela, vrias vezes, escorregou ou prendeu o salto do sapato nas reentrncias das pedras. No precisou caminhar muito at que encontrou 
o nmero que procurava. Bateu na porta uma, duas, trs vezes, mas ningum atendeu, at que ela colocou a mo na maaneta, e a porta cedeu sem maiores esforos.
Ariane entrou num cmodo escuro e sujo, cheirando a mofo e vmito. Imediatamente, sentiu nuseas e recuou, respirando o ar puro da tarde. Encheu o peito de ar e
tomou coragem, entrando novamente. Deixou a porta aberta e foi caminhando na
semiescurido, at que viu algum deitado numa cama perto da parede, roncando sonoramente.
Ela se aproximou e fitou o pai ali largado, lutando contra a vontade de fugir correndo. Abaixou-se perto dele e cutucou-o gentilmente primeiro e, depois, com mais 
fora.
-Pai! - chamou. - Acorde, pai!
Ele levou algum tempo para abrir os olhos, piscando-os vrias vezes, at que a reconheceu e se sentou na cama.
-Ariane! - surpreendeu-se. - Voc veio.
-O que est fazendo num lugar desses? - tornou ela, indicando o ambiente ao redor.
-Estou falido, minha filha - comeou a chorar. - Arruinado. Desde que sua me me deixou...
-No culpe mame pelos seus erros, pai. E depois, todos sabemos que voc no est assim por causa dela, mas sim de Dolores.
Ele arregalou os olhos, admirado, e balbuciou:
-Como... como foi que descobriram?
-Isso no importa agora. Venha. Vou tir-lo daqui.
Ela o ajudou a se levantar e guardou suas roupas em uma mala, dando graas a Deus por ainda estarem em bom estado.
-Para onde vamos? - quis saber Nlson, apoiando-se nela para no cair.
-No sei. Para qualquer lugar com ar fresco e luz. Isso aqui cheira mal, e o ar est viciado.
Quando ela saiu amparando o pai, notou que algumas pessoas os encaravam com uma certa hostilidade e sentiu medo. Estava num lugar distante, e ningum sabia que ela 
fora ali. Contudo, ela e o pai passaram em segurana e foram descendo a ladeira, at que alcanaram a rua, e ela pde chamar um txi.
-Para onde vamos, moa? - perguntou o motorista.
-Voc conhece alguma penso que no seja cara, mas decente?
-Hum... Deixe ver. Sei de uma no centro da cidade. Normalmente,  utilizada por caixeiros viajantes para o pernoite. Serve?
- um lugar direito?
-. No  de luxo, mas  limpo e no so permitidos encontros, se  o que est pensando.
-Ento serve. Leve-nos para l.
Seguiram para l, e o pai comeou a chorar, apertando as mos da filha nos olhos midos.
-No posso ir para minha casa? - choramingou ele.
-Voc no tem mais casa, pai. Foi voc quem nos deixou, lembra-se?
-Estou arrependido...
Ariane sabia muito bem o que era o arrependimento, mas no podia forar a me a aceitar o pai de volta. No agora, que ela havia, finalmente, encontrado a felicidade 
ao lado de Justino.
-Sei que est - respondeu ela. - Mas mame tem outra vida agora.
-Ela tem outra pessoa?
-Tem - Ariane no queria tocar no nome de Justino naquele momento e mudou de assunto: - De quem era aquele barraco em que voc estava?
-De uma amiga.
Ariane no fez mais perguntas, imaginando que tipo de amiga seria aquela. De qualquer forma, no lhe cabia julgar e devia mesmo agradecer  tal amiga por ter mantido
o pai vivo at aquele momento.
Finalmente, chegaram  penso, e eles saltaram defronte a um prdio antigo no centro da cidade, tombado pelo patrimnio histrico, meio descascado e com janelas 
altas.  primeira vista, no parecia grande coisa, mas entraram mesmo assim. Na recepo, Ariane se surpreendeu com a limpeza e o bom gosto do ambiente que, embora 
simples, era bem arrumadinho, com mveis lustrosos e cortinas de rendas nas janelas.
Uma senhora gorda veio atend-los, e ela pediu um quarto para o pai.
- para passar a noite? - indagou ela desconfiada, olhando de Ariane para Nlson.
-No, senhora.  para passar uns tempos. No se preocupe, pago adiantado. -A mulher ainda os olhava desconfiada, e ela achou melhor esclarecer: -  para 
o meu pai.
-Ah! Bom, ento est bem. Quer com banheiro ou sem banheiro?
-Com banheiro.
Ela apanhou uma chave e levou os dois para o quarto, enquanto ia ditando as regras da penso. Ariane concordou com tudo e acomodou o pai numa cadeira, satisfeita 
porque era um cmodo arrumado e limpo. Depois que a mulher se foi, ela falou:
-Muito bem, pai, estou disposta a ajud-lo porque voc  meu pai e no vou deix-lo largado por a, em qualquer pocilga. Mas voc tem que me prometer que 
vai parar de beber - ele assentiu, e ela continuou: - O que houve com a clnica?
-Est fechada. Estou falido, devendo a Deus e o mundo.
-Ento, vamos vend-la e saldar suas dvidas. Com o que sobrar, veremos o que fazer.
-No vai sobrar nada.
-No faz mal. Pelo menos, pague o que deve e durma em paz.
-De que vou viver?
-Vai ter que arranjar um emprego.
-Quem  que vai me dar emprego nessa idade?
-Voc  mdico.
-Sempre fui um pssimo mdico.
-Pois ento, trate de melhorar. Voc tem um diploma, use-o.
-Ah! Minha filha, sou um fracassado. Perdi a clnica, os amigos e a famlia. Tudo por causa daquela mulher!
-No acuse ningum pela sua derrota, pai. Voc se envolveu com Dolores porque quis. Sei bem o que  isso.
Embora Nlson no tivesse compreendido muito bem o que Ariane dissera, no fez mais perguntas. Ela o estava ajudando, e ele devia ser-lhe grato. Ainda mais depois 
de tudo o que havia feito.
-Voc est com raiva de mim? - perguntou ele.
-Se estivesse, no teria vindo ajud-lo.
- verdade. Sei que a magoei... a voc e a seu irmo, principalmente. Mas estou arrependido.
-Compreendo o seu arrependimento, e voc vai ter muitas oportunidades de demonstr-lo. Mas agora, voc precisa reagir e sair desse estado lastimvel. Ou
quer que Huguinho fique decepcionado com voc?
- claro que no! Quero que meu filho volte a se orgulhar de mim.
-Pois ento, faa o que eu digo. Por hoje, descanse. Amanh, depois do trabalho, passo aqui para ver como voc est e vou ajud-lo a procurar emprego.
-Voc est trabalhando? - ela assentiu. - Onde?
-Na clnica de Justino e Flvio. Tambm eu encontrei quem me ajudasse.
Ele no disse nada. Sentia-se cansado e com vontade de beber, mas tinha que resistir.
-Estou com fome - queixou-se ele.
-Vou ver se arrumo alguma coisa para voc comer. Agora, tome um banho e descanse. J est ficando tarde, e preciso voltar para casa. Qualquer coisa, me telefone.
Ela deu um beijo no rosto do pai e saiu. Pagou uma semana adiantado pelo quarto e, por uns trocados a mais, a dona da penso arrumou um prato de comida para Nlson. 
Nos outros dias, ele comeria juntamente com os demais hspedes.
Nlson sempre foi um mdico incompetente, e tornou-se difcil arranjar-lhe emprego nessa rea. Mas Ariane contou a Justino e Flvio que o encontrara, e Justino a 
ajudava, mandando algum dinheiro para as despesas dele, sem que ele soubesse.
Ao menos, ele estava tentando melhorar. Com a ajuda de Ariane, deixou de beber e largou as jogatinas. Perdeu a clnica, que Ariane vendeu para quitar as dvidas, 
sobrando muito pouco para ele. Todos os dias, ela ia visit-lo na penso, o que o ia reanimando, at que pde se sentir forte o suficiente para voltar a trabalhar. 
A muito custo, e novamente com a interferncia de Justino, Nlson arranjou um emprego no gabinete mdico de uma grande empresa. No ganhava muito, mas era um emprego 
decente, e ele ao menos conseguia se manter. Com a ajuda de Ariane, alugou um apartamento de quarto e sala no subrbio e conseguiu levar uma vida mais ou menos equilibrada, 
embora
dependente dos filhos para no cair na tristeza e na depresso. Ariane e Hugo passaram a ser sua nica alegria, e foi a partir de
ento que ele aprendeu o valor da famlia.
***
Quanto a Dolores, o escndalo que provocara no casamento de Flvio, alm de arranhar profundamente a sua reputao, afastou-a da convivncia com o crculo de fofocas
em que vivia. Solitria e sem amigos, confortava-se com a presena do filho e da nora. No gostava de Marcela, mas ela era a nica que realmente se importava, e
Dolores se pegava ansiando pela sua visita, a fim de minorar sua solido.
Aos poucos, pois, sem que percebesse, tornava-se dependente da compaixo de Marcela, que a tratava sempre com gentileza e ateno. Mas Dolores, presa ainda ao endurecimento 
de seu corao, precisaria encarnar novamente para tentar empreender uma modificao. O que importava para o plano espiritual, contudo,  que a semente fora lanada, 
e seria atravs de Marcela e dos netos que ela lhe daria que Dolores comearia a semear, embora de forma precria, os sentimentos que a aproximariam, mais tarde, 
dos verdadeiros valores do esprito.
Eplogo
J se haviam passado quase nove meses desde que Ceclia havia tentado matar Luciana. Como Ceclia e Gilberto eram rus primrios, conseguiram responder o processo
em liberdade, ainda mais porque a vtima no havia morrido. Ceclia esperou por longos dias a chegada do advogado prometido por Dolores, mas ele nunca veio. Dolores 
jamais cumpriu a sua promessa.
Ceclia agora estava no hospital. Luciana recebeu um telefonema, pedindo que l comparecesse com urgncia, porque Ceclia estava entre a vida e a morte, e pedia 
para lhe falar. Luciana entrou no hospital pblico acompanhada de Masa e, quando chegaram, souberam que Ceclia havia acabado de morrer, aps dar  luz um menino.
-Voc sabia que ela estava grvida? - sussurrou Masa ao ouvido de Luciana.
-No. Nem imaginava.
As duas foram conduzidas a uma sala, onde uma senhora conversava com o mdico. Quando elas entraram, o mdico pediu licena e as deixou sozinhas.
-Qual de vocs  Luciana? - indagou ela, e Luciana se apresentou. - Pois bem, vou ser rpida. Ceclia teve eclampsia e faleceu esta manh, mas o beb sobreviveu.
-Perdo - interrompeu Luciana-, mas quem  a senhora?
-Desculpem-me. Na pressa, esqueci de me apresentar. Sou Antnia Macedo, advogada de Ceclia.
-Advogada?
-Sim. Fui contratada para defender Ceclia. Que coisa estranha, essa moa. Parecia at que sabia o que aconteceria e pediu que eu viesse s pressas.
Luciana e Masa se entreolharam sem entender, e foi a primeira quem falou:
-A senhora est querendo nos dizer que, sabendo que ia morrer, Ceclia pediu a presena de um advogado?
-O certo seria um padre - comentou Masa.
-Mas por qu? - questionou Luciana, olhando para Masa com ar reprovador.
-Ceclia queria fazer um testamento.
-Testamento? E desde quando ela tem bens?
-Tem um filho. Como eu disse, parecia que ela sabia o que aconteceria e pediu-me que fizesse o testamento para ela. Ajudei-a com as formalidades legais para 
nomear voc, Luciana da Silva e Souza, a tutora legal de seu filho.
-O qu?! - Luciana deu um salto para trs e se agarrou em Masa. - Eu?! Tutora do filho de Ceclia? Da mulher que tentou me matar?
-Bem, o filho dela no tentou matar ningum.
-Mas por que ela fez isso? Por que logo eu?
-Foi a forma de demonstrar o seu arrependimento.
-Essa no! Isso no  sinal de arrependimento.  armadilha!
-E o pai? - interrompeu Masa. - A criana h de ter um, com certeza.
-O pai no a quer.
-E a famlia dela?-A advogada meneou a cabea. - E a dele?
-Ningum a quer. Desde que Ceclia foi presa, todos lhe voltaram as costas. Por isso, ela nomeou voc como tutora.
-Isso  um disparate! - objetou Masa. - Luciana no pode ser forada a aceitar um encargo desses. Aquela mulher tentou tirar a vida dela.
-Aquela mulher est morta.
-No posso fazer isso - contestou Luciana. - No estou preparada para criar uma criana.
-Se no aceitar, o beb vai para um orfanato.
-E da? - continuou Masa: - Algum h de querer o menino. Tem tanta gente querendo adotar uma criana!
A advogada soltou um largo suspiro e finalizou com desnimo:
-Voc  quem sabe. De qualquer forma, tem dois dias para pensar.  o tempo mximo que o beb ainda pode ficar aqui.
A advogada juntou as suas coisas e foi embora, deixando com Luciana um cartozinho com o seu telefone.
-Isso  um absurdo - falou Masa, assim que deixaram o hospital. - Voc no vai aceitar, vai?
Luciana olhou para ela sem saber o que dizer.
-No sei.
-Mas, Lu, voc no pode!
-Por que no?
-No acredito no que estou ouvindo! Voc est pensando em aceitar?
-Estou considerando a idia. Afinal, eu ia aceitar ser me, se estivesse grvida, do filho de meu estuprador. Adotar o filho de Ceclia, depois disso, no 
me parece assim to terrvel.
-No sei se h diferena entre eles. A conduta dos dois foi abominvel.
As palavras de Rani alcanaram a sua mente, e Luciana as ouvia como se fossem seus prprios pensamentos, alertando-a de algo que sentira acerca da maternidade alguns 
meses antes, quando se julgara grvida.
-A criana no tem nada com a atitude dos pais - comentou Luciana pensativa. - Que mal ela me fez?
-Nenhum.
-Pois ento,  algo a se pensar.
Luciana foi para casa naquele dia refletindo sobre aquela estranha coincidncia. No fazia muitos meses, pensara que estava grvida, mas no estava. E agora lhe 
aparecia um beb, por outro caminho. O beb no era dela, mas ser que no lhe caberia a tarefa de educ-lo?
Ao dormir, logo Rani estava a seu lado. Luciana j se familiarizara com o esprito amigo e sorriu para ela quando a viu.
-Aconteceu, no foi? - perguntou Rani. - Voc tem em suas mos a oportunidade de ser me.
-Voc sabia que isso ia acontecer! - afirmou Luciana
perplexa. - Por que no me disse logo? Por que me deixou pensar que estava grvida?
-Fiz isso para preparar o seu esprito. Se voc conseguiu aceitar a idia de gerar e criar o filho do homem que a estuprou, talvez fosse mais fcil aceitar 
criar o filho de Ceclia. Foi idia dos espritos luminosos, e deu certo.
-Realmente...
-Voc s precisou de um tempo para se preparar, deixando a idia germinar em sua mente e no seu corao, tal qual a criana no ventre de Ceclia.
-Por qu? Por que teve que ser assim?
-A gente devolve o que a gente tira.
-Nunca tirei a vida daquele beb, que eu me lembre.
-Tirou a vida da me dele e deixou o pai dela feito louco. Tirou-lhe a alegria de viver porque perdeu a filha amada.
-Voc quer dizer...? - ela se calou, perplexa. - Quer dizer que o filho de Ceclia  aquele que foi o pai dela?
-Exatamente como eu a havia prevenido. Ceclia est lhe dando a oportunidade de se reconciliar com ele. Por que a recusa?
-Eu... no me recuso.
-Ento, vai aceitar ser sua tutora? Mais do que isso: vai ser sua me?
Ela no respondeu, mas acordou com as palavras de Rani em sua mente, sentindo a necessidade de aceitar aquele encargo que no havia ido parar em suas mos por acaso. 
Ligou para Masa e falou por telefone.
-Masa, eu aceitei.
-Sabia que voc faria isso. Voc est segura do que est fazendo, no est?
-Estou.
-Bom, seja o que Deus quiser.
-Vai comigo busc-lo?
-Vou.
Depois, Luciana telefonou para a advogada. Ceclia foi sepultada naquele mesmo dia, e no dia seguinte Luciana e Masa foram buscar a criana.
-H alguns procedimentos legais para finalizar, mas eu j tenho
uma autorizao judicial para voc - disse a doutora Antonia. - Entrarei em contato com voc assim que tudo estiver pronto.
Estavam paradas em frente ao berrio, e Luciana viu quando a enfermeira apanhou um beb miudinho e sumiu com ele por uma porta lateral. Em poucos instantes, estava 
a seu lado, com o beb no colo, estendendo-o para ela.
-Pegue-o - incentivou a advogada. - Ele agora  seu filho.
Meio sem jeito, Luciana estendeu os braos, e a enfermeira
neles ajeitou, gentilmente, o beb adormecido. Ele era lindo. Era pequenino, mas rosado e quase sem cabelo.
- uma gracinha! - elogiou Masa, embevecida.
-Gostou do seu afilhado?
-Voc quer que eu seja madrinha dele?
-H, h.
As duas se despediram e voltaram para casa, onde haviam improvisado acomodaes para o beb. Haviam-lhe comprado as coisas bsicas, como roupas e fraldas, mas tinham 
que esperar at que entregassem o bero comprado s pressas. Depois de acomodado o beb em sua prpria cama, cercado de almofadas e travesseiros, Luciana correu 
para o telefone e ligou para Marcela:
-Al? - era a voz de Marcela.
-Oi, Marcela, sou eu, Luciana - foi ela logo dizendo. - Estou ligando para lhe fazer um convite. Voc quer vir aqui em casa conhecer o meu beb?
-Que beb? - retrucou Marcela, sem nada entender.
-O meu filho.
-Desde quando voc tem filho?
-Venha aqui, e eu lhe contarei.
Desligaram e, menos de uma hora depois, Marcela estava em sua casa, louca para saber que histria era aquela de filho.
-Voc no vai acreditar, Marcela - falou Masa, levando-a at o quarto, onde Luciana dava mamadeira  criana.
-Quem  esse beb lindo? - indagou Marcela espantada.
- o filho de Ceclia - esclareceu Masa.
-No - objetou Luciana. - Este aqui  o meu filho.
As trs se olharam ao mesmo tempo, sentindo fluir entre elas uma compreenso recproca, e depois se viraram para o beb,
que havia acabado de mamar e dormia agora satisfeito no colo de Luciana.
E, vendo os dois ali reunidos, ningum teria dvidas em dizer que era uma me acalentando seu filho.
FIM...
